O que podemos aprender com bibliotecas “faça você mesmo”?

por Lane Wilkinson

Por agora tenho certeza que você já leu sobre a onda de pequenas bibliotecas gratuitas pipocando em todos os lugares; se você tiver sorte, pode até mesmo ter visto e utilizado uma. A idéia é simples: voluntários constróem e instalam pequenos depositórios de livros em espaços públicos, convidando transeuntes a levarem um livro, deixarem um livro ou os dois. O Projeto Pequena Biblioteca Gratuita de Madison, Wisconsin é um dos projetos com mais sucesso, embora muita atenção também seja dada ao departamento de hacking urbano do Projeto de Melhoramento Urbano na cidade de Nova Iorque. Onde quer que encontrem uma morada, essas bibliotecas “faça você mesmo” são corretamente intituladas como testamentos à leitura, compartilhamento e comunidade.

Eu acho que bibliotecas institucionais podem aprender muito a partir destes pequenos empreendimentos. Bibliotecas “faça você mesmo” reenforçam que bibliotecas são instituições sociais, preenchem necessidades que teóricos de bibliotecas geralmente ignoram e provém um comentário indireto sobre o relacionamento de bibliotecas e mídia. Segue uma pequena lista de lições que acho que bibliotecários podem aprender a partir do movimento de bibliotecas “faça você mesmo”.

1. Bibliotecários não definem o que é uma biblioteca.

Quase todo mundo associado ao movimento de bibliotecas Faça Você Mesmo está confortavelmente utilizando o termo “biblioteca”. No entanto eu duvido que a maioria dos bibliotecários institucionais ficariam tão confortáveis, pelo menos assumindo que a literatura de bibliotecas / blogosfera reflete os interesses das bibliotecas “oficiais”. Bibliotecas Faça Você Mesmo não tem políticas de circulação, nenhuma política de desenvolvimento de coleções, nenhuma assistência de referência, nenhuma organização da informação substantiva, nenhuma missão de arquivo, nenhuma programação de literacia da informação… você entende o ponto. Micro bibliotecas retém quase nada dos serviços instrucionais de bibliotecas e atividades que geralmente consideramos fundamentais em nosso campo. De fato, estudos recentes mostraram que a maioria das pessoas não faz idéia do que as bibliotecas estão falando. Isso tudo mostra que, atualmente, uma biblioteca é uma instituição social e o significado do conceito “biblioteca” está fixado eternamente. Bibliotecários não decidem o que é ou não é uma biblioteca – uma comunidade decide.

2. Bibliotecas não são relacionadas apenas com conhecimento e informação.

“As bibliotecas existem para nos dar acesso à informação”. Assim diz Thomas Frey em um post muito compartilhado há algumas semanas atrás. (Edição: eu deveria ter lido sobre Frey antes de citá-lo, esse cara é maluco e de modo algum é um porta-voz para as bibliotecas. Mea culpa.) “A missão das bibliotecas é melhorar a sociedade através do facilitamente da criação do conhecimento em suas comunidades. Assim diz David Lankes em seu premiado Atlas da Nova Biblioteconomia. Dê uma olhada e logo você vai perceber que o mundo da biblioteca institucional coloca um prêmio em coisas como literacia da informação, gestão do conhecimento, tecnologia da informação, organização do conhecimento, e por aí vai. Poxa, a maioria dos posts neste blog são sobre bibliotecas e epistemologia. Mas leia um pouco de estante, vá a uma biblioteca gratuita e você não vai encontrar uma insistência muito grande em aprendizado ou conhecimento. Ao invés disso, como o Utner Reader descreve você provavelmente achará “qualquer coisa desde romances russos e guias de jardinagem até livros de culinária francesa e Dr. Seuss”.

Acho que você poderia argumentar que nós lemos Dostoiévski para ganhar conhecimento sobre a condição humana (ou Dr. Seuss para ganhar conhecimento sobre o mérito de HOPPING ON POP), mas parece absurdo reformular todo trabalho de ficção em termos de criação do conhecimento. O fato da questão é que a missão de bibliotecas é mais do que “a criação de conhecimento” ou “acesso à informação” é também sobre a experiência literária compartilhada. Sim, verdade, fato, e informação são enormemente importantes para as bibliotecas, e a sociedade tem em ampla medida confiado às bibliotecas institucionais a defesa de certos princípios democráticos relacionados ao conhecimento. O que estou dizendo é que bibliotecas Faça Você Mesmo demonstram que a sociedade também confiou às bibliotecas os trabalhos culturais. Em particular, as micro bibliotecas compartilham em sua maioria ficção, isto é, a mesma ficção que direciona as estatísticas da circulação das bibliotecas públicas e as batalhas sobre os ebooks. Claramente, comunidades não são formadas em torno de bibliotecas Faça Você Mesmo por conta da justiça social, empoderamento, busca de conhecimento ou acesso à informação; elas são formadas em torno do desejo de compartilhar (e participar de) histórias. Ainda assim, grandes teóricos de bibliotecas como Lankes e Frey têm (literalmente) nada a dizer sobre os valores estético e cultural da literatura ou ficção nas bibliotecas. Então eu acho que as bibliotecas Faça Você Mesmo é um lembrete legal de que a criação do conhecimento é apenas parte do que fazemos em bibliotecas – seria bom se nossas declarações de missão refletissem isso.

3. Livros impressos ainda são relevantes.

Aqui está um experimento difícil: pegue um bando de bibliotecários, coloque-os online, e faça-os conversar sobre livros. Agora, quantos tweets levarão até que a discussão comece a ser sobre as diferenças de impressão e e-boos? Se você respondeu “três”, bem, parabéns! Bibliotecários de bibliotecas públicas online e em conferências adoram falar sobre ebooks. Ainda assim, bibliotecas Faça Você Mesmo têm sucesso precisamente porque elas abandonam a opção eletrônica e lidam de forma mais direta com livros impressos. Suponho que alguém esteja trabalhando em um quiosque com ebooks grátis disponíveis em wi-fi, mas isso acaba com a ideia de construção de comunidade. Sim, coisas digitais são legais. Mas livros impressos são totens da cultura escrita e desempenham um papel inestimável do modo em que nos une enquanto grupo, sobre a palavra escrita. Talvez seja apenas um tipo de fetiche impresso que leva as pessoas a lamentar as soluções digitais como ebooks ou a Internet, mas o fetichismo ainda é evidência de uma profunda convicção.

4. Bibliotecas sempre acharão um caminho.

Com toda a desgraça e melancolia sobre o futuro de bibliotecas institucionais é legal ver evidência de que, venha o que vier, bibliotecas de algum modo sempre acharão um caminho. O Google não pode matar a biblioteca completamente e não importa o quão infiltrada as mídias sociais se tornem nós ainda vamos querer nos encontrar pessoalmente em um lugar físico dedicado à interesse compartilhado. Pense nisso como assistir música ao vivo ou visitar uma galeria de artes (ou, para vários bibliotecários, ir em conferências). Bibliotecas Faça Você Mesmo exploram o desejo de reunir livremente em torno de uma paixão compartilhada pela leitura e/ou aprendizado. É claro, nem todo visitante de bibliotecas é necessariamente apaixonado por bibliotecas. Bibliotecas institucionais grandes servem à várias funções sociais e culturais, e provém serviços muito necessários em suas comunidades. Um usuário pode querer apenas acesso à Internet ou um 1040EZ e nem ligar pra leitura e aprendizagem. Mas, do mesmo modo que o coração de um museu não é a lojinha de souvenires, o coração de uma biblioteca não é prover acesso à Internet ou formulários de taxas. O coração de uma biblioteca está na transcrição social e no desejo das pessoas de se reunirem em torno disto. Este desejo não irá desaparecer logo em nenhum momento e enquanto quisermos nos reunir pessoalmente, nós teremos bibliotecas. Elas podem ser prédios inteiros, quartos individuais ou até mesmo casas de passarinhos reformadas. Elas poderão ou não ter uma equipe de funcionários treinada. Não sei o que acontecerá com bibliotecários no futuro, mas eu sei que as bibliotecas Faça Você Mesmo provam que as bibliotecas de alguma forma estão aqui pra ficar.

Então é isso aí: algumas coisas que eu acho que as bibliotecas institucionais podem aprender a partir do movimento de bibliotecas Faça Você Mesmo. Só pra reiterar, não estou dizendo que bibliotecas Faça Você Mesmo sejam um substituto para bibliotecas institucionais. Não estou dizendo que bibliotecários sejam desnecessários. Bibliotecas institucionais servem a um propósito essencial que não deveria ser diminuido e bibliotecários profissionais são totalmente vitais. Tudo que estou querendo dizer é que o movimento Faça Você Mesmo elucida certas atitudes sociais que bibliotecas e bibliotecários não deveriam negligenciar. Então, o que você acha? Bibliotecas pequenas Faça Você Mesmo podem ser consideradas “bibliotecas”? Elas apontam para qualquer coisas que seja importante em uma biblioteca enquanto instituição social? Se você quiser dialogar, basta escrever algo em um moleskine e colocá-lo em uma caixa de leite na esquina. Vou buscá-lo mais tarde.

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