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Arquivo da tag: Filosofia

Li o artigo em novembro do ano passado e fiquei de traduzi-lo mas algumas outras coisas me atropelaram (TCC, tentativas de mestrado, natal, ano novo, mudança de cidade, formatura, etc.) e então só consegui pôr as mãos nele há alguns dias, cinco meses depois. Na época fiz apenas um breve fichamento das partes que achei mais interessantes do artigo e só permaneci com a intenção de traduzi-lo algum dia quando fosse possível. O texto está disponível em .pdf no meu Slideshare e também aqui no blog: separei as seções do artigo em posts, à título de teste.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Desclassification in Knowledge Organization: a post-epistemological essay. Transinformação, Campinas, 23(1): 5-14, jan./abr., 2011.

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Desclassificação na organização do conhecimento: ensaio pós-epistemológico

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Antonio GARCÍA GUTIÉRREZ.

Professor, Universidad de Seville, Faculdade de Communicación. R. Américo Vespúcio, s/n., 41092, Servilla, España. E-mail: <algarcia@us.es>.

Recebido em 16/2/2011 e aceito para publicação em 28/3/2011.

Resumo

O conteúdo da rede digital origina-se a partir de diferentes formas, lógicas e culturas de conhecimento. Uma vez na rede, no entanto, eles são todos submetidos para se unificarem em formatos e lógicas fornecidos pela própria tecnologia digital. Uma tecnologia é, em primeiro lugar, o produto de uma determinada cultura. Toda cultura e identidade classificam e nomeiam todo tipo de material e objetos simbólicos. Nos dias de hoje, o ocidente é a cultura que tomou para si a tarefa da classificação global suportada por suas próprias redes digitais. A classificação é uma ferramenta epistemológica fornecida pela racionalidade moderna, cujas estruturas internas e modos de inferência são derivados das reduções metonímicas, dicotonímicas e analógicas da diversidade dos mundos atuais. Neste artigo, um tipo de hermenêutica prática, chamada “desclassificação”, é introduzido e proposto como um caminho para um conhecimento que supera a epistemologia organizacional. A desclassificação é um sistema aberto que instala o pluralismo lógico no núcleo do entendimento e processos de enunciação, através de ferramentas metacognitivas.

Palavras-chave : Classificação. Rede digital. Epistemologia. Hermenêutica.

A posição a partir da qual consideramos o mundo tem muito a ver com epistemologia: é nossa posição epistemológica. A partir de onde geralmente consideramos a classificação epistemologicamente? Na minha opinião, fazemos isso a partir de uma posição aparentemente neutra e não-ideológica, onde conflitos são de uma natureza exclusivamente técnico-científica, apesar do fato de que operamos e produzimos cultura.

Além disso, irei propor a construção de uma posição de enunciação pós epistemológica incondicionalmente presidida pela hermenêutica (Capurro, 2000). A hermenêutica é a democracia do pensamento. A epistemologia convencional exclui a hermenêutica, mas a hermenêutica integra a epistemologia bem como qualquer outra interpretação. Minha solicitação inflexível é, como resultado, a substituição do espírito, linguagem e procedimentos da epistemologia da classificação por uma hermenêutica de OC que chamaremos de “desclassificação”. Uma revisão que envolve tratar processos complexos de tradução, a suspensão de certas suposições ou a mera transformação formal de outros que se adaptam à liberalização de uma matriz cognitiva mais ampla e inclusiva. A partir daí, e em honra da própria hermenêutica, podem se originar adjetivações, nuances e opções.

Entretanto, reconsiderar nosso campo de estudo envolveria estar aberto a posições pós-coloniais, àquelas de diferentes sensibilidades e contribuições, tais como as de Walter Mignolo (Mignolo, 2003; Mignolo; Schiwy, 2007) e Bhabha (1994), ou Santos (1989; 2005), ao longo das mesmas linhas, quando eles propõem um pensamento do sul, como metáfora daquele imenso espaço de diversidade, embora um sul não compreendido simplesmente como um lugar geográfico mas como um local de sofrimento, discriminação e exploração em uma escala mundial, incluindo os territórios supostamente “desenvolvidos” do hemisfério norte. “Outro-paradigma” e “outro-pensamento”, como esta outra-forma de considerar o mundo é geralmente chamado pelos teóricos supracitados. Outro-identidade, outro-memória (García Gutiérrez 2008a; 2009) seriam seus correlatos. Hermenêutica sem fronteiras epistemológicas, sem a necessidade de hierarquização, exclusão, fragmentação, disjunção; até a complexidade de Edgar Morin seria altamente compatível com tal modo pós-colonial de pensamento.

Nós temos uma objeção razoável à teoria pós-colonial: em vários de seus trabalhos, embora sobretudo no Empire (Hardt; Negri, 2002), Toni Negri se opõe ao fato de que o projeto emancipante promovido pela modernidade está esquecido em parte por se tornar sobrecarregado pela discussão que gira em torno de velhas categorias coloniais das quais nunca conseguiu se livrar. Levando em consideração a objeção de Negri, advogo por uma posição de enunciação cujo objetivo principal é uma descolonização permanente, uma vez que, no meu ponto de vista, a dominação é intrínseca à natureza humana e, com cada novo assunto e geração, seria necessário reabrir o caso para descolonização.

A informação científica, que em um primeiro momento teve de lidar com a gestão e organização das ciências, mesmo que por meio de classificações universais imprudentes, também terminou por organizar conhecimento social, cultural, midiático, artístico e estético. Através da gestão e organização de documentos arqueológicos, históricos e antropológicos, a informação científica terminou por invadir e modificar nossa visão de várias culturas contemporâneas e identidades em dissolução e a imagem que têm de si mesmas.

Através de outras disciplinas hiper-classificantes, tais como arquivologia e museologia, documentos não-científicos e objetos pertencentes à cultura contemporânea ou aquelas de eras passadas são tratadas, embora sejam removidas dos interesses de seus classificadores e curadores. Este detalhe fundamental, classificar a imensidão da “alteridade”, deveria ser suficiente para incorporar em nossos estudos novas visões e lógicas, um grande pluralismo e sensibilidade para considerar novos objetos que devem ser protegidos e classificados ou, ainda melhor, desclassificados para permitir que protejam a si mesmos. O que estaria envolvido, entretanto, é não apenas a otimização de nossos processos de informação em uma imensa quantidade de conhecimento subordinado ou excluído por conhecimento hegemônico, mas especialmente o reforço de formas genuínas de informação e auto-narrativa destes setores e a incorporação de suas visões de mundo e lógicas na microfísica da digitalidade.

REFERÊNCIAS

BHABHA, H.K. The location of culture. New York: Routledge,
1994.

CAPURRO, R. Hermeneutics and the phenomenon of information. In: Mitcham, C. (Ed.). Metaphysics, epistemology and technology: research in philosophy and technology. New York: Elsevier, 2000. v.19, p.79-85.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Dialéctica de la exomemoria. In: Valle, C., et al. (Ed.). Contrapuntos y entrelíneas sobre cultura, comunicación y discurso. Temuco, alparaíso: Universidad de la Frontera, 2008a. p.232-260.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. La identidad excesiva. Madrid: Biblioteca Nueva, 2009.

HARDT, M.; NEGRI, A. Imperio. Barcelona: Paidós, 2002.

MIGNOLO, W. Historias locales, diseños globales: colonialidad, conocimiento subalterno y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.

MIGNOLO, W.; SCHIWY, F. Transculturation and the colonial difference: double translation. Información y Comunicación, n.4, p.6-28, 2007.

SANTOS, B.S. Introdução a uma ciencia pósmoderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

SANTOS, B.S. El milenio huérfano. Madrid: Trotta, 2005.

 

GRACIOSO, Luciana de Souza; SALDANHA, Gustavo Silva. Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática. Araraquara: Junqueira&Marin, 2011. 160 p.

A obra Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática, é uma tentativa de mesclar pensamentos da área de CI com a disciplina de Filosofia, propondo diálogos entre estes estudos. Voltado especificamente para quem tem interesse na área de Filosofia dentro da Ciência da Informação, pode ser considerada uma obra acadêmica e com um certo nível de dificuldade na leitura, uma vez que o tema tratado é muito especializado.

São utilizadas – e brevemente elucidadas – expressões e conceitos wittgensteinianos como semelhanças de família, regras, gramática, forma de vida, jogos de linguagem, enfeitiçamento da linguagem ou jogo terminológico, etc. É recomendável que se tenha algum um conhecimento da obra de Wittgenstein, principalmente de sua obra mais frequentemente referenciada, as Investigações Filosóficas, para que a proposta do livro seja entendida com mais êxito. A leitura é recomendada para estudiosos, pós-graduandos e docentes da área, mas no entanto, pode frustrar quem busca entender especificamente as técnicas de biblioteconomia sob o prisma da Filosofia da Linguagem. O conteúdo trata mais sobre epistemologia e alguns conceitos do que aspectos práticos, mais sobre linguagens e regras do que algum tipo de linguagem, processo ou produto específico da Biblioteconomia. Não é um livro sobre práticas mas sim para se pensar sobre as práticas e suas possibilidades.

A obra faz uma contextualização da tradição pragmática na CI, revisando também a visão representacionista, advinda dos estudos da Organização do Conhecimento. O pragmatismo é uma escola de filosofia caracterizada por considerar o sentido de uma ideia como correspondendo ao conjunto dos seus desdobramentos práticos. Em um primeiro momento, pode-se compreender que a visão representacionista não é necessariamente contraposta à visão pragmatista, mas que são compreendidas como diferentes modos de se perceber a Organização do Conhecimento.

Algumas discussões foram ao encontro de tópicos desenvolvidos por Buckland (2006), quando é elucidado que “a palavra – ou a representação – enfeitiça o organizador do conhecimento pelo seu potencial representacionista. Ao cativá-lo com este potencial, ela o leva a crer que a representação pode responder, por si só, pela organização do livro no mundo” (GRACIOSO, SALDANHA, 2011, p. 33). Ao tratar das Linguagens de Especialidade, Buckland aborda produtos de organização do conhecimento como catálogos, bibliografias e índices, que cobrem materiais de interesse para mais de uma comunidade, com práticas linguísticas diversas. A exemplo, para o autor

Diferentes discursos discutem diferentes questões ou, quando discutem a mesma questão, de diferentes perspectivas. Um coelho pode ser discutido como um bicho de estimação, ou como uma peste ou como comida. Em medicina, especialistas em anestesiologia, geriatria e cirurgia podem todos buscar por literatura recente em, vamos dizer, Parada Cardíaca, mas uma vez em que estão interessados em diferentes aspectos eles não irão, na prática, querer os mesmos documentos. (BUCKLAND, 2006,  p. 9-10)

Clay Shirky (2005) também exemplifica as desvantagens de uma visão representacionista, criticando as classificações decimais (de Dewey e do Congresso) bem como a classificação ontológica, com exemplo da Tabela Periódica de elementos. De acordo com o autor, na visão tradicional representacionista, “a essência de livro não são as idéias que ele contém. A essência de livro é “livro”. Pensar que catálogos de biblioteca existem para organizar conceitos confunde o recipiente por aquilo que ele contém”. Para cada livro (conteúdo) novo, mesmo antes de ser publicado, já existe ‘um lugar lógico na estante’, uma classificação exata, já prescrita. Shirky vai ao encontro de Gracioso e Saldanha e compreende que a web pragmática descaracteriza essa realidade prescritiva uma vez que destitui os processos de classificação e categorização tradicionalmente reconhecidos, considerados antiquados para viabilidade no mundo digital.

A princípio, entre os objetivos principais de um sistema de informação estão a eficiência na recuperação e poupar tempo de busca. Há de se pensar também na diferenciação entre sistemas de informação para documentos físicos, híbridos e digitais uma vez que a busca é realizada cada vez menos nas estantes e cada vez mais por hiperlinks. No entanto, coloca-se que a questão de recuperação é mais do que uma questão de tecnologia e explicita-se que esta, também e principalmente, é uma questão cultural uma vez que “dadas as infinitas possibilidades de nos relacionarmos e interagirmos em uma situação de vida, haveria a impossibilidade de tentarmos prever as ocorrências de determinados jogos de linguagem” (p. 77).

Karamuftuoglu (1998) compreende que o processo de indeterminação na recuperação da informação pode ocorrer não apenas por desconhecimento por parte das pessoas que o utilizam, mas porque o próprio processo de busca, recuperação e filtragem da informação é decisivo para a criação de filtros e prescrição de critérios pela comunidade que utiliza este sistema. Segundo o autor,  “isso resulta no estabelecimento de conexões entre documentos até então considerados independentes um do outro e modifica o conteúdo intelectual do domínio” (p. 1072). Podemos compreender que isso ocorre não apenas em um sistema de informação, que pode se apropriar de tecnologias para atingir seus fins, bem como também na própria prática do serviço de referência. De acordo com Grogan (1995) e a tipologia de questões, em alguns casos o consulente durante a busca para a pesquisa, depara-se com outras questões, modificando sua dúvida de origem ou até mesmo o próprio assunto da pesquisa.

Esta frase apenas faz sentido quando editada no MS Paint nesta fotografia e vista neste artigo neste exato momento.

Ao evitar as tentativas de representar o real, o pragmatismo segundo Gracioso e Saldanha (2011), investiga ao invés disso as possibilidades de uso da realidade, compreendendo-a culturalmente. Tudo isso vai ao encontro do que a web pragmática tem realizado e potencializado: criação de comunidades, comunidades em rede, colaboratividade, fluência na comunicação e multiplicidade de diálogos. A obra ainda nos mostra a fina linha que separa a informação e a linguagem, uma vez que ambas constituem-se e desenvolvem-se a partir de seu uso. Os autores ainda abordam o conceito de informação como fetiche, quando compreendem que

Sob um olhar pragmatista, o homem deve ser crítico à idéia de que a informação é bela, deve ser provocado sobre como a informação é construída, deve ser lembrado de que a informação é apenas a esfera de narrativas múltiplas – demarcadamente um fetiche do século XX – e nunca será a única pedra de toque que soluciona as crises da racionalidade. (p. 125-126)

Na seção da obra que trata sobre Olhares pragmáticos na CI, especificamente na área de terminologia é mencionada a Teoria Geral de Terminologia de Wüster, que atualmente é considerada uma teoria prescritiva, em que existe uma regra geral para a compreensão de uma linguagem especializada e a definição de um conceito realiza-se a partir do uso de determinada regra. Talvez também fosse pertinente, em estudos posteriores, uma articulação entre os princípios do segundo Wittgenstein, referentes à Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) proposta por Cabré (1999), e à Socioterminologia, proposta por Faulstich (2006). Segundo Lara (2006) a função dos termos para a TCT é de representar e transferir o conhecimento em situações diversas e na Socioterminologia, enfatiza-se a relação semântica e as definições formais são preteridas em benefício das descrições mais versáteis do significado das palavras.

Acredito que outras discussões mais específicas na Ciência da Informação podem surgir a partir do que foi proposto pela obra, devido à natureza interdisciplinar da área. Uma vez que a disciplina de Filosofia da Informação já está instituída, a Filosofia da Linguagem pode ter seu espaço para relacionar-se cada vez mais com o nosso pensar-fazer.


Referências

BUCKLAND, M. Naming in the library: Marks, meaning and machines. C. Todenhagen & W. Thiele (Eds.) In: Nominalization, nomination and naming in texts. Tübingen, Germany: Stauffenburg, 2006. p. 249-260.

CABRÉ, M.T. Una nueva teoría de la terminologia: de la denominación a la  comunicación. In: La terminología, representacíon y comunicación. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, IULA, 1999. p.109-127.

FAULSTICH, E. A socioterminologia na comunicação científica e técnica. Cienc. Cult. [online]. abr./jun. 2006, vol.58, no.2 [citado 25 Abril 2006], p.27-31.

GROGAN, D. A Prática do Serviço de Referência. Brasília: Briquet de Lemos, 1995. 195 p.

KARAMUFTUOGLU, M. Collaborative Information Retrieval: Toward a Social Informatics View of IR Interaction. Journal of the American Society for Information Science. V. 49, n. 12, p. 1070-1080, 1998.

LARA, M.L.G. Novas relações entre Terminologia e Ciência da Informação na perspectiva de um conceito contemporâneo da informação. Datagramazero, v.7, n.4, ago.2006

SHIRKY, Clay. Ontology is Overrated: categories, links and tags. 2005

“Antes de dizer há ciência para informação ou não há, o pragmatismo informacional nos convida a explorar quais contribuições científicas podem conduzir o estudo da informação para o solo das relações sociais. [...] A tradição pragmática sobrevive para atentar que uma ciência para a informação, estuda, antes, narrativas, e não necessariamente delimita fenômenos, ou busca naturezas – mesmo sua meta-natureza. [...] Antes, [a CI] pode refletir com suas comunidades de deliberação contextuais sobre os processos sociais que sedimentam representações. Sob um olhar pragmatista, o homem deve ser crítico à idéia de que a informação é bela, deve ser provocado sobre como a informação é construída, deve ser lembrado de que a informação é apenas a esfera de narrativas múltiplas – demarcadamente um fetiche do século XX – e nunca será a única pedra de toque que soluciona as crises da racionalidade.” (p. 125-126)

GRACIOSO, Luciana de Souza; SALDANHA, Gustavo Silva. Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática. Araraquara: Junqueira&Marin, 2011. 160 p.

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