Internet e Identidade

Ninguém sabe, ao certo, o que colocar na “Bio” ou “Descrição” quando adere a uma nova rede social ou coisa que o valha. Geralmente auto-descrições, por mais detalhadas que sejam, são vagas e um tanto quanto imprecisas. E mesmo que vivamos o resto de nossas vidas com uma pessoa, nunca vamos conhecê-la ou entendê-la por inteiro, de qualquer modo. As pessoas mudam. Umas mais rápido, outras rápido demais, outras mal percebemos, mas mudam. E então surge o clichêzão que todo mundo adora repetir como se fosse algo muito profundo “definir é limitar-se”. Pois bem: é mesmo.

Tenho tomado o cuidado de, quando me perguntam quem eu sou, não responder de imediato o que faço/ou gosto de fazer. Muita gente responde a essa pergunta dizendo com o que trabalha, o que já pode ser sintoma de algo. Ou dizendo que é filho de alguém importante e/ou influente. Existem mil maneiras de se contar certa vantagem a partir da sua identidade ou fazer o exato oposto disso: ficar se auto-depreciando ou reclamando demais da vida como modo de também atrair atenção. Mas taí uma pergunta difícil de ser respondida: quem sou eu? Responder essa pergunta com dificuldade para um ‘profissional qualificado’ provavelmente da área da saúde, pode dar a entender que você é maluco/maluca ou tem algum outro tipo de problema, isso é que é o pior de tudo. Somos muitas coisas, então às vezes devemos responder a esta pergunta revirando os olhos e dizendo “Meu nome é Legião porque somos muitos” (Marcos, Cap. 5, 1-10). Brincadeira. Mas somos muitos mesmo, de fato.

Ano passado li alguma coisa sobre o conceito de identidade na pós modernidade e isso me fez entender melhor certas coisas e aceitar o fato de que podemos, sim, ser muitos e isso não é de todo insano. Quando surgiu o Google Plus, vi um vídeo do Epipheo que falava sobre a diferença básica entre o G+ e o Facebook, e o conceito de círculos, que em certa medida, relaciona-se com o conceito de identidade, uma vez que no G+ podemos compartilhar conteúdo de acordo com cada grupo diferente (família, amigos de infância, amigos de universidade, colegas de trabalho, entre outros grupos). Ou seja, pra cada grupo diferente, assumimos um tipo de identidade diferente. No entanto, é bom lembrar, que o Google vetou, se não me engano, a criação de contas fakes no G+: os usuários foram obrigados a colocar seu nome verdadeiro, caso quisessem ter uma conta por lá. O que não é também exatamente muito diferente do que o Zuckerberg pensa, aliás.

Mas será que é assim que funciona mesmo na ‘vida real’? Temos apenas uma identidade, nos relacionamos da exata mesma forma com todas as pessoas que conhecemos e somos completamente honestos em relação à todas as coisas da nossa vida? Me parece idealizado demais. E se isso já não funciona na vida real, acredito que transpor isso para o digital não é exatamente uma tarefa muito fácil.

Nos divertimos com outras identidades, mesmo que seja por um curto período de tempo, com avatares de SecondLife ou de qualquer joguinho bacanudo de MMORPGs que tem aos quinquilhones por aí. Do mesmo modo que pessoas que jogam RPG na vida real não são psicopatas, mas sim estão em busca de fantasia e catarse. O mesmo vale pra apreciadores de outros tipos de obras artísticas como filmes de terror, pornografia ou que explicitem tabus como em alguns filmes B.  

Uma identidade nunca é fixa, mas isso também não quer dizer que a pessoa seja necessariamente falsa, duas-caras ou que tenha algum distúrbio de múltipla personalidade. Ou será mesmo que o mundo sempre foi meio esquizo e nunca percebemos isso até aparecer a Internet? Bom, falsidade ideológica, que eu saiba, ainda é considerado crime no mundo não-digital. Mas é preciso saber separar o joio do trigo e não cometer exageros, nem despropósitos.

Na verdade, tanto ter múltiplas personalidades quanto não ter personalidade nenhuma (ser anônimo) tem seu propósito. Algumas pessoas preferem o anonimato para melhor atingir um objetivo comum (Wikileaks nos diz algo?) ou ainda para deixar o ego de lado e veícular apenas o que é considerado mais importante pra elas: suas ideias.

Que aprendemos que podem ser à prova de balas, inclusive.

Existe uma miríade de razões para se manter (e sustentar) um anonimato, mas o motivo mais ingênuo de se acreditar é o de covardia. “Anônimos não dão a cara pra bater”, sim, porque talvez não seja esse o propósito deles. O anonimato hoje é, mais do que jamais foi, um posicionamento político mesmo, acima de qualquer coisa. Se é anônimo necessariamente para veicular uma mensagem que é proibida por algum tipo de poder vigente e isso me parece muito maior e às vezes até mais importante do que apenas uma questão de segurança, covardia ou timidez.

Anonimato pelo anonimato tem aos montes também, fakes estão aí por todas as partes. Mas mesmo quem é anoniminho faz certa questão de compartilhar informações ou opiniões, quer, necessariamente, atingir algum público. Ou seja, discrição: você está fazendo isso errado. Se a interatividade fosse realmente desnecessária, se obter feedback fosse indiferente (“não me importo com o que pensam”), não haveria necessidade algum de exposição, em primeiro lugar. Não vejo o sentido..

O pseudo-anonimato geralmente não funciona por muito tempo: quando muitos já sabem de quem se trata, a liberdade para se dizer o que quiser, como e quando quiser torna-se cerceada. As opções então não parecem muitas: desistir da ideia de anonimato ou assumir responsabilidade pelo que compartilha e emite em rede. Tudo tem um preço: ou se é anônimo ou não.  Arranjar um meio termo referente a esta questão é o que me parece um tanto quanto esquizo: quero poder falar, mas na verdade não quero. Ou não posso. Ou ainda: não sei como.

  1. Lucas Sucas

    Uma coisa que ficou faltando foi falar de indentidades coletivas, bastante usadas por grupos subversivos como forma de tirar o foco do interlocutor e focar mais na mensagem. Um exemplo que um gosto bastante é o de Luther Blisset, que é narrado no livro Guerrilha Psiquica.

    Mas é interessante perceber como o conceito de identidade sofreu uma mutação muito grande. Antes era uma questão praticamente filosófica, se formos pensar do surgimento na Grécia e talz (eu acho). A questão de identidade era uma questão mais ética ou estética, de se saber quem se é e assim traçar os objetivos de sua vida.

    Hoje parece ser mais uma questão plástica. Não se precisa ser nada nem ninguém. Apenas parecer. Troca-se de identidade, de valores, de pensamentos como se troca de roupa ou de nickname.

    Fico me perguntando se não é isso que nos torna cada vez mais individualistas e com menos consciência de coletivo: a falta de identidade.

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