Resenha – Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem, por Luciana Gracioso e Gustavo Saldanha

GRACIOSO, Luciana de Souza; SALDANHA, Gustavo Silva. Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática. Araraquara: Junqueira&Marin, 2011. 160 p.

A obra Ciência da Informação e Filosofia da Linguagem: da pragmática informacional à web pragmática, é uma tentativa de mesclar pensamentos da área de CI com a disciplina de Filosofia, propondo diálogos entre estes estudos. Voltado especificamente para quem tem interesse na área de Filosofia dentro da Ciência da Informação, pode ser considerada uma obra acadêmica e com um certo nível de dificuldade na leitura, uma vez que o tema tratado é muito especializado.

São utilizadas – e brevemente elucidadas – expressões e conceitos wittgensteinianos como semelhanças de família, regras, gramática, forma de vida, jogos de linguagem, enfeitiçamento da linguagem ou jogo terminológico, etc. É recomendável que se tenha algum um conhecimento da obra de Wittgenstein, principalmente de sua obra mais frequentemente referenciada, as Investigações Filosóficas, para que a proposta do livro seja entendida com mais êxito. A leitura é recomendada para estudiosos, pós-graduandos e docentes da área, mas no entanto, pode frustrar quem busca entender especificamente as técnicas de biblioteconomia sob o prisma da Filosofia da Linguagem. O conteúdo trata mais sobre epistemologia e alguns conceitos do que aspectos práticos, mais sobre linguagens e regras do que algum tipo de linguagem, processo ou produto específico da Biblioteconomia. Não é um livro sobre práticas mas sim para se pensar sobre as práticas e suas possibilidades.

A obra faz uma contextualização da tradição pragmática na CI, revisando também a visão representacionista, advinda dos estudos da Organização do Conhecimento. O pragmatismo é uma escola de filosofia caracterizada por considerar o sentido de uma ideia como correspondendo ao conjunto dos seus desdobramentos práticos. Em um primeiro momento, pode-se compreender que a visão representacionista não é necessariamente contraposta à visão pragmatista, mas que são compreendidas como diferentes modos de se perceber a Organização do Conhecimento.

Algumas discussões foram ao encontro de tópicos desenvolvidos por Buckland (2006), quando é elucidado que “a palavra – ou a representação – enfeitiça o organizador do conhecimento pelo seu potencial representacionista. Ao cativá-lo com este potencial, ela o leva a crer que a representação pode responder, por si só, pela organização do livro no mundo” (GRACIOSO, SALDANHA, 2011, p. 33). Ao tratar das Linguagens de Especialidade, Buckland aborda produtos de organização do conhecimento como catálogos, bibliografias e índices, que cobrem materiais de interesse para mais de uma comunidade, com práticas linguísticas diversas. A exemplo, para o autor

Diferentes discursos discutem diferentes questões ou, quando discutem a mesma questão, de diferentes perspectivas. Um coelho pode ser discutido como um bicho de estimação, ou como uma peste ou como comida. Em medicina, especialistas em anestesiologia, geriatria e cirurgia podem todos buscar por literatura recente em, vamos dizer, Parada Cardíaca, mas uma vez em que estão interessados em diferentes aspectos eles não irão, na prática, querer os mesmos documentos. (BUCKLAND, 2006,  p. 9-10)

Clay Shirky (2005) também exemplifica as desvantagens de uma visão representacionista, criticando as classificações decimais (de Dewey e do Congresso) bem como a classificação ontológica, com exemplo da Tabela Periódica de elementos. De acordo com o autor, na visão tradicional representacionista, “a essência de livro não são as idéias que ele contém. A essência de livro é “livro”. Pensar que catálogos de biblioteca existem para organizar conceitos confunde o recipiente por aquilo que ele contém”. Para cada livro (conteúdo) novo, mesmo antes de ser publicado, já existe ‘um lugar lógico na estante’, uma classificação exata, já prescrita. Shirky vai ao encontro de Gracioso e Saldanha e compreende que a web pragmática descaracteriza essa realidade prescritiva uma vez que destitui os processos de classificação e categorização tradicionalmente reconhecidos, considerados antiquados para viabilidade no mundo digital.

A princípio, entre os objetivos principais de um sistema de informação estão a eficiência na recuperação e poupar tempo de busca. Há de se pensar também na diferenciação entre sistemas de informação para documentos físicos, híbridos e digitais uma vez que a busca é realizada cada vez menos nas estantes e cada vez mais por hiperlinks. No entanto, coloca-se que a questão de recuperação é mais do que uma questão de tecnologia e explicita-se que esta, também e principalmente, é uma questão cultural uma vez que “dadas as infinitas possibilidades de nos relacionarmos e interagirmos em uma situação de vida, haveria a impossibilidade de tentarmos prever as ocorrências de determinados jogos de linguagem” (p. 77).

Karamuftuoglu (1998) compreende que o processo de indeterminação na recuperação da informação pode ocorrer não apenas por desconhecimento por parte das pessoas que o utilizam, mas porque o próprio processo de busca, recuperação e filtragem da informação é decisivo para a criação de filtros e prescrição de critérios pela comunidade que utiliza este sistema. Segundo o autor,  “isso resulta no estabelecimento de conexões entre documentos até então considerados independentes um do outro e modifica o conteúdo intelectual do domínio” (p. 1072). Podemos compreender que isso ocorre não apenas em um sistema de informação, que pode se apropriar de tecnologias para atingir seus fins, bem como também na própria prática do serviço de referência. De acordo com Grogan (1995) e a tipologia de questões, em alguns casos o consulente durante a busca para a pesquisa, depara-se com outras questões, modificando sua dúvida de origem ou até mesmo o próprio assunto da pesquisa.

Esta frase apenas faz sentido quando editada no MS Paint nesta fotografia e vista neste artigo neste exato momento.

Ao evitar as tentativas de representar o real, o pragmatismo segundo Gracioso e Saldanha (2011), investiga ao invés disso as possibilidades de uso da realidade, compreendendo-a culturalmente. Tudo isso vai ao encontro do que a web pragmática tem realizado e potencializado: criação de comunidades, comunidades em rede, colaboratividade, fluência na comunicação e multiplicidade de diálogos. A obra ainda nos mostra a fina linha que separa a informação e a linguagem, uma vez que ambas constituem-se e desenvolvem-se a partir de seu uso. Os autores ainda abordam o conceito de informação como fetiche, quando compreendem que

Sob um olhar pragmatista, o homem deve ser crítico à idéia de que a informação é bela, deve ser provocado sobre como a informação é construída, deve ser lembrado de que a informação é apenas a esfera de narrativas múltiplas – demarcadamente um fetiche do século XX – e nunca será a única pedra de toque que soluciona as crises da racionalidade. (p. 125-126)

Na seção da obra que trata sobre Olhares pragmáticos na CI, especificamente na área de terminologia é mencionada a Teoria Geral de Terminologia de Wüster, que atualmente é considerada uma teoria prescritiva, em que existe uma regra geral para a compreensão de uma linguagem especializada e a definição de um conceito realiza-se a partir do uso de determinada regra. Talvez também fosse pertinente, em estudos posteriores, uma articulação entre os princípios do segundo Wittgenstein, referentes à Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) proposta por Cabré (1999), e à Socioterminologia, proposta por Faulstich (2006). Segundo Lara (2006) a função dos termos para a TCT é de representar e transferir o conhecimento em situações diversas e na Socioterminologia, enfatiza-se a relação semântica e as definições formais são preteridas em benefício das descrições mais versáteis do significado das palavras.

Acredito que outras discussões mais específicas na Ciência da Informação podem surgir a partir do que foi proposto pela obra, devido à natureza interdisciplinar da área. Uma vez que a disciplina de Filosofia da Informação já está instituída, a Filosofia da Linguagem pode ter seu espaço para relacionar-se cada vez mais com o nosso pensar-fazer.


Referências

BUCKLAND, M. Naming in the library: Marks, meaning and machines. C. Todenhagen & W. Thiele (Eds.) In: Nominalization, nomination and naming in texts. Tübingen, Germany: Stauffenburg, 2006. p. 249-260.

CABRÉ, M.T. Una nueva teoría de la terminologia: de la denominación a la  comunicación. In: La terminología, representacíon y comunicación. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, IULA, 1999. p.109-127.

FAULSTICH, E. A socioterminologia na comunicação científica e técnica. Cienc. Cult. [online]. abr./jun. 2006, vol.58, no.2 [citado 25 Abril 2006], p.27-31.

GROGAN, D. A Prática do Serviço de Referência. Brasília: Briquet de Lemos, 1995. 195 p.

KARAMUFTUOGLU, M. Collaborative Information Retrieval: Toward a Social Informatics View of IR Interaction. Journal of the American Society for Information Science. V. 49, n. 12, p. 1070-1080, 1998.

LARA, M.L.G. Novas relações entre Terminologia e Ciência da Informação na perspectiva de um conceito contemporâneo da informação. Datagramazero, v.7, n.4, ago.2006

SHIRKY, Clay. Ontology is Overrated: categories, links and tags. 2005

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