A desclassificação na Organização do Conhecimento

A desclassificação basicamente envolve a introdução do pluralismo no núcleo lógico de classificação. É uma operação metacognitiva e não automática que, em cada ação do classificador, requere uma completa consciência de incompletude, vieses e subjetividade explícita. Com a tecnologia atual, é possível elaborar procedimentos e sistemas de classificação baseados em desclassificação. Mas tais técnicas e ferramentas também terão que passar por uma revolução epistemológica em todos os seus protocolos e estratos.

Se, para então pensarmos de modo a desclassificar, precisarmos de uma posição fixa a partir da qual podemos observar objetos fixos, estaríamos classificando de acordo com a ordem convencional de classificação, paralizando o mundo de uma perspectiva esclerosada. A desclassificação é uma forma dinâmica de organização que, primariamente, deveria satisfazer uma razão de mudança: aquela dos próprios objetos organizáveis simbólicos, uma vez que a redução da paralisia cognitiva tradicional do tipo de classificação que normalmente praticamos foi superada.

A lógica da mudança (Hegel, 2000) subjacente à desclassificação deve ser compreendida em pelo menos dois universos, às vezes oposto e às vezes colaborativo: primeiramente, nós conceberíamos uma mudança de natureza espontânea e arbitrária, mas não obstante uma mudança que, de algum modo, seria considerada como determinista, não por levar o mundo inexoravelmente em direção ao seu destino, mas por encontrar o destino inexorável do mundo na própria mudança. Concebemos este tipo de mudança como um movimento de impulso instantâneo.

Em segundo lugar, nós deveríamos entender a mudança da perspectiva do universo da vontade, um universo transformativo. A mudança seria então governada por um caminho duplo articulado em movimentos e transformações. Movimentos gerando novos movimentos que interagem, substituem e deslocam o significado de algumas transformações que, em um âmbito mínimo, mas com a única autoridade que conhecemos, a autoridade que o significado nos confere, produz desvios e trações nos movimentos.

A classificação surgiria como um movimento espontâneo dentro da matriz cognitiva inicial, equipada desde o começo com uma vontade de potência, que orienta percepções e pretensões de todos os significados possíveis na única direção das percepções e pretensões da vontade de poder. Na verdade, apesar da atomização do poder que brota da concepção Foucauldiana (Foucault, 1979), o poder mantém sua totalidade em um microcosmo de manifestações diárias. E uma de suas fontes e manifestações é a classificação, uma poderosa e milenar classificação protegida pela tradição, sabedoria, conhecimento, memória, identidade, estabilidade, religião, cultura, ciência e nosso modo de vida, como é normalmente dito, todos cooperando em busca de uma classificação idêntica e imutável que incessantemente divulga suas estruturas. Uma classificação concebida como a origem e o destino do mundo, sempre submissa e reforçando a ordem estabelecida em espaços que talvez nenhuma ordem seja necessária.

Em práticas culturais, na qual a linguagem e linguagens provêm uma dimensão básica, a essência, os “ismos”, isto é, a purificação ontológica decorrente do verbo ser, torna-se uma referência e fonte de prioridade para perceber e transmitir o mundo simbólico. Em uma diversidade de manifestações, o conceito de “ser” existe em todas as linguagens e culturas conhecidas, permitindo que pensadores conversem sobre os atributos e propriedades de um objeto, ou de si mesmos ou de uma comunidade, da mesma maneira como podem rejeitá-los.

Relacionamentos conceituais partitivos ou classemáticos, distorcidos pela metonímica, agem como uma fonte automática que clarifica a proposição, enquanto ao mesmo tempo entorpece o restante. As hierarquias do todo sobre as partes, e das espécies sobre as classes, organizam o mundo. A mesma lógica de hierarquização, seja ela anterior ou subsequente às microestruturas de poder, organizam os relacionamentos entre sujeitos e objetos, entre objetos e objetos e entre sujeitos e sujeitos. Quando aludimos, com automatismo ou inocência, às partes de uma casa, um carro, uma instituição, uma cidade, um computador, ou às classes de qualquer tipo de sujeito ou objeto, estamos classificando o mundo de modo essencialista. Explicitamente ou tacitamente, o verbo “ser” conecta a parte com o seu todo, a classe com sua espécie: a roda (é) parte do carro; o monitor (é) parte do computador; a cozinha (é) parte da casa; a casa é uma habitação; sardinhas são peixes; e o computador é tecnologia. Operações essencialistas consistem em organizar o mundo a partir de uma lógica unicista e redutiva. Chamamos esta lógica rudimentar de “classificação” e ela já impregna a ordo nuclear da própria linguagem natural.

A desclassificação não nega a classificação, pois nunca paramos de classificar, mas envolve a suposição metacognitiva de uma lógica diferente, plural e não-essencialista. A desclassificação introduz ao pluralismo lógico, mundos possíveis, dúvida e contradição em proposições, justamente provendo um pensamento anti-dogmático, um pensamento fraco, alguém poderia dizer, evocando Vattimo (pensiero debole).

Simples fórmula, desafiando o princípio de não-contradição, como “uma coisa é sempre outra coisa”, introduz o falibilismo, o perspectivismo, o pluralismo lógico em pensamento e a argumentação classificativa. E mais, a afirmação factual (é) seria ainda mais mitigada pela enunciação contrafactual: “uma coisa sempre pode ser outra coisa”.

O que decide um supra-ordenamento ou subordinação é a situação, uma posição envolvente e absorvente bloqueando outras alternativas e impedindo a alternativa de insubordinação ou não-subordinação conceitual. É possível inferir que, além da situação, relacionamentos são submetidos a infinitas possibilidades e mundos arbitrários como critério de ordenação. Se como um exemplo tomarmos outras funcionalidades das instâncias aludidas em outras situações (de mundos reais possíveis), na lógica modal de Lewis (1986) a faca poderia ser uma arma de assassinato, uma relíquia ou uma antiguidade; o cachorro poderia ser um latidor enfadonho ou uma compania leal; o carvalho poderia prover sombra ou ser também uma árvore desconhecida; o computador poderia também ser um resíduo poluente; a sardinha poderia ser saudável ou não.

Algo fora de contexto é sempre e simultaneamente múltiplas coisas. Concepções infinitas aguardam por instâncias, formando e reformando proposições. E confirmar várias proposições simultaneamente não é contraditório; é simplesmente uma declaração de incerteza. Entretanto, uma instância não é apenas, é também. Por meios de explicação “também é” nos permite ver como a desclassificação surpreendentemente interrompe hierarquias conceituais, cancelando o privilégio de qualquer visão classificatória: a faca é também um tipo de talher; o cachorro também é um mamífero; o carvalho também é uma árvore. Estas instâncias “eles também são”, isto é dizer, o critério supra-ordenado estabelecido por costume, discurso ou cultura, se torna desonrado, degradado, por infinitos mundos pragmáticos prontos para tomar seu lugar.

Afirmar que qualquer instância é também, implica na demissão da tradição ou imposição de quem a perspectiva do conceito tem sido vista e considerada, bem como seu supra-ordenamento e elementos subordinados, e transferir o pluralismo desclassificante ao próprio núcleo da refundação conceitual a qual o pensamento democrático requere.

Afirmar simultaneamente várias proposições não é contraditório, uma vez que trata-se de uma declaração de incerteza. Não há criticismo de sua natureza contraditória. Nós também podemos afirmar várias proposições opostas e, no entanto, ainda assim estaríamos dizendo algo. Estaríamos sempre dizendo algo e, se calcularmos a contradição, nós certamente estaríamos dizendo algo tremendamente diferente e criativo. A desclassificação seria um modo de garantir oportunidades iguais para a diversidade do conhecimento, lógicas e conversações em um outro-digitalmente.

REFERÊNCIAS

HEGEL, G.W.F. Fenomenología del espíritu. 7. reimp. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 2000.

FOUCAULT, M. Microfísica del poder. Madrid: Las Ediciones de la Piqueta, 1979.

LEWIS, D. On the plurality of worlds. Oxford: Blackwell, 1986.

Um pensamento sobre “A desclassificação na Organização do Conhecimento

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