Classificação como uma operação epistemológica e técnica

A classificação é uma operação epistemológica e gnosiológica de primeira ordem que impregna a totalidade e nosso relacionamento com o mundo completamente. A mente percebe todos os tipos de objetos – materiais ou simbólicos – de acordo com categorias fornecidas por uma dada cultura – um paradigma científico, neste caso – de um modo que representações de tais objetos são apenas re-semantizações elaboradas em processos complexos de semiose que habitualmente transcendem a cultura. Isso não deveria representar qualquer problema, uma vez que todas as culturas e identidades hiper-classificam o mundo como parte de seus “jogos de linguagem”, se não fosse pelo fato de que, como Rorty (1983) colocou, a epistemologia ser um mero episódio para a cultura ocidental, e o ocidente – no sentido cultural – é a força motriz mais poderosa já conhecida, não apenas atrás da classificação e reclassificação do presente, mas também de nosso próprio passado e futuro e aqueles de outros. Esta ressignificação foi reforçada e acelerada graças à tecnologia digital.

A rede digital, juntamente com operações de classificação incessantes e rotineiras promovidas pela cultura ocidental, age sobre um espaço aberto no qual outras civilizações e culturas – também produtores importantes de conhecimento e memória – tornem-se mais vulneráveis. A “digitalidade” já impõe uma certa ordem lógica no mundo, porque, como com qualquer outra tecnologia, é primariamente um “tecnológico”, um instrumento com um alcance simbólico que imperceptivelmente transfere os códigos da cultura que o criou. Deste modo, existem simultaneamente várias classificações globais: aquelas impostas por praticantes de OC através de regulamentações técnicas e epistemológicas; e aquelas do meio digital por si só, reforçando a anterior.

Isto ocorre por que o ocidente, como uma “cultura” hegemônica, é profundamente convencido de que suas categorias de organização local são necessariamente de interesse global, sem compreender as atitudes hostis, marginais ou atônitas demonstradas por outras culturas e minorias. Tal zelo “hetero-organizacional” apareceu unicamente no ocidente com o advento do Iluminismo (Horkheimer; Adorno, 2006), uma matriz cognitiva e cultural na qual precisamente uma tentativa foi realizada para organizar todo “o conhecimento universal” em uma enciclopédia (Olson; Nielsen, 2002) e na qual cada vez mais se manteve uma interpretação metonímica, dicotômica e neo-colonial do mundo. Os argumentos expostos abaixo serão limitados a estes elementos constituintes os quais, empiricamente falando, são entendidos como classificação.

REFERÊNCIAS

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. Dialéctica de la ilustración. Madrid: Trotta, 2006.

OLSON, H.; NIELSEN, J.; Dippie, S. Enciclopaedist rivalry, classificatory commonality, Illusory Universality. In: López Huertas, M.J. (Ed.). Proceedings of the Seventh International Isko Conference: advances in knowledge organization. Würzburg, Germany: Ergon Verlag, 2002. v.8, p.457-464.

RORTY, R. La filosofía y el espejo de la naturaleza. Madrid: Cátedra, 1983.

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