Introdução

Este artigo se propõe a rever a posição epistemológica dominante na Organização do Conhecimento (OC) e propôr uma perspectiva alternativa de pensamento – complementar ao invés de substitutiva – na qual poderemos considerar a OC diferentemente, através de outros caminhos, em relação a diferentes sensibilidades, reposicionando o lugar epistêmico a partir do qual as teorias e práticas de OC são geralmente enunciadas.

Nosso campo de estudo requer uma “virada epistemológica” a fim de tratar os crescentes desafios de um mundo heterogêneo, convulsivo e em constante mudança. Mas esta “virada” deveria ser tão complexa que a concepção de epistemologia por si só poderia ser superada. Talvez há pouco a se perder por se realizar uma tentativa, quando levamos em consideração, como o pesquisador social português Santos (1989), que a epistemologia impõe requerimentos em disciplinas científicas que é incapaz de impor a si própria, razão pela qual sua confiabilidade deveria ser mantida sob vigilância.

Dirigir-se aos problemas centrais da OC deveria não apenas ser tentado por autores, escolas, tendências ou linguagens desta área do conhecimento, uma vez que as questões abordadas ultrapassam demarcações positivistas, deslocalizam-se e então reaparecem com um aspecto diferente – tanto transgressivo quanto verdadeiramente renovador – aos olhos da transdisciplinaridade.

No entanto é necessário começar a partir de um estudo aberto focando a atenção no próprio objeto científico, embora a partir da perspectiva de outras alianças e divórcios. Mais especificamente, as teorias pós-coloniais (Bhabha, 1994; Mignolo, 2003), posições feministas (Olson, 2003), polivalentes (Peña, 1992) e paraconsistentes (Costa, 1997) lógica, sensibilidade racional ou aesthesia (Sodré, 2006), racionalidade imperfeita (Elster, 1989), hermenêutica diatopical (Santos, 2005) e pensamento complexo (Morin, 1996), entre outras abordagens críticas, seria preciso abrir um diálogo que promova uma revisão aprofundada de conceitos, procedimentos, relacionamentos e ações que giram em torno da OC.

Já instalada no psiquismo, a classificação – uma operação epistemológica de natureza geral – afeta duplamente o trabalho de praticantes de OC devido ao fato de que uma de suas rotinas essenciais é precisamente um tipo específico de classificação. O ato de classificar não é apenas governado por um conjunto de regras organizacionais explícitas, mas também cognitivas, inconscientes e padrões comportamentais automáticos ligadas à ideologia, cultura, identidade e memória que confinam pluralismo e interpretação.

Nas seções finais deste artigo, uma posição diferente e pós-epistemológica de enunciação é proposta para os problemas e questões advindos da OC em um mundo cada vez mais globalizado de crescente homogeneização cultural, além de dois operadores específicos de OC* aplicáveis à gestão de discursos históricos, midiáticos, sociais e culturais, com o objetivo de ilustrar o potencial de desclassificação do pensamento.

* Amplamente desenvolvido em García Gutiérrez (2005; 2007; 2008a; 2008b; 2011).

REFERÊNCIAS

BHABHA, H.K. The location of culture. New York: Routledge, 1994.

COSTA , N.C.A. O conhecimento cientifico. São Paulo: Discurso, 1997.

ELSTER, J. Ulises y las sirenas: estudios sobre racionalidad e irracionalidad. México: FCE, 1989.

MIGNOLO, W. Historias locales, diseños globales: colonialidad, conocimiento subalterno y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.

MORIN, E. Introducción al pensamiento complejo. Barcelona: Gedisa, 1996.

OLSON, H. Transgressive deconstructions feminist/ postcolonial methodology for research in knowledge organisation. In: Frías, J.A.; Travieso, C. (Ed.). Tendencias en organización del conocimiento/trends in knowledge organisation research. Salamanca: Universidad de Salamanca,  2003. p.731-740.

PEÑA, L. Algunas aplicaciones filosóficas de lógicas multivalentes. Theoria, n.16-18, p.141-163, 1992. Disponible en: <http://www.sorites.org/lp/articles/logica/aplicaci.htm&gt;.

SANTOS, B.S. Introdução a uma ciencia pósmoderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

SANTOS, B.S. El milenio huérfano. Madrid: Trotta, 2005.

SODRÉ, M. As estratégias sensíveis: afeto, política e mídia. Petrópolis: Vozes, 2006.

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