Operadores desclassificantes em sistemas de classificação *

Nesta seção, que é mais aplicada para e focada em setores trabalhando com eventos e histórias nos mundos da mídia, político, social e cultural, gêneros que se movem a partir de e entre o jornalismo e a história, irei descrever dois tipos de operadores que, hipoteticamente, ajudariam a quebrar os esquemas unilaterais e homogeneizantes de dependência, os quais a presença é massiva e perturbadora. Em qualquer caso, o que está envolvido é uma proposta teórica de operadores que, de modo desclassificatório, organizam mundos medidos pelas construções de história e memória, vários campos de humanidades e ciências ou discursos de mídia. Tais operadores teóricos teriam que ser incorporados seja ao forçar ou substituir e eliminar as funções hierárquicas e redutivas dos operadores tradicionais das classificações, tesauros e ontologias.

O que é compreendido aqui como um operador é uma ferramenta lógico-semantica (e, não deveria ser esquecido, de uma natureza necessariamente ética e política), a qual função primordial envolve estabelecer relacionamentos entre registradores e servindo como link entre estes e os participantes em uma rede. Por exemplo, as ferramentas hierárquicas TG (Termo Genérico), TE (Termo Específico) e associativa TR (Termo Relacionado), que pertencem ao tesauro convencional, são operadores de organização que satisfazem critérios epistemológicos precisos, inequívocos e simétricos.

A diferença básica deste tipo de operador fechado e univalente, em respeito à minha proposta, encontra-se na lógica na qual são baseados. Operadores desclassificatórios são precisamente fontes de intervenção e facilitação cujo objetivo é garantir a descolonização do pensamento e o fluxo igual de sistemas de informação, mas também alertar cidadãos sobre esses registros que contravém decisões e acordos estabelecidos interculturalmente, tais como direitos humanos, para questionar certas presenças por meios de crítica legítima de produtores-mediadores e usuários-mediadores, e promover uma transformação social com chave para emancipação e pluralidade de conhecimento.

Sendo abertos, a lógica dos operadores aqui propostos inclui a lógica fechada dos operadores tradicionais relacionais TG, TE e TR ou qualquer outro, e como resultado ele não se opõe a eles uma vez que contém os princípios de desclassificação. Então, por exemplo, sob desclassificação nós poderíamos continuar a utilizar operadores de hierarquias classivas e partitivas, todo/parte e gênero/espécie, sujeito à extirpação de sua lógica de subordinação e supra-ordenação como uma lógica primária sistêmica, operando como meras fontes parciais de proximidade, uma vez que elas não brotam da reprodução de hierarquias políticas epistemológicas, sociais ou hegemônicas.

De acordo com os postulados estabelecidos pelas considerações teóricas colocadas nas seções anteriores, a desclassificação em sistemas de OC nos setores já mencionados teriam um operador anti-dogmático, hermenêutico e descolonizante, isto é, baseado no imperativo da participação direta e democrática de todas as posições possíveis e mundos que necessite – incluindo todas as oposições e contradições a respeito de um conceito – construídas de modo plural para então assegurar a presença de todas as visões de mundo e propiciar as diferenças até mesmo daquelas posições consideradas injustas ou anti-democráticas. Sobre a prioridade do pluralismo ideológico e lógico, mas também facilitando parte disso estabelecido nos princípios de interação e transformação que orienta a promoção de mudança social, proponho o operador complexo Λ. Tal operador seria essencial, por exemplo, em mapas conceituais em que aparecem noções complexas como terrorismo, véu, pessoas “ilegais” ou aborto, para mencionar apenas alguns dos mais controversos. O operador Λ garantiria todas as interpretações ideológicas e oportunidades iguais para estes conceitos. O operador complexo não é designado para intervir ou controlar visões e significados em relação a uma questão.

Além disso, um operador anti-relativista e crítico agiria de modo compensatório, isto é, ficaria do lado contra as injustiças e desigualdades estabelecidas na exomemória, interveria nos conflitos de interesse entre posições locais e acordos inter-ideológicos, estabeleceria condições para diálogo com chave para consenso, e aplicaria os resultados do último. O operador transcultural V seria responsável por estas questões.

Vamos olhar para várias questões de classificação tocantes aos aspectos diferentes e compartilhados em dois operadores, operadores que não se opõem, mas intersectam, supervisam e complementam um ao outro. O operador complexo Λ, cuja função mais notável seria a de detectar confrontos, contradições, oposições, dicotomias e antônimos em busca de sua coexistência, inclui todos os meios possíveis de uma questão ou o significado de questões não compartilhadas, especificando-as para que então toda participação ou buscas na rede sejam reconhecidas pelas subjetividades compartilhadas de uma comunidade ou cultura ou por subjetividades individuais. É entretanto um operador mais próximo ao multiculturalismo de facto, a uma co-presença inicial de posições em condições iguais e com a mesma chance de visibilidade.

Em relação ao operador transcultural V, é o produto sintético de um diálogo permanentemente aberto, democrático entre representações de diversas posições (políticas, culturais, discursivas, etc.) que negociam a homologação e integração de certas questões que os afetam das premissas dos argumentos (e não meros argumentos) e topoi. Entretanto, este operador V implica na busca de um acordo com respeito a uma questão e sua formalização como categoria transversal às posições como uma transcategoria, constituindo, a partir de tal sanção, uma norma ética mundial que interferiria nos registros locais que a infringem, não validando ou as censurando, uma vez que eles sempre possuiriam a proteção oferecida pelo operador complexo, mas avisando os cidadãos participantes de seu conteúdo. García Gutiérrez (2002b; 2008a; 2008b; 2011) estabelece os princípios básicos do diálogo que deveria governar a construção plural de acordos interculturais no campo de OC, baseado na ética discursiva de Apel (1985).

Ambos operadores são profundamente democráticos uma vez que Λ é apoiado pela especificação de todas as posições e visões de mundo, sem exclusão, como itinerários de representação e localização dos registros, isto é, garantindo a representatividade em pé de igualdade de todas as posições iniciais em respeito a uma questão, e V é essencialmente regulativo e executivo, isto é, ele equilibra o possível tratamento injusto de algumas ou outras posições na rede, até mesmo respeitando a presença de tais registros acomodando o princípio anterior de emancipação, em termos de uma escala categorial transculturalmente aceita de tal forma que abusos na rede não fiquem impunes se a comunidade transcultural pode evitá-los com alertas, avisos e recriminações. Como resultado, o operador transcultural é um operador amplamente democrático como complexo, uma vez que sua aplicação seria apenas autorizada por decisão democrática (síntese transcultural) endossado pela maioria das posições, um consenso que pode ser ampliado e deve ser revisado periodicamente.

Enquanto o operador transcultural é o antídoto para o relativismo do qual o operador complexo seria acusado, o que não determina os méritos morais ou culturais de um registro, conceito ou posição, o operador complexo do mesmo modo envolve o equilíbrio democrático ou hermenêutico de um operador transcultural acusado de falta de apoio ou legimização suficiente. Se o operador complexo leva todas as posições e perspectivas à fricção mútua a partir da qual emergem terceiros itinerários, conivências espontâneas e deliberadamente novas, o operador transcultural é uma substância de racionalidade dialógica em busca de convergência.

Os operadores complexos são linkados em nível sistêmico, isto é, à uma “epistemografia” como conceito de rede ou sistema aberto (García Gutiérrez, 2002a; 2002b; 2007; 2008a; 2008b). A completa visibilidade da função democrática deste operador aparece apenas ao nível do sistema e não em cada registro particular. Tracidionalmente, a OC centralizou uma de suas principais linhas de pesquisa e desenvolvimento na construção de linguagens e sistemas que, a partir de perspectivas homogeneizantes ou altamente tendenciosas, comumente representam conteúdos e formas discursivas independentemente de variáveis culturais e o total conglomerado de sensibilidades e singularidades que opera tanto na conformação destes mundos complexos, simplisticamente representados e no acesso, apropriação e continuidade destas representações. Entretanto, o operador ˜ romperia a lógica e aparência de sistemas convencionais de classificação e linguagens.

Quanto ao operador transcultural V, mesmo atuando em nível sistêmico também, sua completa realização é apenas alcançada quando é especificamente atribuída a um registro afetando a descrição analítica fornecida por meio de outras fontes usadas pela posição e interesse local. Contudo, sua eficiência reside em um constante ativismo por diálogos interculturais e o uso adequado a que se coloca por mediadores culturalmente e socialmente comprometidos.

* O operador complexo é amplamente descrito em García Gutiérrez (2008a). Referente ao operador transcultural, veja García Gutiérrez (2011).

REFERÊNCIAS

APEL , O. La transformación de la filosofía. Madrid: Taurus, 1985.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. La memoria subrogada: mediación, cultura y conciencia en la red digital. Granada: Editorial Universidad de Granada, 2002a.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Knowledge Organization from a “Culture of the Border”: towards a transcultural ethics of mediation. In: López Huertas, M.J. (Ed.). Proceedings of the Seventh International Isko Conference: advances in knowledge organization. Würzburg: Ergon Verlag, 2002b. v.8, p.516-522.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Desclasificados: pluralismo lógico y violencia de la clasificación. Barcelona: Anthropos, 2007.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Dialéctica de la exomemoria. In: Valle, C., et al. (Ed.). Contrapuntos y entrelíneas sobre cultura, comunicación y discurso. Temuco, alparaíso: Universidad de la Frontera, 2008a. p.232-260.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Outra memória é possível: estratégias descolonizadoras do arquivo mundial. Petrópolis: Vozes, 2008b.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Epistemología de la documentación. Barcelona: Stonberg, 2011.

Um pensamento sobre “Operadores desclassificantes em sistemas de classificação *

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