Redução Analógica

Como Umberto Eco colocou em Kant e o Ornitorrinco (1999), no qual, em minha opinião, é o seu melhor trabalho sobre teoria do conhecimento, com repercussões que não podem ser ignoradas por experts em classificação, zoologistas britânicos passaram a melhor parte do século XIX debatendo sobre como classificar o ornitorrinco, um simpático animal descoberto pela biologia ocidental por colonizadores na Austrália e Nova Zelândia. Os aborígines já fizeram esta descoberta milhares de anos antes e nunca discutiram sobre sua classificação zoológica. O ornitorrinco tem bico de pato e bota ovos (pássaro), um rabo peludo e glândulas mamárias estranhas (mamífero), ele se arrasta e tem garras (réptil), contando que passa metade de sua vida em ambientes aquáticos onde caça e obtém sustento (anfíbio). Após muito debate, os mastozoólogos, chegaram à conclusão de que o animal deveria ser considerado um mamífero. Importante notar que ser um mamífero significava que ele ocupava uma posição privilegiada na ordem animal. Eles tinham que fazer uma escolha e decidiram sobre esta taxonomia, embora como poderiam explicar, entre outras coisas, a questão dos ovos e do bico?

Vários zoólogos, de acordo com Eco, fizeram comentários extravagantes no que se refere ao ornitorrinco, por exemplo em relação à sua posição na ordem animal: mamíferos com partes de outros animais ou uma mutação excepcional. Descobertas recentes mostram que o ornitorrinco pertence a uma espécie que, por milhões de anos, tem regredido em direção à sua involução. Por conseguinte, se ainda existir dentro de alguns milhões de anos, ele poderia eventualmente abandonar o reino dos mamíferos entrando nesta que seria uma diferente taxonomia, uma taxonomia que poderia ter existido antes dos mamíferos?

Comparando as categorias Kantianas formais com o conceito Peirceano de Terceiridade, Eco expõe sobre o imperativo cultural, como taxonomias são reproduzidas através de mecanismos de reconhecimento, usando o famoso exemplo de Marco Pólo quando, vendo um rinoceronte asiático pela primeira vez em sua viagem ao oriente, classificou-o como um unicórnio por conta de sua semelhança a um animal conhecido que, por outra coisa, nunca existiu exceto em narrativas mitológicas e pinturas que o próprio Pólo teve a chance de familiarizar-se em Veneza.

Várias civilizações e culturas – por exemplo, subculturas que não são necessariamente territoriais, tais como a científica – têm se especializado na “heteroclassificação”, em resenharem listas de clichês com os quais os assuntos e objetos classificados devem se adequar, sabendo muito bem que a inclusão de todos os assuntos e objetos na mesma categoria é geralmente forçada, ou que a categoria acaba por explodir devido à pressão interna ou por conta das próprias dinâmicas deste mundo incansável ao qual pretende subordinar-se. Categorias científicas e epistemológicas não são preparadas para assumirem mudanças constantes de uma supra-ordenação totalista.

Catalogar, classificar, separar e dividir: aqui estão algumas das palavras-chave de nossa cultura classificatória. Na visão do panorama apresentado pela classificação, deveríamos perguntar a nós mesmos que influências estão por trás de tal classificação desenfreada, quais são as vantagens de classificar o mundo deste modo e, sobretudo, o que uma teoria alternativa pode fazer em relação a isto? A teoria psicológica de dissonância cognitiva pode provavelmente prover uma resposta satisfatória à primeira questão. A segunda envolveria um debate sociológico, político e ético o qual não tenho intenção de evitar neste artigo, mas ao invés disso utilizar-se dele como base; e a terceira requere uma resposta teórica que, a partir de uma abordagem crítica e pós-colonial, irei tratar na seção seguinte.

REFERÊNCIA

ECO, H. Kant y el ornitorrinco. Barcelona: Lumen, 1999.

Um pensamento sobre “Redução Analógica

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