Redução Dicotômica

Uma vez obtida a licença de produção metonímica, a classificação do pensamento se arma com duas propriedades afiadas:

– Deslizamento: isto envolve um tipo de movimento incontrolável que nos permite passar injustificadamente de uma instância a outra pelo mero fato de possuir representações homônimas, homográficas e homofônicas. Lacan sublinhou o efeito do deslizamento metonímico sobre a estrutura dos próprios significantes. A situação discursiva é indubitavelmente responsável pelo deslizamento que ocorre em uma direção ou outra. Mas, apesar de ser gerada na superfície do significado, os efeitos para isso (para compreensão ou para enunciação) não poderia ser mais decisiva.

– Dicotomização: a dicotomia oferece um mundo construído por modos de pares opostos. Todas as instâncias são construídas sobre um oposto. A dicotomia também transfere uma ordem de prioridade no binomial, uma vez que a posição não é neutra. Na verdade, a instância ocupando a primeira posição em uma dicotomia tende a ser favorecida pela ordem social, economia ou cultural: norte versus sul, branco versus preto, homem versus mulher, chefe versus trabalhador, rico versus pobre, centro versus periferia. A partir disto, o próprio Santos propôs “um procedimento rejeitado pelo raciocínio metonímico: considerar os termos de dicotomias fora das articulações e relacionamentos de poder que os unem, como um primeiro passo na direção de libertá-los dos ditos relacionamentos e revelar outra alternativas que têm sido obscurecidas pelas dicotomias hegemônicas. Considerar o Sul como se o Norte não existisse, considerar a mulher como se homens não existissem, considerar o escravo como se o senhorio não existisse” (Santos, 2005, p. 160). Para Santos, o raciocínio metonímico não sabe como absorver os múltiplos elementos que permanecem vagando por fora das dicotomias, e que tem que se recuperar ou ganhar sua própria voz: “O que existe no sul que foge da dicotomia norte/sul? O que existe na medicina tradicional que foge da dicotomia medicina tradicional/medicina moderna? O que existe nas mulheres que é independente de seu relacionamento com os homens? É possível ver o que é subordinado sem levar em consideração a subordinação?” (Santos, 2005, p.160).

Após as dicotomias segue uma ordem lógica esmagadora que penso que, para diferenciar da opinião de Santos, não é exclusiva, ainda menos da cultura ocidental, mas ao invés disso é uma constante em qualquer cultura ou personalidade que busca dominação e expansão. Mas em nossa cultura, dicotomia é raciocinar o que o átomo é para a matéria. E tal ordem impregnou a moral: bem/mal; o direito: inocente/culpado; a política: a favor/contra; a tecnologia digital: 1/0. Em meu livro Desclasificados (2007), a partir da demolição das dicotomias, desenvolvi uma construção provocada de oxímoros e oxímoros hiperbáticos (inversões), induzindo a cooperação dos elementos de várias oposições automáticas, tais como centro/periferia, para então transformá-las em duas eficientes fontes epistemológicas e heurísticas: periferia central (Bangalore ou São Paulo, por exemplo) e centro periférico (seja o Bronx ou os distritos mais pobres de Los Angeles). A construção calculada de oxímoros e contradições é uma ferramenta metacognitiva poderosa de desclassificação do pensamento.

REFERÊNCIAS

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Desclasificados: pluralismo lógico y violencia de la clasificación. Barcelona: Anthropos, 2007.

SANTOS, B.S. El milenio huérfano. Madrid: Trotta, 2005.

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