Uma nova posição de enunciação

A posição a partir da qual consideramos o mundo tem muito a ver com epistemologia: é nossa posição epistemológica. A partir de onde geralmente consideramos a classificação epistemologicamente? Na minha opinião, fazemos isso a partir de uma posição aparentemente neutra e não-ideológica, onde conflitos são de uma natureza exclusivamente técnico-científica, apesar do fato de que operamos e produzimos cultura.

Além disso, irei propor a construção de uma posição de enunciação pós epistemológica incondicionalmente presidida pela hermenêutica (Capurro, 2000). A hermenêutica é a democracia do pensamento. A epistemologia convencional exclui a hermenêutica, mas a hermenêutica integra a epistemologia bem como qualquer outra interpretação. Minha solicitação inflexível é, como resultado, a substituição do espírito, linguagem e procedimentos da epistemologia da classificação por uma hermenêutica de OC que chamaremos de “desclassificação”. Uma revisão que envolve tratar processos complexos de tradução, a suspensão de certas suposições ou a mera transformação formal de outros que se adaptam à liberalização de uma matriz cognitiva mais ampla e inclusiva. A partir daí, e em honra da própria hermenêutica, podem se originar adjetivações, nuances e opções.

Entretanto, reconsiderar nosso campo de estudo envolveria estar aberto a posições pós-coloniais, àquelas de diferentes sensibilidades e contribuições, tais como as de Walter Mignolo (Mignolo, 2003; Mignolo; Schiwy, 2007) e Bhabha (1994), ou Santos (1989; 2005), ao longo das mesmas linhas, quando eles propõem um pensamento do sul, como metáfora daquele imenso espaço de diversidade, embora um sul não compreendido simplesmente como um lugar geográfico mas como um local de sofrimento, discriminação e exploração em uma escala mundial, incluindo os territórios supostamente “desenvolvidos” do hemisfério norte. “Outro-paradigma” e “outro-pensamento”, como esta outra-forma de considerar o mundo é geralmente chamado pelos teóricos supracitados. Outro-identidade, outro-memória (García Gutiérrez 2008a; 2009) seriam seus correlatos. Hermenêutica sem fronteiras epistemológicas, sem a necessidade de hierarquização, exclusão, fragmentação, disjunção; até a complexidade de Edgar Morin seria altamente compatível com tal modo pós-colonial de pensamento.

Nós temos uma objeção razoável à teoria pós-colonial: em vários de seus trabalhos, embora sobretudo no Empire (Hardt; Negri, 2002), Toni Negri se opõe ao fato de que o projeto emancipante promovido pela modernidade está esquecido em parte por se tornar sobrecarregado pela discussão que gira em torno de velhas categorias coloniais das quais nunca conseguiu se livrar. Levando em consideração a objeção de Negri, advogo por uma posição de enunciação cujo objetivo principal é uma descolonização permanente, uma vez que, no meu ponto de vista, a dominação é intrínseca à natureza humana e, com cada novo assunto e geração, seria necessário reabrir o caso para descolonização.

A informação científica, que em um primeiro momento teve de lidar com a gestão e organização das ciências, mesmo que por meio de classificações universais imprudentes, também terminou por organizar conhecimento social, cultural, midiático, artístico e estético. Através da gestão e organização de documentos arqueológicos, históricos e antropológicos, a informação científica terminou por invadir e modificar nossa visão de várias culturas contemporâneas e identidades em dissolução e a imagem que têm de si mesmas.

Através de outras disciplinas hiper-classificantes, tais como arquivologia e museologia, documentos não-científicos e objetos pertencentes à cultura contemporânea ou aquelas de eras passadas são tratadas, embora sejam removidas dos interesses de seus classificadores e curadores. Este detalhe fundamental, classificar a imensidão da “alteridade”, deveria ser suficiente para incorporar em nossos estudos novas visões e lógicas, um grande pluralismo e sensibilidade para considerar novos objetos que devem ser protegidos e classificados ou, ainda melhor, desclassificados para permitir que protejam a si mesmos. O que estaria envolvido, entretanto, é não apenas a otimização de nossos processos de informação em uma imensa quantidade de conhecimento subordinado ou excluído por conhecimento hegemônico, mas especialmente o reforço de formas genuínas de informação e auto-narrativa destes setores e a incorporação de suas visões de mundo e lógicas na microfísica da digitalidade.

REFERÊNCIAS

BHABHA, H.K. The location of culture. New York: Routledge,
1994.

CAPURRO, R. Hermeneutics and the phenomenon of information. In: Mitcham, C. (Ed.). Metaphysics, epistemology and technology: research in philosophy and technology. New York: Elsevier, 2000. v.19, p.79-85.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Dialéctica de la exomemoria. In: Valle, C., et al. (Ed.). Contrapuntos y entrelíneas sobre cultura, comunicación y discurso. Temuco, alparaíso: Universidad de la Frontera, 2008a. p.232-260.

GARCÍA GUTIÉRREZ, A. La identidad excesiva. Madrid: Biblioteca Nueva, 2009.

HARDT, M.; NEGRI, A. Imperio. Barcelona: Paidós, 2002.

MIGNOLO, W. Historias locales, diseños globales: colonialidad, conocimiento subalterno y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.

MIGNOLO, W.; SCHIWY, F. Transculturation and the colonial difference: double translation. Información y Comunicación, n.4, p.6-28, 2007.

SANTOS, B.S. Introdução a uma ciencia pósmoderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

SANTOS, B.S. El milenio huérfano. Madrid: Trotta, 2005.

Um pensamento sobre “Uma nova posição de enunciação

  1. Pingback: Desclassificação na Organização do Conhecimento, por Antonio García Gutiérrez « Index-a-Dora

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s