Bibliotecas: descentralização é modernização?

Ainda me repreendo por ter tantos questionamentos, mas ao invés de reprimir tento cada vez mais fazer o inverso. Além da educação repressora que tive (como todos da minha geração) acho também que por ser uma neófita na área, não é de bom tom ficar questionando demais a tudo e a todos ou até mesmo simplesmente expôr minhas inquietudes aos colegas mais experientes. Mas pode ser proveitoso questionar às vezes, só pra variar um pouco.

Há dois meses trabalho como bibliotecária em uma empresa grande e tenho aprendido muitas coisas. As atividades de adaptação à rotina, ao cotidiano, a lidar com o que sempre quis lidar e isso tudo me afeta diretamente, afeta o que leio e principalmente em que acredito. Vários mitos desaparecem, algumas certezas se consolidam. E o que ocorre é totalmente paradoxal pois ao mesmo tempo que me sinto em lua de mel com o que escolhi fazer da vida, também passo por uma bela (e boa) fase de desilusão. Interessante notar que uma coisa não necessariamente exclui a outra. É um doce fel. Mas acho que é assim com tudo o que gostamos de verdade.

Esta semana li dois textos que me fizeram criar este post.

O primeiro foi “O mercado errado para as bibliotecas”, da Christine Madsen. Fiz um comentário no Facebook mas acho mais interessante expandir a conversa por aqui. O assunto é bastante espinhoso: modernização das bibliotecas. E na boa? Ninguém aguenta mais falar disso. Sinto calafrios toda vez que leio a palavra “modernização” porque sei que a discussão vai ser que nem naquela música estúpida que diz que “o futuro não é mais como era antigamente” e parar por aí mesmo. As pessoas se bastam a observar o que acontece, a avaliar o que estamos perdendo e tudo fica por isso mesmo, tem sempre um comportamento passivo demais e uma certa preguiça de olhar para o que o futuro pode ser. Se falam em pós-modernismo então é pior ainda… A impressão que fica é que para existir algum tipo de discussão minimamente relevante é condição sine qua non que esses conceitos estejam envolvidos. E desconfio seriamente disso.

A Madsen critica o modelo de informação centralizado que as bibliotecas universitárias vêm cultivando há mais ou menos 150 anos. Diz que este modelo é mais centrado em objetos (recuperação da informação e desenvolvimento de acervo) do que em pessoas e afirma que este mesmo modelo ainda luta para permanecer relevante. E isso tudo é bem triste, mas é verdade – em partes. O “modelo centralizado” de bibliotecas universitárias me parece (não sou uma especialista) que tem sido substituido por um modelo mais setorial, de bibliotecas menores. Ainda assim, este modelo descentralizado não satisfaz a carência de determinadas demandas (que muitas pessoas sequer sabem que existe, mas aí é outro assunto).

Ilustração de Matias Adolfsson

Ilustração de Matias Adolfsson

A autora menciona as bibliotecas academicas antigas, superespecializadas e personalizadas (customizadas) que são caóticas por natureza. No entanto, achar qualquer coisa nessas bibliotecas é impossível pois a sua função é distinta: nesses pequenos mundos de livros, a obtenção de conhecimento é sempre prioritária à obtenção de informação. A organização de bibliotecas de pesquisadores, como por exemplo, a Bibliothek Warburg, só faz sentido para o próprio pesquisador por conta de sua função: criação e não recuperação. E ter e criar isso em larga escala me parece insano é um desafio e tanto, uma vez que (quer queiram, quer não) ainda estamos nessa época de transição e modelos híbridos (do papel ao digital, etc).

Bibliotecários, em princípio, trabalham com informação. Mas eventualmente podem se interessar pela área de Gestão do Conhecimento pois esta é uma escolha pessoal. Trabalho com informação (o que é concreto, objetivo, quantificável) porque é com isso que lido no dia a dia, mas o conhecimento (abstrato, subjetivo, pessoal) ainda me parece estar sempre a um passo além do que faço, embora também faça parte do que vivencio. São estudos complementares mas não se pode dar conta de tudo o tempo todo, por isso quando possível formam-se equipes com gestores do conhecimento. A autora usa o termo “Teoria de Bibliotecas” e eu realmente queria ler mais sobre isso, mas ela não se detém muito neste assunto. Coloco em destaque partes finais do texto com as quais concordei integralmente:

“Tão importante quanto a informação em si é fornecer e sustentar um ambiente que permite a transformação dessa informação em conhecimento novo. O que foi esquecido, por exemplo, é que as bibliotecas foram, e devem ser de novo, inerentemente lugares sociais. Que estes são espaços não apenas para obter acesso aos recursos, mas pessoas – bibliotecários, arquivistas, outros estudiosos – com quem o discurso pode ser inserido sobre os recursos das mesmas. (…) Não há biblioteca, por exemplo, sem uma cultura de pesquisa. (…) O resultado dos recursos aplicados na biblioteca, por conseguinte, não é medido no tamanho da coleção, ou mesmo do número ou satisfação dos utilizadores, mas nas suas experiências.”

O único equívoco da Madsen – equívoco muito comum nos dias de hoje, aliás – foi de achar que o Google é “a Internet”. A idéia de biblioteca universal é datada desde Otlet, as bibliotecas universitárias só foram parte de um processo histórico desta criação, assim como o próprio Google é parte de outra faceta deste mesmo processo. E lembrem-se: o Google não é a Internet, é só (uma grande) parte dela. Ele é muito bom sim, oferece ferramentas, oferece espaço (virtual) mas – ao menos pra mim – existe essa carência de contexto que me inquieta às vezes. Acho mais prudente talvez, usar o Google com parcimônia e ter em mente também outros modos de pesquisa, fontes de informação e experiências reais, amadoras ou profissionais, mas de vida mesmo. E é exatamente aí, neste espaço, nesta lacuna imensa, que o bibliotecário (ou insira seu neologismo cafona preferido aqui) deveria estar atuando.

Ilustração de Matias Adolfsson

Ilustração de Matias Adolfsson

E tratando deste assunto, hoje me deparo com outro texto: “Obra na biblioteca de New York é alvo de intelectuais” que pisa de novo no assunto “modernização”. Resumindo a notícia: estão querendo destituir parte da biblioteca pública de New York de seus livros pra substituir este espaço com computadores. Agressivo, não? Pois é. A primeira impressão que tenho é a de que é agressivo. A segunda, de que é a de que está sobrando dinheiro, mas faltando melhor organização estratégica a quem quer que tenha tido essa idéia que parece brilhante, mas na verdade não é.

Sou contra essa reforma na biblioteca pública de New York porque a acho ridícula. Mas não a acho ridícula por amor às traças e ao acervo, nem nada disso. Sou contra simplesmente porque tenho uma idéia que considero melhor e talvez até mais barata.

O texto da Madsen não está falando justamente sobre descentralização?

Então alguém por favor me explique qual o propósito de destruir parte do acervo físico da biblioteca pública de New York quando poderiam utilizar esse orçamento gigantesco de 600 milhões pra fazer quiosques espalhados em pontos estratégicos da cidade, com terminais que sejam diretamente ligados à biblioteca pública, aos seus serviços e catálogos?

Qual é a razão de centralizar todos esses computadores na biblioteca pública?

Por que não colocar terminais nas estações de metrô, de ônibus, nos aeroportos, enfim, onde as pessoas (que não tem dinheiro pra ter iPhones) realmente precisem? Não sei se meus questionamentos são muito pertinentes ou não, só acredito que uma reforma desta amplitude não deveria ser considerada sem levar em conta outras possibilidades.

E last but not least também é possível questionarmos: a quem estão querendo beneficiar, de verdade, ao suprimir todo um acervo bibliográfico histórico por uma cheia sala de computadores novos?

É. É de se pensar…

  1. Aécio

    Dora,

    aqui na UFBa (sou baiano e nordestino com orgulho) as bibliotecas são espalhas pelos campi e sediadas em seus institutos. Por exemplo: no Instituto de Ciência da Informação (curso de Arquivologia e Biblioteconomia) temos uma biblioteca voltada para essa área, na Escola de Administração (curso de Administração e Secretariado) fica uma biblioteca voltada para essa área…etc. E além disso no maior campus da fica a Biblioteca Central que consta com um acervo variado dois diverso cursos oferecidos pela universidade. Claro que não vou entrar na discussão de qualidade do acervo que a universidade oferece atualmente (pelo menos em nossa área deixa muito a desejar), mas é uma boa iniciativa pois não centraliza tudo em um só lugar (para quem não conhece, as escolas e institutos que compõe a UFBa se espalham por diversos bairros de Salvador).

    E com relação a demolição de parte da biblioteca, concordo com você.
    Encher a biblioteca de computadores para que as pessoas passem a frequentar (para ter acesso aos computadores, eu acho) não significa que a biblioteca está cumprindo o seu papel. Devemos lembrar que “todo leitor tem o seu livro”.
    Creio que poderiam investir esse dinheiro em muitas outras iniciativas que pudessem estreitar a relação entre o leitor e a biblioteca.

    Att,

    Aécio

    • William

      Dora,

      Os administradores parece que estão fissurados em modernizar, modernizar e modernizar, mas o seu mantra deveria ser como gerir melhor os recursos e disseminar o conhecimento em todos os espaços onde as pessoas estão, ou seja, não precisam centralizar os locais de acesso, mas descentralizar.
      Você apresenta uma proposta simples, mas a questão realmente é, será que os gestores querem isso ou seu objetivo é outro? Vai saber……

      Ao menos nisso, aqui em São Paulo, temos dois programas muito bons de acesso à Internet: são os Acessa São Paul do Governo do Estado e os Telecentros da Prefeitura de SP.
      Já vi computadores com acesso grátis instalados em igrejas católicas, evangélicas e centros comunitários.
      Mandarmos acervo em papel e conteúdo digital junto dessas iniciativas seria como abrir pequenas bibliotecas também, não é?

      Abs!

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