O leitor do futuro, de novo

Dia 1º de junho fui a uma palestra onde falariam sobre ‘O leitor do futuro’. A palestra fazia parte da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. Fui de curiosa. Sempre quero ouvir o que não-bibliotecários tem a dizer sobre a leitura porque, curiosamente, soa muito mais realista. Duas pessoas falaram: Lisette Lagnado e Arto Lindsay. Lisette começou falando que o leitor de hoje em dia cada vez mais luta contra a dispersão e que cenas como essa se tornarão mais raras:

Raras, não acho. Diferentes, talvez. Talvez mude a plataforma, o suporte e o tipo de material que está sendo lido / assistido / jogado. É difícil a aceitação da mescla de utilização das mídias tradicionais e tecnológicas da mesma forma que é difícil aceitar que o que era um romance acabou. “Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno”. Ninguém mais vai passar bilhetinho fazendo pedido de casamento: vai ser tudo por SMS. Essa cena aqui definitivamente só vai rolar em filme de 1968 mesmo:

Aliás, casar já é demodê. Enfim. Lisette me apresentou Dominique Gonzalez-Foerster e falou não tanto sobre arte, mas sobre o sujeito imerso em um espaço literário, desburocratizado e livre – que é o que de fato é cada vez mais raro de se encontrar hoje em dia. Falou-se sobre um conceito de literatura expandida, que seria uma ‘quase literatura’, onde seria possível ser autor sem escrever um grande texto. A partir desse conceito, seria possível entender a experiência literária como infinita, que não cabe em um só formato e transcende a dimensão linguística.

»Tapis de lecture«, 2000–2007 by Dominique Gonzalez-Foerster .

Eu gostei da proposta: biblioteca em chão de museu, um tapete, ambiente íntimo, doméstico. Senta-se lá, pega-se um livro, pega-se vários, perde-se uma tarde, perde-se a noção de tempo. Me lembra de longe os ecos do que poderia ser o Acesso Livre. Lisette também mencionou que há uma obra de Dominique chamada Bibliothek que trata-se de uma construção, de uma casa, uma sala, em que existem estantes, só que no entanto os livros são utilizados como tijolos, e os tijolos como livros. Simplesmente genial. Uma pena que não consegui achar nada sobre isso online.

“I want to die as I’ve lived”.

Gostei dessa passagem do filme Fahrenheit 451 (que inclusive tem na íntegra, legendado em pt-br no YouTube, pra quem tiver curiosidade). Vendo o filme a gente pensa que “poxa nessa época ainda existiam os bookpeople”. Existiam vírgula: existem ainda. Muitos acreditam que essa geração pode ser ‘a última leva’ a ter o fetiche o livro físico. Tem gente que acha mesmo que todos os livros poderiam ser queimados que nem no filme e substituídos por um Kindle ou qualquer outro e-reader. Felizmente ou não, ainda faço parte dos fetichistas. Até fantasio as maravilhas das bibliotecas do futuro, mas enquanto esse futuro não chega, confesso que acho a previsão das bibliotecas com ambientes clean e dust-free meio chatinhas na verdade…

Na boa. Acho mesmo.

Lisette disse que hoje “o leitor não apenas lê, mas ele edita sua própria linearidade” quase que como um co-produtor do que absorve. Pode até ser, em certa medida. Mas acredito que, para que o leitor possa chegar a este nível de desenvoltura, talvez seja necessário um pouco mais que isso em um kick-off. Hoje lemos – minha geração lê – em um sistema de janelas (ou abas, infinitas) de modo completamente alinear, extremamente customizado e não circunstancial. É algo aproximado do aleatório, onde as vezes acontecem umas serendipities. Mas é isso. Não há profundidade. Não há contexto. E geralmente ao fim disso tudo até podemos aprender algo, mas sempre fica aquela incômoda sensação “sensação de copy e paste” caótico. Arto Lindsay chegou a afirmar que hoje “é impossível seguir um caminho racional, linear com a leitura”. A pergunta que inquieta: é preciso? E em quais momentos? 

Dominique Gonzalez-Foerster, chronotapes & dioramas, 2009

Durante a palestra também foi recomendado o livro I read where I am: exploring new information’s culture, que é uma coletânea de artigos que tratam sobre leitura de modo geral. Percebo ser cada vez mais frequente a publicação de livros como organizações de artigos e não de um livro como um trabalho mais aprofundado, que demorou de 10 a 20 anos para que a ideia pudesse ser bem amadurecida e desenvolvida. Isso parece estar cada vez mais em extinção. Na verdade, hoje um trabalho tão longo assim é até malvisto. Ainda não sei se é possível dar crédito a todo esse dinamismo que nos é imposto, ou se é preciso observá-lo com mais ceticismo.

Flashmob produzido pelo Arto Lindsay, “Somewhere I read”, no Time Square em New York.

Arto Lindsay também comentou que a partir da década de 90, quando a gravação de CDs caseiros de qualidade começou a ser facilitada, a “qualidade de atenção” das pessoas em geral com a música diminuiu muito. Não só algumas bandas estão muito parecidas musicalmente, como a própria diversidade de música disponível faz com que as pessoas dediquem-se primeiramente às faixas, aos singles, e depois, talvez, ao álbum se gostarem. Lindsay disse que antigamente ele “se dedicava a um álbum” e isso também está cada vez mais raro. Lisette apontou um paralelo entre a escuta e a leitura, entre essas dimensões que estão se perdendo (ou se transformando, talvez). “A literatura não é apenas silenciosa. Também estamos perdendo a escuta, a atenção para a escuta. Só é possível ler se você consegue ouvir”. Retomando uma discussão inicial, Lisette ainda lembrou que é preciso diferenciar a distração, que pode ser útil, da dispersão que geralmente é nociva e promove a superficialidade.

Se formos observar a história, essas ‘mudanças cognitivas’ marcaram a história da humanidade desde sempre. Quando inventaram a escrita, imaginaram que todo o conhecimento (que era transmitido oralmente e guardado na memória) se perderia. Uma vez que as pessoas não tivessem mais memória – pois a transmitiriam toda para o papel – o conhecimento não seria mais preservado e deixaria de existir. O mesmo tipo de pensamento ocorreu quando surgiu a mídia impressa. O dinamismo dos jornais eliminaria ‘a história’ e vulgarizaria tudo o que era sagrado. Nada disso aconteceu. O mesmo ocorre hoje na transição do suporte do papel para o digital: temos medo de perder o que até hoje persiste.

 

 

  1. O livro A casa de papel, de Carlos Maria Dominguez também apresenta um quadro como esse: uma casa construída com livros (http://www.skoob.com.br/livro/13091).

    Beijos,
    Adriana Ornellas

  2. Pingback: Fahrenheit 451 | Index-a-Dora

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