Parte 1 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Sobre os encontros dos Projetos de incentivo à leitura, fui em dois esta semana e apesar de ter no nome “projetos”, pessoalmente eu senti que mais se falou de mediação da leitura e de boas práticas do que da gestão de projetos propriamente dita. O que eu acho maravilhoso pois isso é raro de achar na área. A parte técnica de gestão é sim muito importante e nos ajuda a estruturar melhor qualquer projeto, mas a parte criativa de encantar as pessoas e trazê-las para o mundo da leitura, da literatura e da linguagem é muito mais atraente. É quase que literalmente o estado da arte da biblioteconomia, sem exageros.

A classificação do evento já indica À moda da casa, ou seja, o modo SESC de criar ações que atraiam público para suas bibliotecas. Os encontros estão sendo orientados pela Ana Luísa Sirota e pelo Francis Manzoni. Foram repassadas muitas informações nestes dois dias, vou tentar repassar por aqui alguns tópicos que me chamaram mais atenção.

Mesmo sendo uma organização nacional, o SESC dentro do escopo de suas atividades tem diferentes ênfases de acordo com a localidade. Em São Paulo, a ênfase é na área Cultural e de Artes. A questão do uso de diferentes linguagens artísticas para promover a leitura e a literatura foi bastante reiterada nas conversas. Embora existam diretrizes para os trabalhos, é desejável que nas ações o hibridismo entre diferentes linguagens artísticas seja viabilizado. O trabalho é sempre executado pensando na rede, em articulações e parcerias, promovendo a expansão de diálogos. Acredito que isso se torna não só possível como desejado por conta do contexto em que a biblioteca se encontra: um grande Centro Cultural.

Projeto #Tuiteratura, SESC Santo Amaro

Em se tratando de ações específicas com a literatura, existem 3 frentes de trabalho a serem seguidas: 1. Fomento à produção literária do livro (autores, editores, ilustradores e outros atores); 2. Ações culturais de incentivo à leitura; 3. Experimentações com a palavra e o texto literário, pensados enquanto linguagem artística. Durante a conversa, Francis disse que há uma pergunta que sempre é realizada para nortear algumas das ações: “onde é que as pessoas estão lendo?”. Essa é uma pergunta importantíssima, que todo bibliotecário deveria se fazer sempre. E em seguida ouvi “nós não deixamos a biblioteca em paz” e a intenção é, realmente, não deixá-la em paz, mesmo que algumas pessoas reclamem ou achem isso incomum para uma biblioteca. Ouvi também o seguinte conceito: a biblioteca como plataforma, vários suportes, várias linguagens para que a literatura possa assumir um papel público.

Para esta ação, vários autores convidados escreveram microcontos em 140 caracteres, que foram disponibilizados via bluetooth em algumas das maiores estações de metrô de São Paulo.

Um exemplo citado foi a instalação de poemas escritos em Portunhol Selvagem (arquitetura + literatura) nas paredes dos SESC de Pinheiros e Vila Mariana para a Mostra SESC de Artes em 2010. Outro exemplo é o Projeto Bibliotocas acontecendo no SESC Santo Amaro, onde há um fluxo maior de público. Há toda uma preocupação com os livros que serão disponibilizados a partir de editoras especializadas em livros infantis, tais como a Corraini, a Tara Books e a Planeta Tangerina. O projeto é simples e trata-se de uma intervenção de uma toca na biblioteca, com um recorte curatorial específico e mediadores fulltime. Além da presença em eventos externos, existem os eventos do SESC que ocorrem anualmente, como o Circuito SESC de Artes (interior do Estado) e a programação que é permanente. Foram repassados inúmeras ações, segue uma lista breve das que foram mencionadas na conversa: Tirando de Letra (Ribeirão Preto); De quem é essa história? (Araraquara); Encontro Marcado (Catanduva); Espaço Ler Escola (São Carlos); Clube de Leitura (SESC Carmo); Ateliê HQ (Sorocaba).

Ateliê HQ, SESC Sorocaba

Durante os encontros também ouvi falar muito sobre parcerias do SESC com outras instituições e com outros eventos. A organização será responsável pela programação da Bienal Internacional do Livro em 2014 e também marcará presença na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e na Balada Literária. Participam também de outros eventos literários como a FLIP e a Feira do Livro de Frankfurt. Relacionados a todo esse mundo literário, também existe a editora Edições SESC SP e o Prêmio SESC de Literatura. Mesmo com esta forte participação em eventos, Manzoni frisa que os eventos, por si só, não formam leitores. Ressalta que a celebração da literatura é importante, mas não é suficiente. Isso indica que a mediação, e não só, mas a qualidade da mediação e a forma como ela é realizada condiz mais com os objetivos da instituição como um todo: aprendizagem informal, ampliação de repertório e estímulo a leitura.

Há algum tempo atrás eu escrevi sobre isso de que brasileiro não gosta de ler. Em agosto encontrei online um artigo muito interessante que também se pergunta sobre as livrarias cheias e as bibliotecas vazias, leitura como consumo versus transformação social. Sabemos que a mediação mercadológica existe e é muitas vezes ditada pela cultura de mídia e das livrarias (que utilizam linguagens restritivas e limitadas, visam ibope, quantidade, metas de venda, etc). Já a biblioteca, como certa vez já ouvi deve ser o lugar da exceção e não o da regra. Os best sellers e livros de auto ajuda continuarão a ser oferecidos, mas a biblioteca tem a obrigação de ir além disso e de mostrar ao seu público algo que não apenas os entretenha, mas uma experiência que de fato tenha um significado, transmita algo novo, que os retire do lugar comum.

Bem, por hora foram estas as conversas e reflexões que tive nos dois encontros. Os outros 2 encontros aconteceram nos dias 5 e 6 de novembro e foram registrados na Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o Caso BiblioSesc.

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