Bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades

Post traduzido do blog do R. David Lankes. Título original: Beyond the Bullet Points: Bad Libraries Build Collections, Good Libraries Build Services, Great Libraries Build Communities

Cá está o tweet que levou a este post:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços (dos quais uma coleção é apenas um deles). Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Devido à limitação dos caracteres foi muito retwittado sem o conteúdo dos parênteses:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços. Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Entendemos que esta última é mais impertinente, mas aparentemente também é mais controversa. Houve um número de respostas dizendo que bibliotecas excelentes também deveriam criar coleções. E eu achei que valia a pena adicionar um pouco mais de nuance e profundidade à discussão para além de 140 caracteres, então cá estamos.

Antes que eu me aprofunde, se você é do tipo auditivo e visual (N. da T.: e tenha inglês fluente), eu falei muito sobre os pontos que irei abordar nesta apresentação:

http://quartz.syr.edu/rdlankes/blog/?p=1406

Agora, de volta ao tweet.

Primeiramente, não há nada que diga que diga que bibliotecas boas ou excelentes não possam ou não devam construir coleções. É uma questão de foco. Se bibliotecários se preocuparem exclusivamente ou desproporcionalmente com a coleção, isso é ruim. E isso surge de várias formas. A primeira é óbvia: aquisições com pouca ou nenhuma participação dos membros da comunidade. Você está adicionando este item à biblioteca porque ele está nos bestsellers do New York Times ou foi isso que algum intermediário enviou? Ruim. Se você não está olhando para dados de circulação, não está conversando com a comunidade, não está pesquisando em bases de dados: ruim.

Sou lembrado disso nas atuais discussões sobre ebooks. Existe muita discussão se bibliotecas deveriam ou não estar comprando ebooks. Alguém perguntou o que eu achava disso e eu disse que taticamente os bibliotecários deveriam criar o seu próprio ebook que traria muito valor aos autores, e; dois, perguntar à sua comunidade. Se você está planejando boicotar ou simplesmente não adotar ebooks, você já teve essa conversa com o seu público? A comunidade acha que é um mau negócio o que as editoras estão propondo? Para eles está ‘tudo bem’ não existir esse tipo de serviço na biblioteca? Notem que isso não é perguntado ingenuamente, mas tendo uma conversa real onde você está apresentando um argumento e mostrando à comunidade o contexto como um todo e então ouvindo o que eles têm a dizer.

Se estamos falando de foco, qual é a diferença entre bibliotecas ruins e boas? Bibliotecas boas têm foco em seu público. Isto é, eles valorizam a utilidade da coleção de acordo com as necessidades de seus usuários. O que as pessoas querem em termos da coleção e como isso se equilibra com todas as outras coisas que as bibliotecas fazem (referência, programação, fontes digitais, instrução, etc). Aqui não apenas observamos dados do público como circulação e etc., mas a experiência das pessoas como um todo.

Uma vez houve uma discussão entre os professores aqui em Siracusa se devíamos ou não ensinar desenvolvimento de coleções. Era (e ainda é) parte de uma aula que tem o título “Planejamento de bibliotecas, Marketing e Avaliação”. O instrutor na época não gostava de lá. Como garimpagem e marketing andam juntos? Bem, verifica-se que as perguntas que você faz sobre coleções são utilizadas para qualquer outro serviço: quais os objetivos? Como é utilizado? É fácil acessar (e avaliar)? A coleção é um serviço como qualquer outro – precisa de orçamento, planejamento e um motivo para existir.

Boas bibliotecas entendem que no momento que você agrega valor à experiência do usuário você está colocando um serviço à prova. Colocar livros na estante? Um serviço. Catalogar? Um serviço. Garimpar informações? Um serviço (poupar o tempo do usuário e eliminar o rápido acesso à informação datada). Eu sei que todas essas coisas estão empacotadas como “coleção”, mas ao separá-las do todo podemos melhor avaliá-las e melhor cumpri-las.

rdlankesEu escolho o termo “usuário” com cuidado nesta parte da discussão porque eu acredito que é isso que separa o bom do excelente. Veja bem, uma boa biblioteca vê a coleção como um serviço e no entanto monitora e planeja o seu uso. Uma excelente biblioteca vê a coleção apenas como ferramenta para empurrar uma comunidade para frente, e mais que isso, eles veem a biblioteca como plataforma para que a comunidade tanto consuma quanto produza. Os membros da biblioteca são coproprietários da coleção e de todos os outros serviços oferecidos pelos bibliotecários. Os serviços de biblioteca são parte de um “ecossistema” mais amplo onde sim, os membros (usuários) estão consumindo informação, mas também estão produzindo, trabalhando, sonhando e brincando. Este é o foco de uma biblioteca excelente. Eles entendem que o material que uma biblioteca abriga e adquire não é sua verdadeira coleção – a comunidade o é.

Então, bibliotecas boas, ruins, excelentes, feias tem coleções? Sim. Mas as bibliotecas excelentes percebem que a coleção não é o que está nas estantes, mas o público e seus mundos. O foco é no desenvolvimento de conexão, não no desenvolvimento de coleção. Existirão coleções a serem desenvolvidas? Provavelmente, mas estas coleções podem ser de links, de escaneamentos digitais, livros, materiais de construção, equipamento de produção de vídeo, tempo de performance num palco e/ou especialistas.

Isto está claro nas discussões nos cursos de biblioteconomia. Enquanto distritos pelo país estão desligando bibliotecários escolares, eles geralmente citam que os horários de atendimento das bibliotecas não irão diminuir. “Nós podemos manter as portas das bibliotecas abertas com todos os serviços que elas dispõem ou com os atendentes do prédio”. Eles ignoram os dados que mostram que são bibliotecários certificados, e não horas de atendimento, ou a coleção, que aumentam as notas nos testes e a retenção de alunos. Bibliotecários, e não bibliotecas, fazem a diferença.

Mais uma vez, o bibliotecário escolar usa a coleção? Certamente, mas grandes bibliotecários escolares têm coleções de lições que ensinam, equipes de estudantes que auxiliam os professores com tecnologia e coleções de boa pedagogia. Quer poupar verba em uma escola? Feche a biblioteca e contrate mais bibliotecários.

Esse tweet não foi um pedido para se jogar fora coleções de materiais – há grande valor neles – mas para mudar o foco e perceber que o valor não vem dos artefatos, mas na habilidade de melhoria da comunidade. Este valor pode vir de bases de dados licenciadas na academia. Pode aparecer ao mandar contêineres cheios de livros de papel à uma comunidade rural africana. Pode vir de materiais sobre genealogia em uma biblioteca pública, ou coleções especiais no Ivy League. Mas para algumas comunidades pode vir do rico conjunto de fontes abertas e acessíveis via dispositivos móveis ou, cada vez mais, artefatos, ideias e serviços criados pela própria comunidade.

Grandes bibliotecas podem ter grandes prédios, ou prédios feiosos, ou nenhum prédio sequer. Grandes bibliotecas podem ter milhões de volumes ou nenhum. Mas excelentes bibliotecas sempre tem grandes bibliotecários que engajam a sua comunidade e ajudam a identificar e a preencher suas aspirações.

8 pensamentos sobre “Bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades

  1. Parabéns pelo magnifico artigo. Uma boa biblioteca resulta de um conjunto de coisas: bom prédio, boas coleções (impressas e virtuais), mas acima de tudo de excelentes bibliotecários interessados na sua área de atuação, que saibam atrair os seus usuários, pelos seus conhecimentos da área, da sua delicadeza de abordagem e colaboradores na pesquisa dos seus usuários.
    Francis Sierra Hussein

  2. Gosto da visão do autor e me pergunto se ainda dá tempo de seguirmos o caminho que ele aponta. Já temos bibliotecários que entendam o que está acontecendo no mundo em quantidade suficiente? Olhando em volta, tenho minhas dúvidas. E, se não tivermos, vai dar tempo de formá-los? Quanto à participação dos usuários, tenho minhas dúvidas de eles realmente querem isso. Há anos que digo uma frase parecida com a que Lankes diz no texto: “A biblioteca é de vocês, não é minha, não é do diretor nem do reitor”. Em geral recebo de volta olhares incrédulos e entediados que parecem querer dizer: “É mesmo? Pensei que o problema fosse seu, que é paga para cuidar dessa droga”. Talvez a distância entre bibliotecas e comunidade já esteja grande demais, por culpa nossa, mas não só. Enfim, não liguem pra mim, sou apenas uma velha que sempre trabalhou na USP, um local com suas histórias.

  3. Então, tenho que entrar com um relato meio pessoal.
    Depois de 12 anos trabalhando em bibliotecas públicas e há duas semanas fora da área, posso dizer que a discussão deste artigo por essas bandas é um despropósito total. Explico isso a seguir.
    Apesar de ver umas ações aqui e outras acolá, muito escassas em geral, não há diálogo efetivo com os usuários nessas institutições. Talvez exista nas bibliotecas comunitárias, mas somente quem está ligado a elas e quem participou do último evento ocorrido em São Paulo possa dizê-lo.
    Infelizmente, os centros de decisões das bibliotecas ainda são centralizados nas coordenadorias das redes, nas salas dos chefes ou entre a equipe, isso quando conseguimos implantar uma reles discussão deste âmbito (autocrítica isso, inclusive). Por tradição e devido a décadas de ditadura ainde recente e de um regime secular dos donos do poder, o diálogo interno e principalmente o externo ainda é um desafio por aqui.
    A análise de dados de circulação, estudos de usuários, são puras miragens e quando acontecem são logo deixadas de lado, diante da corre-corre para resolver problemas ou cobrir falta de pessoal.

    Por fim, destaco esse trecho de sua ótima tradução Dora:
    “Uma excelente biblioteca vê a coleção apenas como ferramenta para empurrar uma comunidade para frente, e mais que isso, eles veem a biblioteca como plataforma para que a comunidade tanto consuma quanto produza”.

    E comento dizendo o seguinte: infelizmente, por falta de visão de Governo, por falta de criatividade do profissional, o sistema que atualmente estimula tanto o consumo como a produção são os programas de fomento, sejam eles os VAI (http://www.programavai.blogspot.com) da cidade de SP, os Pontos de Cultura e os editais para Bibliotecas Comunitárias do governo federal e até programas como o PROAC do governo do Estado de São Paulo, entre outros.

    No fundo, vejo que vários programas e projetos como estes poderiam ter as bibliotecas públicas (bem como centros culturais e outros) como base ou incentivadoras de discussões e criação cultural para o desenvolvimento do chamado mercado cultural, mas como as bibliotecas públicas exercem basicamente, e mal e porcamente, as funções de aquisição, empréstimo e consulta de livros, mais umas atividades culturais bem chinfrins, os governos tiveram que criar esses mecanismos centralizados.

    E com isso, a ótima idéia do Luís Milanesi em seus escritos, principalmente na Casa da Invenção, de ter a Biblioteca Pública como Centro Cultural e pólo irradiador de cultura e informação foram por água abaixo e não serviram para nada.

    Tanto que o mesmo Milanesi, outro dia me deu um pito (correto) por abandonar as bibliotecas e migrar para a área de projetos culturais como estou fazendo, pois, estando errado ou certo, hoje é aqui que vejo a interação com a comunidade tão propagada acontecendo, onde as pessoas recebem os recursos para ler, estudar, criticar e criar novo conhecimento de fato, e quem sabe, de alguma forma, entendendo isso eu possa um dia retornar e demonstrar que esse deveria ter sido o caminho trilhado pelas Bibliotecas Públicas brasileiras.

    Com tanta coisa acontecendo, assim como a Marina, em um momento de mega pessimismo, acho que já era, perdemos o bonde da história.
    A única saída será Bibliotecas “mais evoluídas” como a BSP conseguir ditar novos rumos, mas mesmo ela ainda precisa mudar mais e mais.

    É o que penso…..

  4. Republicou isso em Blogs literários e de bibliotecários e comentou:
    O foco de uma biblioteca excelente é no desenvolvimento de conexão, não no desenvolvimento de coleção.
    Exatamente por estar distante disso as bibliotecas públicas brasileiras estão fora dos sistemas de produção cultural, dos movimentos sociais e de lutas por direitos e acesso à informação.
    Essa luta toda, na visão deste ignóbil, migrou para editais culturais (PROACs, Pontos de Cultura / Memória / Leitura, VAI – Programa para Valorização de Iniciativas Culturais de SP e de Bibliotecas Comunitárias).
    Ou seja, a proposta de Bibliotecas como Centros Culturais receptores e irradiadores de cultura, educação e informação sonhados por gente como o Luis Milanesi em seus escritos de décadas atrás foram deixados de lado u sucumbiram diante da falta de políticas públicas para bibliotecas e por falta de criatividade de nós profissionais, eu dentro…..

  5. Acho que a grande virtude deste post é ensejar uma reflexão mais elaborada sobre o papel, ou a missão, das bibliotecas. Também nos forçar, a todos os profissionais de bibliotecas, a ampliar a percepção que temos de nosso trabalho. Há algum tempo me dedico a refletir sobre estas questões, mas confesso, nunca antes tinha me atentado para a armadilha do reducionismo do termo “usuário”.
    Cada dia, leio um pouquinho mais do post, incluindo aí os comentários do WillOK, do Francis e da Marina, para as colegas da Biblioteca DEMONSTRATIVA, onde trabalho há mais de 18 anos, refletindo sobres os limites auto impostos (usuários, perdão, membros e funcionários) da missão de biblioteca.
    A missão originária da Biblioteca DEMONSTRATIVA era ser muito mais do que um exemplo, um modelo. Sua criação, em 1970, para ser a vanguarda das bibliotecas públicas do país, foi uma proposta ousada e revolucionária à época. Continua sendo, já que não se consegue realizar a missão a contento em função de todas as travas já citadas no comentário de WillOk . Tenho também a convicção que bibliotecas, em geral, e bibliotecas públicas, em especial, podem e devem ser muito mais do que se preconiza “por essas bandas”.
    E, para incrementar o debato, gostaria de acrescentar que outra armadilha reducionista é focar em informação em detrimento de conhecimento, notadamente quando o foco não é só o consumo e sim a produção. Mas isso é pano para outras mangas…
    Anamaria Souza

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