E aí, biblioteca pra quê?

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Fotografia: Bruno Pires

Fizeram esta pergunta para o Marcello Gugu e ele disse que pensou alguns dias para respondê-la. A resposta veio em 7 textos que foram declamados dia 08/11 no seminário “E aí biblioteca pra quê?” e que publico a seguir:

(1) Sócrates

Sejam bem vindos a cúpula dos pensadores com pó de giz entre os dedos, cigarros sobre as orelhas e o perfume feito da mistura de cachaça barata e desodorante vencido, dando um cheiro ocre a filosofia e a ciência moderna. Eu venho da onde cada bar é um liceu, um laboratório e um ateliê. Onde a divina comédia de Dante Alighieri ganha vida a cada noite, e o auto da barca do inferno reflete o caráter de cada bêbado e solitário. O bar, onde o fundo dos copos, são a luneta de Galileu e os números da lousa que contam os pontos da sinuca, são equações que desafiariam Baskhara. Cada bar, o mito da caverna exposto ao mundo, onde penso, logo, existo, é bebo, logo, desisto e Descartes troca as palavras onde a mais complicada das filosofias, é diluída com doses de maria mole e bomberinho. O lar da psique depressiva, a escola de Frankfurt do gueto e aonde a razão pura de Kant se perde quando descobre o amor platônico por uma vida melhor. Cada gota de álcool é a retórica de Aristóteles e convencia os homens de que de cada alcoólatra deve ter um amor pela vida tão libertário quanto Sartre. Cada bêbado, uma caixa de pandora cujo olhar é a maiêutica um é um iluminismo em ascensão. A embriaguez era catarse, o aflorar das emoções e cada bêbado provava que Pitágoras estava certo quando geometricamente viam o mundo girar 360 graus, num teorema de semi-coma alcóolico. Assim falou Zaratustra, ponha Guilherme Arantes no karaokê. Eu tinha oito anos e conheci a mais pura filosofia. Meu tio Kiko, por exemplo, era Sócrates. Indagava sobre a vida como ninguém, colocava suas palavras no colo do vento e as espalhava pelos quatro cantos do mundo, fazendo ditos populares se transformar em frases de Confúcio. Tinha uma mente brilhante e era capaz de transformar qualquer experiência em uma lição valiosa, dizendo que se deve dar mais valor à procura do que se não sabe, do que transmitir o que já se pensa saber. Era pobre. Era frustrado. Cada bar, onde Ânito era frustração, Meleto era comodismo e Lícon era boemia, os 501 cidadãos que o condenaram a morte foram os espectros da solidão e do alcoolismo. Morreu sem saber ler. Cicuta feita de cana e Sócrates morre de cirrose.

(2) Baobá.

Escravos escreviam em grilhões nos cantos dos tumbeiros. Eles usavam a ferrugem para imprimir nos nós das correntes pedaços da sua história. Utilizavam a unha para tirar a crosta marrom das amarras e nos vãos limpos do aço, o balançar do navio, moldava a caligrafia de seus contos. Onde Deus era o La Amistad, o olhar de cada escravo tinha o reflexo do semblante do último sobrevivente de canudos, cujo único medo era de que, a história daqueles homens e mulheres fosse esquecida. O coração deles era Montezuma. Cortez não foi cortês e as pústulas de Varíola são as saudações do mundo novo aos corações partidos pela ganância. Cada escravo era Dorothy Stang lendo Corinthios enquanto o executor carregava a arma e nosso banzo, estampavam nas bocas cartazes iguais aos das mães de maio. Cada porta do tumbeiro soava como o barulho de uma escopeta, vindo da parte de trás da casa de Chico Mendes e cada onda fazia o navio parecer o karman guia de Zuzu Angel capotando. Os grilhões, Wladmir Herzog no Doi Codi, lembravam aos presos que a liberdade é uma ilusão num mundo onde justiça é uma planta que floresce bem apenas nas sombras da impunidade. Um dos homens em Yorubá, antes de se jogar ao mar, diz: Cada vez que um velho morre, perde-se uma biblioteca. Nossa tradição oral é Griot, portanto, livros me ensinaram ler pessoas. Eles irão nos confundir com maias, olmecas, com bantus, ashantis, guaranis, kaiovás, mas o que mais me entristece é saber que enquanto os leões não tiverem contadores de histórias, o mérito das caçadas será sempre do homem. Pra eles essa é a arca de Noé e nós somos os leões. Espanhóis e portugueses serão heróis nos livros. Salgueiros chorões tem esse nome por que nas árvores na frente deles, a KKK enforcavam os jovens negros no Mississipi. Nosso Harlem se chamava Serra Pelada e panteras negras foram quilombolas. A noite todo gato é pardo, mas pra PM pardo é preto. E Otávio Gambra, o Rambo é herói. Minha Rosa Parks foi uma professora, meu ônibus Montgomery era 174. Um erro do Estado e quantos se lembram do nome daquela que foi alvejada quatro vezes em rede nacional? Telhada é herói. Capitão nascimento é ovacionado no cinema. Conti Lopes é exemplo. Amarildo não. Na maioria dos livros de história os heróis populares não existem, e se existem são enterrados nas covas rasas dos rodapés. Os conselhos que seus pais lhe dão são mais velhos do que seus avós. E a professora se chamava Geisa.

(3) São Pedro

Pedro foi um dos apóstolos de Jesus segundo o novo testamento, um dos primeiros discípulos a reconhecer Cristo como filho de Deus, tinha uma devoção e fé inabalável, e foi um dos únicos a acompanhar Jesus, quando este foi preso. Quando Cristo foi colocado na cruz, Pedro, por amar demais não aguentou ver seu mestre naquele estado e saiu para chorar. As pessoas, ao perceberem isso, o abordaram e Pedro, negou cristo três vezes antes do amanhecer. Apesar da palavra não em sua boca ter gosto de fel, jamais em seu coração negou ou amargou sua fé. Pedro foi levado ao circo de Nero, foi crucificado de ponta cabeça, pois não tinha queria se comparar com Jesus nem na hora do seu fim, e no lugar onde morreu foi construído uma basílica, que fica dentro do Vaticano. No que você acredita mais: Em armas ou em livros? Eu conheci pessoas que também negaram Cristo. Meus amigos, o sonho do toque de Midas, a brisa vinda do terraço no palácio de Escobar e o cheiro das notas vindo do quarto dos fundos da casa de Abadia. Enredo leigo da vida e sonho efêmero. A pergunta é: no que você acredita mais, em cinzas ou em pó? bem, Cinzas não dão dinheiro. A ignorância é como Charles Manson, ela não atira, convence o atirador a apertar o gatilho. Amigos partem todo dia. Se nasce sozinho. Se morre sozinho. Hoje temos na mão a chance colocarmos o conhecimento como religião, Cristo, que pode ser partilhado, como um livro e o ensinar como um ato de fé. Eis minha sugestão: Que esses meninos que negaram cristo se tornem exemplos de que o conhecimento poderia ter feito á diferença. E eu não falo de santificar criminosos e sim de mostrar que existe outro caminho. Que cada jovem que se desviou tenha a chance de reparar seus erros, mesmo depois de serem cobrados pela lei do mundo. Entregamos a memoria de um que perdeu a vida no crime a São Pedro, e que, em cada local que um deles morreu se erga um templo chamado biblioteca, e que este tenha a magnitude de um Vaticano. Uma biblioteca pra cada jovem que perder a vida no crime. Ensinar por amor.

(4) Milagres

Dizem que virgens que choram sangue são consideradas milagres, então posso deduzir que a filha da minha vizinha deve ser santa, pois sangra de 3 a 4 vezes cada vez que o padrasto a toca. Ela tem 9 anos. Nenhuma igreja quis canoniza-la. Ninguém acreditou nas historias dela. O bicho papão existe. E mora no quarto ao lado. Seu silencio é uma burca. Tao brutal quanto mutilação genital. Ela é Asha Haji Elmi e sua libido foi cortada centímetro por centímetro com um caco de vidro. Quando vê seu padrasto se aproximando é Emily Davison vendo o cavalo do rei Jorge no Derby Epson, seu voto é por castidade, e se jogaria na frente do animal, sem pensar. Jack Estripador tinha mais compaixão. Existem coisas piores que a morte. Ela gostava de maquiagens. Viu o punho do seu padrasto, pintar em seu rosto, sombras em tons de lilás que nem Djavan imaginou quando escreveu a canção. A cor púrpura foi inspirada em seus hematomas. Alice Walker vive em suas cicatrizes. Sua esperança é Waris Dirie e queima em seu peito como sutiãs e pontas de cigarro. É uma flor no deserto, cujo olhar é Abeer Qassim Hamza na frente dos 5 soldados americanos que a transformaram numa nota de rodapé nos autos dos crimes de guerra. ‘Ninguém perguntou, nós não falamos’. Iraque deve ser seu quarto, pois nada do que acontece lá o mundo fica sabendo. Suas unhas eram teboris, com elas criava verdadeiras obras de arte na tentativa de arrancar da pele o cheiro do seu padrasto. Seus sonhos, tratados como as bruxas de Salem, queimavam como Pearl Harbor e ela sabia que havia perdido mais um pois, por dentro queimava como fogo e por fora pingava denso como vela. Sangue. Ouvir sua voz é quase que o mesmo que ver uma criança com asperge recitar sheakspear ou ver um velho com labirintite andar numa corda bamba atravessando um grand canyon. Numa paz talibã, cada vez que dizia algo, seu coração que era Maria da Penha se transforma em Amina, a afegã, e o apedrejamento era inevitável. Cada tapa soava como as trancas das portas da fábrica de tecidos Cotton, hoje, 8 de março ela foi sufocada. Silencio não é consenso. Sua historia se repete em outros corpos, em outras casas, em outras comunidades. Uma mulher é estuprada a cada seis minutos. A cada 18 segundos uma mulher é espancada. Três em cada quatro mulheres serão vítimas de pelo menos um crime de violência durante a sua vida. Apenas 50 por cento dos estupros são comunicados e nunca daqueles relatados, inferior a 40 por cento irá resultar em prisões. Essa é sua historia. Não a deixe morrer.

(5) Queima de livros

10 de maio de 1933 – Berlim.

Minha mãe me disse que íamos assistir a uma peça, um drama. Fomos até o centro de uma praça. Vi os primeiros caminhões chegarem. Nunca tinha visto uma fogueira daquele tamanho. Enquanto os homens bradavam saudações ao Fhurer, os livros queimavam e as cinzas se misturavam com a garoa fina que caia. Foi a primeira vez que eu vi neve cinza. Crianças brincavam com aquela mistura fazendo bonecos e anjos. Os anjos tinham a cor de chumbo, talvez essa fosse a coloração que os anjos caídos que a bíblia diz tinham. A praça da Ópera em Berlim agora criou um novo fantasma. Ele canta como fogo. Sua voz era Julio Cesar plantando a chama no primeiro livro em Alexandria, a primeira leva de bombas que beijou com intensidade as paredes da biblioteca em Saravejo, bufava como um avião Lancaster abrindo as portas do inferno em Dresden, fazendo com que o calor derretesse as letras transformando os livros de histórias em paginas em branco. era Videla destilando ódio sobre Antoine de Saint-Éxupery. Seus olhos são um genocídio culural. E eu era o pequeno príncipe. Tarde da noite, a luz da lua, a ultima noite branca, se os livros fossem pessoas, voce se sentiria no meio Jonestown assistindo Jim Jones injetando veneno em crianças e pondo fim em 918 sonhos. Cada cidadão que atirava um livro, era saudado como Nero, bem vindos ao grande incêndio de Roma!! A chuva que caia era resultado da bronquite das nuvens por causa da fumaça. Já num plano maior, era a tentativa do céu devolver a historia daqueles livros pra terra. Porem, em vão. A névoa era sufocante, e na minha frente ardia em febre o edifício Joelma, feito de madeira, livros, querosene e ignorância. Joana darc chora. Salvei um livro. Se tornou meu melhor amigo. Até o trem parar em Belzec. Hora do banho.

O livro foi encontrado alguns anos depois quando desativaram o campo de concentração. A única pagina legível tinha a seguinte frase: onde se queimam livros certamente se queimarão pessoas.

(6) Um professor afegão ensinando sobre História:

Ele risca uma frase numa lousa feita de areia. Diz para os alunos escreverem abaixo da dele, a mesma frase. Um por um escreve. Ele mostra as frases, uma diferente da outra e diz que apesar do contexto ser o mesmo e das palavras se parecerem, os grãos de areia fazem com que cada versão da história seja, em detalhes, diferente. Cada uma das escritas foi feita de uma forma, algumas mais bonitas, outras menos, algumas maiores, outras menores, o ponto é que, o vento e a areia se transformam, assim como as histórias quando são contadas. Muda-se a estética, a forma de se contar, mas a essência, essa permanece, até mesmo quando alguém não escreveu. Não estar lá, não significa não exisitir. Significa não estar presente ou não se fazer visível. Por exemplo, os cachorros tem uma audição muito mais sensível que a dos seres humanos, eles ouvem coisas que nós não ouvimos e através da audição percebem coisas que não percebemos. Não ouvir não significa que o som não existiu, pode significar que nós não percebemos. Quando uma criança abre um livro, ela faz o que Beethoven fazia com o piano depois de ficar surdo. Ela deita no chão com seu ego despido de vaidades insignificantes, lê as palavras em voz alta e as transforma em vibração. As frases passam pelo seu corpo, Benjamin Franklin numa descarga de energia e, como em de volta para o futuro, é transportada para dentro daquilo que está lendo. Um livro, a exposição de código pré-definidos pela gramática, um zoológico de fotografias analógicas, tem o cheiro da casa de vó e se falasse faria cada frase soar como Chet Baker interpretando Paulo Freire. Cada palavra é Piaget, os nomes da lista de Schindler e o diário de Anne Frank escrito por Helen Keller. A leitura é magia, David Cooperfield transformando a cartilha Pipoca nas cartas filosóficas de Voltaire e Houdini utilizando palavras, pintar o imaginário infantil, transformando os contos de grimm em uma produção de Steven Spielberg. Sem sonhos não existem contos de fadas. Cada letra que uma criança aprende é como se Dom Quixote a chamasse para uma aventura e cada livro que uma criança descobre é como se ela tivesse encontrado girassois em Treblinka. Quanto mais ela entende o que lê, mais entende que, opressão é cortar os olhos de um povo e faze-los acreditar que a escuridão é mais bonita que a luz. Cada biblioteca é um altar. Venera-se os deuses da sabedoria em silencio. Os sussurros entre a boca e as palavras cria uma espécie de transe e nossa oração é assim: que uma revolução nasça cada vez que uma criança complete uma palavra, que professores sejam libertários por natureza e que todo ato de educação seja um ato político. Que a escrita nos liberte. Amém Paulo Freire.

(7) 0.9

O que vocês acabaram de ouvir foram problemas comuns dentro das comunidades. A violência contra mulher, o abuso policial, o crime, a falta de infra-estrutura e de núcleos culturais dando espaços para bares e biqueiras, a falta de interesse e o descaso das autoridades em relação a levar cultura e conhecimento para dentro das periferias e a desvalorização do profissional da educação, que luta para que o povo tenha acesso a uma vida melhor através do estudo. Cada biblioteca representa uma chance. Quem vem da onde eu venho está acostumado a conviver com 99 por centro contra. Nos dê esse um por cento. Nos dê a chance de escrevermos novas historias. O ontem é passado, o amanhã se constrói hoje, o presente é uma dádiva e um livro pode salvar vidas. Na minha cintura eu tenho uma nove milímetros. Cabe a vocês escolherem se vai ser uma Glock ou uma Pentel. A decisão é de vocês.

  1. Francis Sierra Hussein

    Fabuloso!!!!!

  2. Reblogged this on Campito Informativo and commented:
    E aí Biblioteca para que? Seria bom se cada visitante deixasse sua opinião. Que tal?

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