Haverá futuro? Já está tendo

Eu ia fazer este comentário no post do Gustavo no BSF, O futuro da biblioteconomia (Oi Gustavo!), mas ele ficou muito longo então decidi publicá-lo aqui. Algumas afirmações que o Gustavo fez me inquietaram e eu resolvi inventar de pensar sobre elas.

O que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor (ainda)?

Coloquei o ainda entre parenteses porque se a gente for pensar em ficção científica, no futuro não haverá o que as máquinas não façam melhor que nós. Inclusive emular afetos (alguém lembra do filme “Her”?)

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Pareço apaixonado, mas estou aqui, pensando em quando não vou mais precisar catalogar, classificar e indexar.

Enquanto este dia não chega, minha resposta pessoal e atual é a seguinte: nossa semântica ainda é superior a das máquinas e temos a capacidade de imaginar e dar significado às coisas do mundo (dados, informações e principalmente afetos). Uma máquina – ainda – não é dotada de afetividade. Regras não se criam sozinhas: ainda são criadas e entendidas por humanos para assim serem ensinadas às máquinas que as executam (mesmo em se tratando de inteligência artificial).

O que não pode acontecer é a catalogação, classificação e indexação serem superestimadas (já traduzi texto sobre isso também, Ontologias são superestimadas, do Clay Shirky) em detrimento do contexto e do significado. Mas acredito que podemos continuar estudando essas disciplinas e entendê-las em outros contextos, para que elas nos possam ser úteis e para que possamos trabalhar com elas de uma forma que seja melhor aproveitável. E acredito que isso possa ser feito.

Se isso deixar de ser, vamos supôr: se essas “matérias duras” deixarem de ser efetivamente estudadas e ministradas, a área não corre o risco de descaracterizar-se e se tornar um curso genérico? Vai virar uma administração/gestão apenas? Vai virar soft programming? Vai virar o quê? Uma área interdisciplinar sem denominação definida? O que vocês têm para substituir, efetivamente, a biblioteconomia? Gestão da Informação? Várias tentativas de acabar com a biblioteconomia tem sido realizadas ao longo dos anos e até então não vi nada acontecendo.

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A biblioteconomia acabou. O mundo está automatizado. Ninguém mais precisa de livros, nem de mediação para absolutamente nada. O que nos resta? O que será de nós?

Sou a favor da crítica, mas não gosto de discursos muito apocalipticos. “A internet matou a TV”, “O rádio morreu”, “a biblioteconomia acabou”. Prefiro dar tempo ao tempo e só afirmar coisas quando elas efetivamente acontecem, jamais antes disso. Imperativos forçados não são suficientes pra explicar um contexto que geralmente é mais complexo do que conseguimos imaginar. Ou talvez sou eu que sempre insito em ver o copo sempre meio cheio. Ouço que “a biblioteconomia está com os dias contados” desde que tive a intenção de fazer o curso, há coisa de 10 anos atrás. Estou esperando até agora o curso acabar e curiosamente vejo o oposto: não termina, mais turmas são formadas e a profissão, apesar de todos os pesares, está sendo popularizada. Pessoalmente, acho isso positivo.

Toda vez que alguém cria uma ontologia morrem vagas de bibliotecários.

Desculpe mas eu discordo.

Bibliotecários podem saber programar? Sim e pode ser excelente quando sabem. Mas bibliotecários não são programadores.

E discordo porque o que tenho vivenciado profissionalmente é bem diferente do que o que essa frase diz. Bibliotecários – se bem formados e que tenham um interesse real na profissão – possuem o mindset necessário para conversar de igual pra igual com outros profissionais de tecnologia, oferecendo insights que geralmente não são o foco de quem é de TI, por exemplo. É uma questão de perfil profissional: programadores entendem ontologias e a própria organização de dados e de informação de forma completamente diferente de bibliotecários, desconsiderando uma série de fatores de busca e pesquisa por parte dos usuários (User Experience é parte disso).

Catalogação, classificação e indexação não devem parar de ser ensinadas. Devem ser MELHOR ensinadas. E isso é dramaticamente diferente.

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Classificação, catalogação e indexação são atividades que podem ser utilizadas em outros contextos, não apenas em bibliotecas.

Programadores são de exatas: se preocupam com o input e raramente se preocupam com o output, com a outra ponta humana que busca a informação. Eles estão bem mais preocupados com definições de regras e de aterem-se a elas do que nós, inclusive. A definição de regras pra um algoritmo jamais é imparcial e é enviesada pela visão de mundo de quem o cria. Se essa é uma visão exclusiva de TI, ela torna-se quadrada e tendenciosa, desconsiderando outros aspectos importantes na busca e no que chamam de encontrabilidade da informação.

Bibliotecários e outros profissionais (que entendem de SEO e também linguística) podem fazer a ponte com programadores entre algo que é estático e exato e torná-lo mais acessível, explorando outras possibilidades. No meu trabalho observo isso diariamente e minha equipe desenvolve pesquisa justamente para refinar e melhorar o que seria uma ontologia (ou taxonomia, enfim), tendo em vista principalmente a otimização do negócio.

Novamente: organização da informação, hoje, mais do que jamais foi, é trabalho de bibliotecário sim!

Ainda mais se considerarmos o meio digital. Ouviram falar que a Apple contratou curadores humanos para substituir o aplicativo de recomendações? Por que uma empresa de tecnologia de ponta faria isso? Meu chute é porque humanos ainda são relevantes para humanos.

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Aprender uma coisa não impede que você continue aprendendo outras e inclusive aprendendo melhor.

Pode não ser o trabalho tradicional de bibliotecário como o conhecemos (como já escrevi no BSF o post Bibliotecários Lato e Strictu Sensu), mas posso dizer com toda a certeza que se eu não tivesse um verdadeiro interesse em compreender de fato as teorias sobre organização da informação, eu jamais teria insumos suficientes pra entender e fazer o que faço hoje em dia. Jornalismo não me ensinaria o que Biblioteconomia me ensinou, por exemplo.

Acredito que o currículo do curso precisa mudar? Sim, bastante.

Acredito que existe tecnofobia na biblioteconomia? Existe muito.

Mas também isso não me inviabilizou em nenhum momento em ter interesse pelo assunto.

O que acontece, hoje, é o que o aluno de biblioteconomia ao invés de poder aprender sobre tecnologia logo durante a graduação, precisa ter um duplo-esforço: aprender apenas a teoria na graduação, aprender sobre tecnologia apenas no mercado e literalmente se virar pra fazer a ponte entre estes dois mundos. Isso é tanto um desafio (pois a pessoa inevitavelmente acaba aprendendo mais coisas e inclusive se desanimando com o curso no meio do caminho) quanto uma bela de uma gambiarra acadêmica (pois os cursos definitivamente já precisariam estar atualizados e ter melhor qualidade).

Devemos estudar mais psicologia e menos linguagens documentárias.

Discordo novamente.

Uma coisa não exclui nem mesmo invalida a outra. Devemos estudar mais psicologia E melhores linguagens documentárias, pois elas estão interligadas.

Devemos estudar sobre qualquer assunto que nos interesse (inclusive catalogação, classificação e indexação, se assim o quisermos) e agregue ao que já temos domínio. Não acho bom vetar nenhum estudo (por mais inútil que ele pareça) mas sim direcioná-lo de forma explorar possibilidades futuras. Aprendizagem é isso.

As especializações em várias áreas (aqui em São Paulo, na FESPSP tem Gestão Arquivística, Gestão da Informação Digital – que estou concluindo -, Gestão de Serviços de Informação entre outros e no SENAC tem Gestão da Comunicação em Mídias Sociais e Gestão Estratégica do Conhecimento e Inovação; inclusive em outros cursos, nem precisa ser em Ciência da Informação) e educação continuada na área – ExtraLibris Cursos e Class Cursos – estão aí pra isso mesmo. Nenhum profissional realmente interessado vai se limitar e se contentar apenas com o pouco que foi aprendido na graduação: isso faz parte da horizontalização e amplitude do conhecimento. No entanto, essa é uma escolha estritamente pessoal.

Minha escolha é não adotar uma postura pessimista em relação às minhas escolhas, verificar o que pode ser melhorado e tentar participar e discutir sobre isso sempre que possível.

7 pensamentos sobre “Haverá futuro? Já está tendo

  1. Muito legal Dora! O lance é abrir a discussão. A ideia central do meu e do seu texto é que Humanos são fundamentais para humanos, por isso a curadoria. Por isso mais psicologia e menos linguagens. Por isso que algumas partes da nossa profissão estão caindo enquanto outras estão subindo, pois somos uma humana – que outrora foi muito mais. Está lá na pesquisa de Oxford nosso 360 lugar entre 700 profissões. Talvez os bibliotecários acabem e restem alguns de nossos conhecimentos usados por outras profissões.

    Ninguém pode prever o futuro, mas o presente está aqui. Estamos nele.

    • Mas aí é que está Gustavo: pra mim, psicologia e linguagens andam juntas. Nunca houve um divórcio entre essas duas disciplinas. O que se deve ter cuidado é não superestimar o que é desnecessário e irrelevante. Tb ainda acho que falta mais humanidade na biblio. Mas enquanto os bibliotecários “não acabam” (ahaha) ou como prefiro imaginar, não se transformam em outra coisa, acho que ainda há muito trabalho a ser feito. Ainda bem que a gente tem o presente né, pq ficar só pensando no futuro é meio pesado demais…

  2. Pingback: Como identificar uma pintura usando Google Images | Bibliotecários Sem Fronteiras

  3. Pingback: O futuro dos bibliotecários - Blog da Sciam

  4. Pingback: ATÉ QUANDO OS BIBLIOTECÁRIOS TERÃO EMPREGOS? | Innova Gestão

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