Como seu trabalho molda sua identidade

Texto publicado originalmente no The Book of Life (School of Life), sob o título How Your Job Shapes Your Identity, capítulo 2 da série Trabalho: Os infortúnios do trabalho.

Quando conhecemos novas pessoas, somos tentados a perguntar: ‘o que você faz?’. Estamos levando em conta a ideia de que a nossa identidade está muito ligada às nossas atividades diárias. Mas a forma que a questão é respondida tende a bloquear as conseqüências práticas de nossos trabalhos. Aí um dentista irá explicar como ele faz para evitar placas de tártaro; um advogado corporativo irá mencionar uma fusão com a qual ele está ocupado e que está nos noticiários recentemente; um técnico de som em um estúdio irá detalhar como eles religam um equipamento, instalam novos bits de roteadores e contatos com ISPs complicados no mundo todo.

No entanto, o que é mais revelador, mas mais esquivo, são os requerimentos psicológicos e consequência do trabalho – que tipos de mentalidades um trabalho gera, o que realizar o trabalho requer da sua vida interior, como nos expande e (crucialmente) nos limita.

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© Flickr/Ernesto De Quesada

Nossa cultura geralmente contorna todo este território. Se nos perguntam: ‘qual é o caráter psicológico do seu trabalho?’ as respostas podem parecer muito diferentes. O dentista pode dizer: ‘lido muito com evasão e fraqueza de vontade; assim sendo, pessoas inteligentes e confiáveis vivem cancelando consultas o tempo todo, culpando seus horários. Quando elas aparecem, sentam na minha cadeira e mentem repetidamente pra mim sobre o quanto eles passam o fio dental e quebram todas as promessas que fizeram pra mim na última vez sobre cuidarem de seus dentes. Sou diariamente confrontado com o quão difícil adultos acham fazer coisas bem básicas que são de seu próprio interesse. Isso pode fazer de mim uma pessoa um pouco severa’.

O advogado corporativo pode responder: ‘sou diariamente confrontado com a agressividade e impaciência de meus clientes. Eles querem tudo pra ontem. Ninguém se importa com a vida particular de ninguém. Observo muita ambição crua – nada me surpreenderia em relação a capacidade humana por duplicidade’.

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© Flickr/Penn State

O engenheiro de som pode dizer: ‘problemas aparecem o tempo todo, mas você pode sempre ter certeza que encontrará uma solução se for cuidadoso e metódico. Podem ter existido sete possíveis causas para um problema e você precisa checar cada uma delas. Mas definitivamente será uma destas. Eu amo tecnologia nesse sentido, as coisas são interligadas e lógicas’.

Nós categorizaríamos trabalhos em termos de seus perfis psicológicos – de acordo com quais traços de natureza humana eles enfraquecem ou reenforçam:

Paciência versus impaciência: seu trabalho te treina para instintivamente priorizar o que está acontecendo agora mesmo e relegar o que pode acontecer daqui alguns anos como não sendo seu problema (enfermeira de emergência, editor de notícias)? Ou te faz criar o hábito de esquematizar suas preocupações na escala de anos a fio? (engenheiro aeronáutico, funcionário público responsável pela construção de uma estação elétrica)

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© Flickr/Royal Navy Media

Suspeito versus confiante: seu trabalho aguça seu senso de que algumas questões reais podem ser muito diferente das que são evidentes? Você está em um ambiente no qual as pessoas costumam manter suas cartas escondidas ou mentem deslavadamente (jornalista, comerciante de antiguidades, consultoria de gestão)? Ou será que seu trabalho geralmente te envolve com pessoas que são muito abertas sobre suas verdadeiras preocupações (psicoterapia, instrutor de esqui, controle de tráfego aéreo)?

Especulativo versus concreto: o trabalho é focado em como as coisas poderiam ser ou em atenção à forma que elas costumam ser? Será que você é recompensado por ter imaginado coisas que outras pessoas não tenham pensado o suficiente (pesquisador think tank, poeta, futurologista) ou por cuidadosa atenção aos detalhes práticos? (logística de frutas frescas, carpinteiro)

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© Flickr/wwwupertal

Buscador de consenso versus independente: alguns tipos de trabalho ensinam a habilidade de fundir-se com o ponto de vista coletivo (professor de escola, representante de férias); outros convidam o primeiro plano de um ponto de vista pessoal, uma tomada incomum em coisas onde não fazer o que os outros estão fazendo pode ser uma vantagem fundamental (treinador de tênis, empresário).

Otimista versus pessimista: como o trabalho o incentiva a ver aspectos positivos e talvez evitar deter-se sobre as desvantagens (marketing, coaching pessoal, sommelier) ou o leva a um hábito de colocar em primeiro plano os perigos, as armadilhas e iminente catástrofes? (contadores, assessores internos)

Focado em finanças versus abrigado de finanças: você pode estar em um ambiente onde o status varia enormemente de acordo com o dinheiro (advogado, executivo corporativo) e onde é instintivo pensar em termos de custos e margens de lucro; ou o dia a dia de trabalho realmente não envolvem tais considerações de forma alguma? (acadêmico, professor)

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Dignidade é frágil versus um status sólido: um artista é geralmente exposto a repulsas profundas; coisas que eles colocaram a sua alma podem muito bem acabar sendo desprezadas ou ignoradas. Mesmo que eles sejam muito bons no que fazem, eles podem não ter nenhum sucesso de público tangível. O décimo primeiro melhor poeta no Reino Unido ganhou 6.117 libras esterlinas no último exercício, em royalties, avanços, pequenos subsídios e taxas de aparição pública. Outros trabalhos significam que uma aplicação razoável e habilidade certamente serão bem recompensados: cada bacharel em ciência veterinária tem como garantia um emprego bem remunerado.

Melhor natureza versus pior natureza: alguns trabalhos, embora difíceis, continuamente o relembram da preciosidade da vida (enfermeira, parteira) enquanto outros você está sempre encontrando os lados menos admiráveis da natureza humana (polícia, direito familiar).

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© Flickr/Thomas Hawk

Lógico versus hierarquia casual: em alguns postos de trabalho, é claro o que você precisa fazer para seguir em frente e como ocorre a promoção (piloto de linha aérea, mestre); em outros trabalhos (produção de televisão, política), as regras são muito menos resolvidas e estão vinculadas com acidentes de amizade e de alianças fortuitos. No primeiro caso, há uma calma e firmeza para a alma. No último, existe uma ansiedade constante – e falta de confiança.

Estar numa industria decadente versus emergente: existem indústrias onde parece que a época de ouro foi no passado; provavelmente é menos divertido trabalhar nelas agora do que antigamente (editoração, televisão, serviço diplomático). Ou está toda a indústria em crescimento, com todos os tipos de novos empreendimentos altamente rentáveis emergindo (mídia social, tecnologia)? Você tende a trabalhar em torno de pessoas que sentem que pode conquistar o mundo ou que sentem que o mundo está prestes a vencê-los?

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© Flickr/United Nations Information Centres

Estar em um ambiente psicológico particular, todos os dias durante anos tem um impacto muito grande sobre os nossos hábitos mentais. Isso influencia o que supomos que outras pessoas são, forma a nossa visão da vida e, gradualmente, molda quem somos. A psicologia incutida pelo trabalho que fazemos não fica apenas no trabalho. Nós a levamos conosco para o resto de nossas vidas.

Somos geralmente muito cientes de que isso pode acontecer… Em locais distantes. Entendemos que um aristocrata francês em 1430 terá uma visão especial moldada pelo fato de que eles têm vivido sua vida em uma hierarquia social muito estrita, cercado por uma ética de guerreiro; ou que alguém de uma vila de pescadores do século XIX em nas Ilhas Ocidentais da Escócia, que passou anos lutando contra tempestades em Benbecula, terá têm um caráter profundamente marcado pela sua vida profissional. Nós não somos diferentes. A única diferença é que nós achamos muito mais difícil de perceber o que aconteceu no nosso caso, porque – é claro – a nossa perspectiva parece natural para nós, embora não seja nada disso. Pode demorar um encontro com um alienígena (na forma de alguém de um campo muito diferente) para nos levar a notar isso.

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© Flickr/Krocky Meshkin

Às vezes podemos entender os efeitos do trabalho sobre nossa personalidade em situações sociais. Se você perguntar a um advogado, “como você acha que os carros serão como em 2035?” Eles podem ficar intrigados sobre porque você iria querer exercitar o cérebro dessa forma. Qual é o ponto de especular sobre algo atualmente incognoscível? Obviamente, as coisas vão evoluir de maneiras inesperadas. Mas ainda haverá leis e tribunais e regulamentos. E nós podemos lidar com isso quando acontecer.

Se você perguntar a um acadêmico, “quanto você ganha por hora?” ou “qual é o retorno financeiro em suas investigações sobre a história da gramática sueca?”, eles vão achar essa pergunta tendenciosa. ‘Porque você está perguntando isso? O que isso importa?’ apesar de você acreditar que estas sejam perguntas legítimas. Ou, se você for questionar um trader de commodities sobre como seu trabalho beneficia os outros a questão pode acabar parecendo a ele estranhamente ingênua: o que faria você pensar que o objetivo desse trabalho fosse qualquer outra coisa senão a vantagem pessoal do indivíduo em questão?

Estamos amplamente conscientes de que a forma como as pessoas aprendem a pensar no trabalho pode ser rastreada em seu caráter doméstico e social. O professor de escola primária trata os seus filhos como alunos, o professor acadêmico se torna uma tagarela em jantares, o político não pode deixar de fazer discursos como casamentos.

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© Flickr/Tommy Wells

Mas estas são as pontas do iceberg, existem vários outros casos:

  • O técnico é profundamente calmo e tranquilizador. Provavelmente, eles sentem que todos os problemas da vida são um pouco como os problemas técnicos que têm dominado no trabalho. A maioria das coisas podem ser corrigidas, se você não entrar em pânico e trabalhar a partir de uma lista de verificação.
  • O executivo de TV tem um senso muito frágil do eu. Eles são bastante agressivos quando pensam que estão no topo, mas se dobram rapidamente quando sentem os ventos se movendo contra eles.
  • O dentista se torna mandão. Eles estão tão acostumados a censurar pessoas por serem negligentes consigo mesmas que isso se torna um hábito.
  • O escritor freelancer, que está sempre tendo que moldar a contragosto o seu trabalho com as demandas de outros, torna-se acostumado a sentir incompreendido e subestimado. No trabalho, as melhores partes de sua ambição tem de ser subordinadas: a sua escrita sobre arquitetura venezuelana fica marginalizada mas seu anúncio na moda para diamantes rosa tem um mercado pronto. Eles estão sempre à espera de serem mal interpretados, e tornam-se hiper alertas para quaisquer sinais de que isso pode estar acontecendo.

O trabalho pode ser muito bom pras pessoas. A mentalidade criada no trabalho pode estar criando aspectos para o eu que não foram apropriadamente desenvolvidos antes. Em um escritório onde rapidez e exatidão são crucialmente importantes, alguém que é levemente desatento pode adquirir um corretivo à sua fraqueza inicial. Um ambiente onde o compromisso parece natural pode ser altamente educacional para a pessoa que tem investido tempo demais em fazer valer os seus próprios pontos de vista.

Mas trabalho pode estreitar nossas personalidades também. Quando uma certa extensão de questões e modos de pensar se tornam arraigados, significa que outros podem começar a parecerem estranhos e até mesmo ameaçadores. Uma pessoa que se acostumou demais a implementar as ideias de outros – e talvez seja muito habilidoso nisso – pode achar profundamente desconfortável ser colocada no centro de atenção e perguntada o que ele/ela acha que os grandes objetivos deveriam ser. Eles perderam totalmente o hábito de se questionarem sobre isso. Um administrador de escolas pode ser muito afiado quando se trata em como você reorganizaria o quadro de pessoal, mas se você perguntar para ele ‘para que serve educação?’ soa desconcertante, como se perguntasse para que serve grama ou por que Londres é na Inglaterra e não na Escócia?

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© Flickr/Ozan Hatipoglu

Além disso, algo muito moral e sério pode ameaçar o executivo de TV. Ou um inquérito sobre os pontos de vista sobre a Revolução Francesa pode poderia ameaçar um personal trainer. Sente-se que tais questões são dolorosas, porque eles são lembretes de que um teve que renunciar, a fim de tornar-se focado em um determinado trabalho. Ao dar uma grande parte da vida de alguém a um determinado tipo de trabalho, entende-se que – necessariamente – a pessoa não foi capaz de fazer jus a outras áreas em potencial. Perdeu-se o poder de se envolver com questões que podem ter parecido uma vez intrigantes.

A idéia geral de que o trabalho nos molda aplica-se, naturalmente, a si mesmo. Mas precisamente porque certas atitudes e hábitos podem vir a parecerem naturais, é difícil perceber que isso aconteceu. Há uma questão fundamental que podemos nos perguntar: de que forma pode a minha própria personalidade ter sido moldada (para melhor ou para pior) por meu trabalho (assim como é importante entender como se foi moldado pela infância)? Há uma pergunta autobiográfica pungente: se eu tivesse trabalhado com algo diferente, eu teria sido uma pessoa diferente? E a resposta deve ser afirmativa. Contidos em outros caminhos de carreira estão outras versões plausíveis de si mesmo – que, se contempladas, revelam importantes, mas atualmente subdesenvolvidos, elementos de personalidade. Ela dá origem à mais complicada das perguntas: onde estão os outros pedaços de mim …?

Ter em mente como o nosso trabalho nos molda significa que nós deveríamos julgar as outras pessoas mais lentamente em relação ao que elas são. Talvez seja o trabalho delas, não ‘elas’ que as tenha feito quem são – que as tenha feito tão nervosas, raivosas ou entediantes. É o ambiente de emprego que deveríamos culpar, não elas. O executivo de televisão nem sempre foi assim, o advogado corporativo não nasceu como é hoje em dia. Eles podem ter sido outras pessoas. Nossas identidades são vulneráveis à nossos trabalhos. E isso pode abrir as avenidas da compaixão.

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