Visualisando a organização e disseminação de conhecimento: esboços de Paul Otlet no Mundaneum

Organisation_mondialeedit_oJá no final do século XIX e no início do século XX vários acadêmicos europeus, como Patrick Geddes (1854-1932), Wilhelm Ostwald (1853-1932), Paul Otlet (1868-1944) e Otto Neurath (1882-1944) exploravam novas formas de organizar, visualizar e disseminar conhecimento em nível global, encontrando problemas similares mas também aparecendo com soluções comparáveis à Internet e à Rede Mundial de Computadores (World Wide Web).

O belga Paul Otlet (1868-1944) junto com o político e vencedor do prêmio Nobel da Paz de 1913, Henry La Fontaine, no período anterior à Primeira Guerra Mundial formaram várias organizações do “conhecimento” em Bruxelas: o Instituto Internacional de Bibliografia (1895), uma Biblioteca Internacional montados a partir de coleções de sociedades científicas e outras associações em Bruxelas (1906), um Museu Internacional (1910), a União de Associações Internacional (1910), e uma Universidade Mundial (1920), etc. tudo combinado depois da Guerra no que Otlet chamava de Palais Mondial (Palácio Mundial), posteriormente o Mundaneum, uma estrutura física imensa que era parte do Palais du Cinquantenaire em Bruxelas. Uma forma de Mundaneum no início dos anos 90 foi recriado em Mons, Bélgica, como um museu e arquivo dedicado em grande parte ao trabalho de Otlet e La Fontaine.

Formas Visuais de Conhecimento

Primeiramente, Otlet estava interessado nos modos em quais as imagens poderiam ser usadas para simplificar e mostrar informações complexas. “Documentação”, um termo que cunhou em 1904, para ele envolvia a mobilização não apenas de documentos escritos mas de documentos de todos os tipos e ele valorizava as imagens, esquemas, gráficos, tabelas e etc. Em sua visão o livro era um portador inconveniente e ineficiente de informação que teria que ser decomposto e dissecado a fim de serem retiradas suas “partes” (bits) mais essenciais e valorosas de informação. Gravado separadamente de acordo com o que Otlet chamava de “princípio monográfico”, cada item individual de informação poderia então ser reprocessado de vários modos para uma disseminação e uso mais efetivo.

Heuvelrayward01_1(Fig. 1) O livro dissecado e recomposto em arquivos para formar a base de uma nova forma de fonte enciclopédica; Fonte: Mons, Archives du Musée du Mondaneum, EUM [1934].

Posteriormente em sua vida, a preocupação de Otlet com a visualização intensificou-se. Ele começou a desenvolver o que ele chamava de Atlas Mundaneum (Encyclopaedia Universalis Mundaneum), no qual ele buscou expressar as idéias em organização do conhecimento, visualização e disseminação que ele tratou in extenso por escrito em seu Traité de documentation (1934). O Atlas Mundaneum também pretendia visualizar suas visões na emergência de uma sociedade global que ele sumarizou no texto por vezes enigmático do Monde (1935). Para as várias seções do Atlas Mundaneum, e como ele experimentou com idéias visuais geralmente, imagens variando de rabiscos em pequenos pedaços de papel, para papéis maiores mais totalmente desenvolvidos, às vezes multicoloridos, para grandes imagens finais formais em “tableaux”  padronizado ou gráficos a ser achado aos milhares no Mundaneum em Mons. Na última dessas imagens Otlet começou a experimentar com visualizações 3D e 4D “móveis” de informação e apareceu com soluções que chegam próximas à apresentações de mudanças de relações entre dados em interfaces designadas para o computador.

Heuvelrayward02_2(Fig 2) Otlet, Visualização do Le Plan Mondial na forma de um cubo movendo-se junto de 3 eixos. Fonte: Mons, Archives du Musée du Mundaneum, EUM, OP 103 : « Le plan mondial » [1934-35].

Nesta visualização do Le Plan Mondial, os três lados visíveis de um cubo representam 1) os domínios, 2) os setores e 3) os instrumentos do plano do mundo. O movimento do cubo junto com os três eixos etiquetados: 4 (grau de alcance), 5 (espaço), e 6 (tempo), mudariam os relacionamentos entre os dados.

Alguns exemplos da visualização de organização e disseminação de conhecimento de Otlet

Deveria ser notado que Otlet não era nenhum artista e que sua visão era especialmente ruim referente ao fim da sua vida. Como ele experimentou com diferentes tipos de imagens, o resultado, especialmente cedo no processo de trabalho e retrabalho suas idéias grandiosas de globalização e universalismo, são imagens que são muito mal desenhadas. Uma imagem fascinante e complexa do “le reseau mondial”, a rede mundial de documentação ou de rede do que hoje chamaríamos de informações, é apresentado a seguir. Ela descreve os processos e as relações das instituições de organização de conhecimento a que Otlet tinha dedicado sua vida. Essa rede linka o cidadão em uma estrutura hierarquica a uma cidade mundial “emblemática”  como um objeto arquitetônico e para uma grande central de organização do conhecimento, o Mundaneu, como uma instituição física. Isso mostra o quao longe ele foi na tentativa de capturar as características essenciais da rede a partir do diagrama relacionado, publicado em seu Traité de Documentation:

Heuvelrayward03_1(Fig. 3) A “internet” de Otlet linkando o indivíduo ao “civitas mundaneum”. Fonte: Mons, Archives du Musée du Mundaneum, EUM.

Otlet prevê uma rede à qual o acesso é por meio de uma tela e um telefone, tudo o que o estudioso teria necessidade em última instância, ele acreditava, em sua mesa de trabalho. Em seu Encyclopedia Universalis Mundaneum Otlet visualiza uma forma de teleconferência envolvendo o gramofone, filme, rádio e televisão, antecipando o que nós chamamos atualmente de hipermídia. A versão do Otlet de Internet ou Rede Mundial de Computadores (World Wide Web), tem apenas recentemente alcançado as dimensões multimídia e interativas que ele previu. Ele imagina um arranjo de máquinas multimídia ilustrados na próxima imagem tendo uma capacidade interativa importante que em efeito criariam uma realidade “virtual”.

“Cinema, fonógrafo, rádio, televisão – estes instrumentos considerados substitutos para o livro se tornaram na verdade o novo livro, o mais poderoso dos meios para a difusão do pensamento humano. Pelo rádio não apenas podemos ouvir de todos os lugares mas também falar de todos os lugares. Por meio da televisão não só um ser capaz de ver o que está acontecendo em toda parte, mas todo mundo será capaz de ver o que ele gostaria de ver o seu próprio ponto de vista. Desta poltrona, todo mundo irá ouvir, ver, participar, será até mesmo capaz de aplaudir, ovacionar, cantar junto, adicionar seus gritos de participação para todos os outros” (Otlet, Traité de Documentation 1934, 431).

Heuvelrayward04(Fig. 4) A “hipermídia” de Otlet: teleconferência combinando telefone, rádio, gramofone, filmes e televisão. Fonte: Mons, Archives du Musée du Mundaneum, EUM.

Um esboço de caneta tinteira de 1943, o ano anterior à morte de Otlet, une suas idéias sobre um mundo em rede global. Nós vemos o Mundaneum mais uma vez no formato espiral originalmente proposto em 1928 pelo famoso arquiteto, Le Corbusier, para um prédio para o Mundaneum nas margens do lago Geneva. No entanto Otlet agora mostra o Mundaneum não apenas como uma estrutura física, um museu, que contém representações da acumulação do conhecimento através do tempo. Também é apresentado como transmissor global de conhecimento através do som (“rádio-telefone”) e por imagem (“rádio-televisão”).

Heuvelrayward05_1(Fig. 5) Esboço feito com caneta tinteira de Otlet para o Mundaneum, “uma máquina para contemplar o mundo a partir de uma poltrona em telas individuais”. Fonte: Mons, Archives du Musée du Mundaneum, 1943.08.15.

Esse áspero e experimental rascunho é efetivamente uma visualização do que Otlet escreveu em Monde (1935): a necessidade de

” (…) uma instrumentação agindo através da distância que combinaria ao mesmo tempo rádio, raio-x, cinema e micro-fotografia. Todas as coisas do universo e todas aquelas do homem seriam registradas a longa distância enquanto fossem produzidas. Entretanto a imagem em movimento do mundo seria estabelecida – sua memória, sua verdadeira duplicata. A longa distância qualquer um seria capaz de ler a passagem que, expandida ou limitada ao assunto desejado, seria projetado em sua tela individual. Assim, em sua poltrona qualquer um seria capaz de contemplar toda a criação ou partes particulares dela”.

Uma imagem surpreendente quando se contempla declaração Tim Berners-Lee: “Minha visão original para uma rede universal era uma poltrona para ajudar as pessoas a fazerem coisas na vida real da web” (Weaving the Web, 1999, p. 177-178).

Referências

European Modernism and the Information Society Conference site
http://www.lis.uiuc.edu/conferences/EuroMod.05/

W. Boyd Rayward, Visions of Xanadu: Paul Otlet (1868-1944) and Hypertext JASIS 45 (1994):235-250
http://alexia.lis.uiuc.edu/~wrayward/otlet/xanadu.htm

Charles van den Heuvel – University of Maastricht, Faculty of Arts and Culture, Technology and Society Studies- Leiden, University Library, Map curator Collection Bodel Nijenhuis
c.vandenheuvel@tss.unimaas.nl

W. Boyd Rayward – Graduate School of Library and Information Science – University of Illinois at Urbana-Champaign
http://alexia.lis.uiuc.edu/~wrayward/rayward.html

Publicado originalmente no blog Envisioning a Path to the Future, em 11 de julho de 2005.

Título original: Visualizing the Organization and Dissemination of Knowledge: Paul Otlet’s Sketches in the Mundaneum, Mons – Charles van den Heuvel and W. Boyd Rayward

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