10 Práticas Acadêmicas Irritantes

Ao longo da vida acadêmica, a partir do momento em que você tem que ler textos – tanto porque é obrigado pelas aulas, às vezes porque recomendam e outras porque você quer –  se você tem o mínimo de senso crítico (não precisa nem ser muito, mesmo porque, eu mesma não me considero uma crítica chata) você nota que alguns artigos não são exatamente bons. Claro, nem todos os artigos são criativos e nem tem insights incríveis… Alguns você nota que a pessoa apenas fez o seu dever de casa, ficou bom e aí você volta pra sua vidinha normalmente.

Mas existem os artigos que eu considero nocivos, ruins mesmo. Aliás, existem comportamentos, mentalidades que eu também considero ruins, incompatíveis com a realidade de hoje e com um ambiente acadêmico que se pretende, inclusivo, colaborativo, moderno e blábláblá. Algumas coisas são tão ruins que fica difícil entender como elas acontecem. Mas aí a nossa tendência – por sermos “meros estudantes de graduação” – é pensar “nossa, quem escreveu/fez/criou/organizou é uma doutora e o texto já passou pela avaliação de pares, então a burra aqui da história deve ser eu, mesmo”.

Um conselho dos mais sinceros: não tenha tanta certeza disso. Suspeite de tudo, até mesmo da sua ignorância – que talvez nem mesmo exista de fato.

A primeira vez que eu li sobre práticas acadêmicas irritantes foi no blog da Adriana Amaral, onde ela fez um breve post, falando sobre duas práticas acadêmicas que ela considera irritantes. Acredito que a visão dela é diferente, uma vez que ela já é professora e tem reclamações bem mais específicas que as que eu vou descrever aqui, acredito.

Resolvi guardar algumas práticas que considero irritantes no geral e deixei por hora na quantidade de 10, mas com certeza surgirão outras com o tempo, aí faço outro post.  Os comentários estão abertos, caso vocês queiram compartilhar das coisas que vocês consideram irritantes, academicamente. Esta lista não está por ordem de importância.

Tudo o que foi listado é igualmente irritante.

1. Não compartilhamento. O Tiago Murakami escreveu este post falando sobre os estudantes que enviam trabalhos para encontros, mas depois não compartilham na Internet. Existe outro post na ExtraLibris que também fala sobre compartilhamento, e eu também concordo que a precariedade na comunicação se deve a falta de cultura, o que é bizarro principalmente na nossa área – que nem mesmo se preza a preservar o conteúdo informacional de seus próprios eventos. Toda vez que pensamos em compartilhamento, sonhamos com algo que seja centralizado e todo mundo se engaje num depósito voluntário. Pessoalmente, acredito que atingir isso é bastante difícil, e é duro pois nos decepcionamos de criar uma viabilidade e então ficar esperando a espontaneidade das pessoas. Acredito que uma cultura só se cria a partir de hábitos e hábitos, querendo ou não devem fazer parte de nossas obrigações e responsabilidades. Blogar, twittar, compartilhar, comunicar-se bem é um ato de responsabilidade para com uma comunidade. Um dos grandes desafios é conscientizar as pessoas da importância de suas responsabilidades individuais para com o todo.

2. Citar por citar. “Hm, que interessante esse autor novo que eu nunca ouvi falar e na verdade, eu nem sei do que ele fala direito, mas acho que vou citá-lo/entrevistá-lo/usá-lo no meu artigo/pesquisa”. Não há envolvimento com a obra, com o autor – sim, é babaca da minha parte, mas acho isso importante. Não há envolvimento com as obras que contestem esse autor, nem a sua idéia. É possível que aconteça até mesmo uma distorção de suas idéias, na ânsia de encaixá-lo no artigo. É uma motivação superficial, só para que um autor novo ou que esteja abordando um assunto “da moda” conste nas suas referências. “Achei bonito, acho que cola se eu acochambrar umas idéias dele no meu texto”. A quebra na leitura do artigo é nítida como a luz do sol na retina e se você for um leitor um pouquinho mais atento/a, entende na hora que há algo errado ali. Acho isso detestável e muito irritante.

3. Enxergar X onde não existe. Uma coisa é bem certa nessa vida: não existe texto  que seja isento. Imparcialidade é lenda. É possível que se você seja anarquista, que seu texto saia meio anarquista, se você for socialista/comunista/marxista, se você viveu a época da ditadura (às vezes nem precisa ter vivido, basta ser uma pessoa sensível ao drama da época), se você foi hippie, enfim… É possível enxergar essas suas “marcas” no seu texto. Impossível exigir que as pessoas abstenham-se disso e, realmente, nem quero isso. Mas é sempre bom ter bom senso e utilizar estes tipos de discurso com moderação (ok, eu sou babaca). Acho comum em alguns artigos ver uma idéia sendo forçada onde ela realmente não se encontra, só na cabeça do autor (e das pessoas que pensam como ele/a). Um exemplo da biblio: enxergar biblioteca física transportada pro ambiente de computador e se achar visionário/a por isso, o que é ridículo. Enxergar ameaça, onde deveria se enxergar oportunidade. Cara, sinceridade? Sinto muito, você não é visionário: você é retrógrado por mais que seu doutorado tente nos dizer o contrário. E assim vai.

4. Teoria sem prática e prática sem teoria. Não adianta nada você ter 30 anos de experiência em biblioteca universitária, ser doutora em CI e escrever um texto fraquíssimo e sem posicionamento algum sobre tecnologias da informação porque né, convenhamos, não vai dar certo. A situação é constrangedora pra quase todos os envolvidos: os pares que vão ter que ler (e não sei porque raios acabam aprovando o artigo), as pessoas que vão ler depois (e vão ficar com vergonha do que leram, certeza), só não vai ser constrangedor pra você, que vai continuar se achando muito inteligente e segura com o doutorado debaixo do braço. Bem como também não adianta você viver aclamando determinadas aplicações, mas achar que tudo o que você lê é um lixo e nada nunca é bom o suficiente. De nada adianta ignorar a teoria se nada que você tenha tentado colocar em prática funcionou efetivamente até hoje. Esse conselho é extremamente ignorante e algum dia, posso me arrepender profundamente de ter escrito isso aqui (mas a vida é assim mesmo): atenha-se ao que você sabe fazer e não invente moda, não importa quem você seja. Quem sabe pensar diferente é porque já sabe pensar igual.

5. Carência de literatura na área. Acho que é o mimimi mais recorrente na literatura de qualquer área. Mas quando a gente lê uns livrinhos bestas e inúteis sobre a história social do conhecimento (do Burke) e percebe que tudo é muito, mas muito recente e incipiente, fica um pouquinho mais fácil de entender os porquês da literatura especializada ser tão escassa. Acho esse argumento meio fajuto, uma vez que também percebemos que sempre existem assuntos “da moda” e é sobre eles que as pessoas “gostam” de escrever (na verdade não gostam, escolhem porque é o mais fácil; gostar é superestimado, mas isso é outro assunto). Na academia isso é muito comum: não se cria viabilização para pluralidade, apenas para repetição de discurso. Certamente não é à toa que existe “carência de literatura na área”, em qualquer área – não só na Biblioteconomia não. Isso pode até ser verdade, mas escrever um parágrafo pra dizer “coitadinho de nós que não temos referências nacionais sobre esse assunto direito”, acho meio demais. Dica: não reclame da carência, apenas crie. Desbrave. Por maiores que sejam as dificuldades.

6. Textos literários demais. Este é apenas um preconceito pessoal que tenho. Certo que não concordo com todos os preceitos da “escrita acadêmica e científica”, mas poxa… Desnecessário tentar ser literário demais numa tese ou dissertação. Sinceramente, do fundo do meu coração amargurado, eu acredito que pra você ser um escritor, você precisa ser bom (olha, muito bom. na verdade você precisa ser excelente, tá?) em primeiro lugar. Considero de extrema dificuldade conciliar um texto acadêmico com um texto literário (ruim), mas tem gente que consegue e ainda, claro, consegue ser aprovado pela banca. Como, não sei. Lembrando bem que ter um estilo de escrita não tem nada a ver com ser literário, mas sim em ter sabedoria e até certa malícia, sagacidade no uso das palavras certas (eu disse palavras certas, que sejam elegantes e impactantes, não falei de chavões, que são feios e grosseiros). Eu gosto de coesão num texto e não gosto de muita viagem na maionese e riponguice. Não estou falando pra poupar palavras nem nada, mas pra ser cauteloso ao invés de estiloso. Só isso. Por favor.

7. Invenção da Roda. Se você está na graduação, ou até mesmo na pós-graduação, olha, eu sinto muito, mas você de antemão não é inovador, genial, visionário e nem vai inventar a roda. Se você é tudo isso (e está bem certo disso), a academia não precisa de você e muito provavelmente nem você dela. Não, você não está inventando a roda. Pelo menos não até o doutorado. Veja se alguém já não fez ou falou o que você pretende pesquisar. Só dê uma olhadinha e simplesmente aceite este fato. Não dói. Sério.

8. Vocabulário rebuscado só pra pagar de erudito. Não vou nem me prolongar nesta, só vou fazer uma pergunta: pra quê isso, me diz? Quem caça palavra complicada em dicionário só pra usar e pagar de erudito é simplesmente babaca. (Desculpem, não resisti em ofender).

9. “Artigos” com amontoados de citações. Infelizmente, tive a sofrível experiência logo na primeira fase do curso de biblioteconomia, de ter de encarar um texto sobre ética e deontologia (um assunto que considero difícil, tanto de ler como se escrever sobre), com um “artigo” que continha blocos imensos de citações, uma seguida da outra. Foi a coisa mais traumatizante que me sugeriram ler, em toda a minha vida. O choque foi ainda maior quando vi que tinha sido escrito por uma mestranda (mestrandos deveriam ser mais sagazes que eu né? pois é). O trauma se agravou porque o professor deu um estudo dirigido onde continha a seguinte pergunta “qual é a idéia principal da autora no texto?”. Fui sincera: a autora não tem nenhuma idéia principal sobre nada e no texto, aparentemente, ela não tem a mínima idéia sobre o que ela está escrevendo. Ah, falei sim senhor. E também dei uma de classhole e falei a mesma coisa em sala de aula, nem ligo, falei mesmo. Isso é que dá aprovar aluno CDF e “esforçado” em seleção de mestrado. Não adianta nada se o seu melhor simplesmente não é bom o suficiente.

10. Contradições descaradas. Isso não é nem sobre um artigo ou texto em si, mas sim sobre posicionamentos mesmo, que considero bizarros – por não existir palavra melhor pra descrevê-los. Dou dois exemplos: #1. organizam um livro sobre Mídias Sociais sendo que a grande maioria dos autores mal responde e-mails (provavelmente não devem ter tempo, ou coisa assim). Isso, para mim, é totalmente bizarro, simplesmente. Vejam que nem mesmo reclamei dos autores não fazerem parte de certas mídias sociais, pois é um pouco mais complicado do que imaginamos: não respondem e-mails que não sejam estritamente do interesse deles (não querem perder tempo). Ok. #2. organizam um livro tendo como tema principal e fundamental “O Livre Acesso ao Conhecimento Científico” ou sei lá sobre “Compartilhamento, Livre Acesso e Colaboratividade” e o livro além de caro, está indisponível em versão eletrônica para download. Como isso é possível? Isso é a CI, my friends. De que Livre Acesso eles devem estar falando mesmo? Sério, é inacreditável. Acho isso mesquinho, ruim mesmo, como um todo. Não é uma publicação para se ter orgulho, definitivamente.

(Publicado originalmente em 12 de janeiro de 2011.)

3 pensamentos sobre “10 Práticas Acadêmicas Irritantes

  1. Texto de 2011, atualíssimo. Obrigada por compartilhar, me colocou em meu devido lugar, rsrsrs, me fez pensar em compartilhar mais também.

  2. Dora, concordo plenamente e insisto muito com meus alunos em relação a isso, mas sinto que em boa parte do tempo a Academia ainda acha que essas praticas sao legais e legitimas

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