O que há em um nome?

Stat rosa pristina nomine; nomina nuda tenemus

Hoje rolou no Jornal Nacional a notícia sobre a reinauguração da biblioteca Mário de Andrade, dia 25, em Sampa. Acho que todo mundo já está sabendo e sorte de quem mora em Sampa ou estará por lá nessa época pra conferir como ficou o prédio (gostaria muito mesmo de estar lá). No Twitter, logo depois da notícia, observei duas reações: uma de horror, pelo curador do acervo de obras raras não estar usando luvas de proteção enquanto manuseava uma obra (confesso que também hiperventilei de horror na hora, ahaha!) e outra por não terem mencionado a palavra “bibliotecário” pra designar as pessoas que trabalham na Mário de Andrade.

Como foi notado pelo colega @masoju, três pessoas foram entrevistadas: um administrador (Márcio Botelho, não consegui localizar nada online), um curador de obras raras (Bruno Sant’Ana, a.k.a. Rizio Bruno Sant’Ana) e um supervisor do acervo (@willok). Como notou outro colega @otimeia, “Certeza que o cara da pauta pensou “bibliote… Ninguém sabe o que é isso! Coloca administrador!”. Mas essa discussão, a do “reconhecimento do profissional bibliotecário”, depois da discussão sobre o “estereótipo” é bem recorrente em trabalhos dos colegas em eventos e etc.

Aí o que acontece é que os bibliotecários se ajunta tudo e fica tudo bem brabo,  TODOS CHORA, xingam muito no Twitter e mandam um mega e-mail de repúdio pra Globo – com assinaturas e tudo –  dizendo que eles não reconhecem a nobre, fantástica,  magnânima, excelentíssima, maravilhosa, tchimaish (sem ironia aqui) profissão de bibliotecário! Mesma coisa aconteceu com a coitada que inventou de dizer que a presidente Dilma era uma “bibliotecária solteirona”. Gente carente de atenção. Pois bem. Essa discussão do reconhecimento bibliotecário é um pouco superestimada demais. Sinceramente, fica parecendo que a classe não tem absolutamente nenhuma questão mais importante pra se preocupar do que zelar o nome (e fazer reserva de mercado, mas aí é outra história..).

“Eu sou Bibliotecário!!! Com B maiúsculo!!!”

Olha, eu acharia ainda mais legal se você me falasse que fosse Despachante  (com D maiúsculo) e ainda tivesse orgulho disso. Às vezes fica me parecendo que esses surtos de orgulho-bibliotecário estão muito ligados mesmo a uma carência de atenção e uma baixa auto-estima enrustidíssima. Não preciso dizer que quem se garante – como profissional competente, de verdade – não precisa disso né? Enfim.

Administrador, curador, supervisor de acervo? Olha, já me impressiona o suficiente essa notícia ter rolado no JN. Acredito que se fosse qualquer biblioteca fora do eixo Rio-São Paulo, ninguém jamais se daria o trabalho nem mesmo de mencionar a reinauguração, ainda mais no jornal mais assistido do país. E muito provavelmente, as pessoas que assistiram nem se lembram mais das profissões – de qualquer matéria – que foram mencionadas (a não ser que sejam aficcionadas e revejam todas as notícias no site do JN). Talvez os únicos que tenham reparado que a palavra “bibliotecário” não constava na definição do jornal, tenham sido os próprios bibliotecários e estudantes de biblioteconomia. Pois é.

Quando será que vão parar de se apegar à palavras como “biblioteconomia” e “bibliotecário”? Acho que não tão cedo. Pelo menos não até a nova geração tomar conta e as coisas começarem a mudar, efetivamente. Pelo menos até começarem a lidar com problemas reais de verdade. Ah, claro, também existe o “profissional da informação”, que é um termo que só é usado na biblio e na CI – fora delas, ninguém faz idéia do que seja um “profissional da informação” e, com muito esforço, poderiam chutar que trata-se de jornalismo ou algo relacionado. Ainda existe muita discussão acerca disso, principalmente sobre os nomes do curso “Gestão da Informação”, “Informação e Documentação” e “Biblioteconomia”.

Mas lembrem-se, e lembrem-se sempre: um nome é apenas um nome.

Querem reconhecimento? Reclamem menos e promovam iniciativas melhores. Demarquem seu espaço com talento e criatividade próprios. Lutem por causas que se atenham à nossa profissão como um todo e também – e principalmente – às pessoas que precisam de nós (e frequentemente não sabem disso). Não fiquem de histeria por algo por algo tão movediço quanto a linguagem. Apenas façam um bom trabalho.

Não importa se você é curador, gestor, empreendedor, supervisor de acervo, bibliotecário ou técnico/auxiliar de biblioteca. Apenas faça um bom trabalho e gaste energia por motivos mais desafiadores, do que apenas promover o reconhecimento de um nome.

Isso deve bastar.

(Originalmente publicado em 23 de janeiro de 2011. Imagem de Alessandro Crea, do Flickr.)

  1. clara alcione martins

    Não, Dora, um nome não é só um nome! Leia algo sobre terminologia, lexicografia, Análise de Discurso, ideologia…e vai perceber que um nome não é só um nome. Carrega significados, crenças, simbolismos, ideologias, racismos, exclusão, poder….tanta coisa,….um nome nunca é só um nome, acredite! Vá nas ontologias, vá em Platão…Wittgenstein….Fairclough….Michel Foucault…

    • Dora

      Justamente, Clara. A linguagem é viva. Para mim, o termo “bibliotecário” carrega em si tantas coisas, mas ao mesmo tempo, na boca do povo esse nome ainda não é conhecido – talvez porque no país a cultura de bibliotecas seja extremamente precária. Nenhuma biblioteca resiste por aqui, mas persistem. A questão da representatividade é importante? Sim, é. Mas a que custo, exatamente? Se formos levar a discussão para, por exemplo, em como bibliotecários agora também podem ser conhecidos como “profissionais da informação”, uma expressão, para dizer o mínimo, genérica, tudo fica ainda mais complexo, não?

      Acredito que se for preciso lutar por representatividade, isso deve ser feito por outras vias, de outros modos. Para mim, perder tempo em torno de uma nomeação, muitas vezes, é um tanto quanto reducionista.

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