O que Recuperação Colaborativa da Informação tem a ver com Teoria dos Jogos?

Estes dias estava procurando literatura complementar pra um artigo que estou terminando de escrever e tive a sorte de encontrar este artigo do Karamuftuoglu. Além do nome do autor assustar, o título do artigo também não é exatamente muito convidativo: “Collaborative Information Retrieval: Toward a Social Informatics View of IR Interaction”. Ia ler por que precisava de mais alguma referência, mas é difícil achar artigos bons. E com um título desses a gente só fica pensando que “ok, é só mais um artigo de Ciência da Informação”… Enfim.

Me dei mal, mas me dei bem: este é realmente um bom artigo. Citou brevemente os ‘jogos de linguagem’ pra falar de indexação  (Searle, Austin e Witt) e acabou falando de Teoria de Jogos. Muito bem escrito e criativo, a analogia me fez entender o problema de indeterminação na recuperação da informação – seja ela colaborativa ou não. Também chamou minha atenção o fato de o artigo ter sido escrito em 1998 e continuar tão atual. Mas acredito também que ao analisarmos o problema de categorização com um pouco mais de profundidade, não fica complicado perceber o quanto ele é atemporal. A referência completa do artigo é:

Karamuftuoglu, M. Collaborative Information Retrieval: Towards a Social Informatics View of IR Interaction. JASIS, 49(12), 1070-1080, 1998.

A seguir, alguns parágrafos que achei interessantes neste artigo, embora eu recomende a leitura na íntegra para quem tem interesse em estudos sobre recuperação da informação e colaboratividade.

Obviamente, no início da pesquisa, quais textos serão usados na tecelagem do pano do novo texto não são previsíveis. É uma propriedade emergente, que aparece quando o pesquisador é exposto à novos textos no curso de seu processo de pesquisa, começando por aqueles já conhecidos por ele ou ela. De onde proceder a partir do que já é conhecido, geralmente não é entendido pelo pesquisador em algum ponto durante o processo de pesquisa (cf. Kuhlthau, 1993a). Pesquisadores geralmente procedem sem um critério bem definido e às vezes sem critério algum, interpretando e re-escrevendo os textos recém-descobertos, deste modo inventando e prescrevendo o “critério de relevância” na medida em que avançam.

Este é um “jogo de linguagem” diferente onde quem questiona, inventa (prescreve) o critério de relevância durante o curso do processo, considerando que, na situação da didática (transmissão de informação), o usuário descreve (denota) o que já foi prescrito até certo ponto. Este tipo de invenção é totalmente diferente do tipo discutido na seção anterior. Isso resulta no estabelecimento de conexões entre documentos até então considerados independentes um do outro e modifica o conteúdo intelectual do domínio. Isto é o aspecto intertextual do ato de “inventar” na Recuperação da Informação documentária. (p. 1071-1072)

[…]

É interessante notar que, de acordo com esta visão, não apenas textos como artigos científicos que citam explicitamente outros deveriam ser vistos como parte de uma rede intertextual. A visão intertextual é considerada válida para expressões altamente originais sem um precedente visível, bem como aquelas que se referem explicitamente a outras. Isso é claramente colocado por Kristeva (1986, p. 37, grifo nosso): “Qualquer texto é construído como um mosaico de citações; qualquer texto é a absorção e transformação de outro”. Como este segundo tipo de invenção na Recuperação de Informação normalmente acontece por um longo período de tempo, e a relevância de documentos ao trabalho inventivo não é determinado à priori mas uma propriedade emergente, o significado de um documento não pode ser observado de imediato no momento da interação.

Isso é particularmente verdade para certos estágios da atividade de pesquisa, onde a tarefa é formular o problema e/ou as soluções possíveis para ele. É, no entando, totalmente plausível assumir que a relevância de um documento através do ciclo de vida de uma atividade de pesquisa pode mudar, de modo que, um documento inicialmente não relevante pode tornar-se relevante com o tempo e vice versa (cf. van Rijsbergen, 1996). Esta não é uma característica amplamente reconhecida na interação de Recuperação da Informação (van Rijsbergen, 1996).

É geralmente aceito, claro, que existe uma “indeterminação” inerente na recuperação de documentos, por isso é adotada a abordagem probabilística. Entretanto, a natureza probabilística da Recuperação da Informação é geralmente pensada como o resultado de uma informação inadequada (ou falta de informação) sobre o problema, o estado cognitivo do usuário e a representação dos documentos (cf. Robertson, 1978). Se fosse possível que existisse informação completa (perfeita), assume-se que a natureza probabilística desapareceria. O caso aqui é análogo à jogos de informação imperfeita na “Teoria dos Jogos” (tais como os classificados jogos de coordenação Rasmusen, 1989, p. 45), onde a indeterminação (incerteza) é causada pela falta de informação completa sobre os movimentos do(s) oponente(s) no jogo (Rapoport, 1960; Rasmusen, 1989). (p. 1072)

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