Grupos de Pesquisa em Linguagens Documentárias no Brasil

Ano passado fiz uma pesquisa que foi apresentada na disciplina de Pesquisa em Biblioteconomia (CIN 5015)  em 2010-1, ministrada pela prof. Edna Lúcia da Silva. Na época estava na monitoria da disciplina de Linguagens Documentárias e tive a ideia da pesquisa. Não acho que tenha ficado uma pesquisa boa o suficiente a ponto de fazer um .pdf padronizado certinho nas normas da ABNT e menos ainda para publicar nos meios tradicionais. Ainda assim, acho que ficou uma pesquisa legal e talvez relevante. Então resolvi publicar aqui o que foi feito, apesar de eu ter achado um estudo meio incompleto. Enfim… Não atualizei os dados que estão disponíveis aqui (eles são de 2010-1) e também não coloquei mais referências nem “melhorei” a pesquisa, só deixei ela como estava mesmo, como um retrato de algo que produzi há quase um ano atrás.  Hoje em dia escreveria muito mais coisa, mas não é esse o propósito. Publico-a aqui pra deixar registrado e compartilhar com quem também possa ter interesse pelo assunto.

Resumo

Foram coletadas informações no Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil (DGPB) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) [Nota: na época <http://dgp.cnpq.br/> e hoje <http://dgp.cnpq.br/diretorioc/>; aparentemente esta base de dados não está mais em funcionamento hoje, 26/05/2011]  referente aos Grupos de Pesquisa em Linguagens Documentárias no Brasil. Selecionados os grupos, eles foram analisados por região, evolução cronológica, quantidade de pesquisadores envolvidos e linhas de pesquisa. Os líderes dos grupos também tiveram sua produção  em LD analisada de acordo com o que foi disponibilizado pelos autores na Plataforma Lattes.

1 Introdução

O modo como representamos, organizamos e recuperamos os documentos passa por transformações, de acordo com a evolução das tecnologias e mudanças dos sistemas, de impresso para digital ou ainda de sistemas híbridos. Atualmente os produtos que resultam das Linguagens Documentárias (LD), como taxonomias, tesauros e ontologias estão sendo estudados de modo interdisciplinar, levando em conta a existência de documentos eletrônicos e digitais. Na CI, o estudo deste tema volta-se cada vez mais para questões de indexação, armazenamento e recuperação da informação, características principais dos processos de Linguagens Documentárias.

Inspirada no artigo “Grupos de Pesquisa sobre Recuperação da Informação no Brasil” publicado por Sales e Godoy Viera (2007), esta pesquisa fará um breve estudo sobre a população dos Grupos de Pesquisa na área de LD: sua distribuição geográfica, linhas de pesquisa, tempo de existência, atores envolvidos, líderes dos grupos e sua produção. O objetivo geral do trabalho é realizar o mapeamento no Diretório de Grupos de Pesquisa do Brasil (DGPB) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) os Grupos de Pesquisa que abarcam estudos em LD. Entre os objetivos específicos podemos citar a caracterização e análise das informações selecionadas e o levantamento da produção dos líderes de cada grupo de pesquisa.

2 Ciência da Informação e Linguagens Documentárias

A CI está classificada na Grande Área das Ciências Sociais Aplicadas, abarcando disciplinas como a biblioteconomia e a documentação, a museologia, a arquivologia e o jornalismo (LE COADIC, 2004). Entretanto, uma vez que a informação é o seu principal objeto de estudo, suas áreas de concentração podem abarcar conhecimentos de outras áreas, para que assim se fortaleça e aperfeiçoe. No Brasil, a CI conta com uma infra-estrutura, ainda em seu início, de ensino e pesquisa, uma vez que seu apoio institucional está em fase de implantação (ANDRADE, OLIVEIRA, 2008, p. 46).

Atualmente existem sete programas de pós-graduação em CI no Brasil e é possível identificar que a maioria teve o seu início, com programas de mestrado, na década de 70. Andrade e Oliveira (2008) acreditam que, para o desenvolvimento das atividades científicas, torna-se necessária uma infra-estrutura mínima composta por elementos básicos como: apoio às atividades de pesquisa, recursos humanos qualificados e canais de comunicação e intercâmbio científico. Como parte da infra-estrutura de apoio às atividades de pesquisa, a comunicação e o intercâmbio científico são essenciais, uma vez que é através destes processos que a ciência pode desenvolver-se e evoluir.

Na literatura, muito se fala sobre canais formais de comunicação, com grandes referências a periódicos científicos e toda a produção impressa. No que tange à comunicação voltada especificamente entre grupos de pesquisa, existe uma dificuldade em localizar literatura nacional. Em seu artigo Collaborative Information Seeking and Retrieval, Foster (2006), lista uma série de experimentos sobre recuperação colaborativa da informação entre os mais variados grupos de pesquisa, entre eles: a academia (universidade), a indústria, a medicina e entre os militares. Através de experimentos feitos com cada grupo, o autor grifa os diferentes modos de comunicação, de acordo com a cultura organizacional de cada um deles. Meadows (1999) acredita que mesmo que com todo o crescimento acelerado e explosão bibliográfica, o crescimento da ciência não ocorreu de forma caótica, pois os próprios cientistas encontram mecanismos para que o desenvolvimento da comunicação ocorra de forma relativamente ordenada. Esta “ordem” certamente advém de regras e práticas estabelecidas e seguidas pelas comunidades científicas e isso acontece tanto através do suporte de comunicação e suas plataformas, quanto das necessidades dos pesquisadores, como produtores e receptores de informação.

Na biblioteconomia, as Linguagens Documentárias representam uma parcela significativa do estudo referente ao processamento técnico, que abrange a catalogação (descrição do documento), a indexação  e resumo (representação do documento através de texto e palavras-chave) e a classificação (localização o documento no espaço físico). A definição de Linguagens Documentárias que utilizaremos nesta pesquisa vai ao encontro da definição de Lara (2004, p. 232):

A denominação linguagem documentária, além de referir-se ao conjunto dos diferentes tipos de instrumentos especializados no tratamento da informação bibliográfica (sistemas de classificação enciclopédicos ou facetados e tesauros), designa, de modo mais amplo e completo, a linguagem especialmente construída para organizar e facilitar o acesso e a transferência da informação.

A autora também define que a LD pode ser tanto um instrumento que realiza a mediação entre sistemas ou conjuntos informacionais e usuários, quanto ponte entre a linguagem do sistema e a linguagem do usuário (p. 233). Cintra et al (2002) entende que a função da LD é tratar o conhecimento dispondo-o como informação, pois compete a esta área de estudo transformar estoques de conhecimentos em informações adequadas aos diferentes segmentos sociais.

3 Área de Conhecimento, Grupos e Linhas de Pesquisa

Para um melhor entendimento do corpus da pesquisa, foi feita uma breve definição dos termos: Área de Conhecimento, Linha de Pesquisa e Grupos de Pesquisa. Referente a Área do Conhecimento e Grande Área, de acordo com a Nova Tabela das Áreas do Conhecimento a seguinte definição foi publicada em setembro de 2005 e até então está disponibilizada no site do CNPQ:

“A Constituição Federal, ao tratar, em seu Artigo 218, da Ciência e Tecnologia, refere-se a áreas de ciência. Entretanto, as agências públicas e a comunidade científica, consagraram a expressão áreas do conhecimento […] Por área do conhecimento entende-se o conjunto de conhecimentos interrelacionados, coletivamente construído, reunido segundo a natureza do objeto de investigação com finalidades de ensino, pesquisa e aplicações práticas. […] A grande área é a aglomeração de diversas áreas do conhecimento em virtude da afinidade de seus objetos, métodos cognitivos e recursos instrumentais refletindo contextos sóciopolíticos específicos”. (p. 2)

Borges-Andrade (2010, p. 164) define linha de pesquisa como um traço imaginário que determina o que será investigado num dado contexto ou realidade, limitando fronteiras do campo específico do conhecimento, oferecendo orientação teórica e estabelecendo procedimentos adequados ao processo. Segundo o mesmo autor, o programa ColetaCapes, que gera os relatórios dos Programas de Pós-Graduação, define uma linha de pesquisa como “um domínio ou núcleo temático da atividade de pesquisa do Programa, que encerra o desenvolvimento sistemático de trabalhos com objetos ou metodologias comuns” (p. 165).

De acordo com o que consta na página de perguntas freqüentes do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil uma linha de pesquisa “representa temas aglutinadores de estudos científicos que se fundamentam em tradição investigativa, de onde se originam projetos cujos resultados guardam afinidades entre si” (2011).

Para Grupos de Pesquisa a definição no mesmo site é a de “um conjunto de indivíduos organizados hierarquicamente em torno de uma ou, eventualmente, duas lideranças, cujo fundamento organizador dessa hierarquia é a experiência, o destaque e a liderança no terreno científico ou tecnológico; no qual existe envolvimento profissional e permanente com a atividade de pesquisa; cujo trabalho se organiza em torno de linhas comuns de pesquisa; e que, em algum grau, compartilha instalações e equipamentos”. UNESP, 2007 apud OLIVEIRA, 2009:

“O grupo deve ser constituído por, pelo menos, dois membros (docente, pesquisador, pós-doutorando) e, no mínimo, por dois alunos (iniciação científica, mestrando, doutorando). Todos os membros do grupo, inclusive os alunos, devem possuir Curriculum Lattes e proceder às atualizações conforme normas do CNPq” (p. 40)

Na definição encontrada sobre Grupos de Pesquisa, uma de suas características é a presença necessária de um ou mais líderes. Parte desta pesquisa também será dedicada a explorar a produção dos líderes, como amostragem das possíveis pesquisas realizadas por estes grupos. Grupos de Pesquisa abrigam pesquisadores da graduação e de programas de pós-graduação, contando diretamente com a liderança de doutores da área de estudo em específico. As pesquisas são desenvolvidas de acordo com a área de concentração e linha de pesquisa, sendo que também é possível que exista interdisciplinaridade, tendo em vista que o campo da Ciência da Informação é especialmente abrangente. Há também estudos voltados para áreas de comunicação, gestão, tecnologias e sistemas de informação e organização.

4 Metodologia

Esta pesquisa pode ser classificada como documental segundo Gil (2002), uma vez que constituir-se-á de páginas (documentos) a serem encontradas no Diretório dos Grupos de Pesquisa Brasil. O Diretório contém informações acerca dos Grupos de Pesquisa de todo o Brasil, fornecidas pelos próprios líderes dos grupos cadastrados. Dentre as informações que podem ser encontradas estão os integrantes dos grupos, as linhas de pesquisa, as áreas de conhecimento e também os currículos disponíveis na base de dados da Plataforma Lattes .

A coleta dos dados foi realizada entre os dias 10 e 20 de maio de 2010, adotando como estratégia a busca por grupo e frase exata. As estratégias de busca utilizadas foram “linguagem documentária” e “linguagens documentárias”. O corpus da pesquisa compõe-se das informações obtidas nas páginas individuais dos grupos de pesquisa, com variáveis como: distribuição nas diferentes regiões do Brasil, data de criação, linhas de pesquisa e atores participantes do processo. Posteriormente analisamos apenas os líderes e a sua produção corrente em LD isoladamente.

Segundo Oliveira (2009), o total de Grupos de Pesquisa em Ciência da Informação no Brasil, resume-se a 103 grupos. Referente à classificação temática dos Grupos de Pesquisa, podemos entender que o estudo das Linguagens Documentárias encontra-se na área de Organização do Conhecimento, e é o segundo tema com maior número de grupos de pesquisa (16), somando em 15,53% dos Grupos de Pesquisa em CI no Brasil. Ainda de acordo com a autora, estes grupos agregam temas como tesauros, listas de autoridade, catalogação e classificação, elaboração de resumos, indexação, revisão e padrões e protocolos. Cabe ressaltar que nem todos os grupos em Organização do Conhecimento tratam especificamente sobre LD. A apresentação e análise dos resultados obtidos na pesquisa são apresentadas na seção seguinte.

5 Resultados e Análise das Informações

Como resultado da busca no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, identificou-se 9 grupos de pesquisa em áreas similares e específicas das Linguagens Documentárias vinculadas ao CNPq. Com relação à Área de Conhecimento, todos os grupos pertencem à grande área da Ciência da Informação e todos fazem parte de instituições de Ensino Superior Públicas.

Referente ao ano de criação dos grupos de pesquisa, observa-se que o primeiro grupo foi criado na década de 80. Na década de 1990, mais 2 grupos foram criados e só a partir do ano 2000 é que a criação de grupos que se alinham nesta área de estudo entrou em ritmo ascendente, com a criação de 6 grupos de pesquisa entre o período de 2000 e 2009. O gráfico a seguir nos mostra o percentual da distribuição geográfica dos Grupos de Pesquisa em LD pelo Brasil, sendo que a sua maioria encontra-se na região sudeste.

01
Gráfico 1 – Quantidade percentual de grupos de Pesquisa por Região

Sobre as Linhas de Pesquisa de cada um dos grupos, notamos que a sua quantidade não está relacionada diretamente ao número de universidades das regiões que contém os Grupos de Pesquisa.  Podemos entender que a nomenclatura das Linhas de Pesquisa serve também como forma de descrever os propósitos de investigação de cada grupo. Os nomes das Linhas de Pesquisa seguidas por cada grupo variam de acordo com seu foco e objetivo, onde notamos que alguns são mais gerais e outros específicos em relação à LD. É possível que a Linha de Pesquisa tenha relação com o respectivo Programa de Pós-Graduação da instituição em questão, mas isto também não é considerado regra.

04
Tabela 1 – Relação das Linhas de Pesquisa de acordo com a região

Ao analisarmos os atores que foram encontrados nas páginas dos Grupos de Pesquisa, os dividimos entre Pesquisadores (líderes e outros professores-pesquisadores participantes) e Estudantes (alunos de graduação ou pós-graduação, seja de mestrado ou doutorado envolvidos em Grupos de Pesquisa). Neste caso a quantidade de pesquisadores envolvidos está diretamente relacionado com a região onde existem mais Grupos de Pesquisa no Brasil. Também podemos inferir pelos dados que especificamente na região norte e nordeste há um maior estímulo para que alunos  (de graduação e pós) engajem-se em projetos de Grupos de Pesquisa.

02
Gráfico 3: Atores envolvidos em Grupos de Pesquisa em LD

Na segunda parte da pesquisa, verificamos a produção dos líderes dos Grupos de Pesquisa, que contabilizaram em 15. Alguns Grupos tinham até 2 líderes e muitas vezes os Grupos não estavam localizados apenas em uma instituição, mas contavam com a participação tanto de líderes quanto de pesquisadores de várias instituições, embora todos fossem relacionados específicamente com a área de CI. A produção foi dividida apenas entre artigos completos publicados em periódicos, capítulos de livros e livros, sendo apenas contabilizada a relação da produção em LD.

03


Gráfico 4: Produção dos Líderes de Pesquisa em LD no Brasil.

Em síntese, compreendemos que a produção dos Grupos de Pesquisa em LD no Brasil não apenas tiveram início, bem como se proliferaram mais na região sudeste ao longo dos anos, especificamente no estado de São Paulo. Todos os grupos analisados são restritos a área de Ciência da Informação, o que os leva a ter vínculo com as Linhas de Pesquisa específicas dos programas de pós-graduação de suas instituições de origem (lembrando também que um Grupo de Pesquisa pode ter participantes – líderes e pesquisadores – de mais de uma instituição). A produção dos grupos em si não foi analisada, mas ao observarmos as Linhas de Pesquisa compreendemos que elas podem ir além do campo de análise e linguagens documentárias, tendo um escopo mais abrangente.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, M. E. A.; OLIVEIRA, M. A Ciência da Informação no Brasil. In: OLIVEIRA, Marlene de (Coord.). Ciência da informação e Biblioteconomia: novos conteúdos e espaços de atuação. Belo Horizonte: UFMG, 2008. Cap. 3, p. 45-60

BORGES-ANDRADE, J. E. Em busca do conceito de linha de pesquisa. Revista de Administração Contemporânea, v. 7, n. 2, 2003.

CINTRA, A. M. M. et al. Para entender as linguagens documentárias. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Polis, 2002. 92 p.

FOSTER, J. Collaborative information seeking and retrieval. In: CRONIN, Blaise (ed.). Annual Review of Information Science and Technology. Medford: Information Today, Inc., 2006, v.40, p.329-356.

LARA, M. L. G. Linguagem Documentária e Terminologia. Transinformação, Campinas, v.16, n.3, p.231-240, set./dez.2004.

LE COADIC, Y.-F. A Ciência da Informação. Brasília: Briquet de Lemos, 2004. 124 p.

MEADOWS, A. J. A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos, 1999, 268 p.

OLIVEIRA, M. Grupos de Pesquisa em Ciência da Informação no Brasil. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v.2, n.1, 2009.

SALES, R. GODOY VIERA, A. F. Grupos e Linhas de Pesquisa sobre recuperação da informação no Brasil. Revista Biblios, n.28, 2007. Disponível em: Acesso em: 27 abr 2010.

(Publicado originalmente em 27 de abril de 2011.)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s