Informação não é poder, tecnologia não é liberdade

[Excerto do comentário de Clive Hamilton sobre o documentário de Adam Curtis, All Watched Over. Título original: All Watched Over tells us information isn’t power, technology isn’t freedom]

Um dos principais alvos de Curtis é a utopia da Internet, a crença, como ele coloca, de que “a tecnologia poderia tornar todos em indivíduos heróicos, completamente livres para seguirem suas próprias ideias”. Mas isto é uma ilusão que serve para ocultar a realidade contínua do poder sob o capitalismo.

O blogueiro, o hacker e o fantoche são todos manifestações deste tipo de utopia. Computadores fornecem às pessoas a sensação de poder – expressar um ponto de vista, invadir um banco de dados, enviar um e-mail abusivo – enquanto isso, os verdadeiros poderes continuam a dominar o mundo.

Não é tanto uma diferença de visão sobre os centros de poder, e mais uma compreensão diferente sobre o que é poder. Costumávamos acreditar que controle de capital era a principal fonte de poder, mas agora nos dizem que informação é poder.

Quantas vezes já ouvimos pessoas elogiando a Internet por fazer com que tanta informação esteja disponível, argumentando que o acesso a esta informação confere poder às pessoas, fazendo nossas sociedades mais democráticas?

Quando eu ouço tais coisas me lembro de um episódio infantil do Meu Marciano Favorito no qual o Marciano abandonado, que se disfarça de terráqueo é pego reprogramando seu cérebro extraterrestre para eliminar informação supérflua, como a receita de brownies da tagarela Mrs Brown.

O intruso extraterrestre reconheceu que informações ruins expulsam as boas, mas não foi longe o suficiente para sugerir que mesmo uma boa informação pode expulsar conhecimento. Era, enfim, um seriado americano. Utopistas de hoje da internet, por outro lado, parecem não discriminar totalmente e fetichizam informação atribuindo a ela poderes mágicos que ela não possui.

É por isso que é provável que “a revolução dos social media” decline da euforia ao caos. Eles poderiam facilmente levar a um novo despotismo.

Aqueles que são atraídos para um episódio de solidariedade através de seus iPhones podem ser poderosos o suficiente para derrubar um déspota, mas se não houver um conhecimento político* mais profundo que não seja um anseio por liberdades ocidentais (liberdades maquiadas pela televisão norte americana), se não houver uma organização estabelecida e coerente expressando uma ideologia, então não há base para uma nova ordem.

* Não consegui imaginar uma tradução melhor para political hinterland. Mesmo.

(Publicado originalmente em 19 de outubro de 2011)

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