Nomeação na Biblioteca, por Michael K. Buckland

A linguagem evolui dentro das comunidades do discurso e produzem e evocam essas comunidades. Então cada comunidade tem sua prática de linguagem mais ou menos estilizada, especializada. Tentativas de vocabulário controlado ou estabilizado devem lidar com os discursos múltiplos e dinâmicos e a multiplicidade resultante e instabilidade dos significados. A maioria das bibliografias e catálogos tem um único índice tópico, mas cobrem materiais de interesse para mais de uma comunidade. Uma vez que cada comunidade tem práticas lingüísticas levemente diferentes, nenhum índice será ideal para todos e, talvez, para ninguém. (…) Então, em teoria, índices múltiplos, dinâmicos, um por comunidade, seriam ideais. Não é, entretanto, apenas uma questão de variação lingüística, mas também de perspectiva. Diferentes discursos discutem diferentes questões ou, quando discutem a mesma questão, de diferentes perspectivas. Um coelho pode ser discutido como um bicho de estimação, ou como uma peste ou como comida. Em medicina, especialistas em anestesiologia, geriatria e cirurgia podem todos buscar por literatura recente em, vamos dizer, Parada Cardíaca, mas uma vez em que estão interessados em diferentes aspectos eles não irão, na prática, querer os mesmos documentos. (BUCKLAND, 2006,  p. 9-10, Grifo Nosso)

Encontrei esse texto do Buckland nas referências de outro texto do mesmo autor, “What Kind of Science can Information Science be?”. O texto Naming in the Library está disponível na página pessoal do autor. Como me interesso pelo tema de indexação e vocabulários controlados, achei que o texto pertinente e tentei fazer a melhor tradução possível. O texto está disponível no meu slideshare e quaisquer correções são bem vindas nos cometários.

No texto o autor trata sobre o posicionamento que o bibliotecário deve ter ao pensar a indexação (nomeação por prospecção e nomeação por antecipação) e de como tudo é tão precário e instável em se tratando de registros humanos, uma vez que o tempo de inscrição, de atribuição de termos pode influenciar diretamente na qualidade da recuperação da informação.

Buckland não trata muito sobre tecnologias de informação, mas mais específicamente sobre a linguagem e os problemas do uso das linguagens documentárias nas bibliotecas. No entanto, na citação acima, ele fala sobre índices customizados, ou seja, índices criados especificamente de acordo com as comunidades e seus discursos. Isso pode ser mais difícil de ser realizado (e armazenado) no mundo físico, mas no mundo digital essa restrição deixa de ser um problema para nós (ou ao menos deveria deixar de ser).

Essa questão de índices customizados, de informação organizada especificamente para atender nichos e comunidades tem muito a ver com um termo que tem sido usado com mais frequencia agora, o tal de “curadoria”, seja digital, artística, física, etc. O que nos remete também ao termo um tanto quanto desgastado, empoeirado e quase que esquecido, ultrapassado, obsoleto que aprendemos no curso de graduação de biblioteconomia, o famigerado DSI (Disseminação Seletiva da Informação). Abordagens idênticas, mas com nomeações (pois é) diferentes… O que faz com que as pontuações que existem no texto do Buckland sejam ainda mais pertinentes. :)

É claro que as bibliotecas físicas vão continuar mantendo o conservadorismo da CDD/CDU e todos os processamentos técnicos enquanto ainda existir papel e documentos físicos passíveis de pesquisa e apreço. Não tenho dúvidas disso e de sua importância, etc. Mas também existem outras possibilidades que, aos poucos, vão se tornando cada vez mais evidentes (só pra não dizer urgentes, beleza?). Curto muito iniciativas que “correm por fora” e essa semana mesmo vi isso, num post da Biblioteca da ECA/USP, Colocando os discos em ordem. Existe também outro blog de Teses e Dissertações da UFRJ, que faz curadoria da produção das Engenharias. Achei esse blog completamente por acaso, procurando pela BDTD da UFRJ pra fazer pesquisa pro meu TCC. Foi um achado.

As comunidades que mais têm a ganhar são as que têm bibliotecários pró-ativos, que pensam mais nas pessoas do que na pretensa ‘preciosidade’ da biblioteca. Geralmente esses bibliotecários são muito intrometidos, vivem a remar contra a maré (ainda bem!) e fazem sempre o que não é requisitado (por quem? pois é). Enfim, pessoas que tem o hábito de pensarem por si mesmas e não em si mesmas. Vida muito longa a essas pessoas. Pois bem. Por hora, são essas duas iniciativas que conheço. Certamente existem mais. Mas isso é só o começo. Os tempos estão mudando… As práticas, posicionamentos, políticas, vão se ver obrigadas a mudar daqui uns anos também. Nada vai morrer não. As coisas só se transformam… É só observar.

(Publicado originalmente em 28 de outubro de 2011)

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