Qual a diferença entre uma livraria e uma biblioteca?

Escrevi um texto em 2010 sobre o clichê de “brasileiros não gostarem de ler”. O texto não ficou bom e acabei falando de outras coisas. O que me ocorreu é que na época eu tinha algumas inquietações que não conseguia distinguir muito bem e hoje, 5 anos depois, vejo algumas coisas com um pouco mais de clareza, talvez. Uma das minhas perguntas que fiz na época foi “será que bibliotecas precisam mesmo ser como livrarias?”

A resposta rápida e meio impensada é sim, claro, deveriam. Pensamos em grandes mega book stores como a Livraria Cultura e a Saraiva e suspiramos pensando porque bibliotecas não podem ser um pouquinho assim, não? E a verdade é que eu gostaria sim que o ambiente de bibliotecas, sejam elas públicas, universitárias ou outras, se aproximasse do ambiente aconchegante das livrarias. Todo mundo gosta de ambiente agradável e não adianta negar que a experiência é importante. Mas não tenho tanta certeza assim de que os dois lugares devam confundir-se.

Ambos lugares são parecidos, mas com propósitos levemente diferentes.

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Durante o curso de biblioteconomia, na disciplina de estudo de usuários, aprendi que existem diferenças entre leitores, usuários e clientes. Leitor é a pessoa que já está totalmente imersa na cultura do livro e na cultura de bibliotecas. Ela não trata o objeto livros, nem os ambientes de leitura como coisas distante de si, mas como algo cotidiano, parte de sua vida. Muitas vezes são bibliófilos e colecionadores e tem amor pelos livros, podendo compartilhá-los ou não. Usuários são pessoas que utilizam a biblioteca com objetivos pontuais: pegar um livro emprestado, ficar em um lugar com silêncio, ter um espaço para trabalhar. E clientes são pessoas que se utilizam dos serviços que uma biblioteca pode oferecer. Alguns professores defendem que simplesmente não existe essa diferença e “é tudo gente” e todas devem ser atendidas da mesma forma. Talvez. O que eu não aprendi na faculdade – mas aprendi há 4 anos no mercado, trabalhando – é que existe um quarto perfil: o consumidor. E ele não se aproxima de nenhum modo destes outros três perfis que mencionei anteriormente. Com consumidores, as coisas são bem diferentes.

Acredito que seja importante sim pensarmos em contexto, pois nem sempre as coisas são o que parecem.

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As livrarias, principalmente as mega stores, estão inseridas dentro de um contexto claramente capitalista e que tem por objetivo principal o lucro. Não há aqui julgamento de valor: não acho ruim que façam dinheiro vendendo produtos. Mas é preciso que tenhamos em mente sempre o objetivo puramente mercadológico de tudo isso. É claro que todos os clientes serão bem atendidos e poderão ler o que quiserem por lá pois a livraria não quer se indispôr com consumidores. E é por isso que na livraria jamais existirão tantas restrições que existem nas bibliotecas. E também não existe uma figura de autoridade dizendo o que você pode ou não fazer. A figura de autoridade em questão é o próprio sistema em que estamos, pois se você rasga, rabisca ou comete algum ato de vandalismo dentro de uma livraria, você certamente será punido e pagará por isso de algum modo. Ou seja, as pessoas tendem a se relacionar com as livrarias de modo diferente, talvez porque tenham que pagar pelos livros. É uma relação sempre distanciada e sempre mediada pelo dinheiro. E sabemos sempre que, quando a questão chega no bolso as pessoas são capazes de mudar de comportamento de forma drástica.

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Em uma biblioteca a proposta muda de forma um tanto quanto radical. O próprio conceito de biblioteca é justamente a preservação do material para que as informações possam chegar ao maior número de pessoas possível, sem custo. Essa era a ideia de conhecimento universal, do Mundaneum, do Otlet. É essa a pretensão que a humanidade tem tido por mais de mil anos: a de que o conhecimento possa chegar para todos. E esse tipo de pensamento e postura vai justamente de encontro aos ideais de um sistema capitalista, que só sabe se fortalecer a partir das desigualdades. O propósito da biblioteca é o de justamente de criar comunidades e fortalecê-las, tornando-as autosustentáveis. As pessoas que se utilizam de bibliotecas e efetivamente estão imersas nesse tipo de cultura, pensam sempre no coletivo antes de si mesmas. O livro não é propriedade de ninguém, é de uso comum de todos. Cria-se uma cultura geral de preservação e cuidado, para que esse bem se mantenha através de gerações. Bibliotecários neste caso não se comportam (não deveriam ao menos) como figuras de autoridade dentro da biblioteca, mas mais como catalizadores mesmo, fomentadores e estimuladores deste tipo de cultura, justamente para que ela se replique. Quando uma comunidade e um grupo de pessoas se apropriam de determinado espaço, de conhecimento e começam a construir o seu próprio, a biblioteca passa a possuir sua relevância naturalmente – não de forma forçada.

As pessoas tendem a acreditar que livrarias, hoje, são centros de cultura por excelência. Isso é verdade? Parcialmente. As boas livrarias te deixam tão confortavelmente imerso em seu mundo de leitura, com sofás e pufes, gente bonita lendo livros, bom atendimento, cafeterias… Que faz com que você acredite que eles sejam centros de cultura por excelência. Você não precisa comprar nada, ninguém irá te obrigar porque essa é a proposta. Mas o fato é que o objetivo principal é ter lucro e devemos lembrar sempre disso. O que você faz com o livro ou o conhecimento adquirido da porta pra fora, não é de interesse deles – desde que você deixe seu dinheiro por lá. Também não é de interesse deles criar comunidades uma vez que isso impacta nas vendas (pessoas trocando livros não é lucrativo), mas posso estar enganada uma vez que bookclubs ou Clubes de Leitura sendo sediados em livrarias estão cada vez mais hypados.

Bibliotecas são centros de cultura? Sim. Mas cumprem mesmo esse papel sempre? Por que as bibliotecas no Brasil parecem ser incapazes de fazer com que as pessoas sintam-se imersas em seu mundo? Existem uma série de limitações, não só econômicas mas também – e principalmente, eu diria – culturais. Será mesmo só falta de investimento público? Será mesmo que é só por que alguns profissionais são acomodados, arrogantes e fora do seu tempo? Ou esse conceito meio romantizado de biblioteca necessariamente baseada na comunidade que tenho, está desgastado?

Querendo ou não um paralelo – mesmo que superficial – entre bibliotecas e livrarias pode existir e acredito que eventualmente cada uma pode aproveitar-se das características da outra sem no entanto descaracterizarem-se. São muitas as questões e nenhuma das respostas é simples.

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