Vale a pena fazer Iniciação Científica?

(Publicado originalmente em 5 de abril de 2011.)

Fazer pesquisa [não qualquer pesquisa, a pesquisa acadêmica, quadrada, certinha, careta, “científica”] é pra quem gosta e tem paciência (e perseverança!). Além disso a pessoa tem que ter aquele tipo de ‘ambição’ – que com certeza não é material, pois a bolsa simbólica é de R$360 (na época) – de querer ter um maior convívio acadêmico e curiosidade de entender como que funciona o modo de trabalhar de algum professor em específico ou entender melhor sobre os estudos que estão fazendo sobre algum tema muito específico da sua área.

Claro que é difícil encontrar um orientador que estude exatamente aquilo que você quer estudar, mas acredito que com uma primeira experiência em pesquisa, é mais simples ter uma noção de como as coisas são feitas, do que está ‘estabelecido’ (por assim dizer), e a partir daí você pode partir não só pra outras experiências, como também para experiências próprias, criando suas próprias pesquisas e projetos. Algumas das pessoas que fazem IC tendem a ir pro mestrado e seguir carreira acadêmica, mas isso também não é uma regra, bem como não é uma regra que ‘quem faz IC entra direto no mestrado’.

Alguém perguntaria ‘mas qual é a vantagem de se fazer uma Iniciação Científica?’. Vou tentar colocar isso em tópicos de desvantagens e vantagens.

Desvantagens

  • À primeira vista, não tem nenhuma vantagem. Primeira coisa: ganha-se muito pouco. Você nunca vai ter dinheiro pra absolutamente nada. Aceite este fato e se vire nos 30.
  • É trabalhoso. Tem muita coisa pra ler, bibliografia pra levantar. Você tem que coletar dados e organizá-los em uma planilha ou de alguma forma decente (e quando alguma coisa muda, você também tem que mudar, estar em constante atualização e ver como isso muda “a cara” da pesquisa, etc). Tem que escrever e não só isso, tem que saber escrever (jargões ‘científicos’ são opcionais).
  • Você corre o risco de ficar “preso” no “modo acadêmico” de fazer as coisas e achar que tudo no mundo tem que ser  feito desse jeito senão “não é bom”. Ou seja, você pode perder a criatividade e espontaneidade, que podem ser importantes (cruciais?) em algum momento da sua vida. Cuidado com isso. O modelo acadêmico é só um modelo, não é algo divino e nem uma verdade absoluta. “The truth is out there”.
  • Na verdade é um tanto quanto desgastante você ter que lidar com as disciplinas regulares do curso e ainda fazer em paralelo algo que é quase um mini-TCC. Haja! Tem que saber administrar o tempo pra acabar não tomando bomba em tudo e conseguir passar nas disciplinas regulares pelo menos com uma média satisfatória. Tem que entregar relatórios e existem prazos para essas entregas.
  • Além de ganhar pouco, você não pode “acumular bolsas”. Ou seja, tem que se dedicar integralmente às atividades acadêmicas e de pesquisa e não possuir qualquer vínculo empregatício/de estágio em nenhum outro lugar (isso me foi confirmado pelo Airton Costa, coordenador do BIP/PIBIC-UFSC e também pelo próprio site do CNPq quando da Norma Específica sobre o programa de IC, 2.2 b).

Opressor né? Oh, well. Se você não tiver muita certeza de que quer fazer pesquisa, nem tente, porque depois que já estiver na metade ou terminado vai ficar aquela sensação de ‘tempo perdido’ terrível. Se não é sua praia, sugiro que descubra o que você realmente gosta mesmo de fazer e se especialize nisso. Poupe o tempo de todo mundo. :D

Vantagens

  • Se você gosta de ficar enfiado em um laboratório, ou gosta de ficar sapeando pela universidade o dia todo (todo aquele discursinho romantizado de “viver a universidade”, ahah), ou gosta de ficar em casa mesmo no computador, a IC permite isso por não ter horários fixos. Claro que você tem que responder quando um orientador te chama ou te pede algo, mas pelo menos na minha experiência, você não tem obrigação de frequencia nenhuma na universidade. Se quiser trabalhar às 4 da manhã, ótimo, desde que você produza, tá valendo! (Nota: não sei como isso é em outros cursos, no meu é assim).
  • Você entende um pouco mais sobre o universo de publicações da área que você está pesquisando, consegue mais fontes, tem mais contatos pessoais (networking), tem mais chances de estar atualizado inclusive sobre fontes não-acadêmicas, tudo é válido se você busca e tem interesse (isso se você tiver um interesse genuíno no tema). Acho que a IC é um bom ponto de partida pra quem está meio perdido em relação ao que é pesquisa. Depois que você aprende a operacionalizar certas coisas, domina certos padrões/técnicas, certos “modos de fazer”, o resto fica mais simples. Mas lembre-se sempre: este é só UM modo (muito especializado) de fazer as coisas, não é o único.
  • Você aprende, com o tempo, a separar o joio do trigo e saber o que acatar do seu orientador e o que não acatar. Isso nem sempre é relativo ao projeto de pesquisa, mas sim à própria mentalidade acadêmica. Nem tudo deve ser acatado, acredite. Se você quiser ler X coisa, por mais que seu orientador diga “isso é besteira!”, LEIA. Se você quiser fazer uma tradução e seu orientador te perguntar “isso vale alguma pontuação?”, ignore e FAÇA. Não deixe ninguém te podar. Ao longo do tempo você vai percebendo essas sutilezas e aprendendo a lidar com elas. Acho isso positivo em relação a amadurecimento mesmo.
  • Se você fizer IC cedo (logo nos primeiros anos de curso), quando a época do seu TCC chegar, quando os seus colegas estiverem se descabelando, você vai estar mais tranquilo. Isso é quase certo. Aliás, se você tiver “jeito pra coisa” você pode se meter à besta e fazer uma das coisas mais legais EVER: ajudar os seus colegas a estruturarem seus TCCs! Ajudando eles você também aprende mais ainda.
  • Seu projeto de pesquisa – se bem finalizado, publicado, etc – na biblio da UFSC, conta como Disciplina Optativa / Extracurricular (só imprimir a papelada, pedir pro professor orientador dar uma nota e ir na coordenação preencher o formulário e entregar).
  • Os professores dizem que aluno com IC tem mais chances de entrar em um mestrado. Bem, depois que eu conseguir entrar em algum, vou ver se isso é verdade. Pra mim, processos seletivos de mestrado além de concorridos são bastante subjetivos. A gente nunca vai saber o que exatamente estão avaliando, então não sei se conto muito com isso . Fiz duas iniciações científicas na UFSC e fui aprovada no mestrado em 2011, mas não quis fazer. Então acho que vale a pena sim, pois os professores vão te conhecer melhor.

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