As palavras e as coisas*

por Aldo Barreto

Nossa comunicação não passa de um jogo de palavras. Palavras podem ser inventadas arbitrariamente e seu sentido fruto de convenção depende do uso que fazemos delas. O objeto de estudo da ciência da informação tem sido um constante construir de novas palavras e conceitos . A explanação teórica e conceitual das práticas já utilizadas vem correndo atrás das aplicações mutantes pelas tecnologias, mas ainda sem um consenso ou entrosamento. Mas não podemos inventar sentidos a nosso bel prazer. Apesar dos estudos sociais nos mostrarem que:

“… o elemento explicativo é a importância atribuída à presença, nas sociedades humanas, de sistemas simbólicos e sígnicos que passaram a perceber-se como, em grande parte, programando “de fora” a ação humana…. Como os processos de criação de significados, a partir dos signos e das mensagens (verbais e não-verbais) que permitem difundi-los, dependem de como sejam decodificados, pensou-se que o conhecimento humano fosse necessariamente relativo: os significados dependeriam de um processo de interpretação inescapavelmente marcado por sistemas de poder e por interesses que nunca são universais, estão sempre ligados a grupos delimitados.”**

Existe um fascínio por novas versões do mesmo significado e em um mundo de memória fraca há que contar e recontar a união entre as palavras e as coisas para evitar a palavra clandestina que quer renomear o que já foi dito mil vezes.

Este é o caso do conceitos cujo significados re-usados querem indicar um sistema de poder e a união com grupos delimitados como é o caso do conceito de capital cognitivo. O conceito parece indicar a acumulação de cognições prévias o que secularmente temos denominado de “memória”.

Um outro caso seria “engenharia da informação” que se define como o estudo da natureza da informação, dos artefatos que a manipulam e do papel de ambos na dinâmica social incluindo o desenvolvimento das tecnologias da informação. Disso trata a ciência da informação e suas ligações. O Marketing da informação vem substituir a disseminação da informação e assim outros casos.

É conhecida a história do indivíduo que por novidade gostava de trocar o nome das coisas. Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, e assim continuou. As coisas começaram de fato a mudar em sua cabeça. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Com o tempo ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém. Retirou-se para casa e só falava consigo mesmo.

A substituição de conceitos busca significado em outras áreas, de modo livre e desordenado, sem instrumentos e métodos para refletir e ordenar novos nomes. Uma bagunça mistura sem coerência dando nomes novos para idéias já estabelecidas e convencionadas em códigos de comunicação.

Há sempre o perigo, como na história acima, de se ficar sem interlocutor ou de se decidir não falar mais nada, ou o que é pior, não entenderem mais nada do que falarmos em nossa área de conhecimento.

* “As palavras e as coisas” é titulo de conhecido livro de Michel Foucault

** “Mudanças de rumo na metodologia dos estudos sociais” de Ciro Flamarion Cardoso, DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v.5, n.5, out/04

Fonte: Lista de Discussão Lexias. Grifo nosso.

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