Contexto e postura: um olhar sobre a profissão

(Texto originalmente publicado em 10 de fevereiro de 2011)

A seguir, dois textos de pessoas um pouquinho mais esclarecidas do que eu, sobre o profissional bibliotecário e seus contextos. O primeiro texto é do prof. Francisco das Chagas de Souza e o segundo texto é da colega Claudiane Weber, que que é bibliotecária na BU/UFSC. Foi a Claudiane que me enviou os textos por e-mail e achei tão interessante que decidi também compartilhar por aqui. Todos os grifos são meus.

Colegas bibliotecários (as) e estudantes de Biblioteconomia,

Uma das coisas mais estimulantes que encontro é ver/ler/ouvir a discussão sobre a profissão de bibliotecário. Isso porque todo o meu tempo de reflexão, desde quando cursava a graduação, que foi de 1976 a 1978, o mestrado que conclui em 1982 e o doutorado que conclui em 1994, pautou-se em tentar entender como se discute uma profissão, um espaço profissional, sem discutir e tentar compreender antes a sociedade que nos abriga: suas filosofias, as relações que as pessoas vivem, as subjetividades que as pessoas têm, os valores que carregam….

Assim, sempre tentei combater a delimitação da educação biblioteconômica ao conteúdo técnico; mas mesmo tentando combater esse enfoque vejo algo que força o ensino por esse caminho e, nos últimos anos com um peso acentuado. Trata-se: 1. de um amplo mercado “escravagista” de estágios remunerados; estaginhos que servem para as empresas e orgãos governamentais reduzirem custos de pessoal evitando os encargos trabalhistas da contratação de auxiliares de serviços. E fico triste ao verificar, Brasil afora, a avidez com que os estudantes de Biblioteconomia correm em busca desses “estágios”. Traduzindo: o estudante de Biblioteconomia, em sua maioria depende economicamente desses estágios e nesses estágios ele quer mostrar que sabe algo que sirva, ou seja, alguma técnica, pois parece que para a maioria saber filosofia, sociologia, psicologia social, politica, história, literatura … não é saber; muitos até dizem, por ai, que isso é perfumaria, ou seja, não é necessário;

2. De que não há tempo para “estudar”. A grande maioria dos estudantes de Biblioteconomia, por conta de tais “estágios”, vêm à universidade que no caso da UFSC, deixa de se catacterizar como universidade para o Curso de Biblioteconomia pois por esse ser oferecido à noite a UFSC é pouco mais que blocos de salas de aulas. Ora, vir às salas de aula, ouvir aulas, cumprir tarefas em grupos nessas salas é estudar? É refletir sobre a realidade e intuir soluções? Como? Numa circunstância como essa faltam os estudos sobre o contexto. É por isso, até pela semelhança como o tópico 1, que há uma enorme cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transformar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.

Diante de tudo isso, é que pessoas de outras áreas, onde se estuda mais o contexto, onde se constroi melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais, sempre estarão mais bem preparadas para a direção de bibliotecas, pois o bibliotecário na maior parte de sua formação e atuação pensa que a sociedade deveria valorizar o seu saber operacional. E esse é o grande erro! Quando um médico, engenheiro, economista conversa politicamente não tenta fazer valer o seu discurso de médico, de engenheiro, de economista… Lideres, diretores e dirigentes de empresas, associações, sindicatos e órgãos de governo – executivo e legislativo – são políticos, compreendem e formulam o discurso político. É claro que alguns bibliotecários há que fazem esse discurso, mas são pouquíssimos.

Enquanto os estudantes de Biblioteconomia se preocuparem majoritariamente com operacional: catalogação, classificação, etc. … o choro será esse e para esse choro a sociedade prestará pouca atenção. Nos meus 27 anos de ensino de Biblioteconomia vi poucos egressos da Biblioteconomia da UFSC que carregam as convicções necessárias para construir o discurso contextual, que têm uma noção da construção do discurso político. Uns serão bons técnicos e recebem valorização como tal e os demais, são os demais: nem bons técnicos, nem políticos. Se a universidade puder mudar os valores e as limitações individuais que mudemos, pois em principio foram os bibliotecários que buscaram a universidade como espaço para desenvolver o ensino e formação de bibliotecários. Os bibliotecários do século XIX, no caso sob a liderança de Melvil Dewey nos EEUU, “cavaram” um espaço na universidade para nela instalar o Curso de Biblioteconomia e isso se reproduziu desde então.

Quer dizer, o ensino de Biblioteconomia existe como ensino superior porque bibliotecários com a compreensão de um contexto social e econômico justificaram para os dirigentes universitários que ela teria o dever social de abrigar Curso de Biblioteconomia. Demonstar esse dever da universidade, tecer os argumentos adequados é discurso para além do técnico; é discurso político. Se os bibliotecários que se “formaram” no Brasileiro perderam isso, pois isso deu-se aqui também, com Laura Russo, Marta Carvalho, Etelvina Lima, Alvaceli Braga …. foi mais por conta da correria dos “estágios remunerados”. Mas é possível mudar no Brasil inteiro esse quadro. Levará tempo quanto mais tarde começar a ser feito. Dependerá muito do comprometimento dos estudantes em quererem, buscarem e fazerem com que seu futuro não seja construído centralmente sobre o discurso operacional.

Att.

Francisco C. Souza
UFSC – Ciência da Informação

“Biblioteca”, 1955, por Maria Helena Vieira da Silva

O Ser Humano é posto pela vida para realizar plenamente o potencial de natureza que lhe é intrínseco. Uma das coisas mais importantes na vida, é ter um projeto onde investir o próprio potencial e a própria vontade. Uma amizade, um amor, a família, são sempre garantidos e regados pela eficiência da ação; uma coisa alimenta a outra.

Somente a construção da pessoa, do indivíduo, para a ação, pode transformar a associação, o conselho regional, o sindicato, ou mesmo levar ao local “onde se constrói melhor o discurso político, onde se busca entender melhor das relações sociais e interpessoais”.

Inicialmente, é necessário ter amor pelo trabalho, ao que o local de trabalho oferece, e isso não é servilismo, é um modo de ganhar a si mesmo, a própria carreira, o próprio avanço. Esta é a escola objetiva da vida. A vida é um projeto que Você mesmo constrói.

Infelizmente, apenas uma minoria entre os jovens está interessada no conteúdo intrínseco do trabalho, esta minoria é representada por aqueles que olham o trabalho não simplesmente como um meio para viver e para mudar o próprio bem-estar material, mas como um âmbito de expressão da própria personalidade.

Sobre a “cobrança pelo estudantes de laboratórios, de transfromar a biblioteca universitária em laboratório, reduzindo uma vez mais o conteúdo do curso à empiria, ao mundo da prática, ao âmbito operacional.”

Devemos ter a BIBLIOTECA como Centro de FORMAÇÃO, como a raiz da palavra emprega, Formar para a Ação. Isso significa para o estudante de Biblioteconomia, aprender a operação do real que as pessoas/bibliotecários de sucesso fazem. É, obter o compartilhamento de conhecimentos tácitos, àqueles que não conseguimos transformar em manuais, em apostilas ou mesmo “xerocar”.

Formar para a ação um indivíduo, passa também pelos cursos de Biblioteconomia, bem como das Bibliotecas Universitárias. É aliar a teoria à pratica e vice-versa. Porém, nada disso acontece se o mesmo não tomar para si a responsabilidade de querer. Não é com assistencialismo que se resolve, e, sim com uma pedagogia que cultive a competência pessoal, que estimule o brio de sentir-se responsável por si mesmo.

Sentir-se responsável por si mesmo, implica um exercício cotidiano de escolha e de atuação num estilo de vida: não é apenas viver biologicamente, permanecendo e repetindo o ciclo biológico, mas é exercitar o ofício de viver, rumo a um ganho mental, de personalidade, e de conhecimento.

E a formalização do conhecimento, não está alicerçada no técnico, mas está baseada principalmente na capitalização do savoir-faire. Isto é, no saber fazer. Ir em busca do conhecimento, de saber e saber fazer, para aprender de fato e realizar o que precisa ser realizado. E a biblioteca universitária pode contribuir na integração do conhecimento, a habilidade e a atitude no saber, saber fazer e o fazer.

Alguns colegas citavam o Líder. Este é o elo fundamental. “O Líder é o centro operativo de diversas relações e funções, é aquele que sabe individuar a proporção de como se movem as relações da vida e sabe aplicar, a cada situação, a fórmula justa para resolver e realizar econômica, política e socialmente.” (Dicionário de Ontopsicologia).

Para liderar, conhecer a história clássica humana, a filosofia, a psicologia, são cardinais, para compreender os acontecimentos da sociedade contemporânea. Para Meneghetti (2008)*, é imprescindível uma profunda formação cultural, que implica saber a cultura do seu país e do seu ambiente. Também uma cultura específica, ou seja, se sou bibliotecário, devo ter cultura teórica e prática. Prática significa que devo conhecer de modo manual, concreto, o objeto do meu trabalho. E por último, experiência nas relações diplomáticas. Devo ser um artista no saber orquestrar as relações com os diversos agentes do meu contexto. Que se constrói por meio das relações com as pessoas.

Mas afinal, Líder, se nasce ou se torna? Um pouco de se nasce e muito se torna (Meneghetti, 2008). E, para mim, para tornar-se Líder, é necessário responsabilidade. É encontrar o meu core business, descobrir qual é a minha vantagem competitiva. Colocar o foco principal onde se pode ser mais forte, usando o meu conhecimento para desenvolver o próprio protagonismo. E, se terá como resultado, saúde, autonomia econômica, sabedoria e boas relações sociais. Por isso, e concluindo, liderar é ser um leitor transparente da própria psicologia, é saber construir a harmonia de relações entre todos, para que exista um nível máximo de produção de valores e de coisas.

Claudiane Weber
Bibliotecária – UFSC

*Meneghetti, Antonio. A Psicologia do Líder. Recanto Maestro: Ontopsicologica Editrice, 2008.

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