O palácio da informação

por James Gleick

A palavra “informação” cresceu urgente e problemática – um cartaz de sinalização visto em qualquer lugar, carregado com um novo significado e importância. Dificilmente precisamos que lexicógrafos do Dicionário Inglês de Oxford nos digam isso, mas afinal, é pra isso que eles servem. É uma palavra, eles nos dizem, “exibindo uma produtividade linguística significante”, uma palavra que “tanto relflete e incorpora grandes mudanças culturais e tecnológicas”, portanto é uma palavra querendo chamar atenção. Em sua última versão trimestral de dezembro de 2010 recém postada, a entrada para “informação” é totalmente reformulada. (O Dicionário de Oxford, caso você não tenha notado, evoluiu para uma empresa do ciberespaço, ao invés de um mero livro).

A renovação tornou o que era um casebre num palácio. Informação, subst., agora está com 9,400 palavras, o tamanho de uma novela. É um tipo de obra prima – uma aventura em história cultural. Há um século atrás “informação” não tinha tanta ressonância. Era uma palavra de nada. “Um item de treinamento; uma instrução”. Agora (como as pessoas vem dizendo há cinquenta anos) estamos na Era da Informação. A qual, a propósito, o Dicionário de Oxford define para nós em sua prosa seca: “a era na qual a recuperação, gestão, e transmissão de informação, especialmente usando a tecnologia de computadores, é uma atividade principal (comercial)”.

Um pouco mais efusivamente, Michael Proffitt, o editor executivo do Dicionário de Oxford, explica em um anúncio aos leitores por que “informação” foi empurrada para o topo da lista. “O que torna [a palavra informação] tão distinta quanto a estrutura de comunicação de massa é a própria combinação de imaterialidade e solidez, seu caráter difuso esmagador. É também uma palavra que prove um ponto de simpatia imaginativa entre os editores e leitores do Dicionário de Oxford”. Informação é o negócio deles, ele está tentando dizer, e nosso.

Originalmente – e por originalmente eu quero dizer no século XIV, quando a escrita iniciou, na medida em que o Dicionário de Oxford pode dizer – a palavra tinha um sabor sinistro. Ele moveu o seu caminho para o velho anglo-saxão rude, como parte da invasão normanda. Significava algo como “denúncia” ou “incriminação”. A citação mais antiga vem dos rolos do Parlamento de 1386: “Thanne were such proclamacions made‥bi suggestion & informacion of suche that wolde nought her falsnesse had be knowen to owre lige Lorde.” Durante séculos depois disso, informações foram arquivadas, ou gravadas, ou estabelecidas, contra as pessoas.

Desde então o mundo tomou um rumo distorcido, e os lexicógrafos do Dicionário de Oxford seguram em nossa mão em todas as esquinas. Informação pode ser “um ensino; uma instrução”. Pode ser “influência divina ou direção; inspiração, esp. através do Espírito Santo”. Pode ser “aquilo que alguém pode ser informado ou dito; notícias de inteligência”.

Sempre à espreita embaixo da tapeçaria está o precurssor Latim: o verbo informare – dar forma a; formar; moldar. Informação é o ato de infusão com forma. Onde e como? A formação tem lugar na mente. Nossas mentes são informadas; então nós temos algo que antes nos faltava – alguma idéia, algum conhecimento, alguma informação. Na minha visão esse sentido antigo da palavra possui uma força moderna especial: quando estudamos informação, aprendemos que ela não é uma mera mercadoria, a ser possuída por nós. Ela se infiltra em nós; não somos seus donos.

É no século XIX que começamos a ter uma idéia do sentido moderno da palavra como uma grande categoria, uma coisa geral encompassando notícias e fatos, mensagens e anúncios. A verdadeira virada acontece em 1948 quando o matemático e engenheiro da Bell Labs Claude Shannon, em seu artigo mais referenciado (que mais tarde se tornaria livro) “A Teoria Matemática da Comunicação”, fez da informação, como o Dicionário de Oxford explica, “uma quantidade definida matematicamente divorciada de qualquer noção de notícia ou significado…”. Nós a medimos em bits. A reconhecemos em palavras, sons, imagens; nos armazenamos na página impressa e em discos de policarbonato gravados por lasers e em nossos genes. Nós estamos cientes, mais ou menos, que isso define o nosso mundo.

A propósito, como sabemos que as pessoas tem falado da Era da Informação por cinquenta anos? O Dicionário de Oxford nos diz. A primeiro uso registrado é atribuído a “R. S. Leghorn in H. B. Maynard Top Managem. Handbk. xlvii. 1024″, 1960. Ele revela ter sido Richard Leghorn, fundador da Corporação Itek, que fez câmeras espiãs aeroespaciais, e mais tarde foi chefe da Inteligência e Desenvolvimento de Sistemas Reconnaissance no Pentágono. Em uma única frase Leghorn inventou a frase e previu que não iria pegar:

Conquistas informacionais espetaculares atuais e antecipadas irão inaugurar o reconhecimento público da “era da informação”, provavelmente com um título mais simbólico.

Nenhum título melhor apareceu. Junto com a Era da Informação, o Dicionário de Oxford agora reconhece armazenamento de informação, transferência de informação, processamento da informação, recuperação da informação, arquitetura da informação, supervia da informação, e mais (as más notícias) explosão da informação, lacuna, guerra, sobrecarga e fadiga.

Você não precisa do Dicionário de Oxford pra te explicar essa última né? “Apatia, indiferença ou exaustão mental surgindo da exposição à muita informação…” (Claro que até TMI* chegou ao dicionário, como uma adição de rascunho, coloq.)

Oh, e em dezembro o Dicionário de Oxford também reformulou a entrada para “digital”. Uma outra história.

*N. da T.: TMI ou Too Much Information é uma expressão inglesa que quer dizer “Informação demais” ou “Informação em excesso”, tipo quando alguém nos conta coisas além do necessário que não precisávamos ter ouvido ou lido..

Publicado originalmente no The New York Review of Books.
Título original The Information Palace.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s