O que você acha de plágio?

Lembro-me que durante todo o meu ensino fundamental e médio eu fazia trabalhos copiando o material da então chamada Enciclopédia Barsa. Depois de um tempo a gente percebe – ou nos dizem – que o ensino, de um modo geral, tem mais a ver com memorização do que aprendizagem de fato. É possível a aprendizagem através da repetição? Sim, mas não acredito que isso deveria ser ideal ou desejável, pois é uma aprendizagem incompleta, que envolve pouco pensamento e pouca crítica, apenas uma papagaiação do que já existe e já foi criado.

E na verdade o que ocorreu na minha aprendizagem quando eu era pequena era um tanto quanto confuso: a cópia da Barsa para apresentação de trabalhos era liberada, até mesmo desejável e estimulada, MAS quando havia provas, não se podia copiar nada e tudo já deveria estar totalmente memorizado. Bem, sendo assim, era bem difícil. Em nenhum momento, quando eu copiava trabalhos, fui repreendida por nenhuma professora e todos os meus colegas apresentavam os mesmíssimos trabalhos, muitas vezes com as mesmas fontes e, claro, não precisávamos citar nada. Era uma situação bem esquisita, mas a gente só acaba percebendo isso hoje mesmo.

“Citação” é uma palavra que inexiste no vocabulário de muitos alunos do ensino médio sendo que o conceito deste termo só vai ser compreendido – muitas vezes às duras penas – no ensino superior (o que é bizarro, mas é o que percebo acontecer). E depois que finalmente compreendemos o conceito de “citação”, se pensarmos um pouquinho mais, podemos entendê-lo também quase (eu disse quase) que como “cópia”, uma vez que por muitas vezes nos deparamos com certos “textos” que não passam de um grande apanhado de citações e ainda assim são considerados legítimos, e até mesmo publicáveis, pela academia.

Isso é básico: assim como um monte de pedras não faz um castelo, disponibilizar de muita informação não produz conhecimento e não faz de ninguém ‘uma pessoa muito inteligente’, apenas uma pessoa com muita informação, nada muito além disso. Então qual é mesmo o objetivo? Contribuir  efetivamente para a área da qual você faz parte ou apenas cumprir créditos por motivos escusos? Não é a toa que ao perceber o modus operandi da situação toda, a forte tendência é se sentir extremamente desestimulado a participar e envolver-se de qualquer modo. Mas… Tem gente que persiste e acha que pode ser diferente.

Citações são importantes. Selecionar informações e saber organizá-las para uso é muito importante também. Mas acredito que saber como fazer uso disso é que determina se a pessoa faz de fato pesquisa ou não.

Mas voltando ao assunto, surgiram algumas questões como “o que pode ser considerado cópia?”; “qual é mesmo a diferença entre cópia e plágio?” ou um pouco mais acertadamente: “por que determinados processos (mesmo que nocivos de modo geral) são legitimados e outros, mesmo sendo muito similares, condenados?”. Isso também abre pra outras perguntas ‘filosóficas’ do tipo “se existe uma linha de pensamento por trás da cópia, até que ponto realmente se trata de uma mera cópia?”. Outro caso um pouco mais sensível: quando existe a cópia de um texto impresso (ou uma música), é mais fácil investigar e talvez ‘provar’, de certo modo, que ocorreu o plágio. Mas acredito que quando alguém apropria-se de algo imaterial, como uma idéia por exemplo, tudo torna-se um pouco mais complicado de ser investigado.

Não acho que copiar e colar seja errado, também acho que pode-se aprender algo através da repetição. Eu mesma aprendi muitas coisas a partir de citações, fazendo fichamentos, entendendo o pensamento de outros autores e criando discussões a partir de outras coisas que eu li. Mas acho que é importante que as pessoas percebam que existe um pensamento e que existem conexões por trás das citações que você está usando no seu texto. Entendo que a CAPES divulga orientações de combate ao plágio, mas considero essa uma questão que precisa ser trabalhada desde cedo, não só quando a pessoa chega em uma graduação. Acho curioso os alunos que copiam, integralmente, textos da Internet pra ‘fazer um trabalho’ e sei lá, acham que os professores não usam Internet de nenhum modo (AHAHA) ou que não vão descobrir, ou que não leram aquilo já em algum lugar (caso a cópia seja de uma revista impressa). Gente… Vocês realmente arriscam esses pensamentos?

Plagiar nesse nível (pois é, existem plágios e plágios) e ser pego é que nem roubar uma geladeira e tentar pular o muro com ela nas costas. Quem faz plágio muito geralmente não dá conta do que fez quando precisa falar sobre o que produziu. Já vi isso acontecer em bancas de TCC de graduação (quando fiz jornalismo) e foi bastante constrangedor. Foi mais constrangedor pelo fato da pessoa em questão ter plagiado boa parte do TCC de uma revista antiga de sociologia, ou seja, tendo o trabalho de digitar algumas páginas. A pessoa jurava que que nenhum professor da banca teria lido.. Afinal, “revista é velha né, nem publicam mais, ninguém nem vai notar”. Com certeza não foi bonito pra pessoa e várias pessoas que estavam assistindo, inclusive familiares, devem ter sentido uma vontade de se envaginar muito mais intensa do que a que eu senti.

Outros casos de plágio mais recentes que eu vi por aí foi o caso do professor da USP, que chegou até a ser demitido (mesmo tendo 15 anos de contribuições e não ter tido antecedentes) e o caso do projeto do Blog da Maria Bethânia, que parece que teve algumas partes copiadas da Wikipédia, enfim. Dia 30 de março agora vai acontecer um  debate sobre plágio, direitos autorais e socialização do conhecimento no CFH/UFSC e segundo o organizador Marcos Wachowicz as inscrições (que são gratuitas e serão feitas no dia) estendem-se a outros cursos e acadêmicos da UFSC também, então, quem tiver interesse sobre o tema, pode participar.  Depois deste debate, talvez escreva outro texto sobre as prováveis ‘antíteses do plágio’: compartilhamento e colaboratividade, ou ‘socialização do conhecimento’ (como foi colocado).

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