Sobre a crise das bibliotecas

É curioso perceber que, mesmo antes de eu decidir fazer o curso de biblioteconomia em 2008, as bibliotecas já estavam agonizando e  já estavam em crise. Mas na verdade acredito que desde que a Internet começou a se tornar realmente popular (final dos anos 90, acho), várias foram as mídias que tornaram-se “agonizando e em crise”: o jornalismo (com o jornalismo online), a música (com o formato .mp3), as grandes editoras científicas e periódicos científicos impressos (com os periódicos online em acesso livre), os livros (com o Kindle e outros leitores, etc) só pra citar alguns exemplos.

Todas essas coisas “estão morrendo” faz alguns bons anos já. Mas… Estão mesmo? Ou estão apenas reaparecendo de outros modos?

Não adianta, meu otimismo é incorrigível.

Penso em até que ponto essa crise é de fato uma crise e não a oportunidade para que aconteçam mudanças que transformem – pra melhor – a vida das pessoas. Todo mundo diz que a época das grandes revoluções já passou, mas eu acho que existe sim muito ainda pelo quê lutar… As pessoas só não sabem disso, por que a maioria está acomodada. A impressão que fica é que enquanto ninguém levar um grande golpe e precisar se mexer de verdade, ninguém  irá parar de lixar as unhas ou levantar do sofá.

Faz algum tempo que tenho lido notícia ou outra sobre o fechamento de bibliotecas nos Estados Unidos, este ano também já vi que rolou  uma Anarchy in the UK por que aumentaram as taxas da educação do ensino superior e agora estão querendo fechar bibliotecas públicas por lá também, por que né, ninguém vai à biblioteca e ficar mantendo uma é muito caro. É claro que a economia dita as coisas. Mas se fossemos levar tudo desse jeito, não precisava existir mais nada: museus de arte, praças, parques, espaços públicos de lazer, por que né, tudo isso são ‘gastos desnecessários’.

Não consigo negar que, aos poucos, as bibliotecas estão se tornando museus, de fato. Digo fato, por que é algo que não pode – e não deve – mais ser ignorado. Não estou falando que isso é uma possibilidade, estou dizendo que isso está se tornando cada vez mais real, mesmo. Não estou querendo aqui desmerecer de modo nenhum a importância das bibliotecas, mas acredito que alguns problemas não podem mais ser ignorados, pelo próprio bem da sobrevivência da nossa profissão. Quando é que vão parar com essa mania de fingir que as coisas não estão mudando? Outra dica:  também acredito que só ficar promovendo “orgulho bibliotecário” é um movimento vazio de significado e também não promove mudança efetiva nenhuma.

É nítido perceber que os bibliotecários estão ficando  cada vez mais desesperados, tentando demarcar um território que acham que é de propriedade deles, pois não conseguem enxergar outras perspectivas de trabalho fora do que já conhecem (ou já têm experiência). Na verdade, neste caso específico do fechamento das bibliotecas, não são só os bibliotecários que estão reclamando, mas também são pessoas de determinada comunidade que têm – ou tiveram – uma relação afetiva com a instituição biblioteca, que tentam argumentar  ou achar um meio termo para justificar a existência e permanência delas.

Algumas pessoas acreditam que a biblioteca universitária – assim como a conhecemos – vai acabar por que vai terminar se transformando em um grande laboratório de informática dominado pelo pessoal de TI. Não sei se é bem por aí. Final de janeiro, dia 31, me encaminharam um retweet do Neil Gaiman (@neilhimself) da campanha #savelibraries (#salvemasbibliotecas), de alguém que criou posteres defendendo a permanencia das bibliotecas, estilo propaganda da primeira guerra mundial. Isso (a criação destes tipos de posteres), por si só, já é sintomático. O passado é muito bonito estéticamente? Sim, é realmente muito bonito, não discordo disso. Mas é sempre bom ter em mente o óbvio ululante de que o passado não é o futuro.  As coisas estão mudando, efetivamente.. E é preciso acordar pra isso!

Há alguns dias já vi gente reclamando, ontem mesmo vi gente chorando – o que realmente me cortou o coração, de verdade. Olha… Dizer que eu acho BACANA fecharem bibliotecas, também não acho. Acho ruim… Acho triste e acho que configura sim em uma perda grave. E eu também realmente espero que quem esteja tomando este tipo de decisão não se arrependa do que está fazendo (mas geralmente se arrependem e  só enxergam o estrago depois, mas aí o leite já foi derramado e enfim… Eis a história [mais repetitiva] da humanidade).

É curioso notar como tratam das coisas como se fossem definitivas e imperativas: “o jornalismo morreu”, “o livro acabou”, “as bibliotecas fecharam e não há nada a ser feito”, “perdemos nossos empregos pra máquinas”, etc. Daí eu começo a entender o meu otimismo: ser pessimista é pra fracos, por que ser pessimista é muito fácil. Tão fácil que chega a ser tentador. Pessoalmente, não acredito que tudo seja assim tão definitivo. Acho que agora, mais do que nunca, a época é de transição e convergência extrema… E épocas assim são bastante difíceis: é preciso saber enfrentar e não denegar.

A gente já sabe que o bibliotecário trabalha com livros, artigos, material de pesquisas científicas, educação, leitura. E em seu núcleo, não adianta negar: trabalhamos com informação. Assim como – mais especificamente – os jornalistas, os técnicos em informática, os cientistas da computação, programadores, e né, todas as outras profissões, em maior ou menor escala.

Esta intersecção existe, mas bibliotecários tem propriedades que jornalistas e outros técnicos, não tem e assim por diante. Somos únicos em nosso campo de conhecimento, não somos melhores nem piores que nada nem ninguém: fazemos (ou ao menos deveríamos fazer) parte de um conjunto de pessoas que trabalham com a informação, cada uma ao seu modo.

Tenho algumas perguntas em mente, mas elas são bem restritas. Digo que são restritas por que elas se dirigem apenas para o ambiente que mais faço parte – o universitário. Mas acho que todo mundo da biblioteconomia pode pensar nas coisas no âmbito o qual faz parte…

  • Por que as universidades são tão especializadas em fazer a sua própria assessoria de imprensa, e, no entanto, os portais ou sites universitários são sempre extremamente empobrecidos de informações úteis para quem os acessa? Quem fica responsável por isso? Pessoal de TI? Olha, não tão dando conta, viu? Fica a dica.
  • Por que ainda não existem “Políticas para Informação e Acesso” (com questões que concernem a vários ambitos de pesquisa, ensino e extensão) na maioria das universidades? Quem é que deveria ter posicionamento político sério referente à isso? Por que isso não pode ser de responsabilidade também – e principalmente – da biblioteca e dos bibliotecários? Isso precisa ser assumido.
  • Por que a maioria das universidades não tem um Banco de Dados de Teses e Dissertações (BDTD) decente? Ou se tem, eles são de difícil acesso ou estão deixados às traças virtuais? Quem deveria estar brigando pela digitalização e disseminação do conteúdo no formato digital? Quem deveria estar lidando com a padronização e com os metadados desses itens, que deveriam estar online com acesso irrestrito? Pessoal de TI instala o software, faz as manutenções e o resto eles não vão querer nem saber.  Isso não parece função de biblioteca?
  • E os periódicos das universidades? Por que é tudo deixado a deus dará? Por que a biblioteca não se encarrega de manter uma encubadora de periódicos e não se responsabiliza por manter os periódicos de sua instituição em alto nível de competitividade e em acesso livre? Por que não tem bibliotecário interessado nisso? “Isso é coisa de editora”? As editoras universitárias ainda estão na idade média, se preocupando em vender livros impressos. Cadê o bibliotecário pra dar conta desta meta-editora?

Quantos sites de universidades – federais e estaduais – que eu já vi  e considerei precários? Por que? Por que claramente não são pessoas que pensam em informação – como bibliotecários pensariam – que os criam, provavelmente. Não nego a “boa vontade” de quem tem iniciativas ruins, mas nem só de boa vontade as coisas se resolvem né? Do mesmo modo que iniciativas isoladas raramente sobrevivem, se não contarem com um apoio de muita gente.

Enfim, essas são só algumas das dúvidas que me assolam. Sim, talvez róle uma ingenuidade por que eu ainda não consiga enxergar a floresta como todo, mas só algumas árvores – mas acho que as minhas questões não deixam de ser pertinentes. Ainda acredito que existe muito trabalho pra ser feito e muita coisa pra ser mudada.

Se juntar pra chorar as pitangas coletivamente em qualquer lugar é muito fácil. Pessoalmente, eu acho esse um comportamento feio e reprovável. Pra mim já não é uma questão de “ó, coitadinhos de nós, bibliotecários, que estamos perdendo espaço”. Não, não estamos! O espaço é nosso e não estamos sabendo ocupá-lo devidamente! Existe tanto por fazer!

É uma questão de posicionamento profissional – e isso não tem NADA a ver com orgulho do que já se faz, mas sim em reconhecimento do que pode ser feito e melhorado. Se você só se lamenta, cada vez mais vai ter do que se lamentar. Se você enxerga os erros, cresce, aparece e briga pra modificá-los, mais cedo ou mais tarde alguém te ouve e as coisas mudam. Acredite.

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