Por que escolhi biblioteconomia?

Estes dias, depois de ter me deparado com este post pelo Greader, pensei nos motivos de eu ter escolhido biblioteconomia. Foi uma escolha difícil e lenta mesmo por que foi pensada por tempo demais (abençoados são os que fazem escolhas sem precisar pensar demais!). Já disse isso aqui e repito: fiz biblioteconomia por teimosia, mesmo. E sempre quis desenvolver um texto sobre isso então acho que agora é a oportunidade.

Lembro-me que, nos anos anteriores da minha opção pela biblioteconomia, fui constantemente desestimulada por vários colegas da área. Me diziam (e ainda dizem) o que já venho ouvindo há praticamente uns 8 anos: que o curso era ruim, ultrapassado, que a área ia deixar de existir em 5 anos, que a ‘raça’ dos bibliotecários era chata, que não havia futuro, que ganhava-se pouco, que não havia reconhecimento e várias outras coisas desmotivadoras – tudo isso independente onde eu pensasse em fazer o curso, seja na melhor ou pior universidade. O discurso ainda não mudou muito, acredito. Quando fui prestar vestibular novamente em 2007 não tive coragem de marcar “Letras/Inglês” ou “Filosofia” por que sentiria que estaria me traindo profundamente se fizesse isso. Acho que esse é o “chamado que não conseguimos ignorar” do qual Ortega Y Gasset fala no livro Missão do Bibliotecário, o que também pode ser chamado de ‘vocação’. O curso é precário e tem mil defeitos? Ok. Challenge Accepted.

Eu já tinha cursado jornalismo e então muita gente também me dizia “mas por que você não vai direto pro mestrado?” e hoje eu percebo que isso teria sido a maior estupidez de toda a minha vida (e isso é bastante coisa, acreditem: sou uma screwup por natureza). Terminei o curso de jornalismo completamente verde e despreparada, sem muita noção de nada na verdade..  E desde antes da época do jornalismo eu já pensava em fazer biblioteconomia. Por que? Bem, me parecia uma profissão pacata, onde eu não precisava entrar em contato com muita gente e ficaria enfurnada em algum lugar com um computador catalogando livros eternamente, rs. Ah, doce engano… Lembrando disso hoje percebo o quanto mudei nesse sentido. Claro que tem gente que curte isso ainda, mas não é mais o meu caso.

Que o intelectualismo não está mais atrelado a profissão de bibliotecário não é de hoje, apesar de muita gente dizer que entra no curso por que “gosta muito de ler” (o que acho fofo!). Muita gente enxerga o curso e o ofício da biblioteconomia, apenas como uma oportunidade de carreira mesmo e trata o que vai exercer como profissão com uma impessoalidade impressionante. Bem.. As pessoas são diferentes, mesmo. Lembro que no início do curso me foi passado um artigo do prof. Francisco (1998), com uma pesquisa que eu acho que precisaria ser refeita e reavaliada em todos os cursos de biblioteconomia. Nesta pesquisa, o professor fez um perfil do ingressante e do formando onde podemos perceber que as motivações para se concluir ou se desistir do curso são as mais variadas possíveis. Isso de one size fits all é ilusão.

A expressão ‘desempenhar função’ me inquieta um pouco, mas isso é pessoal mesmo, admito. Entendo que hoje ninguém é insubstituível, não importando se é ou não um excelente profissional. Mas acho que é uma questão muito pessoal mesmo sentir-se apenas uma pecinha sem importância no meio de uma grande engrenagem, ao invés de sentir-se realmente parte de uma comunidade ou de algo. Acho que talvez esse seja o tal do dilema do “copo meio cheio ou meio vazio”.

Acho que até concordo com a frase “não é necessário gostar do que se faz pra desempenhar uma função”, pois de fato, não é necessário mesmo, absolutamente. São várias as pessoas no mundo – tantas que nem conseguimos imaginar – que vão todos os dias pra um emprego que detestam pra apenas sobreviver por mais um dia, pois aprendemos (nos resignamos?) que é assim que devemos sobreviver a uma vida desprovida de significado (eu disse significado – sendo que somos nós que fornecemos isso a ela – e não sentido, o que é bem diferente).

Desempenhar uma função – independente de qual ela for – pode ser bom, assim como também tem gente que acha que “salvar o mundo” e/ou “lutar e conquistar algo” pode ser bom. Entre o cinismo total e irrestrito e o idealismo meio lunático, prefiro os idealistas por que pelo menos eles me parecem mais abertos à conversação, apesar de serem meio malucos. Para mim, “desempenhar uma função” não é o suficiente por que considero que há baixa interação de modo geral e que também fica mais difícil  (não impossível, só mais difícil) provocar alguma mudança quando as pessoas estão muito ensimesmadas, muito especializadas. Mas enfim, esta sou eu.

Não acho que eu seja ‘a pessoa que mais contribua’ ou que eu seja ‘uma peça importante desempenhando minha função’ nem nada e nem sou melhor do que ninguém: apenas gosto, muito, do que faço e algumas pessoas tendem a considerar isso como um diferencial.  Outras me dizem que isso é ‘sorte’. Pra mim, é só natural mesmo.

Acho que as mesmas críticas que eu ouço há 8 anos são necessárias, simplesmente por que são todas verdade (depois de ter entrado no curso, apenas constatei isso). Dizer que o curso é ruim, que os professores parecem acomodados ou desmotivados, apontar as dificuldades (que sabemos que ‘não irão mudar’), é necessário. Entendemos que existem picaretagens aos montes, mas isso não se limita ao nosso curso, mas a todo um “sistema formal de ensino-aprendizagem” que praticamente nos condena a isso. O buraco é bem mais embaixo do que imaginanos e o bicho é bem mais feio do que pintam. São vários os ‘vetores invisíveis’ que nos pressionam a agir não da forma que queremos, mas da forma que nos fazem acreditar que “precisamos” ou que nos fazem conformar.

O que conta quando você vai prestar vestibular, não é o que você quer ou gosta de fazer, nem sua vocação, mas o quanto você consegue pontuar e memorizar, ou como alguns preferem chamar, sua “inteligência”.  Sinceramente, não acredito no discurso de “suei muito pra estar aqui” por que ele me parece um engodo: algo que gostamos muito de acreditar, mas que nem é verdade. Acho que isso, na realidade, me soa mais como um “já me esforcei o suficiente  antes pra poder ser medíocre o quanto eu quiser agora e pro resto da minha vida”. A nossa vida se resume a uma eterna “luta” por espaço e depois disso, uma eterna acomodação. Seria isso mesmo desejável? Por que? Acho que é algo a se pensar.

Realmente, não tive nenhum professor “instigante” no curso de biblioteconomia. Tive professores muito bons e outros não tão bons assim, tive disciplinas que poderiam ter sido abordadas de forma melhor e mais aprofundada, mas que não me desanimaram. Nem esperava por isso na verdade.. Entrei no curso com uma baixa expectativa. Na verdade, entrei no curso pensando que não aguentaria chegar até o fim. Mas depois acabei ficando muito preocupada comigo mesma tentando descobrir o que eu gostava de verdade pra, a partir disso, entender meu caminho ali dentro e  hoje, mesmo estando na “reta final” confesso que ainda está bastante difícil.

Acho engraçado como alunos de biblio tendem a achar outros cursos muuuito melhores, como sei lá, Jornalismo, ou qualquer coisa de Letras (a grama do vizinho é sempre mais verde, etc). Talvez por que nessas aulas os alunos sejam mais expostos a dados (atualidades, filosofia, história, literatura, humanidades etc. e tal) do que a metadados, que é a parte que todos consideram a mais escrota da biblioteconomia e que curiosamente para mim, é a parte mais fantástica de todas – afinal, alguém tem que achar isso legal né? O que eu acho mais interessante quando observo hoje meus colegas de classe é perceber o quanto eles estão transformados, e como e o quanto aprenderam a gostar do curso, mesmo com todas as dificuldades. Acredito mesmo que serão todos bons profissionais, independente do tipo de carreira que resolverem seguir.

Entendo que é difícil mesmo fazer a pergunta do post quando estamos a ponto de nos inscrever num vestibular, mesmo por que quando somos obrigados a ir pro ensino superior ainda estamos bem perdidos na nossa vida pra tomar uma decisão dessa magnitude. Mas é sempre interessante lembrar que ninguém se forma sozinho e que, também, a universidade não forma ninguém: quem se forma é a própria pessoa. Pessoalmente acho que hoje, mais do que nunca, o “ensino superior” deve servir como apoio teórico e não como base de / para nada. Mas essa mentalidade é compreensível uma vez que saímos de um ensino médio ultra-acomodados, e agora imaginamos que boa parte do sucesso da nossa formação é uma obrigação alheia e não algo que deveria ser uma busca por satisfação pessoal… O que eu acho… Estranho.

Não entrei na biblioteconomia pra ser entretida, nem “seduzida” (credo!) e muito menos “educada”. Universidade, pra mim, não é um centro de adestramento. Ouço a reclamação de que “a universidade não nos prepara mais pro mercado”,  então quer dizer que viramos todos produtos agora, é isso? Uma caixa de tomatinhos todos iguais? Acho curioso. Confesso sim que entrei no curso para entender como funcionam as técnicas. Mas o resto assumo como sendo de minha conta e responsabilidade: buscarei de várias outras formas e ninguém pode me ajudar com isso (e, paradoxalmente, muita gente pode me ajudar com isso: inclusive de outros cursos). Entendo que a vida – de modo geral – não é nada estimulante. Mesmo. Que dirá de um curso como esse, de ciências sociais aplicadas, das humanidades, onde pra encontrar o que é “humano” precisamos olhar mais de uma vez, com muito cuidado e atenção.

2 pensamentos sobre “Por que escolhi biblioteconomia?

  1. Oi Dora!! Gosto muito do seu estilo de escrever, lembra-me Lima Barreto do século xxi. Claro! Vc fala de seu ponto de vista a respeito da biblioteconomia. Tenho alguns anos na profissão, não é mesmo fácil. Estamos em uma cultura, no sentido antropológico, a qual não cultivamos o gene do prazer ao conhecimento. Pulamos etapas, agora temos a internet. O que fazer? Como fazer? As interrogações são muitas mesmo. Mas no que acredito? A sequência disto ou de outra ação nos faz chega onde gostamos de estar. Acredito também que somamos aqui e ali, às vezes pouco, outras mais. A vida apresenta-se distintamente a cada um de nós. Somos maestrinas de nossas vidas, e pode ajudar se der distancia de si mesma para entender melhor o que se passa, tbém nos torna mais humanos. Bjo. Outra coisa; nosso país precisa de bons bibliotecários assim, como vc. Rsrsr. Eu li o texto sobre as profissões do futuro.

  2. Dora, quero fazer biblioteconomia e seu texto me ajudou muito ao me fazer pensar em um monte de perguntas. Obrigada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s