Isto não é uma biblioteca

(Publicado originalmente em 14 de outubro de 2011)

Sabemos que quanto mais tentamos conceitualizar algum objeto de estudo, menos este objeto se torna definido e mais seu significado se torna plural e múltiplo. Ou ao menos a sua definição é quase que para sempre relativa ao tempo em que existiu/existe, à sua aplicação em determinado contexto, ao tipo de cultura de sua área ou domínio de atuação, entre outras variáveis que podem vir a existir.

Hoje de tarde deparei-me com dois textos que apareceram na timeline do G+: um da Carta Capital [As bibliotecas sem leitores] compartilhado pelo colega Marcos Ouchi da Ufscar e outro do Phil Bradley [A library is not..], compartilhado pelo perfil da biblioteca da Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Telecomunicación, da Universidad Politécnica de Madrid. Os textos tratam sobre bibliotecas de modos dramaticamente diferentes o que é evidente tendo em vista seus autores: a) um jornalista brasileiro que só entende um pouco sobre bibliotecas através de números de estatísticas, acadêmicos e outras pessoas envolvidas com educação e b) um bibliotecário militante norte-americano. De qualquer modo vou tentar escrever algo sobre os dois textos que li e o que achei sobre suas particularidades.

Achei curioso o texto “Bibliotecas sem leitores” aparecer categorizado na seção “Política” e posso até dizer que isso me surpreendeu um pouco. Já o texto, nem tanto.. Nada diferente da mesma lamentação que ruminam há alguns anos: “a maioria das bibliotecas públicas vive às moscas” e o já então clichê “brasileiro não gosta de lerdevidamente justificado por números de pesquisas estatísticas, etc. Criar um dia da leitura como modo de estimular a leitura? Talvez estimule a venda de livros, mas a leitura, sinceramente, não vejo como. E reclamações mais pontuais e específicas como a pouca quantidade de bibliotecas e o parco horário de funcionamento das mesmas. A biblioteca-vítima da reportagem foi a biblioteca pública Roberto Santos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

No texto do Bradley ele comenta sobre características dos bibliotecários que infelizmente chegam a ser mais lamentáveis que os  estereótipos:

Por várias razões – bibliotecários não são bem conhecidos por venderem seu próprio peixe e por bradarem aos quatro cantos sobre o que fazem e talvez isso ocorra por buscarmos sempre consenso e acordo ao invés de discórdia e desacordos.

Acho uma graça, mesmo, as bibliotecárias recepcionarem as velhinhas que ainda frequentam a biblioteca por carência emocional, afetiva, etc. Mas também acho igualmente importante, principalmente em se tratando de biblioteca pública, que a biblioteca (e consequentemente os bibliotecários) não espere passivamente pela visitação e apreciação por parte do público, mas sim que busque conhecer de fato as necessidades da comunidade onde está inserida. De que adianta uma biblioteca temática de cinema em um bairro onde talvez existam outras necessidades? Claro que quem teve a idéia de biblioteca temática teve a melhor das intenções, mas sempre bom perguntar: é útil a quem e em que contexto?

Já disse que bibliotecários não podem e não devem ser definidos por coisas como o que trabalham […] mas sim pelo que conseguem alcançar. Deveríamos ser definidos pelo efeito que temos em nossa sociedade e em nossas comunidades. […] Nosso papel não se encontra em estantes, em nossos computadores, em nossos prédios ou até mesmo em nossa história, mas no que FAZEMOS. E isso não é ‘etiquetar livros’. Isso é nos definir, mais uma vez, em termos de artefatos que nós podemos ou não usar (usamos cada vez menos).

Com esse parágrafo o Bradley conseguiu me explicar brevemente que o discurso “biblioteca/bibliotecário é importante” pode ser um tanto quanto vazio. Muitas vezes me parece que as bibliotecas e os bibliotecários são importantes apenas em sua própria área e em seu próprio domínio de conhecimento. No texto da Carta Capital, de acordo com o censo da FGV, “65% dos visitantes enxergam a estrutura como uma fonte de pesquisas escolares, 26% a utilizam para pesquisas em geral e somente 8% para o lazer”. Por que a biblioteca não pode ser vista como um espaço não só de pesquisa, leitura e fruição, mas também como espaço propício para discussão e melhoria de algum bairro, alguma comunidade ou até da vida mesmo de algumas pessoas?

O que define hoje uma biblioteca? A excelente organização do catálogo, da coleção ou do acervo? Os bibliotecários que nela trabalham? O meio onde está inserida? As pessoas que a frequentam? O conjunto todo? Onde exatamente está a biblioteca?

É claro que cada tipo de biblioteca tem uma missão diferente. Tudo parece sempre muito lindo quando se fala das bibliotecas estrangeiras, no caso, da de New York e de como “as instituições estão sempre se adaptando ao cenário a seu redor para fortalecer os laços com a comunidade” e como aqui no Brasil esse tipo de coisa não acontece, etc. Essa baixa-auto estima brasileira sempre me irritou, mas tem irritado um pouco mais há algum tempo. Entendo que a questão não é meramente estabelecer laços, mas talvez um pouco mais consistente que isso: dar suporte e suprir necessidades locais de informação que uma determinada comunidade possa vir a ter, seja qual for essa demanda.

Bibliotecários estão aqui para ajudar suas comunidades, e um ataque à uma biblioteca é um ataque a uma comunidade. Pode não parecer, e claramente para vários políticos não parece, mas é exatamente o que é. Porque é dizer que o benefício que as pessoas conseguem através de suas bibliotecas/bibliotecários em questões tais como aprender a ler, conseguir emprego, achar serviços sociais que os protejam de algum modo, em dar a oportunidade às pessoas de aprender ou simplesmente curtir um bom livro – nada disso importa. E quando eles dizem que nada disso importa o que eles estão dizendo na verdade é ‘esta comunidade não importa’ e ‘esta pessoa não é importante’. – Bradley.

É fato que bibliotecários brasileiros nunca serão tão militantes quanto parecem ser os americanos e se existem talvez sejam raros e eu não os conheço. Isso é tanto uma bênção quanto uma maldição. A “militância” só parece existir por assim dizer, para garantir vagas em concursos públicos entre outros espaços – o que não deixa de ser um tipo de legítimo de luta. Fora isso me parece que a passividade e a complacência permanecem e os bibliotecários continuam com o estigma de serem apolíticos e meio que descomprometidos, o que particularmente acho bem pior do que o estereótipo de mulher idosa de cóque pedindo silêncio.

Os problemas começam quando a biblioteca/os bibliotecários não são vistos como parte da espinha dorsal de uma comunidade. Uma vez que isso acontece, se torna lógico pensar em cortá-la. As decisões de conselhos e prefeitos com cérebros pequenos são uma confusão total, quando vistos da forma que enxergamos as bibliotecas. Eles as vêem como uma fonte que não é parte de uma comunidade. – Bradley.

Também é muito fácil dizer que o cenário internacional, idealizado, perfeito, onde as coisas dão certo sempre é mesmo muito “distante da realidade brasileira”. Não acho que seja bem assim. No primeiro semestre vi muitas notícias sobre fechamento de bibliotecas nos EUA e na Inglaterra. E então? Não tá fácil pra ninguém, não é só por aqui.

E por que esta não me parece exatamente uma realidade tão distante quando percebo iniciativas – geralmente (infelizmente talvez) isoladas, mas consistentes – como a de criação de bibliotecas comunitárias  tais como a Bicicloteca e a Barracoteca (só pra citar as mais recentes que vi este ano)? Não acho que quem crie uma bicicloteca ou uma barracoteca tenha muitos recursos, bem como também não acho que quem tenha essa iniciativa queira meramente colecionar (classificar, catalogar, indexar, etc) livros. Quem tem essas iniciativas não são nem mesmo bibliotecários e eles querem mais do que tudo isso: querem criar comunidades, criar significado. Mas também é claro que isso não é preocupação e muito menos prioridade de nenhum governo – no mundo inteiro.

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