Sobre a Googleteconomia

(Publicado originalmente em 8 de março de 2011)

Volta e meia (quase sempre) o professor Milanesi está “com dúvidas” no Twitter. Acho curioso por que, para o senso comum, um professor deveria ter mais respostas do que perguntas, mas acredito que a tentativa dele de questionar tanto é não só compartilhar, mas também compreender o que as outras pessoas pensam (partindo do pressuposto de que ele espera respostas de quem o lê). Talvez esse pensamento de que ‘os mestres tenham todas as respostas’ seja mesmo um pouco falacioso.. Os mestres sabem sempre questionar melhor, sendo que questionar nem sempre envolve necessariamente uma crítica. É a tal da coisa: perguntar nem sempre ofende.

Pode parecer muita intromissão de minha parte, afinal, estou falando sobre algo que ocorreu em uma instituição a qual não pertenço. Também não sei a quantas anda a organização de recepção aos calouros/2011 e como o CAB/UFSC está agilizando isso, mas não duvido em nada que as meninas já estejam pensando em alguma coisa. Quando fiz parte do CAB, lembro que era difícil, a UFSC não permite trotes (nenhum tipo de trote) e nenhum professor quer se responsabilizar, etc. É complicado. A única intersecção que ‘permite’ que eu dê um pitaco nesse assunto é que por acaso eu também faço biblioteconomia, apenas em outro Estado. E também por que acredito que se pararmos de ser intrometidos e enxeridos (pra não dizer metidos à besta mesmo), não vai mais ter bibliotecário no mundo.

Enfim.

Dia primeiro de março me apareceu o seguinte tweet: Uma faixa estudantil na Biblio USP: Googleteconomia. Não consegui entender o sentido disso. Parece-me uma crítica. Mas qual é o alvo?

Eis a faixa:

Aí está a faixa com a enigmática “Googleteconomia”. É tema de seminário na disciplina Biblioteca, Informação e Sociedade.

Explicando rapidamente, acho que quem criou a faixa quis fazer um paralelo entre o trabalho do bibliotecário com o trabalho do Google, no sentido de familiarizar os calouros. “Olha, o que a gente faz basicamente, é mais ou menos a mesma coisa que o Google faz, só que nós somos mais lerdos, ok?”. Enfim, de primeira, um paralelo para familiarização dos calouros.

Pessoalmente, achei a faixa engraçadinha e irônica sim. Não canso de ler por aí a tal da expressão “a biblioteconomia em tempos de Google e Wikipédia” e também “com os adventos das novas tecnologias em informação e comunicação” e todo aquele blábláblá que a gente conhece muito bem. Mas o que eu fico me perguntando aqui é: por que (e onde) a Biblioteconomia é tão diferente do Google? É bastante sedutor (mesmo) pensarmos que o Google é melhor (por que é mesmo!) e com certeza mais eficiente do que uma pessoa. Achar coisas no Google é mesmo muito fácil e muita gente até pode pensar que não tem como competir com isso.

Com o Google, você não precisa pedir a receita de polenta da sua avó, basta procurar qualquer receita por palavra-chave. Com o Google, você não precisa se matar procurando referências (boas) pra um trabalho, basta procurar, copiar e colar, talvez. Afinal, é muito mais simples fazer isso do que procurar um especialista na área e simplesmente dar a cara a tapa e conversar com ele, tomar um café, qualquer coisa.

No jornalismo falava-se do mesmo problema: “mimimi… a Internet está matando o jornalismo investigativo”. Cara… O jornalismo investigativo é que está cometendo suicídio se não deixar de ter preguiça mental e também ir fazer pesquisa de campo. E quando eu falo de “pesquisa de campo”, falo em simplesmente nos relacionarmos com AS PESSOAS e o mundo (lá fora da Internet, the truth is out there, folks), por que simplesmente são elas que tem as informações. Sim, pessoas carregam bibliotecas dentro de si, não se esqueçam.

É muito simplista querer achar um bode expiatório para a crise que enfrentamos, colocando a culpa na Internet e em qualquer tipo de tecnologia.

Usar o Google é muito bom e prático.  Digo isso sem ironia nenhuma, por que eu mesma uso. Sentamos na frente do computador, digitamos palavras chave e ele quase que magicamente “resolve o nosso problema”. Mas resolve mesmo? Notaram o padrão? Usando o Google, interage-se menos com pessoas, talvez. E talvez também percamos uma série de outras experiências que poderíamos ter, apenas para satisfazer a nossa necessidade sempre URGENTE por praticidade e imediatismo.

Pois né, as pessoas trabalham muito e são muito ocupadas e talvez não tenham mesmo mais tempo a perder com ‘experiências’ hoje em dia… Não há tempo para um olhar mais demorado, não há tempo pra reflexão (lembrando sempre que tempo é dinheiro!). Todos estão muito ocupados com seus blackberries, tentando se localizar por aí… Talvez a afetividade ou tenha mudado completamente de sentido, ou tenha mesmo se perdido em meio a isso tudo. Enfim, apenas algo a se pensar.

Não quero uma biblioteca que seja impecável em organização, mas que não tenha vida própria. Não quero um bibliotecário que só me alcance um livro na estante (isso qualquer pessoa faz, um técnico, sei lá) ou que me dê informações e instruções entediadamente e desleixadamente (automaticamente?) sobre algo que eu não saiba.

Isso é trabalho do Google.

Acho que é a partir desse tipo de pensamento é que vocês podem procurar por si mesmos ‘o que é a biblioteconomia em época de Google’ e ‘pra que serve um bibliotecário?’.

Não é a toa que estamos na área de HUMANAS e Sociais Aplicadas e não de Exatas. Não é a toa que temos um vínculo com a área de Educação. Gosta muito de lógica e classificação? Vai pra sei lá, filosofia, ou pra exatas, matemática, ciência da computação, sei lá. Por isso também fiquei meio passada com “penso, logo classifico” que estava na faixa.  Me pareceu muito, muito, muito ignorante… Como se existisse só classificação para se pensar, sendo que classificação é só um processo, é só uma ponta do iceberg! O contexto desse processo é o que é o mais importante. E e olha que eu gosto MUITO (mesmo) de classificação… Gente, vocês não são seus professores… Se eles pensam, logo classificam não papagaiem o comportamento deles, pelamor!

Pode até ser que a faixa tenha sido pura e simples TROLLAGEM da braba por parte dos veteranos. Talvez tenha sido uma crítica mesmo e o alvo tenha sido a própria biblioteconomia (ou seja, o já famoso tirinho básico no pé). Mas é bem possível que isso não tenha sido intencional, nem proposital e muito menos pensado, imagino… Que tenha sido feito “apenas na ingenuidade, na brincadeira”. Mas é sempre bom lembrar que nenhuma mensagem emitida – por mais que afirmem – é totalmente neutra: tudo é passível de interpretação. Em um primeiro momento, a faixa me pareceu engraçadinha só… Mas ao parar pra analisar e desconstruir esse pensamento para além da primeira impressão, acredito que podemos descobrir muito mais coisas.

E outra: se foi uma trollagem, considero que foi uma trollagem #FAIL uma vez que a média de idade dos calouros na USP/ECA – 2011 é 38 anos. Bem… Com uma média de idade dessas, acho que esses alunos não precisam ser exatamente “familiarizados” com o que eles irão ser, fazer ou se tornar. Acredito que essas pessoas talvez já saibam o que estão fazendo, mesmo que seja fazer biblioteconomia pra prestar concurso público depois,… mas elas já devem ter uma noção mínima do que vão enfrentar. Ou talvez não saibam mas né… 38 não é 18, convenhamos. Também acho que vão descobrir com mais facilidade a diferença entre Biblioteconomia e a Googleteconomia.. Mas isso só o tempo vai dizer :)

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