Elogio à leitura e à literatura

Algumas vezes me perguntei se, em países como o meu, com poucos leitores e tantos pobres, analfabetos e injustiças, e onde a cultura é privilégio de tão poucos, escrever não seria um luxo solipsista. Mas estas dúvidas nunca sufocaram minha vocação e segui sempre escrevendo, mesmo em períodos em que trabalhos para sobrevivência imediata absorviam quase todo meu tempo. Acredito que fiz certo. Se para a literatura florescer numa sociedade fora preciso alcançar primeiro a cultura erudita, a liberdade, a prosperidade e a justiça, ela nunca teria existido. Ao contrário. Graças à literatura, às consciências que formou, aos desejos e às aspirações que incutiu, ao desencanto da realidade com que regressamos de uma viagem a uma bela fantasia, a civilização é, agora, menos cruel do que quando os contadores de histórias começaram a humanizar a vida com suas fábulas. Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos inquietos e rebeldes, e o espírito crítico, motor do progresso, sequer existiria. Tal como escrever, ler é protestar contra as adversidades da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizê-lo e, talvez, sem sequer sabê-lo, que a vida tal como é não nos basta para preencher nossa sede do absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos a ficção para poder viver, de alguma maneira, as muitas vidas que quiséramos ter, quando apenas dispomos de uma única.

(…)

A literatura é uma falsa representação da vida, que, sem dúvida, nos ajuda a compreendê-la melhor, a nos guiar pelo labirinto em que nascemos, transcorremos e morremos. Ela nos compensa dos reveses e das frustrações que nos inflige a vida real e, graças a ela, deciframos, pelo menos parcialmente, o hieróglifo que costuma ser a existência para a grande maioria dos seres humanos, principalmente para nós, aqueles que alentamos mais dúvidas do que certezas e confessamos nossa perplexidade diante de temas, como a transcendência, o destino individual e coletivo, a alma, o sentido ou a falta de sentido da história, o mais aqui e mais ali do conhecimento racional.

(…)

Esse processo, nunca interrompido, se enriqueceu, com o nascimento da escrita e das histórias; além de ouvir, puderam ler e alcançar a permanência que lhes confere a literatura. Por isto, há que repetir, sem tréguas, até convencer as novas gerações: a ficção é mais do que entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. (Grifo meu)

LLOSA, M. V. Elogio à Leitura e à Literatura. Tradução por: Maria das Graças Targino, dez. 2010 / jan. 2011. Versão em PortuguêsOriginal em Espanhol.

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