Gênero, feminismo e informação: sobre o ENEM de 2015

12043105_860502434070598_3438710449354581241_nOntem e hoje teve a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Na minha rede muitas pessoas comentaram a questão onde há uma citação da Simone de Beauvoir. Algumas conhecidas que são feministas comemoraram o fato. Outras reclamaram que não se tratava de uma questão feminista, mas sim, de gênero – o que consideram diferente. E hoje foi o segundo dia de prova e dia da redação. O tema da redação do Enem 2015 foi: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Sinceramente eu tenho pena de quem irá corrigir essas provas e não é nem pelos erros gramaticais ou de concordância. Com certeza haverá uma chuva de pérolas misóginas, justificando todo e qualquer ato de violência contra a mulher como culpa exclusivamente dela. Alguns até podem argumentar sobre isso de forma maestral. Mas eu ainda prefiro continuar tendo como certo que a grande maioria dos estudantes de ensino médio só tem condições intelectuais mesmo de lidar com uma redação do tipo “como foram minhas férias”. E olhe lá né, porque ainda assim seria muito difícil: o dia inteiro em redes sociais postando bobagem e achando que podem salvar o mundo a partir disso. Enfim, jovens né?

Acredito que a discussão deste assunto seja absolutamente necessária, ainda mais se formos levar em consideração todo o lodo de notícias desta semana: pedofilia explícita (e feita sem nenhum tipo de consciência ou remorso) pelo Twitter, por conta de uma criança participante de um programa de TV; o escárnio de um cantorzinho de quinta categoria com a tag #primeiroassédio no Twittera aprovação da PL5069 que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte para mulheres que passaram por estupro de autoria do Eduardo Cunha. Sem falar que existe a possibilidade de a justiça (?!) determinar que o estuprador registre a criança que foi gerada em decorrência do estupro. Bom, o que dizer? Basicamente o que presenciamos essa semana foi não só a legalização bem como a legitimação do estupro e da pedofilia no Brasil. É muita bizarria ultraconservadora pra uma semana só. Foi difícil de digerir. Dá um certo desânimo com a vida ao ter de ler todas essas informações. Enfim.

Depois a gente fala do ISIS e dos países islãmicos ortodoxos, onde as mulheres usam burca e os caras casam legalmente com crianças, mas gente, vamo se olhar no espelho né? A gente não é muito diferente deles não… Na verdade somos iguaizinhos.

mulheres-burca-olhares

Não interessa se tá de biquíni ou de burca: a culpa é SEMPRE das mulheres.

Na questão da prova, como foi falado de gênero, dia desses eu vi um vlog da drag queen Lorelay Fox, que explicou de forma bastante clara o enunciado da questão:

Gênero JAMAIS foi ensinado em escolas e inclusive sempre foi considerado tabu, bem como sexualidade. Ninguém nunca toca nesses assuntos. Na verdade, são poucos os professores que ousam tocar em assuntos relacionados a causas sociais, porque todo mundo já sabe o que acontece com professores que promovem mudanças efetivas nas vidas dos alunos, não? Enfim. Qualquer professor que “coloque muita minhoca na cabeça das crianças” é odiado pelos pais e pela sociedade. Sobre essa questão de gênero, eu inclusive eu já tinha mencionado aqui no blog anteriormente sobre a questão de gênero na taxonomia do mercado de varejo online e como isso – felizmente – está se transformando com o tempo.

Mas a impressão de que tenho é que a deep web emergiu e um pouquinho da fossa que tem lá passou aqui pela superfície. Mas o que acontece é que a deep web nada tem de deep e muito menos de web: são situações muito reais, que acontecem diariamente, em nossas próprias cidades, em nossos bairros, com nossas famílias, amigos, conhecidos e até conosco. É o que acontece diariamente. Sobre a questão da redação, eu teria algumas coisas pra falar sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Em como acredito que isso seja completamente estrutural e sistêmico, pois inclusive existem mulheres que são contra o feminismo e acham que não precisam disso. Mas uma coisa é existir um grupo que acha que é ok ser abusada e aguentar de tudo porque, afinal, “a vida é assim mesmo”. Outra, é o Brasil efetivamente ocupar a 7ª colocação entre 84 países no ranking de feminicídios do mundo inteiro. O que existe é uma falta de informação geral das pessoas – de todas as pessoas, independente de serem pré-vestibulandos ou não. E também há em curso na verdade algo ainda mais perverso: confundir questões de direitos civis e humanos com ideologias.

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Algumas pessoas são tão asburdamente desinformadas que elas realmente acreditam que pautas sociais e movimentos de militância sejam exclusivamente de esquerda. Não vejo o quanto isso pode ser mais errado: tomar questões que são puramente ideológicas por questões sociais. Questões como misoginia, racismo, homo e transfobia devem ser conversadas fora de qualquer esfera religiosa ou política, mas a partir de um posicionamento social mesmo. A não ser que a pessoa faça questão de deliberadamente ser sociopata, assumir isso para si mesma e tratar a todos com desprezo, sem distinção de absolutamente nada. E para ser sociopata e sobreviver em sociedade é necessário bastante talento.

“Bem Dora ok, você está falando de todas essas coisas mas o que o bibliotecário e biblioteconomia tem a ver com isso?”

Tudo.

Não trabalhamos com fontes de informação?

Falamos muito sobre “informação” porque esse parece o nosso tema principal, mas eu acharia muito interessante se existissem estudos mais sérios sobre duas coisas: anti-informação e contra informação. Porque pela internet parece que é exatamente isso o que anda rolando. Para mim, o ruído sempre foi muito mais importante que a própria informação: não vivemos em um mar de rosas informacional, eu nunca acreditei nisso. Por mais que existam as redes sociais e toda sorte de informações possíveis pela internet, o que mais vejo atualmente são pessoas completamente perdidas e desinformadas. Desencontradas mesmo. Trocando uma coisa por outra. Mas mais ainda: tendo uma dificuldade, muito grande, de entrar em conversas reais. E não meros ataques mega intransigentes e unilaterais, onde existe o bem e o mal, e você está certo e todos estão errados. Mas em uma conversa, mesmo, de verdade.

Bibliotecas são o espaço certo pra isso, principalmente as públicas e municipais – acredito que em escolas particulares isso seja um pouco mais difícil. Bibliotecários podem ser catalizadores desses encontros, podem estimular conversas, propôr mediações, palestras sobre o assunto que for (inclusive gênero, feminismo, etc.) não só a partir de livros, mas também de filmes, com pessoas conhecidas, autores, artistas, blogueiros, vlogueiros ou outros tipos de formadores de opinião. Pode-se realizar contrapontos ou ver um mesmo assunto sob várias perspectivas diferentes, pois também faz parte. Podemos preencher essa lacuna, imensa, que existe na dita educação formal, tomando esse tipo de responsabilidade para nós. Ou não né, enfim.

Ademais, o choro é livre.

  1. Dora, Muito bom o seu artigo. Simone de Beauvoir, foi na minha mocidade, a escritora que mais lí bem como os livros do companheiro dela J. P. Sartre.Já disse em outro local do facebook, que precisamos saber ler, interpretar e colocar o texto na época, antes de qualquer crítica ou até mesmo elogio. Sou católica apóstolica romana, mas ela sem dúvida trouxe uma evolução na vida da mulher. E quando lia os seus livros, sempre fiz a minha seleção do que concordava e do que não concordava, de acordo com a minha educação e moral. Em francês já se diz: Chacun a sa façon. Quanto a questão genero, eu acho que foi um ato precipitado para um exame. É um assunto relativamente novo, que talvez ainda precise ser mais discutido em sociedade e algumas aberrações da natureza, só a ciência pode explicar. Ainda gosto de uma mulher feminina mas jamais subalterna, o dialogo acima de tudo, e um homem homem, sem ser machão e ignorante. O resto deixo para a ciencia explicar, e a sociedade aceitar ou não no seu seio. Temos que aprender a conviver com todos os seres humanos, desde que não exagerem nas suas aparencias e atitudes.

    • Dora

      Oi Francis! Obrigada!

      Isso da contextualização do texto é sempre importante e essa evolução só acontece justamente por conta da repetição e do refinamento do discurso. Claro que cada pessoa terá ressalvas pessoais a serem feitas e isso é importante, pois é através do embate de ideias que elas podem ser aperfeiçoadas.

      Sobre a questão de gênero, eu já tenho uma visão um pouco diferente da sua. Acredito que quando mais cedo tratarmos sobre esse assunto, mais fácil vai ser poder entender melhor algumas coisas e como elas funcionam. Para mim, identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são coisas distintas. A imagem abaixo explica o meu ponto um pouco melhor:

      Diferença entre gênero, orientação sexual e sexo biológico

      A única coisa que é binária é nosso sexo biológico, pois não o escolhemos: nascemos com ele. No caso, ou nascemos mulheres ou homens e os casos de exepcionalidade tratam-se de questões como hermafroditismo, que são mais raras.

      De qualquer modo, a forma que nos identificamos (nosso gênero) e a nossa orientação sexual, raramente é binária pois o ser humano é experimentalista por natureza. Meninas gostam de jogar futebol e meninos podem aprender a cozinhar: isso não influenciará na sexualidade deles. Pelo contrário: o tornará mais humanos e com habilidades mais diversificadas.

      Sobre pessoas exageradas nas aparências e atitudes, eu também não gosto mas acredito que isso tenha mais a ver com a personalidade e temperamento da pessoa do que com o gênero ou a sexualidade. Sempre tem alguma tia da família que quando bebe algumas a mais, sobe na mesa pra dançar e fala um monte de bobagem? Também vemos por aí vários homens héteros que andam com som alto no carro, ou empinando moto para chamar a atenção… Eles também são escandalosos.

      Pode parecer que eu estou querendo ditar muitas regras, mas é o exato contrário disso. Eu gostaria que existissem cada vez menos regras para que a gente possa se aproximar mais das pessoas que são diferentes da gente, porque isso só tem a acrescentar na nossa vida. Sejam gays afeminados ou lésbicas masculinas as pessoas serem quem elas realmente são é parte fundamental pra que as diferenças tenham visibilidade e causem mudanças concretas na sociedade. Ser diferente do padrão é revolucionário pelo simples gesto de ser quem você é.

      Enfim… “Que nada nos defina, que nada nos limite, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”

  2. Tem a ver que um bibliotecário posta uma imagem muito sexista em uma grupo de bibliotecários defendendo sua “liberdade de expressão (sabemos exatamente bem o que ele defendia…), mas que não tem noção nenhuma de respeito e anos de luta das mulheres (que são a grande maioria da classe). E, pior, mais um monte de bibliotecários, se dizendo esclarecidos, mas que não hesitaram em minuto alguns em curtir ou mesmo defender esse tipo de mensagem que mais insulta do que realmente traz conteúdo (e já comentei, se partisse daí uma discussão interessante sobre o que é considerado sexismo e objetificação, eu estaria radiante, mas foi só um blablabla infinito de direitos dos hom…zzz…).
    Tem a ver que existem pessoas que não compreendem identidade de gênero, feminismo e, principalmente, empatia por outro ser humano. E isso é algo a se ensinar em qualquer núcleo profissional.

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