O tempo certo de ler certos livros…

(Publicado em 17 de julho de 2011)

Lembro que há muito tempo atrás (provavelmente 2003 ou 2004)  eu tive um professor que me recomendava livros pra ler. Naquela época eu já lia algumas coisas, mas nada parecido – nem de longe – com as coisas que ele me passava. Os livros deste professor (que era, aliás, é um misto de filósofo com jornalista e psicólogo) eram difíceis, a linguagem pesada, expressões que eu não conhecia e não sabia o que significavam. A complicação era tanta que eu ficava me sentindo muito burra e ficava desestimulada, apesar de achar que as leituras poderiam ser proveitosas e interessantes.

Um dia me vi obrigada a ser honesta, cheguei para o professor e disse sem muito constrangimento “desculpe mas esses livros que o senhor me recomenda não são pra mim, não consigo lê-los… talvez quando eu for mais velha eu os entenda, mas agora, pra mim, está muito difícil”. Falei isso do lado de um colega sabichão que riu da minha ignorância na minha cara (não liguei, estou acostumada). O professor não riu, me entendeu e disse “sim, cada pessoa tem seu tempo, só não se esqueça que esses livros existem” e depois explicou para o meu colega que o fato de eu ter reconhecido aquilo não era ruim, nem vergonhoso.

Não lembro que idade eu tinha na época mas quando minha mãe veio me dar A Pedra Filosofal do Harry Potter eu já estava quase na metade do Crime e Castigo do Dostoiévski. Li o primeiro capítulo do livro do Harry Potter e devolvi o livro pra minha mãe, dizendo pra ela dar pra alguma criança que ela conhecesse porque não gostei. “Mas todo mundo está lendo isso!”. Pois é mãe, eu não estou (minha mãe nunca soube me ler). Não terminei também o Crime e Castigo porque depois da metade do livro, aquele português que eu lia já tinha se tornado obviamente russo e a leitura estava lamacenta e pesada. Quem tinha febres e delírios de ler aquilo era eu. Enchi o saco e pensei “qualquer dia desses volto”. E nunca mais voltei, abandonei totalmente.

Me decepcionei com adaptações para filmes depois que li O Nome da Rosa e vi que o filme não passa nem um terço das emoções quando da leitura do livro. Apesar de que achei muito razoável e condizente a adaptação d’O Perfume do Patrick Suskind. Uma frustração secreta: nunca consegui ler O Senhor dos Anéis. E nunca conseguirei. Pois para ler a saga inteira é preciso muito mais do que mera persistência: é preciso uma devoção da qual simplesmente não disponho. Sofri do início ao fim lendo A Metamorfose. Todo mundo me falou que o Apanhador no Campo de Centeio era o livro mais lindo do mundo e eu apenas o achei um livro pobre e imbecil (a história é ridícula a única cena mais ou menos é a do tal do campo de centeio e só)  e fui apedrejada pra sempre por isso, mas tudo bem. Enfim… Sinto falta de literatura, ela é mais divertida do que a gente pode imaginar.

Mas como eu dizia antes, sempre achei isso de “cada um tem seu tempo” uma bobagem sem tamanho: era muito mais fácil (cômodo?) assumir que eu era ignorante e ficar por isso mesmo. Certo que existem textos ruins mesmo, mas só podemos fazer esse julgamento depois que conhecemos mais textos, mais referências, pra que uma comparação possa ser feita: as histórias nos envolvem de modos diferentes em diferentes contextos das nossas vidas. Hoje dependendo do caso eu entendo, com certa dificuldade até, que “não é a leitura que está chata, mas que talvez aquele não seja o momento” e às vezes não é o momento por uma série de motivos diferentes, não dá pra simplesmente se fazer uma lista disso. É bem difícil sacar isso…

Hoje reli um texto que tinha lido em março deste ano e tinha achado completamente bobo e meio infrutífero na época. “Não tem nada que eu quero aqui, que texto mais nada a ver!”. Na época eu queria uma resposta pronta, algo que eu pudesse usar naquele momento, que sanasse uma dúvida imediata que eu tinha, algo que me auxiliasse a entender aquele assunto imediatamente. Li, reli umas três vezes, “que texto mais raso, não vai direto ao ponto, não tem nada aqui” e o mimimi usual. Reli o texto hoje e o achei ótimo, muito esclarecedor e que me trouxe muitas outras referências interessantes que me podem ser úteis em algum outro momento. Não parecia o mesmo texto, mas… Vai ver sou eu quem mudei. Retrocedi? Melhorei? Não sei.

Mas parece que as coisas são assim mesmo, e às vezes demora até a gente entender e reconhecer que talvez as coisas não sejam bem assim como a gente quer e pensa. Me parece que se assumir ignorante e se dar por satisfeita com isso é quase tão cômodo (e nocivo) quanto ser uma ignorante arrogante.

Um Comentário

  1. Francis Sierra Hussein

    Dora,

    Esse seu texto está perfeito, nada a comentar, é isso mesmo, pelo menos pra mim.

    Francis

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