Sobre ofender-se

(Originalmente publicado em 6 de outubro de 2011)

“Uma biblioteca verdadeiramente grandiosa sempre terá algo para ofender alguém”. A citação do título do post é de Jo Godwin, ex-editora do Wilson Library Bulletin. Lembrei que, há alguns meses atrás, apareceu um ateu muito indignado na minha timeline porque estavam querendo criar uma lei que obrigasse todas as bibliotecas a terem uma cópia da bíblia. De primeira, eu sinceramente não entendi a indignação. Não entendi a indignação dele porque: 1. Não me considero atéia (não compartilho os mesmos valores que ele); 2. Não acho que seja realmente necessário criar uma lei para assegurar algo que já poderia ser feito regularmente. Uma lei dessas não assegura hegemonia de catolicismo nenhum: já existem igrejas suficientes. Nenhuma biblioteca – que não seja especializada – vai pregar palavra de nada nem ninguém.

Sem falar que ninguém garante que só por ter uma bíblia disponível na biblioteca todas as pessoas imediatamente vão querer lê-la e serem religiosas, obedientes, católicas, etc. Da mesma forma que uma biblioteca por si só, por melhor, mais completa e moderna que seja, não cria leitores, críticos, cidadãos, etc. Uma bíblia na biblioteca é apenas mais um livro disponível na estante, não passa muito além disso. Mesmo. Imagino que se tratando de biblioteca pública, comunitária e talvez até mesmo universitária (centrais), todas deveriam ter todas as versões da Bíblia, bem como versões de livros considerados importantes para todas as outras religiões, judaísmo, islamismo, kardecismo, etc. A política deve ser: ou existem todos os livros religiosos já criados ou não deve existir nenhum.

O colega ateu se ofendeu com esta lei. A mim, ela não ofendeu em nenhum momento. Só a achei um tanto quanto ignorante e com um propósito vazio de sentido, mesmo. Como eu já disse, qualquer biblioteca que se preze tem várias edições e versões da bíblia. De qualquer modo, acharia insensato que essa lei se aplicasse à todas as bibliotecas, indiscriminadamente. Me é estranho que seja compulsório a uma biblioteca especializada em alguma religião que seja antagônica ao catolicismo/cristianismo ter uma versão da Bíblia. Enfim… Também acredito que bibliotecas realmente grandiosas sempre acabarão por ofender alguém.

E acho interessante conversarmos sobre o ato de ofender-se, um pouco. Pode ser um bom exercício. Pessoalmente comecei meu exercício assistindo esse stand up aqui:

Hello, it’s me again! Primeiro: achei o cara engraçado. Róla um charme natural com esse sotaque australiano. Ele faz a pergunta “o que há de errado em se ofender?”. Acho que não há nada de errado, mesmo. Da mesma forma que acredito que não há como evitar de se ofender com algo. Um conhecido meu me dizia que “Ofender-se é escolha do ofendido” e por muito tempo eu acreditei mesmo nisso. Mas pensando um pouco mais sobre o assunto, percebi que o fato de ofender-se pode tomar caminhos distintos.

“E daí? Ofenda-se, nada acontece. Você é adulto, cresça, lide com isso“. Enxergo uma certa ambiguidade neste pedido para que eu “lide com isso”. Lidar como? Se posicionando ou se resignando? Uma das formas de lidar com as coisas é se posicionando em relação a elas e de fato tentar abrir uma conversa sobre o assunto, chegar em um senso comum com a comunidade ou ao menos as pessoas com quem você convive. Nos resignamos quando algumas coisas são tão enraizadas, estruturadas e sistêmicas, que tentar conversar sobre elas ou até mesmo lutar para que mudem torna-se um desperdício de energia (e de vida). Lembrando que nem sempre resignação é o mesmo que acomodação. São várias as formas de se burlar um sistema que oprime.

Também acho que nesse standup o cara confunde ‘being offended‘, ofender-se – com todo o peso que isso carrega – com o que podem ser considerados meros ‘pet-peeves‘, ou ainda, pequenas implicâncias. Na boa? Se você se ofende com boy bands tenho más notícias: o implicante é você, amigo. Não esqueçamos também que, além de “pet peeves” e “being offended”, para algumas pessoas levemente mais destemperadas pode vir a existir a singela variável major psychotic fucking hatreds, algo como ódios imensos psicóticos pra caralho. Não é a toa que algumas pessoas saem por aí atirando em outras no highschool ou até mesmo no college ou até mesmo em lagos noruegueses, quem diria. Ou não né? Duvido que o George Carlin, mesmo estando puto, tenha sido agressivo alguma vez com um funcionário de aeroporto. Pelo menos não tenho notícia disso.

Prefiro o discurso contrário: hoje em dia, ninguém pode reclamar de nada, pois na primeira reclamação já é taxado de politicamente correto. Quando muitas vezes não é ser politicamente correto ou não que está em questão, mas simplesmente respeito, enxergar o outro, colocar-se no seu lugar entre outras coisas que fazem parte daquilo que chamam de humanismo, às vezes. Também não defendo sempre quem é politicamente correto pois alguns são tão assépticos em relação ao uso da linguagem e em relação às próprias vidas que me deprime um pouco. A vida é mais complexa que a linguagem.

Concordo com se ofender ser subjetivo, mas não acho que seja uma escolha propriamente dito.

Imagina se tivéssemos que evitar nos sentirmos ofendidos/as? Me parece que róla um certo tipo de cultivo de cinismo ao buscar evitar se ofender a todo custo. E acho bom que continuem se incomodando mesmo e que esse incômodo seja sempre explícito. É por ter tanta gente incomodada no mundo que surgem coisas como o Wikileaks, como os protestos no Egito e na Líbia, como os indignados da Espanha e como os 99% em Wall Street. Essa galera toda tá se sentindo muito ofendida. Bastante. Mesmo.

Certa vez um amigo meu me disse que viu um dia num muro de Porto Alegre uma pichação com uma frase pedófila e achou escroto. Por que? Porque ele tem uma filha pequena e isso é importante pra ele. Será que ele poderia simplesmente escolher “não se ofender”? Não sentir absolutamente nada? Como?

Teve uma época nos EUA – acho que anos 80 por aí – que algumas pessoas se ofendiam com pornografia. Pra mim, o puritanismo deles é que é bizarro, até hoje. Here’s what causes sexual thought: having a dick.

What are we gonna do? Ban public transportation?

Há uns dois anos uma miss EUA disse na caruda quando foi questionada, que de acordo com os valores que ela recebeu da família dela, pessoas do mesmo sexo não deveriam se casar porque isso, para ela, era simplesmente errado. E adivinhem, ela estava certa ao responder isso: é um valor dela. Um valor extremamente preconceituoso e que desconsidera pessoas que não sejam parte da realidade dela, mas enfim, you get the point. Vários gays que estavam na banca de jurados ficaram incrédulos, claro que se ofenderam com isso e ela mesmo sendo forte candidata à Miss EUA, não ganhou.

Enfim,… Não vejo isso terminando tão cedo, bem como não vejo ninguém deixando de se ofender tão cedo. Me parece meio ingênuo acreditar que “uuuuu algum dia todo mundo vai atingir a iluminação suprema e todos viverão democraticamente e em paz, sem ninguém se ofender com nada”.

Na boa? Esso non ecsiste. :D

E dificilmente existirá algum dia.

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