Ciclo de vida da informação e documentação

(Originalmente publicado em 22 de outubro de 2011)

Man has to awaken to wonder — and so perhaps do peoples.
Science is a way of sending him to sleep again.

L. W.

Quando nos tornamos fluente em uma determinada linguagem passamos a sonhar com ela. Mas embora dominemos determinada língua, são raras as vezes que sonhamos com ela. Para nos tornarmos fluentes em uma língua, no conhecimento e apropriação de outra cultura, devemos estar imersos nesta mesma cultura, e isso é um tanto quando desafiador de ser produzido artificialmente. É preciso vivenciar a linguagem e a cultura e, dependendo de cada pessoa, isso às vezes demora algum tempo. Percebo hoje que o conceito de fluência tem outros significados, bem mais profundos e que envolvem muito mais coisas, que o de domínio.

Acho que já disse por aqui que sonhava que estava fazendo buscas na CDD e buscando uma notação ideal para alguma coisa, que é claro, nunca encontrava. Isso aconteceu justamente quando eu estava tentando aprender a linguagem da CDD. Pra alguns pesadelo, pra outros, um sonho divertido mesmo. No meu caso esse sonho me mostrou várias coisas sobre mim mesma, que descobri depois. Mas a CDD é algo palpável, é uma linguagem (não um conceito) e não me foi surpreendente ter sonhado com isso. Hoje sonhei com um conceito um pouco menos tangível por assim dizer. Sonhei com o tal “ciclo de vida da informação”, o qual tanto falam nas disciplinas de gestão do curso.

“Nossa, que nerd! Essa garota é tão bitolada que além de só estudar sobre isso ainda sonha com a parada”. Ledo engano. Ontem foi um dos raros dias em que não estudei nada de nada, fui pro bar comemorar o aniversário do namorado de uma amiga, voltei pra casa e fiz absolutamente qualquer coisa (inclusive ver horas de vídeos toscos no youtube) que não tinham nada a ver com o que estudo. Ontem foi quase que um day-off. Não deveria, mas foi – eu tava merecendo. Pois bem. Alguns autores acreditam que o ócio criativo é necessário para que as ideias apareçam mais espontaneamente, então talvez seja isso. Quem ainda não ouviu falar/leu sobre o ciclo de vida da documentação (ou cadeia da informação) provavelmente vai ouvir e/ou ler em algum momento até o final do curso, que é basicamente isso aqui:

Claro que o conceito de ciclo de vida da documentação muda de autor pra autor, etc., mas o básico é isso aí. O conceito é utilizado na arquivologia também, pra designar os processos, que diferem em alguns aspectos da biblioteconomia, mas de modo geral acho que é possível usar essa imagem pra ilustrar. Adaptei essa imagem deste blog, mas fiz uma pequena mudança. Pra mim a organização vem ANTES do armazenamento porque simplesmente não faz sentido armazenar primeiro pra organizar depois (me parece como retrabalho). No caso do sonho que tive hoje, além de eu sonhar com esse ciclo, apareceram mais duas palavras no meio dessa cadeia: reconhecer e habitar.

Fiquei um tanto quanto perplexa com estas palavras quando acordei e num primeiro momento achei que elas não tinham nada a ver com nada. Elas me parecem destoantes demais pra constar em um ciclo de vida de processamento técnico. Mas lá elas estavam, perturbando meu sono: reconhecer e habitar. E elas persistiram nos meus pensamentos durante o dia, tanto que pensei “mas que diabos, talvez se encaixem mesmo.. por que não arriscar uma interpretação?”. E cá estou.

Talvez “reconhecer” se encaixe no início do ciclo, pois é bem diferente de criar, adquirir e selecionar. Reconhecer não é mecânico nem automático, requer faro, manha, experiência. Requer percepção e até mesmo, em alguns casos, sensibilidade. Reconhecer requer o tal do feeling e talvez um bom timing também. Reconhecer é uma parte tão sutil do processo todo que sequer parece parte do processo, de modo algum. Mas talvez seja. E talvez seja bom prestar atenção nisso. Reconhecer algo que seja de nossa responsabilidade. Reconhecer lacunas que precisem ser preenchidas. Reconhecer uma informação que poderá ser relevante para um grande número de pessoas. A partir do reconhecimento é que é possível criar, adquirir, selecionar, etc.

Sobre “habitar”, outra palavra ainda mais esdrúxula, tenho mais dificuldade para interpretar onde se encaixaria. Talvez no final do ciclo, onde existe uma bifurcação entre eliminar e preservar. Habitar é fazer moradia. Algumas pessoas são capazes de morar a vida inteira no mesmo lugar e de lá jamais sair. Já outras, compreendem melhor o que é a efemeridade e se deslocam, vez e outra ou não tem um lugar fixo. Talvez habitar tenha a ver também com a própria fluência à qual me referi. Sobre estar envolvido, estar imerso, sobre vivenciar. Isso extrapola, em muito, o processamento de material no ciclo de vida: isso tem a ver com a nossa própria vida em si. Talvez esse ciclo não tenha um fim propriamente dito, mas se retroalimente, constantemente. Seja contínuo nas suas transformações, na evolução da preservação. Habitar talvez seja isso: poder se sentir em casa… E também ter sempre pra onde voltar.

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