Herdando uma biblioteca

Hoje depois do almoço passei na BS-CED pra ficar de bobeira. Tinha uma hora pra perder lá. Fui direto pra seção de literatura ver se achava algum livro legal e peguei por acaso um que tinha o título “Herdando uma Biblioteca”. Gostei da capa, gostei da textura das folhas, li as orelhas e achei interessante então por que não? É um livro pequeno, acho que consigo ler em uns 3 dias, se fizer isso continuamente. Não posso mais retirar livros da biblioteca porque já entreguei a negativa na biblioteca central e ainda não fiz pedido como aluna regressa. Enfim.

Primeiro li uma matéria sobre o ensino superior no Brasil da Carta Capital e depois comecei a ler o livro que tinha pego. Me identifiquei muito com o livro, desde as primeiras páginas. Parece que são pequenas histórias e memórias de como um leitor se tornou leitor. Ou melhor, de como lutou contra uma série de empecilhos para se tornar leitor. É uma história bastante pessoal, mas não duvido que mais pessoas se identifiquem, como aconteceu comigo:

Em casa, havia a pressão moralista da ética do trabalho de meu padrasto – a leitura fora das minhas atividades escolares seria uma forma disfarçada de vadiagem, combatida com a fúria de quem ganhava com muito esforço o dinheiro para nossa sobrevivência. (p. 15)

O autor é de Peabiru no Paraná e diz que desde pequeno é leitor e visitava a biblioteca pública. Confesso que é difícil imaginar como acontece o processo de gosto pela leitura num período de ditadura militar no interior do Brasil.. Hoje a gente tem acesso a tantas coisas, que imaginar um período de escassez é muito complicado. Mas Miguel conta a sua história e diz que preferia a biblioteca pública à escola pois “nela não havia conteúdos predefinidos, nem o desejo de me moldar” (p. 17).

Dá até uma certa ponta de inveja da forma que Miguel se relaciona e se apropria da biblioteca, é bonito de se ler:

Ali eu estava em contato com grandes homens, fazia-me contemporâneo deles, vivendo uma outra vida, distante daquela que a família e a escola insistentemente me impunham. (…) Eu meio que me sentia dono de tudo. (p. 18)

Acho que é pra esse sentido de apropriação e é pra esse lugar que uma biblioteca deve levar as pessoas, mesmo.

Não me lembro de o autor ter citado algum bibliotecário que o auxiliasse a sentir assim. Acho que uma das poucas vezes que uma bibliotecária foi mencionada, era a de sua biblioteca escolar. E ela fazia tricô durante o expediente. A relação que o autor tem com os livros e com a literatura ficou evidente quando ele fala sobre o roubo de livros. Tive uma professora que me dizia não se importar com o roubo de livros, pois isso significava que o leitor tinha “pego amor” ao livro… E isso é bem verdade.

Esse livro tem uma frase que me conquistou a terminar de lê-lo: “Roubar livros que nos solicitam amorosamente é uma forma de herder à força uma biblioteca que nos foi negada” (p. 20). Eu bem que sempre achei que todo bibliófilo é meio cleptomaníaco, rs. Olhei o relógio e vi que já estava no meu horário. Uma hora passou voando. A leitura desse livro foi quase que como uma conversa. Parei a leitura na página 31. O próximo capítulo é o “Herdando uma Biblioteca III”.

Este é o segundo livro de literatura que leio este mês. Acho este um bom sinal.

SANCHES NETO, Miguel. Herdando uma biblioteca. Rio de Janeiro: Record, 2004. 140 p.

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