O lugar da exceção: palestra sobre a Biblioteca Mário de Andrade

(Originalmente publicado em 26 de novembro de 2011)

Acho que a única vez em que falei por aqui da Biblioteca Mário de Andrade foi quando ela foi reinaugurada em janeiro deste ano. Em novembro agora assisti a uma palestra sobre a biblioteca no XII EREBD SE/CO que aconteceu em Campo Grande. O palestrante Marcelo Dias de Carvalho (artigo/dissertação) é bibliotecário de ação cultural e sua palestra foi sobre a Biblioteca Mário de Andrade no Circuito Cultural de São Paulo.

Assim que vi o logotipo da BMA me lembrei um pouco da porta da British Library, mas achei bem bacana. Marcelo disse que gostou do convite da palestra pois o tema de ação cultural é pouco abordado na Biblioteconomia. E é mesmo. Ainda tenho dificuldade para entender o conceito do termo “equipamentos culturais” e só fui entender melhor quando li o trabalho de um colega sobre este tema. A palavra equipamento me remete a outras duas: ferramenta e uso. E talvez  a intenção do termo seja mesmo essa: equipamentos culturais são lugares em que você vai para fazer uso da cultura e não apenas absorvê-la passivamente.

A palestra pode ser dividida em duas partes: uma parte em que é abordada toda a história da biblioteca Mário de Andrade e uma segunda parte, que fala sobre os projetos recentes realizados na biblioteca e os que estão por vir. Esse contexto histórico é interessante para que tenhamos noção da importância da biblioteca para a cidade ao longo do tempo. A apresentação tem imagens fantásticas da evolução da biblioteca junto com a cidade de São Paulo. É interessante notar que a biblioteca permanece (ou seria resiste) apesar de todas as mudanças. Marcelo acredita que a cidade e seu crescimento interferem na biblioteca e que não se deve desconsiderar o contexto. A Biblioteca Mário de Andrade tem mais de 80 anos, tendo início de sua história em 1926. Nesta palestra ouvi novamente o nome de Sérgio Milliet, que já tinha ouvido num evento sobre Curadoria em maio deste ano. Além curador e crítico de arte, ele também foi de diretor da BMA.

A biblioteca surgiu antes de todas as outras bibliotecas especializadas em arte como o MASP, o MAM e o Itaú Cultural, acompanhando também a criação da Cinemateca Brasileira e Bienais de Arte. Desde sempre a biblioteca realizava exposições didáticas entre outras ações com o Acervo, voltadas para a formação de repertório e capital cultural. O prestígio da BMA foi grande até os anos 70, que marcou o início de sua decadência com a ditadura militar, considerado um “momento de recolhimento”. Nos anos 80 aconteceu a criação do Centro Cultural São Paulo (CCSP) (1982), que pretendia equiparar-se ao Centro Georges Pompidou, de Paris. Neste centro surgiu a biblioteca  Sérgio Milliet e a biblioteca Alfredo Volpi. Nos anos 90 acontece a reforma e suspensão de alguns serviços e no ano 2000 foi criado o Sistema Municipal de bibliotecas da cidade de São Paulo, que conta com 55 bibliotecas. Em 2009, a BMA conseguiu novamente a autonomia administrativa e de gestão (que havia perdido nos anos 70).

Segundo Marcelo, depois da Biblioteca Nacional (no Rio de Janeiro), a Mário de Andrade é a segunda biblioteca mais importante do país. Ela “compete” com o SESC na área cultural, no entanto não é bem uma competição propriamente dita. Marcelo acredita que a BMA busca sempre pensar no que poderia vir a ser seu diferencial, o quê enquanto biblioteca e equipamento cultural, ela pode oferecer que nenhum outro lugar oferece. Como bibliotecários, entendemos que precisamos avaliar e fazer estatísticas de todos os projetos em que estamos envolvidos com o intuito de obter e provar resultados. No entanto Marcelo atenta para o cuidado com a obsessão por números e estatísticas. Ele entende que a avaliação dos serviços e de seu aproveitamento é importante, mas não é o que deveria ser o norte ou o papel da biblioteca.

Claro que é interessante criar um programa em que “a casa fique cheia”, mas o objetivo deveria ser mais qualitativo do que quantitativo. As apresentações e projetos envolvem muitas vezes debates e conversas, onde as pessoas participantes sempre “levam algo pra casa” ao invés de simplesmente irem se entreter. Tendo isto em mente, o conceito de equipamento cultural, de ferramenta, de uso, se reforça. A casa pode lotar em vários outros lugares e isso pode não significar nada, nenhuma mudança para aquelas mil pessoas, nenhuma transformação, nenhuma experiência diferente da qual geralmente estão habituadas. Se o objetivo e a regra de espaços ditos culturais é ter casa cheia, Marcelo adverte “a gente é o lugar da exceção, não da regra”. Apesar de a biblioteca também estar inserida em um contexto de Indústria Cultural é preciso saber até que ponto ir e demarcar este espaço com propriedade.

Por fim, foi falado um pouco sobre a estrutura da BMA, com ênfase nos núcleos da Supervisão de Ação Cultural: Núcleo de Memória, projeto memoria oral (registro de depoimentos) e arquivo histórico; Núcleo de Publicações e Comunicação, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade, a alimentação do site e administração da conta da BMA no Facebook e também a Programação, onde cada projeto foi descrito:

Para 2012:

  • 90 anos de Arte Moderna;
  • Ciclo de História da Arte – Módulo II;
  • Bibliofilia, obras raras.

No final da palestra tive uma questão sobre as publicações da biblioteca. Por que elas não estão online ainda? Por que não colocá-las em formato .pdf disponível em uma página? Acho que assim mais pessoas teriam acesso. No entanto, a revista por hora é apenas impressa e com baixa tiragem. Achei importante ter uma conta da BMA no Facebook. Também acho que o site da Mário de Andrade deveria ser reformulado, ele é muito estático, pouco interativo, pouco social. Fazendo uma comparação talvez injusta (não sou nenhuma especialista), mas acho o site do CCSP bem mais avançado nesse sentido. Compreendo que o site da BMA está vinculado ao modelo do site da Prefeitura, que também é o modelo do site do Sistema Municipal de Bibliotecas, mas enfim… Ainda acho que modelo poderia ser repensado pra ser mais interativo e social mesmo.

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