Por que reprovei na prova de mestrado da USP em 2011?

[Comentário sobre a prova de mestrado em Ciência da Informação da USP de 2011]

“Como instituições seculares do conhecimento e da memória, Bibliotecas, Museus e Arquivos não só compõem, preservam e disseminam os saberes culturais e a pesquisa científica, eles tem sido historicamente, e são hoje, produtores específicos de conhecimento e de informação. Podemos dizer, mais precisamente, que eles produzem conhecimento sobre o conhecimento, informação sobre as informações, inter-documentos sobre todas as mediações e inscrições (documentos, artefatos e coleções; informações cadastrais e referenciais). Participam das formas estabelecidas de validação e credenciamento da produção do conhecimento, seus produtores e suas vinculações institucionais.

As tecnologias digitais, nômades e interativas podem alterar a atualidade e vigência dos formatos e conteúdos desse conhecimento informacional (ou meta-informacional), mas não a competência crítica e analítica de acompanhar, analisar, reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos, se exercidas suas competências de maneira crítica e inovadora.”

GONZÁLEZ DE GOMEZ, M. N. A Universidade e a “Sociedade da Informação”. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas , v.9, n.1 , p. 239, jul./dez. 2011. (Grifo Nosso)

A distinção entre meta-informação e informação é algo que precisa ser abordado com uma maior detalhação e cuidado. Em outro post no blog mencionei sobre isso rapidamente, explicando que muitos alunos decepcionam-se com a graduação em Biblioteconomia justamente por ela ter abordagens com mais ênfase no tecnicismo relativo ao processamento técnico, ou seja, à meta-informação, à criação de metadados e aos seus processos relacionados. Alguns graduandos em Biblioteconomia consideram outros cursos de humanas mais interessantes (jornalismo, história, filosofia, letras) pois estes cursos tratam de informações com menos (ou pouquíssima) ênfase em meta-informações. No entanto, no trecho acima, percebi que essa distinção não foi realizada.

Para mim, é um tanto quanto peculiar conceber Bibliotecas, Museus e Arquivos especificamente como produtores de conhecimento e informação. Acho curioso o texto abordar sobre a Universidade e a “Sociedade da Informação” oferecendo tão pouca ênfase à sociedade de fato. Afinal, que “Sociedade da Informação” será essa que existe apesar das Bibliotecas, Museus e Arquivos? Bibliotecas são queimadas e destruídas por questões políticas, Museus e Arquivos facilmente esquecidos pelo descaso de diferentes governos e deteriorados impiedosamente pelo tempo… Mas sociedades – da informação ou não – não só permanecem, como modificam-se e principalmente adaptam-se a novos tempos.

Compreendo que as Unidades de Informação, tais como as conhecemos, tem papel essencial na organização da memória e dos insumos intelectuais das comunidades nas quais estão inseridos. Mas todo o conhecimento e informação que são “compostos, preservados e disseminados” não são produzidos e nem criados por essas unidades de informação, mas sim, pela comunidade nas quais estão inseridos. O conhecimento técnico e cultural adquirido pelos bibliotecários – que tem papel central no desenvolvimento de uma comunidade – é advindo da própria universidade, dos cursos de graduação e posteriormente no aprofundamento e especialização em suas experiências profissionais.

É possível interpretar a partir do trecho exposto (talvez muito equivocadamente, pela falta de contexto) que existe um deslocamento do bibliotecário e suas habilidades junto à uma comunidade, para a instituição biblioteca, ou seja um prédio, que contém livros organizados, em categorias e classificações arbitrárias e que, por si só, entraria em colapso muito facilmente. Uma biblioteca por si só, abandonada a própria sorte (seja por bibliotecários com má formação ou conduta, seja por falta de incentivo governamental ou qualquer outro tipo de descaso grave) raramente produz qualquer coisa que seja, quanto mais informação e mais pretensiosamente ainda, conhecimento.

Relativo às tecnologias digitais, é possível perceber que a relação ainda é a de precaução, mais de desafio do que de oportunidade, uma vez que elas são colocadas em paralelo com a competência do bibliotecário, que deveria ser “crítica e analítica”. Acredito que esse paralelismo não existe na verdade, uma vez que o bibliotecário faz uso destas tecnologias digitais justamente para que elas possam auxiliá-lo (e auxiliar também sua comunidade como um todo) a “acompanhar, analisar e reconstruir os novos processos de produção, disseminação e apropriação dos conhecimentos” – substituindo-o apenas no trabalho repetitivo, “braçal”, na mão de obra, dificilmente no trabalho intelectual e principalmente social.

(…)

Este foi o trecho que deveríamos comentar na prova de mestrado da USP, a qual não passei, por motivos que agora são muito mais claros pra mim. Os comentários que fiz acima foram feitos de uns dois dias pra cá, mas são resumidamente as opiniões que emiti na prova, neste post de forma um pouco mais pontual. Na prova também citei parte da bibliografia que talvez não tenham se ajustado muito adequadamente com o assunto proposto. Mas de qualquer modo, o simples fato de ter exposto este tipo de opinião referente a um texto de uma autoridade da área, já pode ter sido considerado muito mais do que arrogante. Pois bem.

Tecer comentários sobre o texto que foi passado na prova neste espaço pode ser simplesmente considerado ‘malcriação’ ou até mesmo pode ser interpretado como discurso de ‘gente fraca e frustrada’ porque não passou na prova. E talvez seja mesmo, afinal, mesmo sabendo do risco que corri, fiquei bastante decepcionada com o fato de não ter passado. Também fiquei decepcionada com a minha imaturidade intelectual e possível falta de sensibilidade com o trecho a ser comentado. Mas sinceramente, acho que prefiro assumir essa ignorância minha por – hoje – ainda ser incapaz de enxergar isso de outro modo que não seja o qual expus aqui.

Eu sabia que algum dia este momento na minha vida chegaria. Ele chega pra todo mundo, mais cedo ou mais tarde.

Me questiono algumas vezes se poderia simplesmente ter tido sangue frio (ou talvez um cinismo patológico) e ignorado o fato de o texto me trazer afirmações muito contundentes sobre coisas que simplesmente não acredito e não vivencio. Teria que ter muito estômago pra isso e talvez não tenha. Talvez isso seja mera covardia e ingenuidade pura mesmo, falta de malícia. Falta de malandragem. Mas talvez também seja o que chamam de hombridade.

Me questiono se eu poderia simplesmente bancar – mais uma vez – o fato de ter de deixar de lado novamente quem eu sou e no que acredito para tentar conciliar (como sempre) ideias contraditórias. Ter de realizar todo um esforço externo à mim para tentar chegar a um consenso ao invés de conflito, apenas para não confrontar o que está ‘estabelecido’. Mas fracassei nisso. Terrível e felizmente. Talvez eu tenha mais sorte ano que vem. Ou esteja menos insolente.

Um pensamento sobre “Por que reprovei na prova de mestrado da USP em 2011?

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