A Nova Desordem Digital (2007), David Weinberger

“Como vimos, a primeira característica do conhecimento tradicional é que, assim como existe apenas uma realidade, existe um conheicmento, o mesmo para todos. Quando duas pessoas têm idéias contraditórias sobre algo factual, achamos que apenas uma pode ter razão. Isso porque presumimos que o conhecimento seja uma representação precisa da realidade e que o mundo real não pode se contradizer. Tratamos idéias que contestam essa visão do conhecimento com desdém. Rotulamos estas como “relativismo” e as consideramos obra do diabo; fazemos pouco delas chamando-as de “pós-modernas” e presumimos que não passam de papo-furado de pseudo-intelectual francês. Dizemos “deixa pra lá” como licença para parar de pensar.

A segunda é presumirmos que, assim como a realidade não é ambígua, o conhecimento deve ser exato. Se algo não está claro para nós, é porque não entendemos a questão. Talvez não estejamos 100% certos sobre qual o maior rio do mundo, se o Nilo ou o Amazonas, mas estamos seguros de que um deles o é. Reciprocamente, se não há possibilidade de certeza – “O que é mais gostoso: beterraba ou rabanete?” -; dizemos que não é questão de conhecimento.

A terceira é que, como o conhecimento é tão grande quanto a realidade, ninguém pode compreendê-lo. Sendo assim, precisamos de pessoas que exerçam o papel de filtro, usando sua formação, sua experiência e seu raciocínio claro. Chamamos esses indivíduos de experts e damos a eles carta branca para que afastem as informações erradas e nos forneçam dados precisos.

A quarta éque os experts atingem esse status ao trabalhar em instituições sociais. Pessoas dessas instituições fazem o melhor para serem honestas e úteis, mas, enquanto os humanos não atingem o status de divinais, nossas organizações inevitavelmente estarão sujeitaas a influências corruptíveis. O fato de alguns grupos receberem recursos financeiros pode determinar as convicções de uma sociedade, e tais recursos geralmente são dados por pessoas que sabem menos que os especialistas: o destino de um centro de pesquisas de DNA pode estar nas mãos de congressistas que não sabem a diferença entre um ribossomo e um trombone.

O modo como organizamos o conhecimento tem sido determinado, em grande parte, por essas quatro propriedades do conhecimento. Tentamos estabelecer um quadro contextual único e abrangente para o conhecimento, com categorias claras e amplas o suficiente para que especialistas possam colocar cada coisa em seu lugar. As instituições cresceram para manter a estrutura conceitual do conhecimento. Sua capacidade de certificar especialistas e afiançar o conhecimento tornou-as poderosas e, às vezes, ricas. Portanto, quando a miscelânea de terceira ordem é digital, não física, não mais temos de concordar com uma única estrutura conceitual. As coisas têm seus respectivos lugares, não um único lugar. Chegamos ao ponto em que podemos criar nossas próprias categorias, de acordo com nossa forma de pensar. Os experts podem ser úteis, mas, na era da miscelânea, eles e suas instituições não mais estão encarregados de nossas idéias.” (p. 101-102)

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