A biblioteconomia não precisa de profissionais

publicado originalmente no ACRLog

Eu deveria escrever sobre profissionalismo a partir da perspectiva de uma bibliotecária recém formada. Como ser levada a sério como uma “profissional nova” e como “ser você mesma” ao mesmo tempo. Aí é que está – é um total mistério pra mim com as pessoas fazem isso.

Questiono o que é ser profissional todos os dias. Não tenho certeza se sei o que profissionalismo significa ou como se parece. Talvez eu tenha, mas a ideia me dá náuseas.

Me dá náuseas porque e se quem eu sou, e quem eu gostaria de ser no ambiente de trabalho, não se alinham com a definição das outras pessoas do que é ser um profissional? Me dá náuseas quando eu penso em todos os conselhos, ou conselhos implícitos, que outras pessoas me deram sobre como eu deveria agir para ser uma profissional. “Seja humilde. Não apareça muito. Não questione nada ou ninguém, muito menos seus superiores. Fique quieta. Não seja emotiva. Não diga nada pessoal à ninguém. Lembre-se de sorrir sempre”.

No passado, esse aviso limitou a minha capacidade de compartilhar a minha humanidade e individualidade com meus colegas e debilitou a minha habilidade em me conectar com outras pessoas. Com medo ser percebida como “não profissional” ou ingênua me levou a ficar quieta durante reuniões e tímida em relação aos meus colegas e supervisores. Performar profissionalismo deixou me sentindo robótica e não tanto eu mesma. De quem eram essas regras, afinal?

Eu sei que tipo de ambiente quero fazer parte. Sei o tipo de pessoas com quem quero trabalhar e colaborar. Muitos dos comentários em relação ao profissionalismo não estavam combinando com o que eu tinha pensado e esperado. Se esse era o conselho para ser uma profissional, então talvez eu não quisesse ser uma.

As pessoas dizem “você precisa ser mais profissional” quando na verdade querem dizer “você precisa entrar na linha” ou “não curto essa tatuagem” ou “coloca essa camisa pra dentro!”. Profissionalismo é uma palavra que as pessoas usam para manter e reforçar o status quo. Profissionalismo não se arrisca; encoraja conformismo. Como você pode simultaneamente se chamar de profissional e advogar por mudanças radicais? Profissionalismo é seguro e chato. Também argumentaria que profissionalismo tem um grande papel em reenforçar a ilusão da neutralidade das bibliotecas.

Eu não quero que profissionalismo signifique colocar uma fachada ou um verniz por cima de nós antes que entremos no trabalho todos os dias. Mas é assim. E não sei o que fazer em relação à isso. A ilusão de que nossas vidas fora do trabalho param no segundo em que chegamos lá nunca fez sentido pra mim. Não sei o que posso fazer em relação à isso também. É um enigma exaustivo.

Talvez eu ache que devemos amar uns aos outros. Penso que possamos confortar uns aos outros e deixar nossos colegas saber que podem compartilhar e expressarem-se conosco. Como nova contratada, preciso ver vulnerabilidade primeiro antes que eu me sinta confortável para fazer o mesmo. Acredito que sejamos capazes disso. Menos julgamento. Menos presunções. É isso o profissionalismo em prática? Gostaria que fosse.

Pra mim, a coisa mais difícil em qualquer trabalho novo é que quase tudo no início é desconhecido. Pode ser uma época solitária e inquietante época na vida de uma pessoa, mesmo se você não mudou de local. Você precisa descobrir e reconhecer as fronteiras, a cultura, seus usuários e as pessoas com quem trabalha. Você precisa descobrir o que é aceitável, quando é aceitável e em relação à quem. Você precisa discernir o quanto de você é apropriado trazer neste novo território. Quais partes de você deve esconder, que partes você deixa que conheçam? Em quem você pode confiar para contar suas preocupações e suas ansiedades enquanto você trabalha para começar algo novo?

digital-librarian

Vou ser honesta com vocês. Terminei biblioteconomia em maio e estou na minha nova posição como bibliotecária por seis meses. É a coisa mais emocionante do mundo e também a mais aterrorizante. Ainda não me sinto como se soubesse de tudo e não estou muito confortável em ser vulnerável ainda. Embora tenha recebido muito amor e apoio, ainda estou tentando me ambientar em alguns aspectos. Como uma nova bibliotecária, pode ser difícil se expressar e deixar sua guarda baixa quando você quer ser respeitada, valorizada e ter suas ideias levadas à sério. Você quer mostrar pra todo mundo que pode fazer um bom trabalho e que eles fizeram a escolha certa em te contratar.

Aprender como “colocar um rosto” não era algo que vinha naturalmente para mim – mesmo depois de trabalhar por quase uma década com atendimento ao cliente. Como mulher, me disseram como pensar, me comportar e agir de certo modo através de uma variedade de fontes e instituições. Enquanto profissional, recebemos todo um outro conjunto de regras de conduta (expectativas de gênero são muitas!). Eu gostaria que bibliotecários, especialmente os que estão em papéis de liderança, que questionem o que significa profissionalismo e como ele se parece. Estamos tendo uma abordagem humanista em ajudar a formar novos profissionais, em auxiliar nossos usuários e impactando nossa profissão para o melhor? Algumas bibliotecas fizeram isso bem, e me sinto privilegiada em trabalhar onde trabalho.

É claro para mim que profissionalismo é uma performance. É, entre outras coisas, um termo com viés de gênero, atribuído com mais frequência à pessoas com muitos privilégios. É uma palavra complexa. Aqueles que performam com sucesso o papel d’O Profissional são dignos de mais respeito e responsabilidade no ambiente de trabalho. Ainda assim as características que eu valorizo em outros seres humanos (vulnerabilidade, inteligência emocional, autenticidade, empatia) geralmente não parecem se encaixar na construção de um profissional típico.

Quero que bibliotecários tenham relacionamentos reais e abertos com as pessoas que trabalham. Será essa uma idéia não muito profissional? Quero que bibliotecários e gestores reconheçam a humanidade de seus usuários, colegas de trabalho e equipes. Precisamos de bibliotecários que questionem as éticas de nossas instituições e nosso comprometimento, ou falta dele, com a diversidade. Precisamos de bibliotecários que posicionem-se em relação ao acesso à informação, privacidade e liberdade intelectual, mesmo quando isso é difícil de ser feito. Quero que bibliotecários se sintam confortáveis desafiando “o modo que sempre fizemos as coisas por aqui”. A sua organização encoraja o profissionalismo performance mais do que encoraja o questionamento do status quo?

A biblioteconomia não precisa de mais profissionais. A biblioteconomia precisa de pessoas que observem criticamente para a nossa área e sintam-se compelidas a trazerem mudanças. Precisamos de lideranças que encoragem isso ativamente. Como podemos criar culturas de trabalho que conduzam à isso?

Sou uma pessoa apaixonada e idealista. Às vezes me entusiasmo até demais quando falo de trabalho. Par aalguns, eu devo parecer completamente não profissional. Amo ser bibliotecária e amo essa profissão e geralmente não tenho vergonha alguma em expressar isso. É difícil escrever esse post apesar das minhas próprias inseguranças (e se eu soar *engasga* – não profissional?!). Estou genuinamente interessada em saber como outros abordaram profissionalismo dentro da biblioteconomia – fique à vontade para compartilhar seus pensamentos abaixo.

Madison Sullivan é bibliotecária de pesquisa, serviços de informação e relações externas na biblioteca universitária da North Carolina State University. Madison recebeu o título de pós-graduada em MLIS na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign em 2015 e é uma líder emergente na American Library Association em 2016. Seus pontos de vista não correspondem aos de seus empregadores.

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