Quatro anos de formada

Hoje, dia 29 de fevereiro, faço 4 anos de formada em biblioteconomia. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo: larguei mão de fazer um mestrado acadêmico, mudei de cidade, passei por três empregos completamente distintos um do outro em contextos completamente diferentes, terminei uma especialização. Estou indo por um caminho que tem me promovido novas descobertas e tenho me sentido satisfeita nesse sentido. Nem todas as descobertas são boas, mas enfim, são necessárias pro meu desenvolvimento. Cada vivência é única e muita gente me diz que tenho feito escolhas sábias, mas sinceramente, a verdade é que não tenho certeza alguma disso. Às vezes acredito que quem é sábio mesmo fez concurso público e tem uma vida com um pouco mais de estabilidade e segurança. Relutei por um tempo em acreditar nisso, mas ao que tudo indica, estabilidade e segurança até o momento não são prioridades pra mim. É difícil reconhecer-se remando contra a maré, mas é necessário. Não consigo evitar.

Até este ano constou na minha carteira de trabalho como “bibliotecária”. A partir de março agora constará como “analista”. E me dei conta de que, assim sendo, devo cancelar o meu registro profissional como bibliotecária. Me dar conta disso me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Me lembrei imediatamente do dia em que fui buscar o meu registro e aquilo era como se fosse uma vontade minha que tinha se materializado na minha mão. Eu era uma bibliotecária e havia um documento comprovando aquilo. Para mim, sempre foi uma questão de identidade, mesmo. Foi um momento importante na minha vida: era a primeira vez que eu tinha conseguido algo genuinamente meu, por vontade própria, sem pressão externa, sem família, nada. Aquilo era meu e foi um processo inteiramente consciente do início ao fim. Realizar escolhas conscientes não é algo fácil, é doloroso…

E sempre achamos que estamos perdendo algo nesse empreendimento. Uma outra escolha, uma outra chance, um outro caminho. Descobri que tive que me tornar bibliotecária para entender que bibliotecária é uma das coisas que eu posso ser, não a única. Me identifico com muitas coisas da profissão, mas me desiludi, e muito, com outras tantas – felizmente a maioria delas independe de mim. Em 4 anos como bibliotecária, pude notar que alguns tipos de bibliotecários são mais privilegiados que outros e que a área é mais desunida do que jamais imaginei ser enquanto estava na universidade. Isso foi bastante frustrante. E em 4 anos, sempre que recebi e-mails do CRB e os abria para saber de novidades da área, ou estavam tentando me vender algo ou me indicar algum curso específico referentes à biblioteca jurídica. Isso tudo é desanimador quando me pego observando as potencialidades e possibilidades da área.

Me sinto muitas vezes perdida e frequentemente não me identifico com os grupos de profissionais da área no facebook. E tenho sentido vontade de entender e falar sobre outras coisas que vão além das técnicas que já aprendi e posso utilizar como ferramentas. As técnicas são boas e interessantes, mas me parecem muito operacionais quando percebo que preciso dar dois passos pra trás e enxergar o todo de outra perspectiva, entender o impacto do que faço no operacional a partir de um novo olhar. Tenho pensado muito em comunicação (voltando um pouco para minha primeira graduação), em negociação, em postura profissional, em psicologia, em solução de conflitos e criatividade… Em outras coisas, mais genéricas e menos específicas. Um entendimento mais holístico das coisas, mesmo. E as coisas nas quais tenho pensado não existe em faculdade nem em curso algum, mas na vida, mesmo.

São fases, né? E as fases tem início, meio e fim. A sensação atual é que estou no fim de alguma fase, no meio de um rito de passagem e que devo encarar isso como algo natural ao invés de um dissabor. E então dá-lhe crises existenciais profissionais… Mas sinceramente, não me vejo mudando de área, apenas me aperfeiçoando em um sentido mais horizontal, menos verticalizado. Para mim, isso é o que tem sido mais vantajoso até agora.

  1. Faço suas minhas palavras! Entrei para ler seu post poque justamente no meio de março faço um ano de formada. E no primeiro mês de formada comecei a sentir tudo o que apontou, e principalmente a classe desunida! No dia que cheguei no CRB para pedir meu registro tinha uma vaga solicitada com urgência, como a Biblioteca Universitária sempre esteve presente em minha Graduação decidi arriscar. No comecinho de Abril também vai completar um ano que trabalho na Faculdade que necessitava da Bibliotecária com Urgência. Assim que cheguei coloquei como meta dois anos no máx! Aqui não tem perspectiva de crescimento, sou eu e eu mesmo, e isso sem falar de remuneração que chega a doer todo começo de mês. Sabendo dessa jornada desde o primeiro dia me armei até os dentes na busca incessante para Cargo Público. Pelo menos com a estabilidade tão sonhada posso dar contar de tantos outros projetos na área! Muito Obrigada por compartilhar suas experiências e em uma única frase resumir tudo: “Descobri que tive que me tornar bibliotecária para entender que bibliotecária é uma das coisas que eu posso ser”.

    • Dora

      Oi Karolina! Obrigada pelo comentário. Pelo que andei verificando na nossa área existem dois tipos de profissionais: os de crescimento vertical e os de crescimento horizontal. Acho que me encaixo mais nesse último. A biblio foi importante pra mim, mas é hora de pensar em outras coisas e seguir outros rumos. A vida é longa e dá pra fazer bastante coisa antes de ir plantar milho e criar porco. Me entristece um pouco me lembrar dos discursos amargurados que ouvi, a vida inteira, sobre a área. Sempre me neguei a acreditar neles e, em partes, ainda me nego. No entanto a vida ensina e a realidade é implacável. E precisamos sempre nos movimentar, realizar coisas, buscar entender o que podemos fazer para melhorar e pensar diferente, criar novas perspectivas. Então é interessante “dar uma voltinha”, respirar novos ares, espairecer e ver que é possível realizar muito e além do que a gente imagina. Apenas continue a nadar, continue a nadar…. E boa sorte!!!

  2. Olá Dora! Gostei muito da matéria e do blog. Sua resposta ao comentário da Karolina muito esclareceu seu ponto de vista. Talvez o artigo do Fernando Modesto possa elucidar um pouco mais a discussão (http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo_print.php?cod=872), porém, compartilho do seu pensamento sobre segurança e estabilidade e ficando até mesmo muito constrangido em não conseguir expressar este sentimento com outros colegas. Por vezes fiquei como derrotado diante de alguns que apostaram e ganharam (concurso) enquanto que os demais perderam o “bonde” da história tendo que fazer intermináveis atualizações e não conseguindo encaixar-se na carreira, pois mesmo o Mestrado/Doutorado só serve as vezes para satisfazer-se como profissional e não para o mercado. A vida de bibliotecário no mundo dos bibliotecários é engraçada. Abraços.

    • Dora

      Olá Ricardo! Obrigada. Acho que não há o porquê ter constrangimento: apenas entendemos que não nos adaptamos a este perfil. E acredito que toda atualização seja interminável mesmo e tudo bem com isso. Com os mestrados profissionais (poucos, mas que já existem) dá pra tentar conciliar algumas coisas, até. É importante saber olhar pra outras coisas sim, mas sem esquecer de onde que partimos. Por fim, tudo se arranja. Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: