Salvem os mantenedores

por Lee Vinsel e Andrew Russell, para a Aeon.co

O capitalismo se destaca na inovação mas está falhando na manutenção e
para a maioria das pessoas é a manutenção o que mais importa

Inovação é uma ideologia dominante da nossa era, adotada nos Estados Unidos pelo Vale do Silício, Wall Street e a elite política de Washington DC. Uma vez que a busca por inovação inspirou tecnólogos e capitalistas, ela também provocou críticas que suspeitam que os mascates da inovação superestimam radicalmente a inovação. O que acontece depois da inovação, argumentam, é mais importante. A manutenção e o reparo, a construção de infraestruturas, o trabalho mundano que providencia a sustentação e o funcionamento de infra estruturas eficientes, simplesmente tem mais impacto nas vidas diárias das pessoas do que a vasta maioria das inovações tecnológicas.

Os destinos das nações em lados opostos na Cortina de Ferro ilustram os bons motivos que levaram à ascensão da inovação enquanto conceito de buzzword e organização. Ao longo do percurso do século XX, sociedades abertas que celebraram a diversidade, a novidade e o progresso performaram melhor do que sociedades fechadas que defendiam a uniformidade e a ordem.

No final dos anos 60 em face à guerra do Vietnã, a degradação ambiental, os assassinatos de Kennedy e King e outras frustrações sociais e tecnológicas, ficou cada vez mais difícil para muitos ter fé no progresso moral e social. Para substituir o progresso, a ‘inovação’, um conceito menor e moralmente neutro surgiu. A inovação providenciou uma forma de celebrar as realizações de uma era high-tech sem esperar muito dela em relação à questões de melhorias sociais e morais.

Antes dos sonhos da Nova Esquerda terem sido destruídos por massacres em My Lai e Altamont, economistas já tinham se voltado para a tecnologia para explicar o crescimento econômico e o alto padrão de vida em democracias capitalistas. Começando nos anos 50, os proeminentes economistas Robert Solow e Kenneth Arrow descobriram que explicações tradicionais – mudanças na educação e no capital, por exemplo – podiam não ser responsáveis por parcelas significativas de crescimento. Eles pensaram na hipótese de a mudança tecnológica ser o fator X escondido. Sua busca caiu como uma luva com todas as maravilhas tecnológicas que foram consequências da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e a mania pós-Sputinik por ciência e tecnologia, e a visão pós-guerra de abundância material.

O importante livro de Robert Gordon, The Rise and Fall of American Growth (A Ascenção e Queda do Crescimento Americano, em tradução livre), oferece uma história mais abrangente desta era de ouro na economia Americana. Como Gordon explica, entre 1870 e 1940, os Estados Unidos experimentaram um período sem precedentes – e provavelmente irrepetível – de crescimento econômico. Aquele século viu uma série de novas tecnologias e novas industrias sendo criadas, incluindo a elétrica, química, telefonia celular, automóveis, rádio, televisão, petróleo, gás e eletrônicos. A demanda por uma variedade de novos equipamentos de casa e utensílios de cozinha, que, normalmente, tornam a vida mais fácil e mais suportável, impulsionou o crescimento. Após a Segunda Guerra Mundial, os americanos trataram as novas tecnologias de consumo como procurações para o progresso social – mais famosamente, no ‘Kitchen Debate’ de 1959 entre o vice-presidente norte americano Richard Nixon e o premier soviético Nikita Kruschev. Críticos se questionaram se Nixon tinha sido sábio em apontar aparelhos modernos tais como liquidificadores e máquinas de lavar como emblemas da superioridade americana.

Mesmo assim, o crescimento estava fortemente amarrado à melhoria social contínua. Uma vez que industrias mais velhas amadureceram e declinaram, ‘novas industrias associadas com novas tecnologias’ teriam ascendido para tomarem seus lugares.

Ainda, essa necessidade para novas indústrias emergentes se tornou problemática uma vez que os Estados Unidos foi em direção aos tempos difíceis dos anos 70 e início dos anos 80. Setores econômicos inteiros, a indústria automobilística, por exemplo, se desvalorizou. Um novo termo – ‘política de inovação’ – surgiu, designado para estimular o crescimento econômico por apoiar mudança tecnológica, particularmente em face à competição econômica internacional com o Japão. O Vale do Silício, um termo que tinha acabado de surgir no fim dos anos 70, se tornou o exemplo de inovação nesta época.

No início dos anos 80, livros lançaram o Vale do Silício como uma terra de engenhosidade tecnológica quase mágica começaram a chegar ao mercado. A política de inovação focou-se mais e mais em ‘sistemas de inovação regional’ e ‘clusters de inovação’. Qualquer lugar era potencialmente o próximo Vale do Silício de X. Esse tema de localidade chegou em sua apoteose no livro de 2002 de Richard Florida, The Rise of the Creative Class (A Ascenção da Classe Criativa, em tradução livre), que argumentou que regiões sucediam por tornarem-se os tipos de lugares que os tipos comedores de granolas, andadores de bicicleta, criadores de código criativos queriam viver. O livro usou a palavra ‘inovação’ mais de 90 vezes e idealizou o Vale do Silício pesadamente.

Nos anos 90, acadêmicos e audiências populares também redescobriram o trabalho de Joseph Schumpeter. Schumpeter era um economista austríaco que defendeu a inovação e seu termo parceiro, empreendedorismo. Schumpeter visualizou o crescimento econômico e a mudança no capitalismo como um ‘vendaval de destruição criativa’, no qual as novas tecnologias e práticas de negócio ultrapassaram ou destruíram completamente as antigas. O pensamento neo-Schumpeteriano às vezes nos levou a uma montanha de academicismo dúbio e pensamento mágico, mais notavelmente, o tomo de 1997 de Clayton M Christensen, The Innovator’s Dilemma: The Revolutionary Book that Will Change the Way You Do Business. Agora em boa parte desconsiderado, o trabalho de Christensen exerceu tremenda influência, com sua ênfase em tecnologias ‘disruptivas’ que subjugou indústrias inteiras para fazer fortunas.

Na virada do milênio, no mundo dos negócios e da tecnologia, a inovação se transformou em um fetiche erótico. Exércitos de jovens magos da tecnologia aspiravam se tornar disruptivos. A ambição pela disrupção na busca pela inovação transcendeu a política, recrutando tanto liberais quanto conservadores. Políticos conservadores poderiam estripar o governo e cortar impostos em nome do fomento ao empreendedorismo, enquanto liberais poderiam criar novos programas voltados para patrocinar pesquisas. A ideia era vaga o suficiente para fazer quase qualquer coisa em seu nome sem sentir o mínimo de conflito, contanto que você entoasse o mantra repetidamente: INOVAÇÃO!! EMPREENDEDORISMO!!

Um consultor profissional em inovação aconselhou seus clientes a banirem a palavra em suas companhias. Ele disse que era só uma ‘palavra para esconder a falta de substância’

Alguns anos depois, no entanto, era possível detectar tremores de dissidência. Em um ensaio ácido entitulado ‘Innovation is the New Black‘ (Inovação é o Novo Preto, em tradução livre), Michael Bierut, escrevendo no Design Observer em 2005, lamentou a ‘mania de inovação, ou ao menos pela infinita repetição da palavra “inovação”’. Logo, até mesmo publicações de negócio começaram a levantar a questão de valor inerente. Em 2006, o The Economist notou que oficiais chineses tinham feito da inovação um ‘buzzword nacional’, ao mesmo tempo em que presunçosamente reportou que o sistema educacional da china ‘salienta a conformidade e faz pouco para patrocinar o pensamento independente’, e que as novas frases de efeito do Partido Comunista ‘em sua maioria acabam afundando em poças de retórica’. Mais tarde naquele ano a Businessweek alertou: ‘inovação está em grave perigo de se tornar uma buzzword superestimada. Estamos fazendo nossa parte aqui na Businessweek’. De novo na Businessweek, no último dia de 2008, o crítico de design Bruce Nussbaum retornou ao tema, declarando que a inovação morreu em 2008, morta por excesso de uso, mau uso, estreiteza, incrementalismo e fracasso em evoluir… No final, “inovação” provou ser fraca tanto tática quanto estrategicamente em face à economia e tumulto social’.

Em 2012, até o Wall Street Journal entrou em um ato de depredação da inovação, notando que ‘o Termo Começou a Perder Sentido’. Na época, contou-se ‘mais de 250 livros com “inovação” no título… publicados nos últimos três meses’. Um consultor profissional de inovação que foi entrevistado aconselhou seus clientes a banirem a palavra em suas companhias. Ele disse que era apenas ‘uma palavra para esconder a falta de substância’.

Surgiram evidências de que regiões de intensa inovação também possuem problemas sistêmicos com desigualdade. Em 2013, protestos surgiram em São Francisco por conta da gentrificação e estratificação social simbolizada pelos ônibus do Google e outros ônibus privados. Esses ônibus traziam empregados high-tech de suas casas caras, urbanas e modernas aos seus campus suburbanos exuberantes, sem expô-los à inconveniência do transporte público ou às vastas populações de pobres e sem teto que também chamam o Vale do Silício de casa. O sofrimento dramático e desnecessário exposto por tais justaposições de desigualdade econômica parece ser uma característica, não um bug de regiões altamente inovadoras.

A trajetória da ‘inovação’ a partir de seu núcleo, que valorizou a prática de publicizar sociedades distópicas, não é completamente surpreendente, em certo nível. Há um sentimento formuláico: um termo ganha popularidade porque ele ressoa em conjunto com o zeitgeist, alcança o status de buzzword, e então sofre de superexposição e cooptação. Agora mesmo, a fórmula trouxe à sociedade um questionamento: depois que a ‘inovação’ foi exposta como mercenarismo, há uma melhor forma de caracterizar relacionamentos entre sociedade e tecnologia?

Existem três formas básicas de responder esta questão. Primeiro, é crucial entender que tecnologia não é inovação. Inovação é apenas uma pequena parte do que acontece com tecnologia. Essa preocupação com a novidade é infeliz porque ela falha em levar em consideração as tecnologias de uso muito difundido, e obscurece a quantidade de coisas à nossa volta que são bem velhas. Em seu livro, Shock of the Old (2007), o historiador David Edgerton examina a tecnologia atual. Ele percebe que objetos comuns, como o ventilador elétrico e várias partes dos automóveis, permaneceram virtualmente não modificadas por um século ou mais. Quando temos essa perspectiva mais ampla, podemos contar diferentes histórias com ênfases geográficas, cronológicas e sociológicas drasticamente diferentes. As histórias mais mofadas sobre inovação focam-se em homens brancos e prósperos sentados em garagens em uma pequena região da Califórnia, mas seres humanos no Sul Global também vivem com tecnologias. Quais delas? De onde eles vem? Como são produzidas, utilizadas, consertadas? Sim, objetos de novidade preocupam os privilegiados e podem gerar grandes lucros. Mas os contos mais memoráveis de astúcia, esforço e preocupação que as pessoas direcionaram em relação às tecnologias existem bem além das mesmas velhas anedotas sobre invenção e inovação.

Segundo, por abrirmos mão da inovação, nós podemos reconhecer o papel essencial das infraestruturas básicas. ‘Infraestrutura’ é um termo bem mais não glamouroso, o tipo de palavra que teria sumido do nosso léxico há muito tempo se não apontasse para algo de importância social imensa. Notavelmente, em 2015 ‘infraestrutura’ veio ao foro de conversações em várias caminhadas da vida Americana. Na véspera de uma colisão fatal da Amtrak perto da Philadelphia, o presidente Obama lutou com o Congresso para passar o projeto de lei de infraestrutura que os Republicanos estavam bloqueando, mas finalmente aprovaram em dezembro de 2015. ‘Infraestrutura’ também se tornou o foco de comunidades acadêmicas em história e antropologia, aparecendo até mesmo 78 vezes no programa do encontro anual da Associação Antropológica Norte Americana. Artistas, jornalistas e até mesmo comediantes fizeram parte da luta, mais memoravelmente com o esquete hilário de John Oliver estrelando o Edward Norton e Steve Buscemi em um trailer para um blockbuster imaginário no mais enfadonho dos temas. No começo de 2016, o New York Review of Books trouxe ‘a mais séria e passiva palavra’ para a atenção de seus leitores, com um ensaio deprimente entitulado ‘A Country Breaking Down‘ (‘Um país deteriorando-se’, em tradução livre).

Apesar das recorrentes fantasias sobre o fim do trabalho, o fato central da nossa civilização industrial é a ocupação, muito do qual recai muito longe do domínio da inovação

O melhor dessas conversas sobre infraestrutura saem de questões técnicas estreitas para engajarem-se em implicações morais mais profundas. Fracassos em infraestrutura – acidentes de trem, falhas em pontes, alagamentos urbanos, etc. – são manifestações de e alegorias para o sistema político disfuncional americano, sua desgastada rede de segurança social e seu permanente fascínio por coisas brilhantes, novas e triviais. Mas, especialmente em alguns redutos do mundo acadêmico, um foco nas estruturas materiais do dia a dia pode ter uma reviravolta bizarra, como exemplificado em um trabalho que forneça ‘agência’ à coisas materiais ou embrulhe um fetichismo de comodity na linguagem de teoria da alta cultura, marketing escorregadio e design. Por exemplo, a série ‘Object Lessons’ da Bloomsbury possui biografias e reflexões filosóficas sobre coisas construídas por humanos, como a bola de golfe. Que vergonha seria se a sociedade americana amadurecesse ao ponto da superficialidade do conceito de inovação se tornasse algo claro, mas a resposta mais proeminente fosse uma fascinação igualmente superficial com bolas de golfe, geladeiras e controles remotos.

Terceiro, focar-se em infraestrutura ou em coisas velhas e já existentes ao invés de novas nos lembram da centralidade absoluta do trabalho que existe para manter todo o mundo funcionando. Apesar de fantasias recorrentes sobre o fim do trabalho ou a automação de tudo, o fato central de nossa civilização industrial é a ocupação e a maior parte desta ocupação recai fora do domínio da inovação. Inventores ou inovadores são uma pequena parcela – talvez algo entre um por cento – dessa força de trabalho. Se dispositivos devem render dinheiro, corporações precisam de pessoas para manufaturá-lo, vendê-lo e distribuí-lo. Outra importante faceta do trabalho tecnológico surge quando as pessoas usam de fato um produto. Em alguns casos, a imagem do ‘usuário’ poderia ser um indivíduo como você, sentando no seu computador, mas em outros caso, usuários finais são instituições – companhias, governos ou universidades que lutam para fazer as tecnologias trabalharem de modos que seus inventores ou criadores jamais imaginaram.

As menos apreciadas e desvalorizadas formas de trabalho tecnológico são também as mais banais: aqueles que reparam e mantém tecnologias que já existem, que foram ‘inovadas’ há muito tempo atrás. Essa mudança na ênfase envolve o foco nos constantes processos de entropia e des-fazer – que o acadêmico de mídia Steven Jackson chama de ‘pensamento do mundo destruído’ – e o trabalho que fazemos é deixá-los mais lentos ou detê-los, ao invés da introdução de coisas novas. Em anos recentes, acadêmicos produziram um número de estudos sobre pessoas que realizam este tipo de trabalho. Por exemplo, a pesquisadora em estudos da ciência Lilly Irani examinou os trabalhadores de baixa renda que higienizam informação digital na web, incluindo trabalhadores indianos que checam propagandas ‘para filtrar pornografia, álcool e violência’. Por que não estender este estilo de análise para pensar mais claramente sobre assuntos tais como ‘cyber segurança’? A necessidades de programadores e escritores de código no campo da cybersegurança é óbvia, mas deveria ser igualmente óbvio que vulnerabilidades fundamentais em nossas cyber estruturas são protegidas por guardas que trabalham em turnos de coveiros e equipes que reparam cercas e leitores de cartão de identificação.

Podemos pensar em trabalho que precisa de manutenção e reparo como o trabalho dos mantenedores, aqueles indivíduos os quais o trabalho mantém a existência ordinária seguindo, ao invés de introduzirem coisas novas. Uma breve reflexão demonstra que a grande maioria do trabalho humano, de lavanderia e remoção de lixo à trabalho de zeladoria e preparação de comida, é deste tipo: de manutenção. Essa percepção tem implicações significantes para relações de gênero na e acerca da tecnologia. Teóricas feministas argumentaram por muito tempo que obsessões com novidades tecnológicas obscurescem todo o trabalho, incluindo trabalho de casa, que mulheres, desproporcionalmente, fazem para manter a vida nos trilhos. Trabalho doméstico tem ramificações financeiras imensas mas fica fora amplamente da contabilidade econômica, como Produto Interno Bruto. Em seu clássico livro de 1983 More Work for Mother, Ruth Schwartz Cowan examinou tecnologias domésticas – tais como máquinas de lavar louça e aspiradores de pó – e como eles se encaixam no trabalho incessante das mulheres de manutenção doméstica. Uma de suas descobertas mais interessantes foi que as novas tecnologias de manutenção doméstica, que prometiam diminuir a carga de trabalho, literalmente criaram mais trabalho para as mães uma vez que os padrões de limpeza aumentaram, deixando as mulheres perpetuamente incapazes de lidar com tudo.

Não há sentido em manter a prática de uma adoração de herói onde meramente muda o cast de heróis sem confrontar os problemas mais profundos

Nixon, errado em tantas coisas, também estava errado em apontar eletrodomésticos como indicadores auto-evidentes do progresso americano. Ironicamente, o trabalho de Cowan encontrou ceticismo de acadêmicos homens que trabalhavam com a história da tecnologia, de quem o histórico era um panteão masculino de inventores: Bell, Morse, Edison, Tesla, Diesel, Shockley, e por aí vai. Um foco renovado sobre a manutenção e reparo também tem implicações além das políticas de gênero que o More Work for Mother trouxe à luz. Quando eles colocam a obsessão com inovação de lado, acadêmicos podem confrontar vários tipos de trabalhos de baixa renda performados por vários norte americanos negros, latinos e outras minorias étnicas e raciais. A partir desta perspectiva, lutas recentes sobre o aumento do salário mínimo, inclusive para trabalhadores de fast food, podem ser vistos como argumentos pela dignidade de ser um mantenedor.

Organizamos uma conferência para trazer o trabalho dos mantenedores em um foco mais claro. Mais de 40 acadêmicos responderam a chamada para artigos perguntando ‘O que está em jogo se retirarmos a academia da inovação e ao encontro da manutenção?’ Historiadores, cientistas sociais, economistas, administradores, artistas e ativistas responderam. Todos querem falar sobre a tecnologia fora da sombra da inovação.

Um tópico de conversação importante é o perigo de mover-se muito triunfantemente da inovação para a manutenção. Não há motivo em manter a prática de adoração de herói onde meramente muda-se o cast de heróis sem confrontar um dos problemas mais profundos subjacentes à obsessão por inovação. Um dos problemas mais significantes é a cultura dominada por homens na tecnologia, manifestado em recentes constrangimentos tais como a flagrante misoginia no ‘#GamerGate’ há alguns anos atrás, bem como a persistente diferença entre salários entre homens e mulheres exercendo o mesmo trabalho.

Há uma necessidade urgente de contarmos mais direta e honestamente com nossas máquinas e nós mesmos. Ultimamente, enfatizando a manutenção envolve ir de buzzwords para valores, e de meios para fins. Em termos formais econômicos, ‘inovação’ envolve a difusão de novas coisas e práticas. O termo é completamente agnóstico sobre essas práticas serem boas ou não. Crack, por exemplo, era um produto muito inovador nos anos 80, que envolvia uma grande quantidade de empreendedorismo (chamado ‘traficar’) e gerava muito retorno. Inovação! Empreendedorismo! Talvez este ponto seja cínico, mas chama nossa atenção para uma realidade perversa: o discurso contemporâneo trata a inovação como um valor positivo por si só, quando ele não é.

Sociedades inteiras vem falar sobre inovação como se fosse um valor inerentemente desejável, como amor, fraternidade, coragem, beleza, dignidade ou responsabilidade. Fazem adorações sobre inovação no altar da mudança, mas raramente se perguntam sobre a quem beneficia, e com qual fim? O foco na manutenção provê oportunidade para fazer perguntas sobre o que realmente queremos das nossas tecnologias. Com o que realmente nos importamos? Que tipo de sociedade queremos viver? Isso nos ajudará a chegar lá? Devemos mudar de meios, incluindo tecnologias que sustentam nossas ações do dia a dia, para fins, incluindo os vários tipos de benefícios e melhorias sociais que a tecnologia pode oferecer. Nosso mundo cada vez mais desigual e temeroso agradeceria.

Lee Vinsel é professor assistente de estudos de ciência e tecnologia no Stevens Institute of Technology em Hoboken, New Jersey. Ele está trabalhando no livro Taming the American Idol: Cars, Risks, and Regulations.

Andrew Russell é professor associado e diretor do programa em estudos da ciência e tecnologia no Stevens Institute of Technology em Hoboken, New Jersey. Ele é o autor do Open Standards and the Digital Age (2014) e co-editor do Ada’s Legacy (2015).

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