Entrevista: bibliotecária “fora da caixinha”

Nesta semana recebi algumas perguntas de um pessoal da graduação em biblioteconomia da FESPSP. Eles estão criando um seminário sobre bibliotecários “fora da caixinha” e quiseram saber sobre a minha formação acadêmica e sobre carreira. Pessoalmente não curto muito esse termo “fora da caixinha”, como se fosse algo especial ou algo a ser celebrado… Acho meio bobo. Sem falar que ele causa uma ansiedade danada nas pessoas e, muito contra-intuitivamente, não as faz dar o melhor de si (justamente pela ansiedade que causa, etc.). Não me considero “fora da caixinha” mesmo porque ainda faço uma porção de coisas bastante operacionais e dentro da caixinha ainda, só que de modo sensivelmente diferente e com outras perspectivas e linha de pensamento… E qualquer outra pessoa pode fazer isso, se tiver intenção o suficiente. Eu poderia falar muito mais sobre isso, mas prefiro deixar pra dizer algumas coisas pessoalmente, apenas. Enfim…

Por fora bela viola, por dentro gatinha na caixinha, etc…

De qualquer modo, seguem minhas respostas:

  • Ao analisar seu perfil, nas plataformas sociais LinkedIn e Facebook percebemos que sua atuação abrange atividades que muitas vezes nem ouvimos falar na graduação, como por exemplo: elaboração de basic content; SKUs; compliance; framework, etc. Fale-nos um pouco da sua formação acadêmica e como se deu a escolha pelo ramo que atua no momento (e-commerce). A educação continuada é um diferencial para quem pretende seguir neste nicho? Pode citar quais cursos extracurriculares realizou e ainda pretende fazer para se aprimorar?

Biblioteconomia é minha segunda graduação e resolvi fazer porque me identificava muito com a área. Sobre a escolha da área em específico que estou no momento, acredito mais que fui escolhida do que o oposto. Não estava buscando ativamente trabalhar com Internet, a oportunidade apareceu pra mim e resolvi aceitar o convite. Sobre educação continuada, ela é realmente importante, mas não chega mais a ser considerada exatamente um diferencial pelo mercado. Supõe-se que as pessoas naturalmente invistam em suas carreiras. O diferencial nem sempre está na técnica, mas em nossa personalidade. Em relação a cursos extracurriculares, fiz inglês na Cultura Inglesa desde pequena e durante a graduação em biblioteconomia fiz duas disciplinas do mestrado como aluna especial. Fora isso, tenho um blog (indexadora.wordpress.com) onde escrevo vez e outra algumas considerações sobre a área, a profissão, etc. Também já escrevi para o Bibliotecários Sem Fronteiras (bsf.org.br) por algum tempo.

  • Comente um pouco sobre como funciona a empresa na qual você trabalha e o no que seu trabalho impacta.

Além das livrarias megastores e da editora, o Grupo Saraiva tem investido no e-commerce também. Atualmente, estou na Saraiva Online como Especialista em Taxonomia. Trabalho em conjunto com a equipe de User Experience (UX) e isso tem impacto direto nos produtos de interfaces, seja no desktop ou em mobile. A minha parte do trabalho é focada em dois sistemas bem importantes na Arquitetura da Informação: o sistema de organização e o sistema de nomenclatura. Meus colegas de bancada estão mais envolvidos com o sistema de navegação (layout, etc.) e também de busca (SEO), mas os trabalhos são bem interdependentes.

  • Como são os usuários/clientes? Como se dá o processo de estudo desses usuários?

Pela minha experiência, existem vários tipos de clientes. Meus clientes diretos são meus colegas de equipe, pessoas que vão avaliar meu trabalho e com quem vou trabalhar mais diretamente – isso inclui gestores também. Outro tipo de cliente são as diferentes áreas da empresa: áreas comerciais, qualidade, etc. Pessoas para quem mostrarei meu trabalho e tentarei chegar em um consenso, tentando ajuda-las ao mesmo tempo que defendo a experiência do usuário. E existem os clientes da Saraiva propriamente ditos, que é sempre uma incógnita que tentamos desvendar através de trabalhos, estudos e pesquisas como analise de Persona, Testes A/B, Card Sorting, etc.

  • Pode nos contar mais detalhadamente sobre as atividades que desempenha?

Considero meu trabalho hoje basicamente como mediação da informação, mesmo. Resumindo bastante, posso dizer que trabalho com pesquisa em UX, realizo mapeamento de conteúdo (sortimento, tipologia de produtos) a ser trabalhado e organizado; Também trabalho com normalização da nomenclatura dos tipos de produto e faço isso baseada em pesquisas de benchmarking (pesquisa na concorrência); Para a organização, também realizo pesquisas de Card Sorting que é uma técnica que verifica que tipos de padrões de organização podem surgir e a partir do cruzamento com outros dados, consigo sugerir uma estrutura de organização customizada para a companhia, de acordo com o que for mais adequado ao seu modelo de negócio.

  • Quais são os desafios e/ou dificuldades enfrentadas diariamente no exercício das atividades realizadas? O que há de interessante nestas atividades que exerce?

Curiosamente, justamente o que há de desafiante e difícil é, ao mesmo tempo, o que há de mais interessante nas atividades que faço: as pessoas. As pessoas com quem lido diariamente, suas ideias, seus interesses e objetivos. Saber lidar com as pessoas, suas expectativas e frustrações, é a parte mais tem me feito aprender, que mais me mantém humilde e é a parte que considero mais interessante no trabalho – por mais difícil que muitas vezes isso seja. Temos muito o que aprender, sempre.

  • Quais são as competências e habilidades que você acredita que o bibliotecário (a) deve possuir/desenvolver para desempenhar as atividades que você realiza?

Acho que as pessoas, de modo geral, precisam ser verdadeiras e honestas consigo mesmas em primeiro lugar. A principal habilidade para ser bem-sucedido – na minha opinião – em qualquer ambiente é o auto-conhecimento. Muitas vezes, não se trata de competência e habilidade técnica, mas justamente de características que não são ensinadas em universidades: empatia, paciência, parcimônia, jogo de cintura, mediação, postura profissional, posicionamento. Essas características são parte da vida, não podem ser ensinadas, também não podem ser aprendidas – se a pessoa se recusa, continuamente, a compreender seu lugar no mundo. De nada adianta ser excelente, no que quer que você faça, se te falta empatia. Se você não consegue alcançar o outro. Ou se você é tímido, não consegue ir até a mesa de outra pessoa para pedir algo, conversar, mostrar seu trabalho. Se você é incapaz de receber críticas sem levar isso para o lado pessoal, de forma passional.

  • Quais dicas você dá para os graduandos e ou veteranos que desejam ingressar neste ramo de atuação?

Vejam se o trabalho, como um todo, tem a ver com a sua personalidade. Se é essa mesmo a sua verdadeira vontade. Se você é capaz de se adaptar, se entende que precisará trabalhar em conjunto, de forma colaborativa. Se entende que o cliente, as pessoas de modo geral, devem ser prioridade pois é com elas que se está lidando, mais diretamente. As técnicas ajudam, mas elas são só isso: técnicas. E elas mudam e são superadas e modificadas ao longo do tempo.

  • Você trabalha com uma equipe multidisciplinar e/ou há mais bibliotecários no local?

A equipe que eu trabalho hoje é multidisciplinar, tem pessoas com vários backgrounds e formações. Mas no último trabalho que tive, trabalhei brevemente com uma colega bibliotecária (oi, Ana Marysa) que estava na equipe de UX.

  • Para você, o que é bibliotecário “fora da caixinha”? Você considera que o mercado está aquecido para contratação de bibliotecário (a) inovadores, ou seja, “fora da caixinha”?

Para mim, bibliotecários “fora da caixinha” são os que conseguem fazer com que seus piores defeitos trabalhem ao seu favor. E há uns 2 ou 3 anos atrás eu diria que o mercado está aquecido, mas na atual conjuntura econômica pela qual o país passa, eu não afirmaria isso com tanta certeza assim. De qualquer modo, é preciso saber vender seu próprio peixe, ter um bom networking, saber cultivar relacionamentos e principalmente saber quem se é e o que se quer. Nada disso é trivial, mas se for feito com certa consistência, as chances de sucesso tendem a ser maiores.

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