Por que você deveria se cercar com mais livros que jamais terá tempo pra ler

Prateleiras (ou e-readers) inflacionados indicam coisas boas sobre a sua mente

Por Jessica Stillman, para a Inc.com

Uma vida inteira de aprendizagem vai te ajudar a ser mais feliz, ganhar mais e até mesmo se manter mais saudável, dizem os especialistas. Além disso, muitos dos nomes mais inteligentes do mundo dos negócios, desde Bill Gates até Elon Musk, insistem que a melhor forma de ficar mais inteligente é lendo. Então o que você faz? Você vai lá e compra livros, vários deles.

Mas a vida é ocupada e intenções são uma coisa, ações, outra. Logo você percebe que suas estantes (ou seu e-reader) estão transbordando de títulos que você pretende ler um dia, ou livros que você deu uma lida uma vez mas então os abandonou. Seria isso um desastre com o seu projeto de se tornar uma pessoa mais inteligente e sábia?

Se você nunca conseguiu ler nenhum livro de fato, então sim. Você pode querer ler sobre truques para colocar mais leitura na sua vida frenética e porque vale a pena comprometer algumas horas por semana a um aprendizado. Mas se simplesmente a sua ação de ler livros não acompanha de nenhum modo a sua ação de comprá-los, tenho boas notícias pra você (e para mim, pois eu definitivamente me encaixo nessa categoria): sua biblioteca inflacionada não é um sinal de fracasso ou ignorância, é uma medalha de honra.

Por que você precisa de uma “antibiblioteca”

Esse é o argumento que o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb faz em seu bestseller A lógica do Cisne Negro. O blog eternamente fascinante Brain Pickings garimpou e sublinhou a seção em um post particularmente adorável. Taleb inicia suas reflexões com uma piada sobre a lendária biblioteca do escritor italiano Umberto Eco, que continha um impressionante total de 30 mil volumes.

Eco realmente leu todos esses livros? Claro que não, mas esse não era o objetivo de cercar-se com tanto conhecimento potencial mas até então nãorealizado. Por ter um constante lembrete de todas as coisas que ele não sabia, a biblioteca de Eco o mantinha intelectualmente faminto e perpetuamente curioso. Uma crescente coleção de livros que você ainda não leu pode fazer o mesmo por você, Taleb escreve:

Uma biblioteca particular não é um apêndice impulsionador de ego, mas uma ferramenta de pesquisa. Livros já lidos são bem menos valorosos que os não lidos. A biblioteca deveria conter tanto do quanto você não sabe quanto os seus meios financeiros, as taxas de hipoteca, e o atual mercado imobiliário apertado te permitir que você coloque lá. Você acumulará mais conhecimento e mais livros ficando mais velho, e o crescente número de livros não lidos nas estantes olharão para você de forma ameaçadora. De fato, quanto mais você sabe, maior fica a estante de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca.

Uma antibiblioteca é um lembrete poderoso de nossas limitações – a vasta quantidade de coisas que você não sabe, ou sabe pela metade ou algum dia irá perceber que está errado sobre. Viver com esse lembrete diariamente pode fazer com que você se atente para o tipo de humildade intelectual que melhora a tomada de decisões e impulsiona o aprendizado.

“As pessoas não andam por aí com anti-currículos te falando que não estudaram ou não tiveram experiência (é trabalho de seus competidores fazer isso), mas seria legal se fizessem isso”, diz Taleb.

Por que? Talvez porque seja um fato psicológico bem conhecido que os mais incompetentes sejam mais confiantes de suas habilidades e os mais inteligentes são cheios de dúvidas (sério, é chamado de efeito Dunning-Kruger). É igualmente bem estabelecido que quanto mais você admite rapidamente que não sabe coisas, mais rápido você as aprende.

Então pare de brigar consigo mesmo por comprar livros demais ou por ter uma lista de livros “para ler depois” que você nunca poderia terminar nem em três vidas. Todos esses livros que você não leu são na verdade um sinal da sua ignorância. Mas se você souber o quão ignorante é, você estará bem à frente da vasta maioria das pessoas.

Como lidar?

 

(Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2011)

Vez e outra aparecem coisas engraçadas no tumblr do fuckyeahdementia e hoje essa foi a coisa engraçada do dia. Basicamente este é um “Aviso de Masturbação” (AHAHAHA) provavelmente colocado nas portas dos banheiros das bibliotecas e dos dorms na St. Andrews University. Já começa mal pelo título que é constrangedor, mas não no sentido de deixar ninguém envergonhado… É que a escrita é tão, mas tão formal, que chega a ser engraçada e só mesmo. A mensagem diz:

“Masturbação no banheiro da biblioteca é uma violação do regulamento da biblioteca da Universidade de St. Andrews.

O assoalho do banheiro recentemente remodelado não foi projetado para lidar com o seu sêmen!

A quantidade excessiva de manchas de sêmen no banheiro custa milhares de libras para ser removido profissionalmente e deve refletir no aumento das mensalidades ano que vem. É o seu dinheiro.

Por favor vá pra casa e se masturbe se você está entediado”

A pergunta que não quer calar: como lidar com seu sêmen? #LOL

Sério que eles tem uma parte no regulamento que efetivamente diz que é proibido se masturbar no banheiro da biblioteca? Que incrível, são 600 anos de masturbação na biblioteca… O assoalho do banheiro já não aguenta mais. É tanto tempo que até já entrou como proibição no regulamento! E por algum acaso existe algum chão de banheiro que seja especialmente projetado para lidar com sêmen? Como assim? É quase impossível não rir desse aviso. A começar pelo título já imagino que a bibliotecária seja uma senhora inglesa bem austera de 381 anos de idade, cheia de não-me-toques. Não consigo me convencer muito bem de que esse aviso vai surtir algum efeito lá muito prático, mesmo que esteja claramente ameaçando os alunos ao dizer que o custo da limpeza acarretaria num possível aumento de mensalidade. Achei esse argumento ruim.

A biblioteca – qualquer biblioteca – é um ambiente naturalmente fetichizado, por mais que insistam que não. Quando se pensa em biblioteca, se pensa muito mais em bibliotecária do que em bibliotecário, já começa pela questão de gênero no imaginário das pessoas. Muita gente tem a fantasia de fazer sexo na biblioteca. Bibliófilos e pesquisadores, no geral, tem personalidade maníaca e obcessiva. Fico imaginando essas pessoas que simplesmente não conseguem conter a excitação tremenda que é estar na biblioteca, aquele silêncio, aquele cheirinho delícia de mofo, aquelas bibliotecárias te dando toda a atenção que você precisa…

Nossa, que tesão.  Só que não.

É só um lugar como qualquer outro. Mas será que esse é um lugar convenientemente escolhido para a prática onanista ou será que isso acontece meio que sempre ao acaso?

Fica a dúvida.

É claro que ninguém vai chegar ao cúmulo de instalar câmeras no banheiro mesmo porque acho que isso não é permitido em nenhum lugar do mundo, as pessoas tem direito à privacidade no banheiro, acho. E em um banheiro não é exatamente o mesmo que em público, mas enfim… Levando em conta que o banheiro é usado por outras pessoas, esse tipo de comportamento pode ser considerado um tanto quanto inadequado. Digo isso não por moralismo nenhum, mas porque simplesmente acho ruim ter que usar um banheiro sujo e com cheiro ruim.

Observando este caso me surgiram algumas perguntas. Algumas talvez até ingênuas, com alguns rascunhos de respostas, mas vá lá:

  • Por que os caras ejaculam, tipo, no chão? Por que, cara, por que? Você é IDIOTA? Não percebem que mais gente vai usar o banheiro? Que alguém vai ter que limpar depois? Bottom line: que isso é simplesmente no-jen-to? Não tem um lencinho não? O que que custa, cara?
  • Por que o chão do banheiro dessa biblioteca seria tão difícil (e tão caro) de limpar assim? Isso de “esperma ser removido profissionalmente” é CAÔ. Não seria mais honesto dizer que ejacular no chão é simplesmente falta de consideração com quem limpa o banheiro?
  • O que será que a biblioteca no geral (ou a ida ao banheiro em específico) tem de tão incontrolavelmente excitante? E que tipo de pessoa vai ir pra casa se masturbar porque está entediado/a? Acho ninguém precisa estar com tédio pra isso: basta querer e pronto. As pessoas são bem sem critério pra isso, no geral.

Aparentemente a solução foi de dizer que isso custaria dinheiro porque infelizmente a grande maioria das pessoas só obedece à ordens quando isso mexe no bolso. Jamais por consideração a ninguém, o que diz muito sobre a nossa sociedade hoje em dia – cada vez mais individualista e sempre menosprezando o próximo. Fico me perguntando se a estratégia dessa biblioteca – a de ameaçar com aumento da mensalidade – funcionou. Talvez tenha ocorrido justamente o oposto: encorajou ainda mais gente a ir lá fazer isso, só pra ver se vai ser pego ou não, enfim… Fetiches não são racionais, muito menos lógicos.

Já ouvi em sala de aula de colegas que trabalham em bibliotecas casos similares, mas que a pessoa em questão não ia até o banheiro não: ficava se masturbando no meio da biblioteca mesmo. Aí acho que já é mais fácil de enquadrar bem em um atentado ao pudor e isso simplesmente dá cadeia, pois é feito em público. Nesse caso, o que pode ser feito é chamar seguranças pra levar e pessoa em flagrante. No caso dos banheiros, fica um pouquinho mais complicado…

E vocês o que acham? Qual seria uma boa abordagem a ser utilizada com pervertidos na biblioteca?

 

O lugar da exceção: palestra sobre a Biblioteca Mário de Andrade

(Originalmente publicado em 26 de novembro de 2011)

Acho que a única vez em que falei por aqui da Biblioteca Mário de Andrade foi quando ela foi reinaugurada em janeiro deste ano. Em novembro agora assisti a uma palestra sobre a biblioteca no XII EREBD SE/CO que aconteceu em Campo Grande. O palestrante Marcelo Dias de Carvalho (artigo/dissertação) é bibliotecário de ação cultural e sua palestra foi sobre a Biblioteca Mário de Andrade no Circuito Cultural de São Paulo.

Assim que vi o logotipo da BMA me lembrei um pouco da porta da British Library, mas achei bem bacana. Marcelo disse que gostou do convite da palestra pois o tema de ação cultural é pouco abordado na Biblioteconomia. E é mesmo. Ainda tenho dificuldade para entender o conceito do termo “equipamentos culturais” e só fui entender melhor quando li o trabalho de um colega sobre este tema. A palavra equipamento me remete a outras duas: ferramenta e uso. E talvez  a intenção do termo seja mesmo essa: equipamentos culturais são lugares em que você vai para fazer uso da cultura e não apenas absorvê-la passivamente.

A palestra pode ser dividida em duas partes: uma parte em que é abordada toda a história da biblioteca Mário de Andrade e uma segunda parte, que fala sobre os projetos recentes realizados na biblioteca e os que estão por vir. Esse contexto histórico é interessante para que tenhamos noção da importância da biblioteca para a cidade ao longo do tempo. A apresentação tem imagens fantásticas da evolução da biblioteca junto com a cidade de São Paulo. É interessante notar que a biblioteca permanece (ou seria resiste) apesar de todas as mudanças. Marcelo acredita que a cidade e seu crescimento interferem na biblioteca e que não se deve desconsiderar o contexto. A Biblioteca Mário de Andrade tem mais de 80 anos, tendo início de sua história em 1926. Nesta palestra ouvi novamente o nome de Sérgio Milliet, que já tinha ouvido num evento sobre Curadoria em maio deste ano. Além curador e crítico de arte, ele também foi de diretor da BMA.

A biblioteca surgiu antes de todas as outras bibliotecas especializadas em arte como o MASP, o MAM e o Itaú Cultural, acompanhando também a criação da Cinemateca Brasileira e Bienais de Arte. Desde sempre a biblioteca realizava exposições didáticas entre outras ações com o Acervo, voltadas para a formação de repertório e capital cultural. O prestígio da BMA foi grande até os anos 70, que marcou o início de sua decadência com a ditadura militar, considerado um “momento de recolhimento”. Nos anos 80 aconteceu a criação do Centro Cultural São Paulo (CCSP) (1982), que pretendia equiparar-se ao Centro Georges Pompidou, de Paris. Neste centro surgiu a biblioteca  Sérgio Milliet e a biblioteca Alfredo Volpi. Nos anos 90 acontece a reforma e suspensão de alguns serviços e no ano 2000 foi criado o Sistema Municipal de bibliotecas da cidade de São Paulo, que conta com 55 bibliotecas. Em 2009, a BMA conseguiu novamente a autonomia administrativa e de gestão (que havia perdido nos anos 70).

Segundo Marcelo, depois da Biblioteca Nacional (no Rio de Janeiro), a Mário de Andrade é a segunda biblioteca mais importante do país. Ela “compete” com o SESC na área cultural, no entanto não é bem uma competição propriamente dita. Marcelo acredita que a BMA busca sempre pensar no que poderia vir a ser seu diferencial, o quê enquanto biblioteca e equipamento cultural, ela pode oferecer que nenhum outro lugar oferece. Como bibliotecários, entendemos que precisamos avaliar e fazer estatísticas de todos os projetos em que estamos envolvidos com o intuito de obter e provar resultados. No entanto Marcelo atenta para o cuidado com a obsessão por números e estatísticas. Ele entende que a avaliação dos serviços e de seu aproveitamento é importante, mas não é o que deveria ser o norte ou o papel da biblioteca.

Claro que é interessante criar um programa em que “a casa fique cheia”, mas o objetivo deveria ser mais qualitativo do que quantitativo. As apresentações e projetos envolvem muitas vezes debates e conversas, onde as pessoas participantes sempre “levam algo pra casa” ao invés de simplesmente irem se entreter. Tendo isto em mente, o conceito de equipamento cultural, de ferramenta, de uso, se reforça. A casa pode lotar em vários outros lugares e isso pode não significar nada, nenhuma mudança para aquelas mil pessoas, nenhuma transformação, nenhuma experiência diferente da qual geralmente estão habituadas. Se o objetivo e a regra de espaços ditos culturais é ter casa cheia, Marcelo adverte “a gente é o lugar da exceção, não da regra”. Apesar de a biblioteca também estar inserida em um contexto de Indústria Cultural é preciso saber até que ponto ir e demarcar este espaço com propriedade.

Por fim, foi falado um pouco sobre a estrutura da BMA, com ênfase nos núcleos da Supervisão de Ação Cultural: Núcleo de Memória, projeto memoria oral (registro de depoimentos) e arquivo histórico; Núcleo de Publicações e Comunicação, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade, a alimentação do site e administração da conta da BMA no Facebook e também a Programação, onde cada projeto foi descrito:

Para 2012:

  • 90 anos de Arte Moderna;
  • Ciclo de História da Arte – Módulo II;
  • Bibliofilia, obras raras.

No final da palestra tive uma questão sobre as publicações da biblioteca. Por que elas não estão online ainda? Por que não colocá-las em formato .pdf disponível em uma página? Acho que assim mais pessoas teriam acesso. No entanto, a revista por hora é apenas impressa e com baixa tiragem. Achei importante ter uma conta da BMA no Facebook. Também acho que o site da Mário de Andrade deveria ser reformulado, ele é muito estático, pouco interativo, pouco social. Fazendo uma comparação talvez injusta (não sou nenhuma especialista), mas acho o site do CCSP bem mais avançado nesse sentido. Compreendo que o site da BMA está vinculado ao modelo do site da Prefeitura, que também é o modelo do site do Sistema Municipal de Bibliotecas, mas enfim… Ainda acho que modelo poderia ser repensado pra ser mais interativo e social mesmo.

Gênero, feminismo e informação: sobre o ENEM de 2015

12043105_860502434070598_3438710449354581241_nOntem e hoje teve a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Na minha rede muitas pessoas comentaram a questão onde há uma citação da Simone de Beauvoir. Algumas conhecidas que são feministas comemoraram o fato. Outras reclamaram que não se tratava de uma questão feminista, mas sim, de gênero – o que consideram diferente. E hoje foi o segundo dia de prova e dia da redação. O tema da redação do Enem 2015 foi: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Sinceramente eu tenho pena de quem irá corrigir essas provas e não é nem pelos erros gramaticais ou de concordância. Com certeza haverá uma chuva de pérolas misóginas, justificando todo e qualquer ato de violência contra a mulher como culpa exclusivamente dela. Alguns até podem argumentar sobre isso de forma maestral. Mas eu ainda prefiro continuar tendo como certo que a grande maioria dos estudantes de ensino médio só tem condições intelectuais mesmo de lidar com uma redação do tipo “como foram minhas férias”. E olhe lá né, porque ainda assim seria muito difícil: o dia inteiro em redes sociais postando bobagem e achando que podem salvar o mundo a partir disso. Enfim, jovens né?

Acredito que a discussão deste assunto seja absolutamente necessária, ainda mais se formos levar em consideração todo o lodo de notícias desta semana: pedofilia explícita (e feita sem nenhum tipo de consciência ou remorso) pelo Twitter, por conta de uma criança participante de um programa de TV; o escárnio de um cantorzinho de quinta categoria com a tag #primeiroassédio no Twittera aprovação da PL5069 que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte para mulheres que passaram por estupro de autoria do Eduardo Cunha. Sem falar que existe a possibilidade de a justiça (?!) determinar que o estuprador registre a criança que foi gerada em decorrência do estupro. Bom, o que dizer? Basicamente o que presenciamos essa semana foi não só a legalização bem como a legitimação do estupro e da pedofilia no Brasil. É muita bizarria ultraconservadora pra uma semana só. Foi difícil de digerir. Dá um certo desânimo com a vida ao ter de ler todas essas informações. Enfim.

Depois a gente fala do ISIS e dos países islãmicos ortodoxos, onde as mulheres usam burca e os caras casam legalmente com crianças, mas gente, vamo se olhar no espelho né? A gente não é muito diferente deles não… Na verdade somos iguaizinhos.

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Não interessa se tá de biquíni ou de burca: a culpa é SEMPRE das mulheres.

Na questão da prova, como foi falado de gênero, dia desses eu vi um vlog da drag queen Lorelay Fox, que explicou de forma bastante clara o enunciado da questão:

Gênero JAMAIS foi ensinado em escolas e inclusive sempre foi considerado tabu, bem como sexualidade. Ninguém nunca toca nesses assuntos. Na verdade, são poucos os professores que ousam tocar em assuntos relacionados a causas sociais, porque todo mundo já sabe o que acontece com professores que promovem mudanças efetivas nas vidas dos alunos, não? Enfim. Qualquer professor que “coloque muita minhoca na cabeça das crianças” é odiado pelos pais e pela sociedade. Sobre essa questão de gênero, eu inclusive eu já tinha mencionado aqui no blog anteriormente sobre a questão de gênero na taxonomia do mercado de varejo online e como isso – felizmente – está se transformando com o tempo.

Mas a impressão de que tenho é que a deep web emergiu e um pouquinho da fossa que tem lá passou aqui pela superfície. Mas o que acontece é que a deep web nada tem de deep e muito menos de web: são situações muito reais, que acontecem diariamente, em nossas próprias cidades, em nossos bairros, com nossas famílias, amigos, conhecidos e até conosco. É o que acontece diariamente. Sobre a questão da redação, eu teria algumas coisas pra falar sobre a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Em como acredito que isso seja completamente estrutural e sistêmico, pois inclusive existem mulheres que são contra o feminismo e acham que não precisam disso. Mas uma coisa é existir um grupo que acha que é ok ser abusada e aguentar de tudo porque, afinal, “a vida é assim mesmo”. Outra, é o Brasil efetivamente ocupar a 7ª colocação entre 84 países no ranking de feminicídios do mundo inteiro. O que existe é uma falta de informação geral das pessoas – de todas as pessoas, independente de serem pré-vestibulandos ou não. E também há em curso na verdade algo ainda mais perverso: confundir questões de direitos civis e humanos com ideologias.

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Algumas pessoas são tão asburdamente desinformadas que elas realmente acreditam que pautas sociais e movimentos de militância sejam exclusivamente de esquerda. Não vejo o quanto isso pode ser mais errado: tomar questões que são puramente ideológicas por questões sociais. Questões como misoginia, racismo, homo e transfobia devem ser conversadas fora de qualquer esfera religiosa ou política, mas a partir de um posicionamento social mesmo. A não ser que a pessoa faça questão de deliberadamente ser sociopata, assumir isso para si mesma e tratar a todos com desprezo, sem distinção de absolutamente nada. E para ser sociopata e sobreviver em sociedade é necessário bastante talento.

“Bem Dora ok, você está falando de todas essas coisas mas o que o bibliotecário e biblioteconomia tem a ver com isso?”

Tudo.

Não trabalhamos com fontes de informação?

Falamos muito sobre “informação” porque esse parece o nosso tema principal, mas eu acharia muito interessante se existissem estudos mais sérios sobre duas coisas: anti-informação e contra informação. Porque pela internet parece que é exatamente isso o que anda rolando. Para mim, o ruído sempre foi muito mais importante que a própria informação: não vivemos em um mar de rosas informacional, eu nunca acreditei nisso. Por mais que existam as redes sociais e toda sorte de informações possíveis pela internet, o que mais vejo atualmente são pessoas completamente perdidas e desinformadas. Desencontradas mesmo. Trocando uma coisa por outra. Mas mais ainda: tendo uma dificuldade, muito grande, de entrar em conversas reais. E não meros ataques mega intransigentes e unilaterais, onde existe o bem e o mal, e você está certo e todos estão errados. Mas em uma conversa, mesmo, de verdade.

Bibliotecas são o espaço certo pra isso, principalmente as públicas e municipais – acredito que em escolas particulares isso seja um pouco mais difícil. Bibliotecários podem ser catalizadores desses encontros, podem estimular conversas, propôr mediações, palestras sobre o assunto que for (inclusive gênero, feminismo, etc.) não só a partir de livros, mas também de filmes, com pessoas conhecidas, autores, artistas, blogueiros, vlogueiros ou outros tipos de formadores de opinião. Pode-se realizar contrapontos ou ver um mesmo assunto sob várias perspectivas diferentes, pois também faz parte. Podemos preencher essa lacuna, imensa, que existe na dita educação formal, tomando esse tipo de responsabilidade para nós. Ou não né, enfim.

Ademais, o choro é livre.

Isto não é uma biblioteca

(Publicado originalmente em 14 de outubro de 2011)

Sabemos que quanto mais tentamos conceitualizar algum objeto de estudo, menos este objeto se torna definido e mais seu significado se torna plural e múltiplo. Ou ao menos a sua definição é quase que para sempre relativa ao tempo em que existiu/existe, à sua aplicação em determinado contexto, ao tipo de cultura de sua área ou domínio de atuação, entre outras variáveis que podem vir a existir.

Hoje de tarde deparei-me com dois textos que apareceram na timeline do G+: um da Carta Capital [As bibliotecas sem leitores] compartilhado pelo colega Marcos Ouchi da Ufscar e outro do Phil Bradley [A library is not..], compartilhado pelo perfil da biblioteca da Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Telecomunicación, da Universidad Politécnica de Madrid. Os textos tratam sobre bibliotecas de modos dramaticamente diferentes o que é evidente tendo em vista seus autores: a) um jornalista brasileiro que só entende um pouco sobre bibliotecas através de números de estatísticas, acadêmicos e outras pessoas envolvidas com educação e b) um bibliotecário militante norte-americano. De qualquer modo vou tentar escrever algo sobre os dois textos que li e o que achei sobre suas particularidades.

Achei curioso o texto “Bibliotecas sem leitores” aparecer categorizado na seção “Política” e posso até dizer que isso me surpreendeu um pouco. Já o texto, nem tanto.. Nada diferente da mesma lamentação que ruminam há alguns anos: “a maioria das bibliotecas públicas vive às moscas” e o já então clichê “brasileiro não gosta de lerdevidamente justificado por números de pesquisas estatísticas, etc. Criar um dia da leitura como modo de estimular a leitura? Talvez estimule a venda de livros, mas a leitura, sinceramente, não vejo como. E reclamações mais pontuais e específicas como a pouca quantidade de bibliotecas e o parco horário de funcionamento das mesmas. A biblioteca-vítima da reportagem foi a biblioteca pública Roberto Santos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

No texto do Bradley ele comenta sobre características dos bibliotecários que infelizmente chegam a ser mais lamentáveis que os  estereótipos:

Por várias razões – bibliotecários não são bem conhecidos por venderem seu próprio peixe e por bradarem aos quatro cantos sobre o que fazem e talvez isso ocorra por buscarmos sempre consenso e acordo ao invés de discórdia e desacordos.

Acho uma graça, mesmo, as bibliotecárias recepcionarem as velhinhas que ainda frequentam a biblioteca por carência emocional, afetiva, etc. Mas também acho igualmente importante, principalmente em se tratando de biblioteca pública, que a biblioteca (e consequentemente os bibliotecários) não espere passivamente pela visitação e apreciação por parte do público, mas sim que busque conhecer de fato as necessidades da comunidade onde está inserida. De que adianta uma biblioteca temática de cinema em um bairro onde talvez existam outras necessidades? Claro que quem teve a idéia de biblioteca temática teve a melhor das intenções, mas sempre bom perguntar: é útil a quem e em que contexto?

Já disse que bibliotecários não podem e não devem ser definidos por coisas como o que trabalham […] mas sim pelo que conseguem alcançar. Deveríamos ser definidos pelo efeito que temos em nossa sociedade e em nossas comunidades. […] Nosso papel não se encontra em estantes, em nossos computadores, em nossos prédios ou até mesmo em nossa história, mas no que FAZEMOS. E isso não é ‘etiquetar livros’. Isso é nos definir, mais uma vez, em termos de artefatos que nós podemos ou não usar (usamos cada vez menos).

Com esse parágrafo o Bradley conseguiu me explicar brevemente que o discurso “biblioteca/bibliotecário é importante” pode ser um tanto quanto vazio. Muitas vezes me parece que as bibliotecas e os bibliotecários são importantes apenas em sua própria área e em seu próprio domínio de conhecimento. No texto da Carta Capital, de acordo com o censo da FGV, “65% dos visitantes enxergam a estrutura como uma fonte de pesquisas escolares, 26% a utilizam para pesquisas em geral e somente 8% para o lazer”. Por que a biblioteca não pode ser vista como um espaço não só de pesquisa, leitura e fruição, mas também como espaço propício para discussão e melhoria de algum bairro, alguma comunidade ou até da vida mesmo de algumas pessoas?

O que define hoje uma biblioteca? A excelente organização do catálogo, da coleção ou do acervo? Os bibliotecários que nela trabalham? O meio onde está inserida? As pessoas que a frequentam? O conjunto todo? Onde exatamente está a biblioteca?

É claro que cada tipo de biblioteca tem uma missão diferente. Tudo parece sempre muito lindo quando se fala das bibliotecas estrangeiras, no caso, da de New York e de como “as instituições estão sempre se adaptando ao cenário a seu redor para fortalecer os laços com a comunidade” e como aqui no Brasil esse tipo de coisa não acontece, etc. Essa baixa-auto estima brasileira sempre me irritou, mas tem irritado um pouco mais há algum tempo. Entendo que a questão não é meramente estabelecer laços, mas talvez um pouco mais consistente que isso: dar suporte e suprir necessidades locais de informação que uma determinada comunidade possa vir a ter, seja qual for essa demanda.

Bibliotecários estão aqui para ajudar suas comunidades, e um ataque à uma biblioteca é um ataque a uma comunidade. Pode não parecer, e claramente para vários políticos não parece, mas é exatamente o que é. Porque é dizer que o benefício que as pessoas conseguem através de suas bibliotecas/bibliotecários em questões tais como aprender a ler, conseguir emprego, achar serviços sociais que os protejam de algum modo, em dar a oportunidade às pessoas de aprender ou simplesmente curtir um bom livro – nada disso importa. E quando eles dizem que nada disso importa o que eles estão dizendo na verdade é ‘esta comunidade não importa’ e ‘esta pessoa não é importante’. – Bradley.

É fato que bibliotecários brasileiros nunca serão tão militantes quanto parecem ser os americanos e se existem talvez sejam raros e eu não os conheço. Isso é tanto uma bênção quanto uma maldição. A “militância” só parece existir por assim dizer, para garantir vagas em concursos públicos entre outros espaços – o que não deixa de ser um tipo de legítimo de luta. Fora isso me parece que a passividade e a complacência permanecem e os bibliotecários continuam com o estigma de serem apolíticos e meio que descomprometidos, o que particularmente acho bem pior do que o estereótipo de mulher idosa de cóque pedindo silêncio.

Os problemas começam quando a biblioteca/os bibliotecários não são vistos como parte da espinha dorsal de uma comunidade. Uma vez que isso acontece, se torna lógico pensar em cortá-la. As decisões de conselhos e prefeitos com cérebros pequenos são uma confusão total, quando vistos da forma que enxergamos as bibliotecas. Eles as vêem como uma fonte que não é parte de uma comunidade. – Bradley.

Também é muito fácil dizer que o cenário internacional, idealizado, perfeito, onde as coisas dão certo sempre é mesmo muito “distante da realidade brasileira”. Não acho que seja bem assim. No primeiro semestre vi muitas notícias sobre fechamento de bibliotecas nos EUA e na Inglaterra. E então? Não tá fácil pra ninguém, não é só por aqui.

E por que esta não me parece exatamente uma realidade tão distante quando percebo iniciativas – geralmente (infelizmente talvez) isoladas, mas consistentes – como a de criação de bibliotecas comunitárias  tais como a Bicicloteca e a Barracoteca (só pra citar as mais recentes que vi este ano)? Não acho que quem crie uma bicicloteca ou uma barracoteca tenha muitos recursos, bem como também não acho que quem tenha essa iniciativa queira meramente colecionar (classificar, catalogar, indexar, etc) livros. Quem tem essas iniciativas não são nem mesmo bibliotecários e eles querem mais do que tudo isso: querem criar comunidades, criar significado. Mas também é claro que isso não é preocupação e muito menos prioridade de nenhum governo – no mundo inteiro.

Biblioteca Professor Osni Régis, em Florianópolis

Por Rosielle Machado

bibliotecadentro1Quinze mil livros de bordas amareladas descansam tranquilos no número 1344 da Avenida Mauro Ramos, no centro de Florianópolis. Olhos apressados passam reto pela placa que sinaliza, logo depois da igreja evangélica nababesca, a existência de um pequeno achado: uma biblioteca quase-pública (mas sem público) que guarda o acervo de uma vida toda.

Quem sai do pandemônio do resto da cidade e entra nos fundos da casa que esconde a biblioteca sente um leve deslocamento no espaço e no tempo. Não parece Florianópolis, nem 2010. O sol das 15h passa pelas vidraças e bate nas prateleiras cheias de clássicos de direito, sociologia, filosofia, história, teoria literária e literatura. No quintal, uma bananeira exibe um cacho verde. Volta e meia, um bem-te-vi pousa na grama. Só o que remete ao mundo lá de fora são dois computadores parados num canto.

Vale a visita. Se não para pegar um livro (nem todos são emprestáveis), pelo menos para sentar, ler e aproveitar o ambiente agradável durante um tempo.

O charme do lugar começa pela sua história. O acervo pertenceu ao político, professor e apaixonado por leitura Osni Régis. Após assistir My fair lady, estrelado por Audrey Hepburn, ele resolveu construir na sua casa uma pequena-semi-réplica da biblioteca que aparece no filme. Depois que morreu, em 1991, a família decidiu abrir o espaço ao público e criou a Fundação Prof. Osni Régis, que banca a manutenção de tudo com recursos próprios.

Para quem estuda Direito, os muitos títulos na área representam o paraíso. Mas também há clássicos literários brasileiros e estrangeiros – franceses, latinos, gregos, uma prateleira toda de Agatha Christie e muitas raridades. Entre elas, a História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, em sete volumes, uma pequena autobiografia de Ferreira Gullar, cartas eróticas de James Joyce para a mulher, as obras completas de Tomás de Aquino, Karl Marx e números de revistas pouco encontráveis por aí, como a francesa Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre.

bibliotecadentro2Fazer a manutenção de tudo isso já é complicado o bastante, por isso todas as ofertas de doações de livros são delicadamente negadas. O acervo permanece com 15 mil volumes há quase vinte anos.

“Livro é para ser lido, deixá-lo parado na estante não é o objetivo”, diz Isabel Régis, filha de Osni Régis e presidente do conselho curador da Fundação. Ela lamenta que a biblioteca tenha tão poucos visitantes. “Quando vem alguém é mais pra pesquisar na área de literatura e direito. Ou então as pessoas entram, olham o lugar e vão embora”.

Quem fica lá todos os dias cercada pelos maiores clássicos mundiais é Maria, que recebe os passantes, cuida dos livros, deixa o lugar sempre impecável e fica de olho no amadurecer dos cachos de bananas: “São mais gostosas que qualquer uma que se vende no supermercado.”

Ler um pouco, levantar, ir até o gramadinho lá fora, pegar uma banana, comer, escutar um passarinho. Por que mesmo ninguém nota aquela placa na Mauro Ramos?

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Quem quiser aparecer por lá pra checar se as bananas já maduraram, anote aí:
Biblioteca Prof. Osni Régis, nº 1344, Avenida Mauro Ramos, Centro, Florianópolis
Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h
Mais informações: (48) 3223 4833

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Artigo roubado descaradamente da Revista Naipe, publicado em 23/08/2010.

Sobre a crise das bibliotecas

É curioso perceber que, mesmo antes de eu decidir fazer o curso de biblioteconomia em 2008, as bibliotecas já estavam agonizando e  já estavam em crise. Mas na verdade acredito que desde que a Internet começou a se tornar realmente popular (final dos anos 90, acho), várias foram as mídias que tornaram-se “agonizando e em crise”: o jornalismo (com o jornalismo online), a música (com o formato .mp3), as grandes editoras científicas e periódicos científicos impressos (com os periódicos online em acesso livre), os livros (com o Kindle e outros leitores, etc) só pra citar alguns exemplos.

Todas essas coisas “estão morrendo” faz alguns bons anos já. Mas… Estão mesmo? Ou estão apenas reaparecendo de outros modos?

Não adianta, meu otimismo é incorrigível.

Penso em até que ponto essa crise é de fato uma crise e não a oportunidade para que aconteçam mudanças que transformem – pra melhor – a vida das pessoas. Todo mundo diz que a época das grandes revoluções já passou, mas eu acho que existe sim muito ainda pelo quê lutar… As pessoas só não sabem disso, por que a maioria está acomodada. A impressão que fica é que enquanto ninguém levar um grande golpe e precisar se mexer de verdade, ninguém  irá parar de lixar as unhas ou levantar do sofá.

Faz algum tempo que tenho lido notícia ou outra sobre o fechamento de bibliotecas nos Estados Unidos, este ano também já vi que rolou  uma Anarchy in the UK por que aumentaram as taxas da educação do ensino superior e agora estão querendo fechar bibliotecas públicas por lá também, por que né, ninguém vai à biblioteca e ficar mantendo uma é muito caro. É claro que a economia dita as coisas. Mas se fossemos levar tudo desse jeito, não precisava existir mais nada: museus de arte, praças, parques, espaços públicos de lazer, por que né, tudo isso são ‘gastos desnecessários’.

Não consigo negar que, aos poucos, as bibliotecas estão se tornando museus, de fato. Digo fato, por que é algo que não pode – e não deve – mais ser ignorado. Não estou falando que isso é uma possibilidade, estou dizendo que isso está se tornando cada vez mais real, mesmo. Não estou querendo aqui desmerecer de modo nenhum a importância das bibliotecas, mas acredito que alguns problemas não podem mais ser ignorados, pelo próprio bem da sobrevivência da nossa profissão. Quando é que vão parar com essa mania de fingir que as coisas não estão mudando? Outra dica:  também acredito que só ficar promovendo “orgulho bibliotecário” é um movimento vazio de significado e também não promove mudança efetiva nenhuma.

É nítido perceber que os bibliotecários estão ficando  cada vez mais desesperados, tentando demarcar um território que acham que é de propriedade deles, pois não conseguem enxergar outras perspectivas de trabalho fora do que já conhecem (ou já têm experiência). Na verdade, neste caso específico do fechamento das bibliotecas, não são só os bibliotecários que estão reclamando, mas também são pessoas de determinada comunidade que têm – ou tiveram – uma relação afetiva com a instituição biblioteca, que tentam argumentar  ou achar um meio termo para justificar a existência e permanência delas.

Algumas pessoas acreditam que a biblioteca universitária – assim como a conhecemos – vai acabar por que vai terminar se transformando em um grande laboratório de informática dominado pelo pessoal de TI. Não sei se é bem por aí. Final de janeiro, dia 31, me encaminharam um retweet do Neil Gaiman (@neilhimself) da campanha #savelibraries (#salvemasbibliotecas), de alguém que criou posteres defendendo a permanencia das bibliotecas, estilo propaganda da primeira guerra mundial. Isso (a criação destes tipos de posteres), por si só, já é sintomático. O passado é muito bonito estéticamente? Sim, é realmente muito bonito, não discordo disso. Mas é sempre bom ter em mente o óbvio ululante de que o passado não é o futuro.  As coisas estão mudando, efetivamente.. E é preciso acordar pra isso!

Há alguns dias já vi gente reclamando, ontem mesmo vi gente chorando – o que realmente me cortou o coração, de verdade. Olha… Dizer que eu acho BACANA fecharem bibliotecas, também não acho. Acho ruim… Acho triste e acho que configura sim em uma perda grave. E eu também realmente espero que quem esteja tomando este tipo de decisão não se arrependa do que está fazendo (mas geralmente se arrependem e  só enxergam o estrago depois, mas aí o leite já foi derramado e enfim… Eis a história [mais repetitiva] da humanidade).

É curioso notar como tratam das coisas como se fossem definitivas e imperativas: “o jornalismo morreu”, “o livro acabou”, “as bibliotecas fecharam e não há nada a ser feito”, “perdemos nossos empregos pra máquinas”, etc. Daí eu começo a entender o meu otimismo: ser pessimista é pra fracos, por que ser pessimista é muito fácil. Tão fácil que chega a ser tentador. Pessoalmente, não acredito que tudo seja assim tão definitivo. Acho que agora, mais do que nunca, a época é de transição e convergência extrema… E épocas assim são bastante difíceis: é preciso saber enfrentar e não denegar.

A gente já sabe que o bibliotecário trabalha com livros, artigos, material de pesquisas científicas, educação, leitura. E em seu núcleo, não adianta negar: trabalhamos com informação. Assim como – mais especificamente – os jornalistas, os técnicos em informática, os cientistas da computação, programadores, e né, todas as outras profissões, em maior ou menor escala.

Esta intersecção existe, mas bibliotecários tem propriedades que jornalistas e outros técnicos, não tem e assim por diante. Somos únicos em nosso campo de conhecimento, não somos melhores nem piores que nada nem ninguém: fazemos (ou ao menos deveríamos fazer) parte de um conjunto de pessoas que trabalham com a informação, cada uma ao seu modo.

Tenho algumas perguntas em mente, mas elas são bem restritas. Digo que são restritas por que elas se dirigem apenas para o ambiente que mais faço parte – o universitário. Mas acho que todo mundo da biblioteconomia pode pensar nas coisas no âmbito o qual faz parte…

  • Por que as universidades são tão especializadas em fazer a sua própria assessoria de imprensa, e, no entanto, os portais ou sites universitários são sempre extremamente empobrecidos de informações úteis para quem os acessa? Quem fica responsável por isso? Pessoal de TI? Olha, não tão dando conta, viu? Fica a dica.
  • Por que ainda não existem “Políticas para Informação e Acesso” (com questões que concernem a vários ambitos de pesquisa, ensino e extensão) na maioria das universidades? Quem é que deveria ter posicionamento político sério referente à isso? Por que isso não pode ser de responsabilidade também – e principalmente – da biblioteca e dos bibliotecários? Isso precisa ser assumido.
  • Por que a maioria das universidades não tem um Banco de Dados de Teses e Dissertações (BDTD) decente? Ou se tem, eles são de difícil acesso ou estão deixados às traças virtuais? Quem deveria estar brigando pela digitalização e disseminação do conteúdo no formato digital? Quem deveria estar lidando com a padronização e com os metadados desses itens, que deveriam estar online com acesso irrestrito? Pessoal de TI instala o software, faz as manutenções e o resto eles não vão querer nem saber.  Isso não parece função de biblioteca?
  • E os periódicos das universidades? Por que é tudo deixado a deus dará? Por que a biblioteca não se encarrega de manter uma encubadora de periódicos e não se responsabiliza por manter os periódicos de sua instituição em alto nível de competitividade e em acesso livre? Por que não tem bibliotecário interessado nisso? “Isso é coisa de editora”? As editoras universitárias ainda estão na idade média, se preocupando em vender livros impressos. Cadê o bibliotecário pra dar conta desta meta-editora?

Quantos sites de universidades – federais e estaduais – que eu já vi  e considerei precários? Por que? Por que claramente não são pessoas que pensam em informação – como bibliotecários pensariam – que os criam, provavelmente. Não nego a “boa vontade” de quem tem iniciativas ruins, mas nem só de boa vontade as coisas se resolvem né? Do mesmo modo que iniciativas isoladas raramente sobrevivem, se não contarem com um apoio de muita gente.

Enfim, essas são só algumas das dúvidas que me assolam. Sim, talvez róle uma ingenuidade por que eu ainda não consiga enxergar a floresta como todo, mas só algumas árvores – mas acho que as minhas questões não deixam de ser pertinentes. Ainda acredito que existe muito trabalho pra ser feito e muita coisa pra ser mudada.

Se juntar pra chorar as pitangas coletivamente em qualquer lugar é muito fácil. Pessoalmente, eu acho esse um comportamento feio e reprovável. Pra mim já não é uma questão de “ó, coitadinhos de nós, bibliotecários, que estamos perdendo espaço”. Não, não estamos! O espaço é nosso e não estamos sabendo ocupá-lo devidamente! Existe tanto por fazer!

É uma questão de posicionamento profissional – e isso não tem NADA a ver com orgulho do que já se faz, mas sim em reconhecimento do que pode ser feito e melhorado. Se você só se lamenta, cada vez mais vai ter do que se lamentar. Se você enxerga os erros, cresce, aparece e briga pra modificá-los, mais cedo ou mais tarde alguém te ouve e as coisas mudam. Acredite.

Qual a diferença entre uma livraria e uma biblioteca?

Escrevi um texto em 2010 sobre o clichê de “brasileiros não gostarem de ler”. O texto não ficou bom e acabei falando de outras coisas. O que me ocorreu é que na época eu tinha algumas inquietações que não conseguia distinguir muito bem e hoje, 5 anos depois, vejo algumas coisas com um pouco mais de clareza, talvez. Uma das minhas perguntas que fiz na época foi “será que bibliotecas precisam mesmo ser como livrarias?”

A resposta rápida e meio impensada é sim, claro, deveriam. Pensamos em grandes mega book stores como a Livraria Cultura e a Saraiva e suspiramos pensando porque bibliotecas não podem ser um pouquinho assim, não? E a verdade é que eu gostaria sim que o ambiente de bibliotecas, sejam elas públicas, universitárias ou outras, se aproximasse do ambiente aconchegante das livrarias. Todo mundo gosta de ambiente agradável e não adianta negar que a experiência é importante. Mas não tenho tanta certeza assim de que os dois lugares devam confundir-se.

Ambos lugares são parecidos, mas com propósitos levemente diferentes.

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Durante o curso de biblioteconomia, na disciplina de estudo de usuários, aprendi que existem diferenças entre leitores, usuários e clientes. Leitor é a pessoa que já está totalmente imersa na cultura do livro e na cultura de bibliotecas. Ela não trata o objeto livros, nem os ambientes de leitura como coisas distante de si, mas como algo cotidiano, parte de sua vida. Muitas vezes são bibliófilos e colecionadores e tem amor pelos livros, podendo compartilhá-los ou não. Usuários são pessoas que utilizam a biblioteca com objetivos pontuais: pegar um livro emprestado, ficar em um lugar com silêncio, ter um espaço para trabalhar. E clientes são pessoas que se utilizam dos serviços que uma biblioteca pode oferecer. Alguns professores defendem que simplesmente não existe essa diferença e “é tudo gente” e todas devem ser atendidas da mesma forma. Talvez. O que eu não aprendi na faculdade – mas aprendi há 4 anos no mercado, trabalhando – é que existe um quarto perfil: o consumidor. E ele não se aproxima de nenhum modo destes outros três perfis que mencionei anteriormente. Com consumidores, as coisas são bem diferentes.

Acredito que seja importante sim pensarmos em contexto, pois nem sempre as coisas são o que parecem.

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As livrarias, principalmente as mega stores, estão inseridas dentro de um contexto claramente capitalista e que tem por objetivo principal o lucro. Não há aqui julgamento de valor: não acho ruim que façam dinheiro vendendo produtos. Mas é preciso que tenhamos em mente sempre o objetivo puramente mercadológico de tudo isso. É claro que todos os clientes serão bem atendidos e poderão ler o que quiserem por lá pois a livraria não quer se indispôr com consumidores. E é por isso que na livraria jamais existirão tantas restrições que existem nas bibliotecas. E também não existe uma figura de autoridade dizendo o que você pode ou não fazer. A figura de autoridade em questão é o próprio sistema em que estamos, pois se você rasga, rabisca ou comete algum ato de vandalismo dentro de uma livraria, você certamente será punido e pagará por isso de algum modo. Ou seja, as pessoas tendem a se relacionar com as livrarias de modo diferente, talvez porque tenham que pagar pelos livros. É uma relação sempre distanciada e sempre mediada pelo dinheiro. E sabemos sempre que, quando a questão chega no bolso as pessoas são capazes de mudar de comportamento de forma drástica.

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Em uma biblioteca a proposta muda de forma um tanto quanto radical. O próprio conceito de biblioteca é justamente a preservação do material para que as informações possam chegar ao maior número de pessoas possível, sem custo. Essa era a ideia de conhecimento universal, do Mundaneum, do Otlet. É essa a pretensão que a humanidade tem tido por mais de mil anos: a de que o conhecimento possa chegar para todos. E esse tipo de pensamento e postura vai justamente de encontro aos ideais de um sistema capitalista, que só sabe se fortalecer a partir das desigualdades. O propósito da biblioteca é o de justamente de criar comunidades e fortalecê-las, tornando-as autosustentáveis. As pessoas que se utilizam de bibliotecas e efetivamente estão imersas nesse tipo de cultura, pensam sempre no coletivo antes de si mesmas. O livro não é propriedade de ninguém, é de uso comum de todos. Cria-se uma cultura geral de preservação e cuidado, para que esse bem se mantenha através de gerações. Bibliotecários neste caso não se comportam (não deveriam ao menos) como figuras de autoridade dentro da biblioteca, mas mais como catalizadores mesmo, fomentadores e estimuladores deste tipo de cultura, justamente para que ela se replique. Quando uma comunidade e um grupo de pessoas se apropriam de determinado espaço, de conhecimento e começam a construir o seu próprio, a biblioteca passa a possuir sua relevância naturalmente – não de forma forçada.

As pessoas tendem a acreditar que livrarias, hoje, são centros de cultura por excelência. Isso é verdade? Parcialmente. As boas livrarias te deixam tão confortavelmente imerso em seu mundo de leitura, com sofás e pufes, gente bonita lendo livros, bom atendimento, cafeterias… Que faz com que você acredite que eles sejam centros de cultura por excelência. Você não precisa comprar nada, ninguém irá te obrigar porque essa é a proposta. Mas o fato é que o objetivo principal é ter lucro e devemos lembrar sempre disso. O que você faz com o livro ou o conhecimento adquirido da porta pra fora, não é de interesse deles – desde que você deixe seu dinheiro por lá. Também não é de interesse deles criar comunidades uma vez que isso impacta nas vendas (pessoas trocando livros não é lucrativo), mas posso estar enganada uma vez que bookclubs ou Clubes de Leitura sendo sediados em livrarias estão cada vez mais hypados.

Bibliotecas são centros de cultura? Sim. Mas cumprem mesmo esse papel sempre? Por que as bibliotecas no Brasil parecem ser incapazes de fazer com que as pessoas sintam-se imersas em seu mundo? Existem uma série de limitações, não só econômicas mas também – e principalmente, eu diria – culturais. Será mesmo só falta de investimento público? Será mesmo que é só por que alguns profissionais são acomodados, arrogantes e fora do seu tempo? Ou esse conceito meio romantizado de biblioteca necessariamente baseada na comunidade que tenho, está desgastado?

Querendo ou não um paralelo – mesmo que superficial – entre bibliotecas e livrarias pode existir e acredito que eventualmente cada uma pode aproveitar-se das características da outra sem no entanto descaracterizarem-se. São muitas as questões e nenhuma das respostas é simples.

Se a sua biblioteca fechasse amanhã, alguém sentiria falta?

Existe um post inteligente do Cronk of Higher Education que faz graça de como todos nós que trabalhamos no ensino superior achamos que somos indispensáveis. É claro que nossos estudantes e faculdades, para não mencionar nossas instituições, não tem esperanças de sobreviverem sem nós. Errado. Como o post sugere, de forma humorada, nossas instituições provavelmente se dariam muito bem sem nós.

E algumas comunidades estão aprendendo a viver sem suas bibliotecas. Bibliotecas estão fechando o tempo todo. Não tanto bibliotecas acadêmicas, mas bibliotecas especializadas, bibliotecas escolares e às vezes até mesmo sistemas inteiros de bibliotecas estão sendo fechados pra sempre – com a de Camden em New Jersey dentre as recentemente ameaçadas de fechamento (felizmente com uma prorrogação) por enquanto. No mundo dos bens de consumo também existem produtos e negócios inteiros que desaparecem para sempre da paisagem. Um post do Harvard Business Review levantou uma boa questão que todos nós deveríamos estar nos perguntando diariamente. Se nossa biblioteca fechasse amanhã, alguém sentiria falta? Mais importantemente talvez, do quê eles sentiriam falta e por quê? Será que o que as pessoas sentiriam falta refletiria o negócio do qual pensamos fazer parte?

Quando várias bibliotecas estavam pra fechar na Filadélfia, residentes da vizinhança protestaram. Mesmo quando havia uma biblioteca em 3 ou 4 quilômetros da sua, eles ainda insistiram em manter a biblioteca aberta (e várias permanecem abertas apesar da diminuição do pessoal e das horas de serviço reduzidas). Mas vários residentes queriam a biblioteca aberta por que eles precisavam de algum lugar que suas crianças pudessem ir depois da escola. Soa mais como creche do que conectar pessoas com informação. Isso pode ser presunçoso por que as atividades depois da escola envolveriam pesquisa para tarefas, aprender como usar fontes de tecnologia – não apenas cuidar de crianças. Em nenhum lugar eu ouvi ou li algo sugerindo que alguém sentiria falta dos trabalhadores da bibliotecas – embora isso não necessariamente signifique que os residentes da vizinhança não estivessem preocupados com o apuro do pessoal.

Quaisquer sejam as razões, estes residentes sentiram-se leais o suficiente à sua biblioteca para saírem nas ruas e protestar o plano de fechá-la – e esse é o tipo de lealdade que gostaríamos de insinuar a todos os membros da nossa comunidade. Queremos que eles sintam que a sua biblioteca é indispensável à comunidade. Numa época em que esta mesma comunidade consegue informação tão facilmente de outras fontes, como bibliotecários se saem na criação de membros de comunidade leais? Em um post sobre desenvolvimento de clientes leais Joseph Michelli, consultor de experiência de usuários e autor de livros sobre organizações como Starbucks e o Ritz-Carlton, descreve a progressão de engajamento do cliente. O menor degrau da escada é a satisfação do cliente. O mais alto degrau na escada é a “sensação de perda” se a marca parar de existir. Neste post Michelli discute um estudo recente da Epsilon que revelou alguns achados interessantes sobre indústrias que estão levando seus consumidores para baixo ou para o alto desta escada. O relatório indica que consumidores são primeiramente não-leais às marcas, e que eles abandonarão rapidamente alguns produtos (ex. cartões de crédito) mas alguns serão mais leais a outros (ex. seguro de vida). Dadas estas realidades Michelli pergunta “então a sua estratégia de marketing e de experiência do consumidor estão resultando em algo acima da cadeia de simples satisfação?”. Como moveríamos nossas bibliotecas de um bom serviço ao consumidor para que sentissem nossa falta caso não existíssemos mais?

Se você pensar nisso por um minuto, você provavelmente pode aparecer com um produto ao qual você era muito leal que de repente parou de estar disponível para compra. Recentemente meu supermercado local parou de vender uma marca de macarrão que era a minha favorita. Por que? Apenas a competição por espaço nas estantes, e enquanto eu realmente gostava daquele produto aparentemente várias outras pessoas não – então ele se tornou dispensável. E então tinha uma marca de roupas de homens que eu realmente gostava, e tinha uma loja de reparos na minha comunidade. Mas um dia ela fechou uma vez que o varejista saiu do negócio – nem mesmo uma presença na web foi mantida. Encontramos estas experiências vez e outra quando nossas marcas favoritas que ganharam nossa lealdade apenas desaparecem. Nós podemos até sentir falta delas, mas eventualmente, apenas seguimos em frente para outras marcas ou desistimos destes produtos de qualquer forma.

Imagino que é isso o que acontece quando nossas bibliotecas fecham. A comunidade apenas acha algum outro lugar para conseguirem seus livros, DVDs e artigos. Pode ser uma biblioteca mais distante, pode ser que dependam mais de sua rede social ou podem fazer um uso mais especializado do Google, Wikipedia e Netflix. Pra mim, a ideia do post do Michelli é a de que nós precisamos pensar sobre conseguir um lugar além da satisfação do usuário na escada de engajamento de clientes. Sim, satisfação de clientes é bom. Nós os queremos satisfeitos. Mas um cliente satisfeito, de acordo com as descobertas do estudo Epsilon, não é necessariamente um cliente leal. O que queremos, é o tipo de cliente que realmente sentiria nossa falta se não existíssemos mais. Estes são os usuários da comunidade da biblioteca que lutarão para que isso nunca aconteça.

Publicado originalmente no blog Designing Better Libraries em 19 de outubro de 2010.

Título Original: If Your Library Closed Tomorrow Would Anyone Miss It?

Qual a diferença entre uma unidade de informação e um serviço de informação?

Exercício entregue na aula da disciplina de Serviços de Informação em 29/11/2010.

Num primeiro momento, entendemos esta pergunta como muito clara e simples de responder. Ao longo dos 3 anos de curso de Biblioteconomia, compreendemos que “Unidade de Informação” foi um termo criado pela escola francesa para atribuir uma designação das áreas de atuação dos profissionais da informação, abarcando então arquivos, bibliotecas, centros de documentação e museus, entre as unidades de informação mais reconhecidas. O termo “Unidade de Informação” então no caso remete-nos, necessariamente, à infra-estrutura física do ambiente de trabalho, de atuação profissional.

Referente ao termo “Serviço de Informação”, de acordo com o que foi aprendido na disciplina CIN 5022, entendemos que são os conjuntos de serviços oferecidos pela Unidade de Informação-Biblioteca tais como: empréstimo entre bibliotecas, pesquisa retrospectiva, pesquisa de levantamento bibliográfico, disseminação seletiva da informação, para citar alguns. Outras unidades de informação também criam e oferecem serviços, desenvolvidos de acordo com os objetivos específicos de sua área de atuação.

Compreendemos então, primeiramente, que, para que uma unidade de informação exista, faz-se necessária a existência de um prédio ou local onde o conteúdo possa ser devidamente abrigado, organizado e armazenado. Já a criação de um Serviço de Informação independe da existência de uma Unidade de Informação, e pode ser desenvolvido de acordo com a necessidade da organização ou instituição que decidir adotá-lo.

Num segundo momento, aprofundando-nos um pouco mais na questão da informação em si, podemos compreender que a questão do termo “Informação” é um tanto quanto polêmica em alguns sentidos. Podemos nos remeter, por exemplo, à questão das nomenclaturas do curso de graduação (Biblioteconomia e Documentação ou Gestão da Informação?) e dos programas de pós-graduação (seria Ciência ou Ciências da Informação?, de acordo com Ribeiro, 2005). Em meio a estas discussões, podemos nos questionar até que ponto o apego a uma terminologia é uma questão de posicionamento profissional, uma vez que, no juramento da graduação de biblioteconomia devemos prometer “tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”.

A existência, o desenvolvimento e proliferação da criação de Bibliotecas Digitais e Virtuais (muitas vezes em Acesso Livre) no mundo todo, nos faz questionar se existe de fato uma diferenciação entre Unidades de Informação e Serviços de Informação num sentido mais amplo, pois, neste caso, esta diferenciação parece não se aplicar. Não seria o mundo dos bits uma unidade de informação por si só? Uma biblioteca, por ser digital ou virtual, torna-se apenas um mero serviço ou pode também ser considerado uma unidade, um centro onde se busca e troca-se informação?

Alguns pensadores da web não definem mais unidades de informação apenas enquanto espaços físicos, chegando a considerar o mundo real como “o mundo dos átomos” (WEINBERGER, 2007). Também é questionado se a organização da informação nesses ambientes é a mesma de uma unidade de informação tradicional, uma vez que na web “não existem estantes” e as classificações podem ser feitas de modos alternativos aos modos tradicionais (SHIRKY, 2010). Uma vez que paramos para pensar nas possibilidades da web, podemos também compreender que o modo que os profissionais podem lidar com a informação podem ir muito além das bibliotecas e serviços de informação.

Na revista Filosofia nº 53 deste mês, a matéria de capa contém a seguinte pergunta “O que é Informação?”, propondo-se a definir a informação de acordo com a grande área da Ciência Cognitiva, mas conclui comentando a dificuldade de se chegar a uma definição única.

“Julgamos que uma dificuldade ainda mais fundamental reside na obtenção de um consenso sobre a natureza ontológica da informação. Tentativas de solucionar essa dificuldade são encontradas na Filosofia Ecológica, na Ciência da Informação, na Linguística, na Teoria Matemática da Comunicação (MTC) e na Filosofia da Mente”. (GONZALEZ e ZÍLIO, p. 20, 2010)

Sempre nos é lembrado que “vivemos na era da informação” e além dos meios de comunicação tradicionais – jornais, rádio, televisão, telefone – também temos que lidar com os meios mais recentes como computadores e laptops com acesso à Internet, câmeras, celulares e toda nova parafernália tecnológica que é lançada com o tempo, seja um hardware ou um software. As áreas de estudo não chegam a um consenso sobre a definição exata de informação, mas compreendem que “dentre as informações que recebe, o ser humano nem sempre consegue inferir o que é verdadeiro ou falso, o que pode provocar sérios problemas.” (GONZALEZ e ZILIO, p. 16, 2010) o que interfere principalmente na questão da seleção e da filtragem da informação, um dos problemas mais recorrentes do ambiente web.

Para o desenvolvimento de sistemas web, estudos acerca de Inteligência Artificial, Redes Neurais Artificiais e Robótica Cognitiva têm sido feitos ao longo dos anos, aprimorando a tecnologia para a interação humana. No entanto, é importante lembrar que boa parte das investigações na Ciência Cognitiva são voltadas para a diferenciação da inteligência das máquinas e dos humanos. Gonzalez e Zílio então defendem que “informação não é matéria nem energia, mas um tipo de forma ou padrão que adquire significado na própria dinâmica auto-organizadora de sistemas que atuam no seu meio ambiente” (p. 20).

É possível então compreendermos que muitos entendimentos dentro da área da Ciência da Informação (e outras áreas de estudo) são questões de terminologia, mas que suas definições sempre são movediças e incertas, variando de acordo com a aplicação e competência de determinada área.

REFERÊNCIAS

GONZALEZ, M. ZILIO, D. A Gênese do Significado: o que é informação? Revista Filosofia, São Paulo, Ano V, nº53, p. 14-22, Novembro, 2010.

RIBEIRO, F. Desfazer equívocos: Ciência ou Ciências da Informação? Newsletter “A Informação”, n. 1, p. 19-22, 2005. Disponível em: <http://www.a-informacao.blogspot.com&gt;. Acesso em:  22 nov. 2010

SHIRKY, C. Ontologias são superestimadas: categorias, links e etiquetas. Extralibris. Disponível em: <http://extralibris.org/artigos-e-estudos/ontologias-sao-superestimadas-categorias-links-e-etiquetas/&gt; Acesso em: 12 jun 2010.

WEINBERGER, D. A nova desordem digital. Rio de Janeiro: Elservier, 2007.

Follow up atrasado: performance da Amanda Palmer na NYPL dia 20/08

Eu tinha feito um post por aqui sobre uma performance surpresa que a Amanda Palmer faria na NYPL e não retornei pra dizer o que aconteceu. Apesar de ter banda, ela sempre foi uma performer e foi isso o que rolou para arrecadação de livros infantis pra biblioteca:

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Ela convocou toda a sua base de fãs de New York e dos arredores para doarem livros infantis e prometeu uma surpresa, que só foi vista na hora. Certamente quem a acompanha e acompanha a sua carreira deve ter se emocionado bastante ao vivo. Ela se inspirou numa escultura do Damien Hirst chamada Verity para essa performance:

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Essa performance veio em um momento bastante delicado na vida da artista e tem uma série de significados pessoais pra ela, referentes à morte de um amigo muito próximo e ao filho que ela estava esperando (o pequeno Antony já nasceu). Atualmente ela é casada com o escritor Neil Gaiman que a acompanhou durante a performance:

E aqui foi documentado todo o processo de pintura corporal da performance, que a Amanda chamou de Truth & Consequences (Verdade e Consequências):

Uma Biblioteca de boas ideias

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Fórmula do sucesso no centro de Oregon: conheça os usuários, encontre as oportunidades e aja com energia

por Deborah Fallows, para o The Atlantic

Em 2010, os administradores do sistema de Bibliotecas Públicas de Deschutes, na linda região desértica do Oregon, tiveram uma ótima ideia. Como parte de sua pesquisa sobre a utilização da biblioteca e necessidades de  seus usuários, eles também filmaram algumas seções de Perguntas e Respostas com os moradores da comunidade sobre a biblioteca. Para Todd Dunkelberg, o diretor das seis bibliotecas Deschutes, os resultados foram um chamado para se entender a visibilidade e familiaridade da biblioteca. “As pessoas se sentiam culpadas em não conhecer a biblioteca” ele me disse.

Depois de visitar várias bibliotecas pelo país nos últimos anos na estrada com o projeto American Futures, eu não estava tão preocupado em ouvir que outra biblioteca incrível era um segredo bem guardado. Do Maine à California, eu ouvi história após história sobre esforços para trazer residentes para acelerarem a missão que sempre evolui das bibliotecas de servir às pessoas.  

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Seção infantil com computadores

Além dos anúncios tradicionais de marketing do serviço público, inserções de jornais ou email direto, as bibliotecas ficaram criativas. Os funcionários da biblioteca em Winters, California, e Columbus, Ohio, levaram às ruas, lojas e parques procurando por mães com bebês novos para atraí-las com caixas de boas vindas de livros e cartões de bibliotecas à biblioteca amigável. Em Ferguson, Missouri, após a agitação que levou ao fechamento de escolas, as bibliotecas ficaram abertas por longas horas para oferecer às crianças um lugar seguro e interessante para estarem, bem como seus próprios cartões de biblioteca.

Piso de cima da biblioteca Deschutes
Piso de cima da biblioteca Deschutes

Dunkelberg e Deschutes vieram com uma estratégia própria pra se apresentarem para as pessoas: eles renomeariam seus funcionários para “bibliotecários comunitários” e os encorajaria a carregarem a mensagem da biblioteca rica em recursos e atividades para organizações civis.

Primeiramente, Dunkelberg disse, a reação um tanto quanto intrigada dos grupos que eles foram visitar foi “por que você está aqui?”. Mas alguns anos depois, depois de ouvirem, aprenderem e compartilharem histórias, as pessoas vêem os bibliotecários vindo e perguntam a eles “como podemos trabalhar com vocês?”. Hoje em dia, os funcionários da biblioteca são representados em mais de 60 grupos comunitários da câmara do comércio ao clube da cidade, a coalisão de liderança dos sem teto e o Bend 2030, um grupo de planejamento, e muito mais.

Então o que está acontecendo nas bibliotecas Deschutes? Você pode começar com uma lista que agora parece familiar pra mim de ofertas nas bibliotecas mais ocupadas e energizadas em outros lugares: exposições de arte, clubes do livro, leituras com autores e aulas de computação. Também: programas de serviços em tópicos como segurança no carro e trânsito, auto-defesa, tudo sobre o fogo; o ofertas para adolescentes no programa STEAM (acrônimo para ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática). O ramo do centro do sistema também tomou o primeiro passo no “Movimento Criador”, o termo para a atual tendência pelo país em descrever pessoas fazendo tudo desde hobbies humildes até produtos tecnologicos sofisticados possibilitados por equipamentos como uma máquina de impressão 3D. Cada mês o ramo da biblioteca central tem um encontro da Segunda-Feira Criadora. O encontro de julho teve como destaque um líder criador local que apresentou multímetros digitais, um equipamento de teste comum, utilizado na indústria eletrônica, e o encontro de agosto é sobre como fazer copos a partir de garrafas de vinho.

* * *

As pessoas, organizações e ideias reformulando o país

Algumas vezes, as bibliotecas consertam problemas antigos ao invés de criar novas ofertas. Eles geralmente respondem problemas constrangedores com soluções ao mesmo tempo surpreendentes e simples, com respostas efetivas. Por exemplo, em Columbus, Ohio, as crianças estavam se comportando mal nos ônibus escolares. A biblioteca, que funcionava perto da escola, passou a oferecer caixas de livros na frente  dos pontos de ônibus para que as crianças os levassem durante o trajeto para a casa. Voilà! Elas foram vencidas pelos livros e os incidentes diminuiram. As bibliotecas Deschutes trouxeram várias respostas para problemas como este para resolver as questões locais.

Para aqueles mais velhos, que ficam que ficam incomodados com a bagunça e barulho das crianças e adolescentes mais agitados, a biblioteca oferece um horário exclusivo antes da abertura, para que eles possam aproveitar a biblioteca em silêncio.

Para aqueles adolescentes que frequentam a escola mas não vão à biblioteca porque não tem meios próprios de transporte – teriam que vir de bicicleta e ou à pé. A biblioteca vai até eles. Eles podem solicitar os livros e eles são entregues pela biblioteca na escola.

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Seção infantil na biblioteca Deschutes

Para os leitores ainda mais pequenos, bibliotecários costumavam dar pequenos brinquedos como brindes nos programas de leitura do verão até que eles frequente e infelizmente os achavam descartados no chão. Eles então pensaram “Somos uma biblioteca! Vamos dar livros a eles”. A troca foi gratificante, diz Dunkelberg, que às vezes trabalha  na seção infantil, apenas para manter o contato. Ele diz que as crianças amam os livros, e que livros são especialmente significativos para crianças que não os têm em casa.

Para os pré-escolares, a biblioteca principal de Bend recentemente projetou um grande espaço para jogos e brincadeiras. “Em vez de pregar” sobre a importância dos jogos, Dunkelberg disse, “nós mostraríamos como é feito.” O resultado é um espaço iluminado, bem arejado e aberto, com áreas para diferentes faixas etárias. O dia que visitei, como se fosse um sinal, uma criança saiu depois de uma menina maior, que estava “vendendo pizza” em uma loja de faz de contas. Era a melhor pizza falsa que eu já tinha visto; dava para fatiar os pedaços presos com velcro com um rolo e entregar ao comprador.

Área de brincar na biblioteca Deschutes
Área de brincar na biblioteca Deschutes

Criar um grande espaço para brincar tira muito lugar de estantes tradicionais. Dunkelberg faz coro com outros bibliotecários que ouvi quando diz que pensa na biblioteca como espaço imobiliário. A solução imobiliária está em Bend: percorra o acervo da biblioteca e então identifique e desbaste os livros que não são emprestados nunca. Cruel, mas razoável. Eu perguntei sobre os livros encalhados em sua coleção e ele disse que há não-ficção para crianças mais velhas; uma solução que ele achou através de uma pesquisa online sobre os hábitos de leitura deste grupo.

Você pode ver parte da postura otimista (e vistas dos espaços para brincar) das bibliotecas Deschutes neste vídeo:

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Durante a última recessão econômica, houve um aumento no uso da biblioteca. O número de empréstimos aumentou. O uso de serviços como a ajuda para achar empregos subiu.  Dunkelberg viu uma oportunidade para expandir ao conhecer as novas necessidades da comunidade e  explicou o porquê de a crise é um bom momento para fazer novas parcerias. Por exemplo, às vezes, a biblioteca tem o espaço ou os computadores para oferecer enquanto as organizações parceiras tem a experiência ou a mão de obra.

Hoje, o sistema de biblioteca tem cerca de 20 parcerias formais (e incontáveis informais) para servir às pessoas com variadas  necessidades. Incluem-se aí parcerias com a AARP para ajudar em relação à assistência fiscal, com a Foundation Center para ajudar organizações sem fins lucrativos que procuram financiamento, e com Goodwill para dar aulas de montagem de curriculo.

A biblioteca também tem uma estagiária assistente social cumprindo seu estágio de pós graduação. Em parte, ela ajuda a educar os funcionários sobre a variedade de recursos disponíveis para ajudá-los a fazer o seu trabalho melhor. Quando perguntei que tipo de ajuda os usuários da biblioteca estão procurando ultimamente, Dunkelberg me disse que muitas pessoas estão tentando pesquisar sobre casas para comprar e alugar. “Você nunca imaginaria  isso apenas olhando para as pessoas que precisam desse tipo de ajuda”, disse ele, “Não é óbvio.”

Temática de super heróis na seção das crianças
Temática de super heróis na seção das crianças

A fórmula Deschutes para o sucesso da biblioteca é claro: conheça seus usuários; realize parcerias com a comunidade; identifique suas necessidades; ofereça soluções para seus problemas (mesmo antes de se tornarem problemas); e aja com entusiasmo. Além de, é claro, estar atento aos seus livros.

(Tradução livre feita por mim, pela Paula Macedo e Anita Santos).