Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Depois dos primeiros 2 dias de curso, tivemos mais 2 dias de conversas sobre os projetos de incentivo à leitura no SESC e nos aprofundamos um pouco mais sobre o BiblioSesc, projeto de bibliotecas itinerantes.

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Biblioteca da Unidade SESC Sorocaba

Em relação às unidades onde o SESC têm bibliotecas, existe sempre uma grande preocupação não só com o espaço, mas também com a ergonomia e até mesmo com a estética, a beleza do local. Para isso ocorrem parcerias e conversas com outras linguagens do Centro Cultural: obras de arte podem compor o espaço de leitura e também é possível que exista uma curadoria de arte específica com o espaço de cada biblioteca. Como um dos exemplos, foi citada a inauguração da biblioteca do SESC Sorocaba, que é temática em quadrinhos. O cuidado com o mobiliário e com a acessibilidade faz com que o interesse pelo ambiente extrapole a intenção de utilizar os livros e a biblioteca se torna assim uma plataforma pra uma série de atividades relacionadas não só com a leitura, mas também com outros mundos, como o de criação, curiosidade e imaginação.

Nas suas ações como um todo, percebemos que o SESC tem preocupações que deveriam fazer parte de toda a ‘cultura de bibliotecas’: uma implantação adequada, mobiliário atraente ao público, acessibilidade, atendimento a diferentes tipos de público, gestão e aquisição de acervo de acordo com políticas internas e principalmente alinhar esta composição de acervo em diálogo com o Centro Cultural como um todo, de forma integrada, sempre que possível. O diálogo também ocorre com a comunidade no entorno, como no caso da unidade SESC Bom Retiro, onde o público imigrante do bairro tem influência sobre algumas atividades. Para o ano que vem haverão três inaugurações de novas unidades do SESC e todas terão novas bibliotecas.

Foto Sesc Santo Amaro 1
Chuva de histórias, no SESC Santo Amaro

Em algumas unidades existem barreiras arquitetônicas para as bibliotecas como no SESC Santana e também no Consolação, onde a biblioteca fica atualmente no 3º andar do prédio. Neste caso é uma questão de adaptação e principalmente de criatividade para levar o leitor até a biblioteca, seja por meio de sinalizações ou exposições artistico-literárias no ambiente. Referente ao acervo, embora exista um acervo-base, no total eles não são padronizados. Algumas editoras são escolhidas e alguns livros são selecionados enquanto objetos de arte, mas também existe a preocupação com o universo do livro como um todo: com a palavra, a linguagem. Os bibliotecários envolvidos geralmente trabalham em conjunto com animadores culturais, na criação e desenvolvimento de projetos voltados à literatura. As ações das bibliotecas do SESC se baseiam fortemente na mediação e apostam principalmente em eventos formativos (aprendizagem informal).

Caminhão Bibliosesc
Caminhão do BiblioSesc

Iniciado em 2009, o projeto BiblioSesc é um projeto nacional do SESC. Procurando no YouTube, tem vários vídeos sobre os caminhões do BiblioSesc espalhados pelo Brasil. Especificamente em São Paulo, o projeto possui 6 caminhões e atende 30 bairros de periferia, tanto na grande São Paulo quanto no ABC Paulista. O projeto atende quinzenalmente bairros onde existe carência de bibliotecas e faz parte do Programa de Comprometimento e Gratuidade. Existem paradas técnicas periódicas (semestrais/anuais) para realização de inventário e outras reformas necessárias, como verificação das estantes. Em São Paulo, para o desenvolvimento do projeto, é preciso se pensar muito na parte logística (por conta do rodízio) e a quantidade de livros em circulação é entre 2000 e 2500 livros, entre literatura de ficção e clássicos.

Os bibliotecários que participam do projeto tem autonomia para compras periódicas de acordo com os critérios de desenvolvimento das coleções de acervo e segundo relatam, o extravio de materiais é mínimo. Nas periferias, justamente pela carência, a apropriação e o senso de pertencimento ao projeto é maior por parte das pessoas, então existe toda uma preocupação com o ‘cuidar para não perder’. No início do projeto a divulgação ocorre por meio de cartazes em bares, supermercados, metrô/trem e também em rádio. Sempre ocorrem parcerias com instituições locais de cada bairro como escolas públicas e municipais e outros espaços onde funciona o atendimento. A programação envolve algumas intervenções cênicas e literárias de mediação de literatura selecionadas, tendo como exemplo: leituras no tatame, Poesia ao pé do Ouvido, Realejo Poético e Mala do Autor. Para o futuro, está sendo pensado um projeto para exibição de filmes.

Durante a conversa alguns tópicos mais conceituais sobre bibliotecas e leituras foram abordados de forma mais generalizada. Comentei que é difícil encontrar na área bibliotecários com uma formação voltada para a ação cultural (isso é mais fácil de se encontrar e desenvolver na prática) e que o olhar que o SESC tem sobre bibliotecas é bastante único. Neste último encontro também foi anunciado o seminário “E aí, biblioteca pra quê?” que também participei no final de semana seguinte. Estes tipos de eventos, tanto o mini-curso, quanto o seminário, são importantes principalmente para quem desconhece essa possibilidade de atuação, bem como também para servir de inspiração para outros bibliotecários e profissionais da área de mediação.

Bibliotecas ruins fazem coleções, bibliotecas boas realizam serviços e bibliotecas excelentes criam comunidades

Post traduzido do blog do R. David Lankes. Título original: Beyond the Bullet Points: Bad Libraries Build Collections, Good Libraries Build Services, Great Libraries Build Communities

Cá está o tweet que levou a este post:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços (dos quais uma coleção é apenas um deles). Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Devido à limitação dos caracteres foi muito retwittado sem o conteúdo dos parênteses:

“Bibliotecas ruins fazem coleções. Bibliotecas boas realizam serviços. Bibliotecas excelentes criam comunidades”

Entendemos que esta última é mais impertinente, mas aparentemente também é mais controversa. Houve um número de respostas dizendo que bibliotecas excelentes também deveriam criar coleções. E eu achei que valia a pena adicionar um pouco mais de nuance e profundidade à discussão para além de 140 caracteres, então cá estamos.

Antes que eu me aprofunde, se você é do tipo auditivo e visual (N. da T.: e tenha inglês fluente), eu falei muito sobre os pontos que irei abordar nesta apresentação:

http://quartz.syr.edu/rdlankes/blog/?p=1406

Agora, de volta ao tweet.

Primeiramente, não há nada que diga que diga que bibliotecas boas ou excelentes não possam ou não devam construir coleções. É uma questão de foco. Se bibliotecários se preocuparem exclusivamente ou desproporcionalmente com a coleção, isso é ruim. E isso surge de várias formas. A primeira é óbvia: aquisições com pouca ou nenhuma participação dos membros da comunidade. Você está adicionando este item à biblioteca porque ele está nos bestsellers do New York Times ou foi isso que algum intermediário enviou? Ruim. Se você não está olhando para dados de circulação, não está conversando com a comunidade, não está pesquisando em bases de dados: ruim.

Sou lembrado disso nas atuais discussões sobre ebooks. Existe muita discussão se bibliotecas deveriam ou não estar comprando ebooks. Alguém perguntou o que eu achava disso e eu disse que taticamente os bibliotecários deveriam criar o seu próprio ebook que traria muito valor aos autores, e; dois, perguntar à sua comunidade. Se você está planejando boicotar ou simplesmente não adotar ebooks, você já teve essa conversa com o seu público? A comunidade acha que é um mau negócio o que as editoras estão propondo? Para eles está ‘tudo bem’ não existir esse tipo de serviço na biblioteca? Notem que isso não é perguntado ingenuamente, mas tendo uma conversa real onde você está apresentando um argumento e mostrando à comunidade o contexto como um todo e então ouvindo o que eles têm a dizer.

Se estamos falando de foco, qual é a diferença entre bibliotecas ruins e boas? Bibliotecas boas têm foco em seu público. Isto é, eles valorizam a utilidade da coleção de acordo com as necessidades de seus usuários. O que as pessoas querem em termos da coleção e como isso se equilibra com todas as outras coisas que as bibliotecas fazem (referência, programação, fontes digitais, instrução, etc). Aqui não apenas observamos dados do público como circulação e etc., mas a experiência das pessoas como um todo.

Uma vez houve uma discussão entre os professores aqui em Siracusa se devíamos ou não ensinar desenvolvimento de coleções. Era (e ainda é) parte de uma aula que tem o título “Planejamento de bibliotecas, Marketing e Avaliação”. O instrutor na época não gostava de lá. Como garimpagem e marketing andam juntos? Bem, verifica-se que as perguntas que você faz sobre coleções são utilizadas para qualquer outro serviço: quais os objetivos? Como é utilizado? É fácil acessar (e avaliar)? A coleção é um serviço como qualquer outro – precisa de orçamento, planejamento e um motivo para existir.

Boas bibliotecas entendem que no momento que você agrega valor à experiência do usuário você está colocando um serviço à prova. Colocar livros na estante? Um serviço. Catalogar? Um serviço. Garimpar informações? Um serviço (poupar o tempo do usuário e eliminar o rápido acesso à informação datada). Eu sei que todas essas coisas estão empacotadas como “coleção”, mas ao separá-las do todo podemos melhor avaliá-las e melhor cumpri-las.

rdlankesEu escolho o termo “usuário” com cuidado nesta parte da discussão porque eu acredito que é isso que separa o bom do excelente. Veja bem, uma boa biblioteca vê a coleção como um serviço e no entanto monitora e planeja o seu uso. Uma excelente biblioteca vê a coleção apenas como ferramenta para empurrar uma comunidade para frente, e mais que isso, eles veem a biblioteca como plataforma para que a comunidade tanto consuma quanto produza. Os membros da biblioteca são coproprietários da coleção e de todos os outros serviços oferecidos pelos bibliotecários. Os serviços de biblioteca são parte de um “ecossistema” mais amplo onde sim, os membros (usuários) estão consumindo informação, mas também estão produzindo, trabalhando, sonhando e brincando. Este é o foco de uma biblioteca excelente. Eles entendem que o material que uma biblioteca abriga e adquire não é sua verdadeira coleção – a comunidade o é.

Então, bibliotecas boas, ruins, excelentes, feias tem coleções? Sim. Mas as bibliotecas excelentes percebem que a coleção não é o que está nas estantes, mas o público e seus mundos. O foco é no desenvolvimento de conexão, não no desenvolvimento de coleção. Existirão coleções a serem desenvolvidas? Provavelmente, mas estas coleções podem ser de links, de escaneamentos digitais, livros, materiais de construção, equipamento de produção de vídeo, tempo de performance num palco e/ou especialistas.

Isto está claro nas discussões nos cursos de biblioteconomia. Enquanto distritos pelo país estão desligando bibliotecários escolares, eles geralmente citam que os horários de atendimento das bibliotecas não irão diminuir. “Nós podemos manter as portas das bibliotecas abertas com todos os serviços que elas dispõem ou com os atendentes do prédio”. Eles ignoram os dados que mostram que são bibliotecários certificados, e não horas de atendimento, ou a coleção, que aumentam as notas nos testes e a retenção de alunos. Bibliotecários, e não bibliotecas, fazem a diferença.

Mais uma vez, o bibliotecário escolar usa a coleção? Certamente, mas grandes bibliotecários escolares têm coleções de lições que ensinam, equipes de estudantes que auxiliam os professores com tecnologia e coleções de boa pedagogia. Quer poupar verba em uma escola? Feche a biblioteca e contrate mais bibliotecários.

Esse tweet não foi um pedido para se jogar fora coleções de materiais – há grande valor neles – mas para mudar o foco e perceber que o valor não vem dos artefatos, mas na habilidade de melhoria da comunidade. Este valor pode vir de bases de dados licenciadas na academia. Pode aparecer ao mandar contêineres cheios de livros de papel à uma comunidade rural africana. Pode vir de materiais sobre genealogia em uma biblioteca pública, ou coleções especiais no Ivy League. Mas para algumas comunidades pode vir do rico conjunto de fontes abertas e acessíveis via dispositivos móveis ou, cada vez mais, artefatos, ideias e serviços criados pela própria comunidade.

Grandes bibliotecas podem ter grandes prédios, ou prédios feiosos, ou nenhum prédio sequer. Grandes bibliotecas podem ter milhões de volumes ou nenhum. Mas excelentes bibliotecas sempre tem grandes bibliotecários que engajam a sua comunidade e ajudam a identificar e a preencher suas aspirações.

Parte 1 – Projetos de incentivo à leitura e o caso BiblioSesc

Sobre os encontros dos Projetos de incentivo à leitura, fui em dois esta semana e apesar de ter no nome “projetos”, pessoalmente eu senti que mais se falou de mediação da leitura e de boas práticas do que da gestão de projetos propriamente dita. O que eu acho maravilhoso pois isso é raro de achar na área. A parte técnica de gestão é sim muito importante e nos ajuda a estruturar melhor qualquer projeto, mas a parte criativa de encantar as pessoas e trazê-las para o mundo da leitura, da literatura e da linguagem é muito mais atraente. É quase que literalmente o estado da arte da biblioteconomia, sem exageros.

A classificação do evento já indica À moda da casa, ou seja, o modo SESC de criar ações que atraiam público para suas bibliotecas. Os encontros estão sendo orientados pela Ana Luísa Sirota e pelo Francis Manzoni. Foram repassadas muitas informações nestes dois dias, vou tentar repassar por aqui alguns tópicos que me chamaram mais atenção.

Mesmo sendo uma organização nacional, o SESC dentro do escopo de suas atividades tem diferentes ênfases de acordo com a localidade. Em São Paulo, a ênfase é na área Cultural e de Artes. A questão do uso de diferentes linguagens artísticas para promover a leitura e a literatura foi bastante reiterada nas conversas. Embora existam diretrizes para os trabalhos, é desejável que nas ações o hibridismo entre diferentes linguagens artísticas seja viabilizado. O trabalho é sempre executado pensando na rede, em articulações e parcerias, promovendo a expansão de diálogos. Acredito que isso se torna não só possível como desejado por conta do contexto em que a biblioteca se encontra: um grande Centro Cultural.

Projeto #Tuiteratura, SESC Santo Amaro

Em se tratando de ações específicas com a literatura, existem 3 frentes de trabalho a serem seguidas: 1. Fomento à produção literária do livro (autores, editores, ilustradores e outros atores); 2. Ações culturais de incentivo à leitura; 3. Experimentações com a palavra e o texto literário, pensados enquanto linguagem artística. Durante a conversa, Francis disse que há uma pergunta que sempre é realizada para nortear algumas das ações: “onde é que as pessoas estão lendo?”. Essa é uma pergunta importantíssima, que todo bibliotecário deveria se fazer sempre. E em seguida ouvi “nós não deixamos a biblioteca em paz” e a intenção é, realmente, não deixá-la em paz, mesmo que algumas pessoas reclamem ou achem isso incomum para uma biblioteca. Ouvi também o seguinte conceito: a biblioteca como plataforma, vários suportes, várias linguagens para que a literatura possa assumir um papel público.

Para esta ação, vários autores convidados escreveram microcontos em 140 caracteres, que foram disponibilizados via bluetooth em algumas das maiores estações de metrô de São Paulo.

Um exemplo citado foi a instalação de poemas escritos em Portunhol Selvagem (arquitetura + literatura) nas paredes dos SESC de Pinheiros e Vila Mariana para a Mostra SESC de Artes em 2010. Outro exemplo é o Projeto Bibliotocas acontecendo no SESC Santo Amaro, onde há um fluxo maior de público. Há toda uma preocupação com os livros que serão disponibilizados a partir de editoras especializadas em livros infantis, tais como a Corraini, a Tara Books e a Planeta Tangerina. O projeto é simples e trata-se de uma intervenção de uma toca na biblioteca, com um recorte curatorial específico e mediadores fulltime. Além da presença em eventos externos, existem os eventos do SESC que ocorrem anualmente, como o Circuito SESC de Artes (interior do Estado) e a programação que é permanente. Foram repassados inúmeras ações, segue uma lista breve das que foram mencionadas na conversa: Tirando de Letra (Ribeirão Preto); De quem é essa história? (Araraquara); Encontro Marcado (Catanduva); Espaço Ler Escola (São Carlos); Clube de Leitura (SESC Carmo); Ateliê HQ (Sorocaba).

Ateliê HQ, SESC Sorocaba

Durante os encontros também ouvi falar muito sobre parcerias do SESC com outras instituições e com outros eventos. A organização será responsável pela programação da Bienal Internacional do Livro em 2014 e também marcará presença na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e na Balada Literária. Participam também de outros eventos literários como a FLIP e a Feira do Livro de Frankfurt. Relacionados a todo esse mundo literário, também existe a editora Edições SESC SP e o Prêmio SESC de Literatura. Mesmo com esta forte participação em eventos, Manzoni frisa que os eventos, por si só, não formam leitores. Ressalta que a celebração da literatura é importante, mas não é suficiente. Isso indica que a mediação, e não só, mas a qualidade da mediação e a forma como ela é realizada condiz mais com os objetivos da instituição como um todo: aprendizagem informal, ampliação de repertório e estímulo a leitura.

Há algum tempo atrás eu escrevi sobre isso de que brasileiro não gosta de ler. Em agosto encontrei online um artigo muito interessante que também se pergunta sobre as livrarias cheias e as bibliotecas vazias, leitura como consumo versus transformação social. Sabemos que a mediação mercadológica existe e é muitas vezes ditada pela cultura de mídia e das livrarias (que utilizam linguagens restritivas e limitadas, visam ibope, quantidade, metas de venda, etc). Já a biblioteca, como certa vez já ouvi deve ser o lugar da exceção e não o da regra. Os best sellers e livros de auto ajuda continuarão a ser oferecidos, mas a biblioteca tem a obrigação de ir além disso e de mostrar ao seu público algo que não apenas os entretenha, mas uma experiência que de fato tenha um significado, transmita algo novo, que os retire do lugar comum.

Bem, por hora foram estas as conversas e reflexões que tive nos dois encontros. Os outros 2 encontros aconteceram nos dias 5 e 6 de novembro e foram registrados na Parte 2 – Projetos de incentivo à leitura e o Caso BiblioSesc.

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, é uma obrigação de todos os cidadãos

pelo The Guardian, em 15/10/2013

Neil Gaiman
“Temos a obrigação de imaginar…” Neil Gaiman dá uma palestra anual à Reading Agency sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Fotografia: Robyn Mayes.

É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse em sociedade. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma indústria em amplo crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E que certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazeirosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler e mostrarmos a elas que a leitura é uma atividade prazeirosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero talvez, ou um autor e declará-los como livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

Enid Blyton's Famous Five book Five Get Into a Fix
Não existem escritores ruins… O famoso livro de Enid Blyton. Foto: Greg Balfour Evans/Alamy

É tosco. É arrogante e é burrice. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias que precisam, e elas levam a si mesmas nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para elas. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que elas estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a maçã da árvore do conhecimento, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo, Bag End. Foto: HarperCollins

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros sobre fantasmas ou mágica ou foguetes, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Menino lendo em sua escola
Foto: Alamy

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e onde elas possam ser capazes de imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

Bibliotecas: descentralização é modernização?

Ainda me repreendo por ter tantos questionamentos, mas ao invés de reprimir tento cada vez mais fazer o inverso. Além da educação repressora que tive (como todos da minha geração) acho também que por ser uma neófita na área, não é de bom tom ficar questionando demais a tudo e a todos ou até mesmo simplesmente expôr minhas inquietudes aos colegas mais experientes. Mas pode ser proveitoso questionar às vezes, só pra variar um pouco.

Há dois meses trabalho como bibliotecária em uma empresa grande e tenho aprendido muitas coisas. As atividades de adaptação à rotina, ao cotidiano, a lidar com o que sempre quis lidar e isso tudo me afeta diretamente, afeta o que leio e principalmente em que acredito. Vários mitos desaparecem, algumas certezas se consolidam. E o que ocorre é totalmente paradoxal pois ao mesmo tempo que me sinto em lua de mel com o que escolhi fazer da vida, também passo por uma bela (e boa) fase de desilusão. Interessante notar que uma coisa não necessariamente exclui a outra. É um doce fel. Mas acho que é assim com tudo o que gostamos de verdade.

Esta semana li dois textos que me fizeram criar este post.

O primeiro foi “O mercado errado para as bibliotecas”, da Christine Madsen. Fiz um comentário no Facebook mas acho mais interessante expandir a conversa por aqui. O assunto é bastante espinhoso: modernização das bibliotecas. E na boa? Ninguém aguenta mais falar disso. Sinto calafrios toda vez que leio a palavra “modernização” porque sei que a discussão vai ser que nem naquela música estúpida que diz que “o futuro não é mais como era antigamente” e parar por aí mesmo. As pessoas se bastam a observar o que acontece, a avaliar o que estamos perdendo e tudo fica por isso mesmo, tem sempre um comportamento passivo demais e uma certa preguiça de olhar para o que o futuro pode ser. Se falam em pós-modernismo então é pior ainda… A impressão que fica é que para existir algum tipo de discussão minimamente relevante é condição sine qua non que esses conceitos estejam envolvidos. E desconfio seriamente disso.

A Madsen critica o modelo de informação centralizado que as bibliotecas universitárias vêm cultivando há mais ou menos 150 anos. Diz que este modelo é mais centrado em objetos (recuperação da informação e desenvolvimento de acervo) do que em pessoas e afirma que este mesmo modelo ainda luta para permanecer relevante. E isso tudo é bem triste, mas é verdade – em partes. O “modelo centralizado” de bibliotecas universitárias me parece (não sou uma especialista) que tem sido substituido por um modelo mais setorial, de bibliotecas menores. Ainda assim, este modelo descentralizado não satisfaz a carência de determinadas demandas (que muitas pessoas sequer sabem que existe, mas aí é outro assunto).

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

A autora menciona as bibliotecas academicas antigas, superespecializadas e personalizadas (customizadas) que são caóticas por natureza. No entanto, achar qualquer coisa nessas bibliotecas é impossível pois a sua função é distinta: nesses pequenos mundos de livros, a obtenção de conhecimento é sempre prioritária à obtenção de informação. A organização de bibliotecas de pesquisadores, como por exemplo, a Bibliothek Warburg, só faz sentido para o próprio pesquisador por conta de sua função: criação e não recuperação. E ter e criar isso em larga escala me parece insano é um desafio e tanto, uma vez que (quer queiram, quer não) ainda estamos nessa época de transição e modelos híbridos (do papel ao digital, etc).

Bibliotecários, em princípio, trabalham com informação. Mas eventualmente podem se interessar pela área de Gestão do Conhecimento pois esta é uma escolha pessoal. Trabalho com informação (o que é concreto, objetivo, quantificável) porque é com isso que lido no dia a dia, mas o conhecimento (abstrato, subjetivo, pessoal) ainda me parece estar sempre a um passo além do que faço, embora também faça parte do que vivencio. São estudos complementares mas não se pode dar conta de tudo o tempo todo, por isso quando possível formam-se equipes com gestores do conhecimento. A autora usa o termo “Teoria de Bibliotecas” e eu realmente queria ler mais sobre isso, mas ela não se detém muito neste assunto. Coloco em destaque partes finais do texto com as quais concordei integralmente:

“Tão importante quanto a informação em si é fornecer e sustentar um ambiente que permite a transformação dessa informação em conhecimento novo. O que foi esquecido, por exemplo, é que as bibliotecas foram, e devem ser de novo, inerentemente lugares sociais. Que estes são espaços não apenas para obter acesso aos recursos, mas pessoas – bibliotecários, arquivistas, outros estudiosos – com quem o discurso pode ser inserido sobre os recursos das mesmas. (…) Não há biblioteca, por exemplo, sem uma cultura de pesquisa. (…) O resultado dos recursos aplicados na biblioteca, por conseguinte, não é medido no tamanho da coleção, ou mesmo do número ou satisfação dos utilizadores, mas nas suas experiências.”

O único equívoco da Madsen – equívoco muito comum nos dias de hoje, aliás – foi de achar que o Google é “a Internet”. A idéia de biblioteca universal é datada desde Otlet, as bibliotecas universitárias só foram parte de um processo histórico desta criação, assim como o próprio Google é parte de outra faceta deste mesmo processo. E lembrem-se: o Google não é a Internet, é só (uma grande) parte dela. Ele é muito bom sim, oferece ferramentas, oferece espaço (virtual) mas – ao menos pra mim – existe essa carência de contexto que me inquieta às vezes. Acho mais prudente talvez, usar o Google com parcimônia e ter em mente também outros modos de pesquisa, fontes de informação e experiências reais, amadoras ou profissionais, mas de vida mesmo. E é exatamente aí, neste espaço, nesta lacuna imensa, que o bibliotecário (ou insira seu neologismo cafona preferido aqui) deveria estar atuando.

Ilustração de Matias Adolfsson
Ilustração de Matias Adolfsson

E tratando deste assunto, hoje me deparo com outro texto: “Obra na biblioteca de New York é alvo de intelectuais” que pisa de novo no assunto “modernização”. Resumindo a notícia: estão querendo destituir parte da biblioteca pública de New York de seus livros pra substituir este espaço com computadores. Agressivo, não? Pois é. A primeira impressão que tenho é a de que é agressivo. A segunda, de que é a de que está sobrando dinheiro, mas faltando melhor organização estratégica a quem quer que tenha tido essa idéia que parece brilhante, mas na verdade não é.

Sou contra essa reforma na biblioteca pública de New York porque a acho ridícula. Mas não a acho ridícula por amor às traças e ao acervo, nem nada disso. Sou contra simplesmente porque tenho uma idéia que considero melhor e talvez até mais barata.

O texto da Madsen não está falando justamente sobre descentralização?

Então alguém por favor me explique qual o propósito de destruir parte do acervo físico da biblioteca pública de New York quando poderiam utilizar esse orçamento gigantesco de 600 milhões pra fazer quiosques espalhados em pontos estratégicos da cidade, com terminais que sejam diretamente ligados à biblioteca pública, aos seus serviços e catálogos?

Qual é a razão de centralizar todos esses computadores na biblioteca pública?

Por que não colocar terminais nas estações de metrô, de ônibus, nos aeroportos, enfim, onde as pessoas (que não tem dinheiro pra ter iPhones) realmente precisem? Não sei se meus questionamentos são muito pertinentes ou não, só acredito que uma reforma desta amplitude não deveria ser considerada sem levar em conta outras possibilidades.

E last but not least também é possível questionarmos: a quem estão querendo beneficiar, de verdade, ao suprimir todo um acervo bibliográfico histórico por uma cheia sala de computadores novos?

É. É de se pensar…

You say goodbye and I say hello!

Este texto é a minha resposta pessoal para a nota que li do Luís Antônio Girón, Dê adeus às bibliotecas, publicado em 15/05/2012 na revista Época Online.

O título é um pedido difícil de ser cumprido, até mesmo para o autor: “Dê adeus às bibliotecas”. É imperativo: dê adeus, despeça-se e logo! (Importante notar que, ao final do texto, ele diz que tem a intenção de dizer adeus, mas que, efetivamente, não consegue. E não diz. Sim, é difícil)

Recebi o link na terça mesmo, mas não achei o que o buzz em torno do texto seria tanto. Nessas circunstâncias, o diálogo com bibliotecários é quase sempre tão inviável devido à toda a balbúrdia, que muitos que têm uma opinião levemente distinta da maioria acabam desistindo dele. Mas eu ainda não desisti, mesmo lendo mais uma matéria que coloca do dedo na ferida da biblioteconomia brasileira. Enfim…

Esse texto terá duas partes. Na primeira, responderei o que mais me inquietou no texto do Luís. Na segunda, tentarei argumentar com as reclamações que li dos bibliotecários, referentes ao texto.

Leiam o que eu tenho a dizer por sua própria conta e risco.

É fácil recair no estereótipo, na ‘descortesia típica’, nutrida por anos a fio, advinda de um ensino formal tipicamente tecnicista (e ninguém pode negar isso), voltado mais para a organização e preservação de acervos do que para as pessoas. É isso o que somos, ainda, em nosso “núcleo duro”, de fato. Mas isso está mudando, a passos de formiga, mas está (sejamos otimistas, né?). Bibliotecários estão se vendo obrigados a ser cada vez menos técnicos e mais sociais e sociáveis. Quanto a qualquer adjetivo referente aos bibliotecários do passado, eu me abstenho: vivo o hoje e sou outro tipo de profissional. Ao menos isso não mexe mais com meus brios.

Confesso que fiquei bastante chocada quando a suposta bibliotecária te disse “Por que não consultou o catálogo pela internet?”. Você definitivamente teve um dia de azar ao se deparar com alguém tão pouco profissional em um ambiente que ainda lhe é tão caro.

Quanto aos volumes raros Luís, eles não são ocultados, mas preservados. E de fato é simplesmente uma norma: não realizarmos o empréstimo deste tipo de material tão especial. Sim, somos chatos e respeitamos as normas, na maioria das vezes, sempre que possível – isso ainda faz parte da nossa profissão. Quanto a políticas específicas de digitalização para este acervo mais que especial, qualquer movimento nesse sentido exige um budget um tanto quanto alto eu diria, ou seja, isso não é viabilizado com tanta facilidade (embora seja muito interessante). Sim, as coisas são um pouquinho mais lentas e mais difíceis de se conseguir do que imaginamos – ainda mais quando se trata de bibliotecas públicas brasileiras.

Luís: estantes secretas ou vetadas para visitações, embora te espante muito, ainda são bastante comuns sim. Inclusive a Biblioteca Nacional (BN), pelo que me parece, já é vetada à consulta “em carne e osso” (LOL!) sem acompanhamento de alguém do staff. Também acho que a BN deveria não só ser digital mas mais atrativa fisicamente, mas isso é apenas um sonho meio distante…

E você não é tão velho, nem tão antiquado, nem tão saudoso e nostálgico quanto imagina. Pelo contrário: é completamente normal que alguém com tanto acesso irrestrito à tudo através da internet e do uso constante de gadgets e etc. – ache esse tipo de preservação no mínimo estranha, pra não dizer completamente datada e desnecessária. É bastante compreensível mesmo. Só acho que há um certo exagero no seu tom quando você diz que “graças às bibliotecárias, você jamais chegará” às obras especiais, raras, mas suspeito que você faça isso só pra me provocar.. Tudo bem.

Eu entendo que é um tanto quanto difícil ouvir um sonoro não de um reles e mortal humano, quando tudo o que a tecnologia só sabe te dizer é sim o tempo todo hoje em dia, não é mesmo? Faço a compreensiva: Luís, eu te entendo. De verdade. Mas por favor, também compreenda: visitas frustradas acontecem, mesmo. Não encontrar o que se deseja, acontece também. Apenas lide com isso (no bom sentido).

No geral, achei seu texto triste Luís, porque a realidade é mesmo triste assim, como você descreveu. Toda nostalgia é um pouco perda e toda perda dói mesmo. Dóem mais ainda as perdas de coisas que jamais possuímos direito. Mas achei mais melancólico ainda quando li “As bibliotecas não servem mais para nada nem a ninguém. Nem mesmo a mim, que sempre as amei”. Essas frases me soaram quase que como um divórcio de alguém que se ama muito. E como todo divórcio, há também os mesmos sentimentos: a vontade, a intenção e a decisão de se dizer adeus definitivo e sem volta (não te quero mais, te dou um adeus) e a incapacidade e impossibilidade do adeus perene e sustentável (mas ainda preciso muito de ti). Achei super sensível. E fofo também.

Há um certo padrão na forma como enxergam o Luís: jornalista, editor, formador de opinião de veículo de comunicação de massa, mestre, dotô… Perceberam que quanto mais “pomposo” o cargo dele ou quanto mais títulos ele tiver, pior e/ou mais humildes nos sentimos? Pois é.

É claro que ele é tudo isso e tem seus interesses: escrever um texto obviamente provocativo pra gerar um puta buzz, pra gerar visitações e, só de quebra, gerar uma moção de retratação de bibliotecários muito do indignados, o que pode não deixar de ser um motivo de orgulho para um jornalista, assim como um guerreiro tem orgulho das suas cicatrizes e aquela história toda de “falem mal, mas falem de mim”, etc.

Os bibliotecários, por outro lado, parecem na verdade gostar de se sentir mal o tempo todo. Ficam loucos quando falam mal deles, mas, em contra-partida ignoram os trabalhos e avanços dos próprios colegas de profissão e qualquer comentário positivo acerca de coisas boas que tem sido feitas. E justamente por conta dessa baixa auto-estima, no geral preferem enxergar o que chamam de detratores da biblioteconomia (o que eu acho um exagero) por cima da carne seca. Por que será?

No caso desse texto, prefiro enxergar a pessoa que o escreveu nem mesmo como um usuário, mas como uma pessoa mesmo. Alguém que quer me dizer algo e conversar comigo. Nada além disso.

Bibliotecários são os ególatras com mais baixa auto-estima que eu conheço, o que é bizarramente contraditório, mas analisando o grupo no geral, é bem isso mesmo. No entanto, reluto em compartilhar desse recalque todo: faço parte da categoria mas não faço parte disso porque não acredito que este seja o caminho. Será possível conseguirmos, algum dia, termos algum tipo de diálogo minimamente civilizado e razoável? É sempre esse vociferar antes de pensar, o que me irrita profundamente.

Tentei ler os comentários do texto do Luís mas como eles eram muitos e se tornaram repetitivos, desisti. Peguei apenas as afirmações mais inquietantes e tentei elucidar um pouco mais por aqui. Só não continuei a ler os comentários pois, no final, todos só se limitavam a xingar o autor ou repetir mais do mesmo – não existiam opiniões muito divergentes.

Parece que não há espaço pra pluralidade de opiniões pois isso pode ferir de algum tipo de homogenia da classe, o que discordo. Sou bibliotecária, não me ofendi com o texto do Luís e não acho que ele está denegrindo nada nem a ninguém.

Vou tentar pontuar rapidamente alguns comentários que li e comentar na medida em que achar pertinente:

O autor acha que as bibliotecas vão acabar. O autor acha que devem acabar com as bibliotecas.

(Não farei questão nenhuma de ser delicada nesta resposta ok?) Não. Ele não acha nada disso. Volte para a pré-escola e tenha mais aulas de leitura e interpretação de texto novamente.

Ele não conhece nada sobre a nossa profissão, então nem deveria estar falando sobre isso.

Essa (anti)lógica é tão errada que é quase como dizer: “ele foi mal atendido, mas a culpa é dele se ele acha isso”. Juro que não entendo. A questão não é esta: o jornalista conhecer ou desconhecer o que a nossa profissão faz ou deixa de fazer. Ele não está escrevendo uma reportagem sobre biblioteconomia, ele está relatando o que SENTIU ao visitar uma biblioteca pública. O que importa é que ele foi mal atendido e tem o direito de expressar sua opinião quanto a isto.

Talvez não tenha sido uma bibliotecária que o atendeu, mas sim uma auxiliar.

E daí? E quem será que contrata estagiários? Não é a bibliotecária-chefe? Que se responsabilize mais por quem contrata então. Se eu visitar uma biblioteca e quiser ser atendida, pouco me interessa se for bibliotecária ou auxiliar. Eu quero é ser bem atendida, independente de quem for. Isso nem é passível de discussão. Desculpem.

O autor ofendeu, desrespeitou e denegriu a classe bibliotecária.

Isso não ocorreu durante o texto. O tom pode ter sido irônico, mas isso não é ofensa e o autor fez isso proposital e estilísticamente talvez (valeu Guilherme Lourenço) com o propósito de gerar discussão. O autor não desrespeitou ninguém e nem denegriu classe nenhuma: apenas passou por um mau atendimento em uma biblioteca pública. Sejam mais maduros e aceitem este fato. Quer continuar mantendo seu prestígio como bibliotecário/a? Faça por merecê-lo. E principalmente não contrate estagiários que odeiem a profissão. Fica a dica.

O autor generalizou demais. Ele não pode tomar um caso isolado como perfil de toda uma profissão.

Em momento algum o autor falou sobre A CLASSE bibliotecária em si, mas sim da senhora que o atendeu. Quando ele fala “típico desta categoria”, o autor na verdade, sem saber, refere-se ao estereótipo e não à classe. E estereótipos mudam, categorias permanecem: por isso não me ofendi com o que ele disse, mesmo sendo também bibliotecária (valeu Marchelly). Ou seja, não houve generalização em momento algum. Foi a PRÓPRIA classe bibliotecária que, deliberadamente, resolveu, por conta própria, tomar as dores de uma MÁ profissional para si. E então eu lhes pergunto: por que?

– Generalização é errado.

Qualquer generalização é perfeitamente válida quando diz respeito a grupos. Aliás, é a única maneira de se levar em conta a avaliação de um grupo. O que não é válido é aplicar a generalização a um indivíduo. Porque cada indivíduo é avaliado como uma exceção ao grupo. Se estamos tratando de um grupo, temos que levar em conta o comportamento da maioria, da regra, do geral. Exceções são devem ser tratadas como um caso à parte. Generalização não é errado. Vocês é que são politicamente corretos demais pro meu gosto. (Obrigada Milena Mattos por me esclarecer de novo este ponto).

O autor transgrediu o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros nos artigos 2º, 7º e 14º.

Acho que vocês não tem muita noção do quão grave é acusar alguém de falta de ética por motivo fútil. Mas em se tratando de primeiro-anistas do curso de biblioteconomia, podemos até relevar – mas não muito, tendo em vista que são influenciados diretamente pelos professores doutores que tanto admiram. E desta vez não foi diferente: bem como todas as outras, isso foi bastante precipitado. Achei de um exagero vergonhoso e desproporcional. O autor não agiu com falta de ética, ele apenas expôs sua opinião. É sério mesmo que vocês vão censurar um usuário, bibliotecários? Vão fazê-lo se retratar por ter sido mal atendido? Me desculpem, não enxergo a lógica aqui.

Ninguém gosta de ser mal atendido em nenhum lugar e matérias opinativas sobre bibliotecas com um atendimento pobre sempre serão notícia, acostumem-se. Algum bibliotecário, em algum momento, SEQUER pensou em perguntar ao jornalista que biblioteca é esta que ele foi? Alguém pensou em ir lá e repreender a pessoa que o atendeu mal, em algum momento? A questão é: o que NÓS faremos em relação a notícias assim? Pensaremos sobre as questões que uma materia dessas possa vir sucitar ou simplesmente censuraremos o usuário e ficaremos histéricos a respeito disso? 1969 mandou um beijo à todos.

 – Exigimos retratação.

Retratação de quem? Quem deveria se retratar é a pessoa que o atendeu mal.

É um absurdo ele comparar uma biblioteca a uma lan-house.

Bom, provavelmente na época em que o autor fez mestrado e doutorado, a Internet não deveria ser tão popularizada quanto hoje em dia. Isso justifica em parte o saudosismo dele e o fato dele perceber o esvaziamento das bibliotecas (sem computadores) e a proliferação de Lan Houses, que não são exatamente lugares de pesquisa e estudo, mas na falta de uma biblioteca decente, certamente são melhores. Não acho que ele tenha comparado nada, só acho que nos mostrou uma possibilidade que deveria ser melhor explorada.

Enquanto a biblioteca se comportar apenas como uma biblioteca, ela não potencializará nem seu acervo e muito menos seus serviços tão em breve. E também perderá oportunidades de criar uma comunidade mais consistente, que a faça crescer. Se queremos ser profissionais melhores, temos que ter em mente que precisamos oferecer também o melhor para as pessoas e acho bastante tacanha essa mentalidade tecnófoba na biblioteconomia tendo em vista que inclusão digital é um dos assuntos que também constam na nossa agenda.

Enfim… Enquanto existem bibliotecários que preferem gastar seu tempo e energia se preocupando (talvez exagerada e desnecessariamente) com a imagem de outra pessoa com a qual nem mesmo se identificam, o prof. Francisco das Chagas de Souza (UFSC) tem promovido uma campanha política no Facebook de um abaixo-assinado em favor da abertura de um sistema de bibliotecas públicas em Florianópolis. Confesso que é mesmo bastante difícil ver bibliotecários, que se acham tão auto-importantes, tão vitais e tão necessários à comunidade se movimentando minimamente que seja em favor iniciativas como esta.

10 mudanças que esperamos da biblioteca do futuro

do site OnlineUniversities.com

Bibliotecas agiram como pedras fundamentais de comunidades por um milênio, e cada abril marca o mês da Biblioteca Escolar, celebrando o quanto eles promovem a educação e a consciência em um espaço aberto e estimulante. O que os faz instituições tão duradouras, no entanto, não é o mero ato de preservar livros e promover o conhecimento. Ao invés disso, é a quase inquietante habilidade de adaptar-se consistentemente às mudanças nas demandas da população local da mesma forma que às tecnologias emergentes. O sistema de biblioteca provavelmente não desaparecerá tão rapidamente, mas ao invés disso, vê a si mesmo desabrochando em algo novo e excitante em congruência com a miríade de demandas informacionais de hoje em dia.

1 Mais tecnologia

Provavelmente a direção mais óbvia que as bibliotecas vão adotar envolve mais o tipo de integração sem emenda de tecnologias em passo mais acelerado e sofisticado do que nunca hoje em dia. Com tantos novos dispositivos emocionantes e conceitos tais como os leitores de ebook, tablets, open source e mais, eles tem vários recursos nas mãos para ir ao encontro das demandas da comunidade. Os livros, infelizmente, não detém o mesmo apelo coletivo que os novos e brilhantes dispositivos, mas bibliotecários empreendedores sabem que eles ainda podem trazer literatura para as massas utilizando-se de seu desejo por tecnologia.

2 Tempos de história sensoriais

Uma vez que a consciência das necessidades do espectro de autismo e crianças portadoras de deficiência mental encolhe, mais e mais bibliotecas estão agendando horas do conto sensoriais assegurando que estes leitores possam usufruir de literatura de uma maneira mais confortável para eles. Várias bibliotecas que tem desenvolvido tal programação recomendam agendas visuais para que as crianças saibam o que acontecerá a seguir, tapetes empilhados e almofadas para se sentar e atividades manuais. Até as outras crianças podem participar destes eventos, então todos os membros da comunidade beneficiam-se da criação de um espaço mais inclusivo.

3 Melhor divulgação de cursos idiomáticos para adultos e crianças

O sistema de biblioteca pública de New York, em um esforço para ter certeza que a maior quantidade de pessoas possível tire vantagem de seus serviços, despendeu-se de tempo, dinheiro e energia para melhorar seu programa de ESOL (English for speakers of other languages, Inglês para Estrangeiros) e ESL (English as a Second Language, Inglês como Segundo Idioma). O aumento da globalização significa mais cidades multilinguísticas e uma vez que as bibliotecas são tidas como os pilares da comunidade, eles fazem excelentes introduções ao que os novos vizinhos podem vir a esperar. E um maior engajamento significa maior comunicação e relações mais estreitas.

4 Automação

Se o sistema automatizado na Biblioteca Joe and Rika Mansueto na Universidade de Chicago funcionar, os leitores poderão dizer “Saionara!” às estantes. Não só são quase todas as suas publicações estão disponíveis para recuperação online, como os visitantes também podem acessá-las pessoalmente sem ter de navegar no sistema de catalogação acadêmico geralmente instável. Ao invés disso, eles dão a entrada em sua leitura desejada e um complicado sistema de maquinagem busca o item a 15 metros abaixo da terra e o entrega. A navegação não é necessária. No entanto, uma vez que é muito dispendioso, provavelmente demorará muito tempo antes da completa automação de busca em bibliotecas no mundo todo.

5 Enfatizando o espaço comunitário

Dar mais espaço às tecnologias obviamente libera a biblioteca de bastante espaço e líderes na Biblioteca Anoka County em Minneapolis sabem como usufruir disso. Mais espaço significa que eles podem começar a oferecer uma maior variedade de programação, servindo como um centro comunitário focado em aprendizagem ao invés de apenas literatura. Alguns de seus planos incluem aulas de genealogia tendo como público alvo os mais velhos que querem saber mais sobre suas histórias de família e blocos de letras gigantes para as crianças. As bibliotecas provavelmente não irão desaparecer com a digitalização, mas sua forma provavelmente irá mudar através do tempo.

6 Mais experiência em mídias sociais

Com os últimos modelos de dispositivos literários insinuando-se na biblioteca, as mídias sociais já começaram a se infiltrar como parte integrante da experiência. Elas oferecem maior divulgação à comunidade, promovendo e respondendo questões sobre eventos, e provém um fórm no qual é possível compartilhar notícias legais sobre livros. As mídias sociais também fazem com que fique mais fácil do que nunca para bibliotecas receberem feedback sobre que tipo de programação a comunidade mais deseja, sugestões sobre como melhorar serviços e conversas sobre que livros precisam estar nas estantes. Criar discussões online certamente também tem seu mérito!

7 Laboratórios de mídias digitais

Em um esforço de atrair mais adolescentes, a Biblioteca Pública de Chicago tornou híbrido o sistema tradicional com um laboratório de mídias digitais apelidado de YOUmedia. Lá eles podem tirar vantagem da gravação de vídeo e equipamento de edição, computadores, estúdio de gravação (completo com teclados e turntables!) e aulas de design gráfico, podcasting e fotografia. YOUmedia também hospeda uma revista literária na Internet. Com tantas ofertas incríveis, crianças do ensino médio podem aprender ainda mais sobre os potenciais caminhos de carreira que mais os interessa; notando como as bibliotecas tem muito a ver com educação, estas ofertas não se afastam de seus valores fundamentais.

8 Postos Eletrônicos

Similar ao sistema de satélite já em vigor para as bibliotecas municipais em cidades maiores, o futurista Thomas Frey pensa que – ao longo do tempo, é claro – eles podem começar a mesma coisa com uma inclinação mais digital. Ao invés de agir como uma extensão das explorações físicas uma biblioteca central, eles funcionariam quase como um “cyber café” onde os clientes vão para acessar arquivos digitais. Muitas das explorações se dariam em torno da preservação das história das comunidades do entorno, acrescentando uma dimensão mais personalizada à experiência.

9 Crowdsourcing

A Biblioteca Pública Madison de New Jersey é uma das muitas que entendem que sua sobrevivência depende do quão bem eles interagem com os bairros que os apoiam. Então eles se voltaram para o crowdsourcing de seu futuro, recebendo grupos de foco e se abrindo para sugestões de profissionais, usuários e usuários profissionais. Muito do que as pessoas tinham a dizer, claro, envolvia tecnologia, como o treinar bibliotecários de referência em recursos como o YouTube, Wikipedia, Google e muito mais. Eles também queriam ver mais programações visando envolver a crescente comunidade latino-americana. Todas essas respostas ajudam a biblioteca pública a oferecer melhor exatamente o que seus visitantes precisam para uma experiência educacional bem-arredondada.

10 Bibliotecários mais ativos

Mais uma vez o precedente já foi colocado aqui, com a maioria das bibliotecas em volta do mundo pedindo ao seu pessoal para ter uma dupla função como planejadores de eventos e líderes de aulas. Seth Godin pensa que os bibliotecários do futuro serão quase universalmente incumbidos com a monitoria de estudantes em suas tarefas, ensinando aos usuários o básico da computação, e outras responsabilidades colocando-os na linha de frente. Mas esta transição é positiva, uma vez que alimenta um maior senso de comunidade e desestigma a profissão bibliotecária, pintando-os como vizinhos mentores ao invés da patrulha silenciadora do livro.

O que podemos aprender com bibliotecas “faça você mesmo”?

por Lane Wilkinson

Por agora tenho certeza que você já leu sobre a onda de pequenas bibliotecas gratuitas pipocando em todos os lugares; se você tiver sorte, pode até mesmo ter visto e utilizado uma. A idéia é simples: voluntários constróem e instalam pequenos depositórios de livros em espaços públicos, convidando transeuntes a levarem um livro, deixarem um livro ou os dois. O Projeto Pequena Biblioteca Gratuita de Madison, Wisconsin é um dos projetos com mais sucesso, embora muita atenção também seja dada ao departamento de hacking urbano do Projeto de Melhoramento Urbano na cidade de Nova Iorque. Onde quer que encontrem uma morada, essas bibliotecas “faça você mesmo” são corretamente intituladas como testamentos à leitura, compartilhamento e comunidade.

Eu acho que bibliotecas institucionais podem aprender muito a partir destes pequenos empreendimentos. Bibliotecas “faça você mesmo” reenforçam que bibliotecas são instituições sociais, preenchem necessidades que teóricos de bibliotecas geralmente ignoram e provém um comentário indireto sobre o relacionamento de bibliotecas e mídia. Segue uma pequena lista de lições que acho que bibliotecários podem aprender a partir do movimento de bibliotecas “faça você mesmo”.

1. Bibliotecários não definem o que é uma biblioteca.

Quase todo mundo associado ao movimento de bibliotecas Faça Você Mesmo está confortavelmente utilizando o termo “biblioteca”. No entanto eu duvido que a maioria dos bibliotecários institucionais ficariam tão confortáveis, pelo menos assumindo que a literatura de bibliotecas / blogosfera reflete os interesses das bibliotecas “oficiais”. Bibliotecas Faça Você Mesmo não tem políticas de circulação, nenhuma política de desenvolvimento de coleções, nenhuma assistência de referência, nenhuma organização da informação substantiva, nenhuma missão de arquivo, nenhuma programação de literacia da informação… você entende o ponto. Micro bibliotecas retém quase nada dos serviços instrucionais de bibliotecas e atividades que geralmente consideramos fundamentais em nosso campo. De fato, estudos recentes mostraram que a maioria das pessoas não faz idéia do que as bibliotecas estão falando. Isso tudo mostra que, atualmente, uma biblioteca é uma instituição social e o significado do conceito “biblioteca” está fixado eternamente. Bibliotecários não decidem o que é ou não é uma biblioteca – uma comunidade decide.

2. Bibliotecas não são relacionadas apenas com conhecimento e informação.

“As bibliotecas existem para nos dar acesso à informação”. Assim diz Thomas Frey em um post muito compartilhado há algumas semanas atrás. (Edição: eu deveria ter lido sobre Frey antes de citá-lo, esse cara é maluco e de modo algum é um porta-voz para as bibliotecas. Mea culpa.) “A missão das bibliotecas é melhorar a sociedade através do facilitamente da criação do conhecimento em suas comunidades. Assim diz David Lankes em seu premiado Atlas da Nova Biblioteconomia. Dê uma olhada e logo você vai perceber que o mundo da biblioteca institucional coloca um prêmio em coisas como literacia da informação, gestão do conhecimento, tecnologia da informação, organização do conhecimento, e por aí vai. Poxa, a maioria dos posts neste blog são sobre bibliotecas e epistemologia. Mas leia um pouco de estante, vá a uma biblioteca gratuita e você não vai encontrar uma insistência muito grande em aprendizado ou conhecimento. Ao invés disso, como o Utner Reader descreve você provavelmente achará “qualquer coisa desde romances russos e guias de jardinagem até livros de culinária francesa e Dr. Seuss”.

Acho que você poderia argumentar que nós lemos Dostoiévski para ganhar conhecimento sobre a condição humana (ou Dr. Seuss para ganhar conhecimento sobre o mérito de HOPPING ON POP), mas parece absurdo reformular todo trabalho de ficção em termos de criação do conhecimento. O fato da questão é que a missão de bibliotecas é mais do que “a criação de conhecimento” ou “acesso à informação” é também sobre a experiência literária compartilhada. Sim, verdade, fato, e informação são enormemente importantes para as bibliotecas, e a sociedade tem em ampla medida confiado às bibliotecas institucionais a defesa de certos princípios democráticos relacionados ao conhecimento. O que estou dizendo é que bibliotecas Faça Você Mesmo demonstram que a sociedade também confiou às bibliotecas os trabalhos culturais. Em particular, as micro bibliotecas compartilham em sua maioria ficção, isto é, a mesma ficção que direciona as estatísticas da circulação das bibliotecas públicas e as batalhas sobre os ebooks. Claramente, comunidades não são formadas em torno de bibliotecas Faça Você Mesmo por conta da justiça social, empoderamento, busca de conhecimento ou acesso à informação; elas são formadas em torno do desejo de compartilhar (e participar de) histórias. Ainda assim, grandes teóricos de bibliotecas como Lankes e Frey têm (literalmente) nada a dizer sobre os valores estético e cultural da literatura ou ficção nas bibliotecas. Então eu acho que as bibliotecas Faça Você Mesmo é um lembrete legal de que a criação do conhecimento é apenas parte do que fazemos em bibliotecas – seria bom se nossas declarações de missão refletissem isso.

3. Livros impressos ainda são relevantes.

Aqui está um experimento difícil: pegue um bando de bibliotecários, coloque-os online, e faça-os conversar sobre livros. Agora, quantos tweets levarão até que a discussão comece a ser sobre as diferenças de impressão e e-boos? Se você respondeu “três”, bem, parabéns! Bibliotecários de bibliotecas públicas online e em conferências adoram falar sobre ebooks. Ainda assim, bibliotecas Faça Você Mesmo têm sucesso precisamente porque elas abandonam a opção eletrônica e lidam de forma mais direta com livros impressos. Suponho que alguém esteja trabalhando em um quiosque com ebooks grátis disponíveis em wi-fi, mas isso acaba com a ideia de construção de comunidade. Sim, coisas digitais são legais. Mas livros impressos são totens da cultura escrita e desempenham um papel inestimável do modo em que nos une enquanto grupo, sobre a palavra escrita. Talvez seja apenas um tipo de fetiche impresso que leva as pessoas a lamentar as soluções digitais como ebooks ou a Internet, mas o fetichismo ainda é evidência de uma profunda convicção.

4. Bibliotecas sempre acharão um caminho.

Com toda a desgraça e melancolia sobre o futuro de bibliotecas institucionais é legal ver evidência de que, venha o que vier, bibliotecas de algum modo sempre acharão um caminho. O Google não pode matar a biblioteca completamente e não importa o quão infiltrada as mídias sociais se tornem nós ainda vamos querer nos encontrar pessoalmente em um lugar físico dedicado à interesse compartilhado. Pense nisso como assistir música ao vivo ou visitar uma galeria de artes (ou, para vários bibliotecários, ir em conferências). Bibliotecas Faça Você Mesmo exploram o desejo de reunir livremente em torno de uma paixão compartilhada pela leitura e/ou aprendizado. É claro, nem todo visitante de bibliotecas é necessariamente apaixonado por bibliotecas. Bibliotecas institucionais grandes servem à várias funções sociais e culturais, e provém serviços muito necessários em suas comunidades. Um usuário pode querer apenas acesso à Internet ou um 1040EZ e nem ligar pra leitura e aprendizagem. Mas, do mesmo modo que o coração de um museu não é a lojinha de souvenires, o coração de uma biblioteca não é prover acesso à Internet ou formulários de taxas. O coração de uma biblioteca está na transcrição social e no desejo das pessoas de se reunirem em torno disto. Este desejo não irá desaparecer logo em nenhum momento e enquanto quisermos nos reunir pessoalmente, nós teremos bibliotecas. Elas podem ser prédios inteiros, quartos individuais ou até mesmo casas de passarinhos reformadas. Elas poderão ou não ter uma equipe de funcionários treinada. Não sei o que acontecerá com bibliotecários no futuro, mas eu sei que as bibliotecas Faça Você Mesmo provam que as bibliotecas de alguma forma estão aqui pra ficar.

Então é isso aí: algumas coisas que eu acho que as bibliotecas institucionais podem aprender a partir do movimento de bibliotecas Faça Você Mesmo. Só pra reiterar, não estou dizendo que bibliotecas Faça Você Mesmo sejam um substituto para bibliotecas institucionais. Não estou dizendo que bibliotecários sejam desnecessários. Bibliotecas institucionais servem a um propósito essencial que não deveria ser diminuido e bibliotecários profissionais são totalmente vitais. Tudo que estou querendo dizer é que o movimento Faça Você Mesmo elucida certas atitudes sociais que bibliotecas e bibliotecários não deveriam negligenciar. Então, o que você acha? Bibliotecas pequenas Faça Você Mesmo podem ser consideradas “bibliotecas”? Elas apontam para qualquer coisas que seja importante em uma biblioteca enquanto instituição social? Se você quiser dialogar, basta escrever algo em um moleskine e colocá-lo em uma caixa de leite na esquina. Vou buscá-lo mais tarde.

As bibliotecas do futuro e 17 formas de como a informação substituirá os livros

por Thomas Frey

Pergunta: Uma vez que os livros físicos estão desaparecendo e os computadores e dispositivos inteligentes tomam seu lugar, em que ponto uma biblioteca para de ser uma biblioteca e começa a se tornar outra coisa?

Em algum lugar no meio desta questão reside um medo persistente e uma ansiedade que vemos transbordar para o topo entre pessoa que se relacionam com a biblioteca.

Pessoas que acham que bibliotecas irão sumir simplesmente porque livros estão se tornando digitais estão perdendo as verdadeiras mudanças tectônicas que ocorrem no mundo da informação.

Bibliotecas não têm a ver com livros. Na verdade, nunca foram sobre livros.

As bibliotecas existem para nos dar acesso à informação. Até recentemente, os livros eram o modo mais eficiente de transferir informação de uma pessoa para outra. Hoje existem 17 formas básicas de informação que estão tomando o lugar dos livros e no futuro existirão muitas mais…

Mapas de posto de gasolina

Quando criança, eu era apaixonado pelos mapas de graça que eu podia pegar nos postos de gasolina. Ao longo do tempo eu colecionei mapas de quase todos os estados e de algumas províncias canadenses.

Junto com os primeiros dias do automóvel e um sistema rodoviário geralmente confuso surgiu a necessidade por mapas. Companhias de gasolina rapidamente perceberam que as pessoas que sabiam onde estavam indo geralmente viajavam mais, e consequentemente compravam mais gasolina.

Ao longo do tempo, qualquer um que dirigisse um carro logo esperava por mapas grátis onde quer que parassem pra abastecer, e companhias como Rand McNally, H.M. Gousha e General Drafting fizeram milhares destes mapas para ir ao encontro da demanda.

No início dos anos 70, quando eu estava recém aprendendo sobre a liberdade de ter um carro, eu não poderia imaginar uma época em que esses mapas não fossem uma parte integral da minha vida.

Hoje, como os GPS e smartphones nos dão instruções passo a passo para onde devemos ir, mapas rodoviários impressos existem como pouco mais que itens de coleção para pessoas que gostam de preservar suas memórias de uma era que já se foi.

Será que os livros impressos também passarão por um decrescimento de popularidade similar?

Nosso relacionamento com a informação está mudando

Como a forma e o sistema de entrega para o acesso à informação muda, nosso relacionamento com a informação também começa a se transformar.

Se tratarmos isso como outro tipo de relacionamento, podemos começar a ver de onde viemos e para onde vamos.

Foi-se a época em que simplesmente “flertávamos” com nossos dados, ocasionalmente olhávamos pra eles, esperando que eles prestassem mais atenção em nós.

Na escola tínhamos um relacionamento mais do tipo “namoro”, arrastávamos livros por aí, esperando que eles nos transmitissem seu conhecimento mesmo que as partes que lêssemos fossem poucas e distantes uma das outras. Bem como namorar alguém popular, nos tornávamos conhecidos pelos livros que carregávamos debaixo de nossos braços.

Quando começávamos a trabalhar, nos tornávamos “casados” com um universo relativamente pequeno de informação que envolvia nosso trabalho, companhia e indústria. As pessoas que se tornavam imersas em seu universo particular se tornaram reconhecidas como especialistas e foram rapidamente para o topo.

Hoje estamos começando a ter “casos” com outras formas exóticas de informação tais como redes sociais e conversa por vídeo. Todos estes novos modos de informação parecem muito mais vivos e vibrantes do que o mundo do livro com o qual fomos casados até o século passado.

Sozinhos, em alguma estante empoeirada, estão os livros com quem algum dia fomos casados. Em algum nível, muitos de nós nos sentimos como traidores por abandonarmos nosso passado, nunca chegando perto de um divórcio que nos deixou com lealdades misturadas  nos assombrando tanto em nível consciente como inconsciente.

Se você acha que esta é uma analogia maluca, muitos irão argumentar que não. Se qualquer coisa, a informação é o coração e a alma de nosso eu emocional. Mesmo que não possamos senti-la nos tocando como um dedo pressionando nosso braço, uma grande obra de literatura tem algum modo de acariciar nossa mente, jogar fogo em nossa raiva interior, enviar arrepios pela nossa coluna e nos dar uma sensação eufórica enquanto acompanhamos nosso herói alcançar uma conclusão climática.

Livros do passado continuam a manifestação física deste tipo de experiência e sem sua presença uma parte de nós sente-se perdida.

Substituindo Livros

A transição para outros modos de informação tem acontecido há décadas. Uma vez que formos capazes de superarmos a conexão emotiva que temos com os livros físicos, começaremos a ver como o mundo de informação está de subdividindo em dúzias de diferentes categorias.

Abaixo segue uma lista de 17 categorias primárias de informação que as pessoas utilizam no dia a dia. Enquanto elas não são substitutos diretos para livros físicos, eles todos tem uma forma de conseguir nossa confiança. Podem existir mais categorias que eu tenha esquecido, mas enquanto você pensa sobre os seguintes canais de mídia, você começa a entender como as bibliotecas do futuro precisarão funcionar:

  1. Jogos – 135 milhões de americanos jogam vídeo games por uma hora a cada mês. Nos Estados Unidos 190 milhões de casas usarão um console de vídeo game da próxima geração em 2012, dos quais 148 milhões estarão conectados à Internet. O jogador mediano tem 35 anos e eles têm jogado games por uma média de 13 anos.
  2. Livros Digitais – Em janeiro, o USA Today reportou uma “onda” de e-books pós-férias, com 32 dos 50 títulos principais em sua mais recente lista vendendo mais cópias em formatos digitais do que impresso. E-books autopublicados agora representam 20-27% da venda dos livros digitais.
  3. Livros de Áudio – Livros de Áudio é o setor que cresce mais rápido na indústria de publicações. Atualmente há uma escassez de livros de áudio no mundo todo enquanto os publicadores correm para atender a demanda. Apenas 0.75% (nem mesmo 1%) do catálogo de livros da Amazon têm até então sido convertido para áudio. Ano passado mais do que U$1 milhão de dólares em livros de áudio foram vendidos apenas nos Estados Unidos. Mais de 5 mil bibliotecas públicas agora oferecem livros de áudio para download.
  4. Jornais – A leitura online de jornais continua crescente, atraindo mais de 113 milhões de leitores em janeiro de 2012. As receitas da indústria de publicidade, no entanto, continuam a cair e estão agora no mesmo nível que estavam nos anos 50, quando ajustadas para inflação.
  5. Revistas – A indústria de revistas norte americana é composta de 5,146 negócios publicando um total de 38 mil títulos. O total de tempo gasto lendo jornais ou revistas é de mais ou menos 3.9 horas por semana. Quase metade de todo o consumo de uma revista se dá com a televisão ligada. A indústria de revistas teve um declínio de 3.5% no ano passado.
  6. Música – De acordo com o “Relatório da Indústria da Música de 2011” da Billboard, consumidores compraram 1.27 bilhões de faixas digitais ano passado, o que contabilizou por 50.3% de todas as vendas de música. As vendas de faixas digitais aumentaram 8.5% em 2011. Enquanto isso, vendas físicas declinaram 5%. De acordo com a Apple, existe uma estimativa de 38 milhões de canções no universo de música conhecido.
  7. Fotografias – Mais de 250 milhões de fotos são postadas no Facebook todos os dias.
  8. Vídeos – A Cisco estima que mais de 90% de todo o conteúdo da Internet será vídeo por 2015. Mais de cem mil anos de vídeos no Youtube são vistos no Facebook a cada ano. Mais de 350 milhões de vídeos no YouTube são compartilhados no Twitter todos os dias. O Netflix transmite 2 bilhões de vídeo por trimestre.
  9. Televisão – De acordo com o A. C. Nielsen Co.,  o americano médio assiste mais de 4 horas de T V cada dia, e tem 2.2 televisões. Uma estimativa de 41% de nossa informação atual vem da televisão.
  10. Filmes – Existem atualmente 39.500 telas de cinema nos Estados Unidos com mais de 4.500 delas convertidas para 3D. O americano médio assiste 6 filmes por ano. Entretanto, quase um terço dos lares norte-americanos usa a Internet de banda larga para assistir filmes em seus aparelhos de TV, de acordo com a Park Associates. Este número está crescendo, com 4% dos lares americanos comprando uma mídia receptora de vídeo tais como a Apple TV e Roku, na temporada de férias de 2011.
  11. Rádio – Assinantes de rádios de satélite, atualmente em 20 milhões, são projetados para alcançar 35 milhões em 2020. Ao mesmo tempo, o rádio na Internet é projetado para alcançar 196 milhões de ouvintes até 2020. Estes combinados ficarão igual ao número de ouvintes terrestres de rádio.
  12. Blogs – Existem atualmente mais de 70 milhões de blogs no WordPress e 39 milhões de blogs do Tumblr no mundo todo.
  13. Podcasts – De acordo com a Edison Research, uma estimativa de 70 milhões de americanos já ouviram a um podcast. A audiência de ouvintes de podcasts migrou de serem predominantemente “early-adopters” para se tornarem mais parecidas com consumidores de mídia mainstream.
  14. Aplicativos – Existem hoje 1.2 milhões de aplicativos para Smartphone com mais de 35 bilhões de downloads. Em algum momento este ano o número de aplicativos irá superar o número de livros impressos – 3.2 milhões.
  15. Apresentações – Liderando nesta área, o SlideShare é a maior comunidade do mundo para compartilhamento de apresentações. Com 60 milhões de visitantes mensais e 130 milhões de visualizações de páginas, está entre dos 200 websites mais visitados no mundo.
  16. Courseware – O movimento OpenCourseware tem pegado fogo com a Apple na liderança. O iTunesU atualmente tem mais de mil universidades participando de 26 países. A seleção de aulas, agora superando a marca de 500 mil, tem tido mais de 700 milhões de downloads. Eles recentemente anunciaram que estão expandindo para o mercado K-12.
  17. Redes Sociais – Seja o LinkedIn, Facebook, Twitter, Google+ ou Pinterest, as pessoas estão se tornando cada vez mais confiantes  em suas redes pessoais para informação. Existem agora mais de 2.8 bilhões de perfis de redes sociais, representando cerca de metade de todos os usuários de Internet no mundo todo. LinkedIn tem agora mais de 147 milhões de membros. Facebook tem mais de 1.1 bilhão de membros e contabiliza 20% das visualizações de páginas na Internet.  O Google+ atualmente tem mais de 90 milhões de usuários.

Cada uma destes modos de informação tem seu lugar nas bibliotecas do futuro. O fato de os livros físicos desaparecerem ou não tem pouca relevância no esquema geral das operações da biblioteca do futuro.

Steve Jobs apresentando o iCloud

A era próxima da biblioteca na nuvem

Em junho de 2011, Steve Jobs fez sua última aparição pública em uma conferência de desenvolvedores de software para divulgar o iCloud; um serviço que muitos acreditam que se tornará o seu maior legado.

Como Jobs imaginou, todo o universo de músicas, livros, filmes e uma variedade de outros produtos de informação residiriam no iCloud e poderiam ser “puxados” quando alguém precisasse de acesso a eles.

As pessoas inicialmente comprariam o produto através do iTunes e a Apple manteria uma cópia dele no iCloud. Então cada compra subsequente por outros usuários da Apple seria um rápido download diretamente do iCloud.

 Indiferente ao fato de o universo da informação se desenvolver na nuvem como Jobs imaginou, cada biblioteca precisará desenvolver a sua própria estratégia na nuvem para o futuro.

Como um exemplo, em um recente evento de biblioteca no qual eu estava palestrando, uma bibliotecária mencionou que tinha acabado de encomendar 50 Kindles e 50 Nooks para sua biblioteca. Na época, ela lidava com as restrições dos publicadores que apenas permitiam que eles carregassem cada livro digital em 10 dispositivos. Então quais dispositivos ficam com o conteúdo no final?

Ao longo do tempo, é fácil imaginar uma biblio teca com 350 Kindles, 400 iPads, 250 Nooks, 150 Xooms e uma variedade de outros dispositivos. Controlar qual conteúdo será carregado em cada dispositivo se tornará um pesadelo logístico. Entretanto, ter cada pedaço de conteúdo digital carregado na nuvem e restringi-lo a 10 downloads simultâneos será mais fácil de administrar.

Esta foto poderia ter sido preservada pela sua biblioteca na nuvem.

O valor do arquivo comunitário

Como era sua comunidade em 1950, ou em se tratando disso, em 1850 ou até mesmo em 1650? Que papel a sua comunidade desempenhou durante a Guerra Civil? O quão ativa ela foi durante as eleições presidenciais de 1960? Como os locais reagiram ao bombardeio de Pearl Harbor?

Nós temos acesso à vários livros de história que nos oferecem a “história oficial” de todos os principais eventos ao longo da história. Mas compreender a intersecção de nossa cidade, nossa vila, ou nossa comunidade com esses eventos marcantes nunca, na maior parte das vezes, foi capturado ou preservado. No futuro, isso se tornará uma das funções mais valorosas fornecidas pela biblioteca comunitária.

As bibliotecas sempre tiveram um mandato para arquivar os registros de sua área de serviço, mas raramente isso foi buscado com mais do que um entusiasmo passageiro. Arquivos dos encontros do conselho da cidade e livros de histórias locais fizeram o corte, mas poucos consideraram a biblioteca como um bom arquivo de vídeos ou fotografia.

Ao longo do tempo, vários dos jornais, rádio e estações de televisão começarão a desaparecer.  Uma vez que estes negócios perdem sua viabilidade, seus depósitos de vídeos de transmissões históricas e documentos precisarão ser preservados. Mais especificamente, cada transmissão de rádio, jornal e televisão precisarão ser digitalizados e arquivados.

Com o advento do iCloud e outros serviços similares as bibliotecas vão querer expandir sua hospedagem de coleções originais e instalar o equipamento para digitalizar a informação. A venda desta informação para o mundo externo através de um serviço do tipo iTunes se tornaria uma fonte de renda valorosa para bibliotecas no futuro.

Pensamentos finais

As bibliotecas, assim como qualquer organismo vivo, terão que se adaptar à natureza complexa e em constante mudança do mundo da informação. Como a informação se torna cada vez mais sofisticada e complexa, as bibliotecas também se tornarão.

Bibliotecas estão aqui pra ficar porque elas tem instinto de sobrevivência. Elas criaram uma relação mutuamente dependente com as comunidades as quais servem, e mais importantemente, elas sabem como se adaptar  ao mundo em mudança em volta delas.

Estou sempre impressionado com as coisas criativas sendo feitas em bibliotecas. Como Eleanor Roosevelt disse uma vez, “O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos”. Existem muitos sonhos bonitos acontecendo que ajudarão a criar as bibliotecas de amanhã.